sexta-feira, 24 de abril de 2026

Era uma vez em Hollywood...

 


 

                               O Crato inaugurou o primeiro cinema do interior do Ceará em 1911, apenas dezesseis anos após a  invenção dos irmãos Lumière. Chegamos a ter oito salas  de cinema na cidade, aí por volta dos anos 60 do Século passado. Muitas gerações de caririenses tiveram suas vidas imantadas pela mágica da sétima arte. Todos, de alguma maneira, terminamos por sonhar  a força de Hércules,  a valentia dos cowboys nos faroestes, a resiliência do Homem da Máscara de Ferro, o amor e a paixão que saltavam das atrizes e atores deslumbrantes como Ava Gardner, Romy Schneider, Alain Delon, James Dean. O Cinema carregava consigo aquele poder de, montado no dinamismo da imagem, dar vida nova aos personagens que, antes, residiam apenas  nas páginas dos livros. Toda uma trupe de jovens se viu enfeitiçado pelo Cinema , levando muitos sulcearenses a se tornarem não só fãs mas também cineastas.  A partir dos anos setenta, no entanto, com a disseminação da TV país afora e o aparecimento contínuo de novas tecnologias como o Videocassete, o DVD e, depois, da internet, as Redes Sociais  e as plataformas de  streaming , as salas começaram, pouco a pouco, a cerrar as portas, muitas transformadas em igrejas evangélicas ou outras lojas comerciais. Salas suntuosas de cinema viram-se reduzidas  e expulsas para os Shoppings Centers. A indústria cinematográfica,  por sua vez, precisou adaptar-se aos novos tempos, tateando as novas tendências e os novos anseios da juventude, centrando suas atenções em novas tecnologias, onde os efeitos especiais passaram a sobrepujar a beleza dos roteiros. No Crato, a última sala de cinema fechou há mais de cinquenta anos. O Cariri voltou a ter cinema  com a abertura de salas no Cariri Shopping há 30 anos, em 1997.

                               Pois bem amigos, nos últimos tempos vínhamos percebendo uma franca deterioração do Orient Cinema, com diminuição de funcionários, fechamento de banheiros de acessibilidade, manutenção precária. Há poucos meses, por fim, novamente, ficamos sem Cinema da região. Muitas lojas ressentiram-se , já que o cinema movimenta o shopping e impulsiona a venda  nas lojas. Os cinéfilos , por sua vez, precisam se contentar com seus filmes na telinha, sem a magia do escurinho, do silêncio e da telona que, de alguma maneira, nos transfere diretamente para dentro da história e nos torna personagens também do enredo.

                               Como aconteceu com as livrarias físicas , ao que parece, as salas tradicionais de cinema estão fadadas ao desaparecimento. Em 2025,  perdemos  no Brasil 10% dos espectadores. A comodidade da Netflix, da Prime e afins parece que, pouco a pouco,  vai engolindo o que restou. Todos os amantes da sétima arte percebem, perfeitamente, que  não é o mesmo filme a que assistimos na TV e no Cinema. Falta a imersão plena na história e na fotografia, falta a tranquilidade que o salão nos proporciona sem a ingerência de outros usurpadores: celulares, visitas, crianças. E falta, principalmente, o escurinho  em que escrevíamos outras histórias e outros enredos,  muitas vezes mais interessantes e mais quentes do que aqueles que desfilavam na tela. No cinema éramos espectadores e também protagonistas. Era uma vez em Hollywood...

J. Flávio Vieira

Crato, 24/04/26  

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