sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Longa vida, ágeis mãos...


“Eu sou uma parte de tudo, tal
como a hora é uma parte do dia.”
Epicteto

               
                                              
A vida, amigos, olhando assim de relance, parece carregar consigo uma injustiça congênita. Alguns nascem em palácios e outros em manjedouras. As oportunidades nos são distribuídas de forma díspare e pouco  equânime. Numa extremidade muitos passam fome, na outra alguns fazem dieta. Se repararmos direitinho, no entanto, existe um socialismo vital que funciona como uma balança de precisão. A Morte nos iguala a todos: o produto final de sonhos, aspirações, ambições , querelas e vaidades  é sempre o mesmo : o pó. Além de tudo , equanimemente, a cada um de nós só é permitido viver um pequeno e ínfimo fragmento da história da humanidade. Com sorte, vararemos uma centúria, seremos testemunha ou protagonistas de alguns fatos históricos e o destino final de cada um , por mais aventuroso e épico que o pretendamos,  sempre desaguará na foz do esquecimento. A única possibilidade que nos resta para ampliar e esticar um pouco a pequena quantidade de vida que nos é presenteada,  é buscar fazê-la mais intensa, mais pulsante. Podemos turbiná-la com os combustíveis propulsivos mais corriqueiros: com Esportes, com Vícios, com Virtudes. Sempre é bom, no entanto, lembrar: se acendemos a vela nas duas extremidades, existe sempre a possibilidade de se ter um brilho bem mais intenso, mas , possivelmente, a parafina consumida rápido, tornará a luz mais incandescente, porém mais fugaz.
                                   Nestes dias comemoramos uma história de vida que, simplesmente, quebra a inexorabilidade desta regra. O percurso de um desses raros visionários que cedo entendeu : diante de uma tragédia social reiterada, planejada meticulosamente , sempre era possível fazer a nossa parte, mesmo ante as crônicas cegueira e surdo-mudez dos governos instituídos. O Padre Ágio Moreira escolheu o trabalho social como intensificador de sua existência. Intuitivamente, despertou para as forças libertadora e transgressora da Arte e foi assim que, há 50 anos, fundou a SOLIBEL -- Sociedade Lírica do Belmonte -- aqui em Crato. Inserida numa comunidade periférica e rural, de pequenos e pobres camponeses, a Música , simplesmente, mudou destinos, transformou mentes e corações, imantou gerações com novos valores e novos encantos, abrindo horizontes e perspectivas. É que a Arte tem esse poder único de conectar espíritos e de inseri-los como peça única e  insubstituível da grande colcha de retalhos universal. E imaginar que a música erudita, tida sempre como de elite e inalcançável aos mais humildes,  seria capaz de enfeitiçá-los e enebriá-los ! Emociona-nos ver, hoje,  a nobreza aplaudindo os humildes camponeses que provam que é possível manejar tão bem a enxada e a foice como o violino e o violoncelo ! Parece claro que todas as nossas diferenças  são uma questão inerente ao acesso e à oportunidade.
                                    Quebrando todas as normas, o brilho do nosso sacerdote o fez longevo, fazendo com que sua missão ultrapassasse uma centúria e, ao contrário do que seu nome pareceria indicar, não recebeu lucros da sua messe e do seu trabalho hercúleo nunca auferiu nenhum ágio.
                                   São estas pequenas e individuais ações que movem as catracas do mundo. A evolução da humanidade sempre dependeu de visionários que conseguem enxergar para além dos muros do seu pomar. Melhorar um pouquinho o colorido do meu retalho faz com que toda a colcha fique mais bela e mais fulgurante. Que país construiríamos,  se a caridade fosse substituída pela justiça social e se os governos instituídos gozassem da mesma força e sensibilidade do nosso Padre Ágio Moreira ?!  A SOLIBEL , apesar de todas as desesperanças e percalços dos últimos tempos , ensina-nos todo dia a música e a coreografia de novos tempos que se prenunciam.

Crato, 02/02/18
                                      
                                  

                                   

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

DE ALUÁ A GENGIBIRRA

O juiz Leandro Gebrônio  Pausínio  Neto  assumiu  a Comarca de Matozinho. Foi  como um  redemoinho  que caísse em palhiço  num quintal de beneficiamento de arroz. Brabo, sanguíneo, zoadento, com ele não tinha queré-qué-qué. Instigou e instrumentou a preguiçosa polícia local  a fazer campana e cair de pau em suspeitos : “Batam primeiro e perguntem depois!”. Perseguiu os paus de cana, os desocupados, proibiu festas e até criou uma espécie de lei marcial, com recolhimento noturno, mandando recolher à cadeia todo cidadão que fosse pego nas ruas depois das 23:00 H. Relacionava-se com poucas pessoas e ditava sentença como um Deus escrevendo nas tábuas de Moisés no Monte Horebe.  Mas se existia uma coisa que Gebrônio não tolerava e se mordia todo era com a simples aproximação de homossexuais que ele , profundamente religioso, tinha como uma aberração da natureza e vivia a vaticinar pelos cantos das salas :
                                   -- “Baitolagem é uma doença grave e não tem cura, temos que tanger esses frangos para longe daqui ! Se não cuidar vira epidemia ! Peia neles ! Ou viado com a safadeza ou procura outras granjas pra cacarejar !”
                                    Matozinho, sob o taco de Leandro, sentiu-se como em estado de sítio. A cidade perdeu o brilho, as ruas esvaziaram, as noites matozenses pareciam um teatro de sombras, com vultos esgueirando-se pelas esquinas e janelas,  feito almas penadas. Amantes esquivos, fofoqueiras diplomadas, papudinhos profissionais, larápios de carteirinha, rápido,  aprenderam a navegar nos novos e nevoentos horizontes gebrônicos.
                                   Aos poucos, os matutos de Matozinho começaram a descobrir que o preço da aparente paz trazida pelo tacape de Gebrônio tinha um valor muito alto. Entenderam, também, do alto de sua experiência, que por trás  dos moralismos desenfreados existe sempre algum segredo escuso, velado  e mal explicado. As pessoas que fecham as janelas para que a luz não entre no quarto carregam consigo sempre algum temor que às claras algum grande malfeito termine por ser revelado. E , num instante,  sacaram  que Leandro cobrava intransigentemente a aplicação dos ditames legais, mas , no dia a dia, pegava veredas e desvios juridícos com enorme facilidade, desde que alguém pagasse o pedágio. Era venal e vendia sentenças, sem nenhum pejo,  com a mesma desenvoltura que  Janjão da Botica negociava o sal amargo. Depois, algumas evidências que se foram acumulando acabaram por fechar o firo sobre a homofobia explícita de Gebrônio. Casado, com família estabelecida de mulher e três filhos, não perdia oportunidade para contar vantagens, espalhando para amigos mais próximos uma aura de Don Juan, de pegador, de limpa-trilho. Em uma festinha de  Natal, no Fórum, porém,  tomou um pouco mais de zinebra do que costumava  e, saltou de dentro do garanhão tantas vezes incensado, uma égua fogosa, arrisca  e faceira. “Quinca Despejo”, o Oficial de Justiça, entre dentes, foi o primeiro a cantar a pedra:
-- Vôte ! Esse aluá parece que é gimgibirra !
                                   Insinuações começaram a escorrer pelos cantos das ruas, sempre insinuadas e escapadas em sussurros. Todos temiam a arrogância e os frequentes rapapés do seu juiz. As peças do quebra-cabeças, no entanto, aos poucos,  se foram encaixando. Gebrônio contratou uma récua de rapazinhos para trabalhar na Secretaria do Fórum. Um deles, Eufrazino Cerqueira , era tido como o adolescente mais bem apessoado de Matozinho. Num átimo,  foi promovido a Assessor Especial da Comarca e passou a trabalhar , diretamente, na sala do juizado, junto com Leandro,  examinando com ele  processos que varavam a madrugada. Comentava-se na vila, maliciosamente,  que Eufrazino fora promovido e agora era quem cuidava da Vara do Gebrônio.
                                   No entanto, o que deixou , definitivamente, nosso juiz marcado na história da Vila de Matozinho, foi uma expressão que acabou caindo no gosto popular e que perdura ainda hoje, já apartada, pelo tempo, das suas origens. Leandro julgou um processo de estupro em que o acusado, um certo Juju Ferrabraz , um varapau de mais de dois metros, lenhador braçal de ofício, teria cometido não só o ato, mas fora apresentado, por todos, como de dotes jumentinos   avantajadíssimos. Apesar do estrupício causado , o juiz  entendeu que não havia provas suficientes para condenar o rapaz  e arquivou o processo. Consta da história, que corria de língua a língua, que , a partir daí, com ideias meio suicidas, passou o homem da beca a assediar Juju. Ferrabraz, de início, fez finca-pé e disse que não era naquela roça que ele costumava plantar mandioca, mas depois , entendeu, que se aceitasse, ficaria, de alguma maneira, livre para outras investidas , sob o beneplácito da justiça, agora também já beneficiada. Terminou por aceitar o encontro amoroso e confirmou com Eufrasino que ,  também além de amante eventual o papel de corretor de pintos para o juiz. O certo é que, num domingo,  Gebrônio partiu para o local deserto, previamente combinado, nas encostas da Serra da Jurumenha. Em lá chegando, estacionou o Simca preto. Juju ali se encontrava. Conduziu o meritíssimo até a borda da serra, próximo a uma barreira inescalável. Gebrônio baixou a honrável beca e ficou meio curvado para frente, esperando o desejado ataque pela retaguarda. Nisso, com o rabo do olho, cubou o ataque que lhe esperava saindo das braguilhas de Juju. Espantou-se com aquela jiboia longa, vultosa, grossa e latejante que parecia saltar das virilhas de um jumento de lote. Temendo a possibilidade do conteúdo ser maior que o continente, fez menção de desistir, começou a ciscar, com as calças prendendo-lhe as pernas, como se pretendesse subir a alta barreira onde estava encostado e escapar da investida tão desejada. Juju, não teve conversa mole, nem aceitou seu estrebuchar, agarrou-o pela cintura, sentando-lhe pua, enquanto soltava a expressão que acabou clássica em Matozinho :
                                   --- Num trasteje, não, doutor ! Num trasteje, não !
                                   A história correu de boca a boca, na velocidade da saliva, que algumas vezes, na física de Matozinho, sobrepujava à da luz. Gebrônio continuou, mesmo assim, sua saga moralista, suas perseguições e sua busca incessante pela pureza dos costumes da vila. Ninguém tinha a desfaçatez de deixar escapar a expressão ou dados sobre o rendez-vous Gebrônio-Juju na sua frente. Um dia, no entanto, Né de Firmino, matuto do pé rachado,  tinha combinado com o becado para julgar a seu favor uma questão de terra, em troca de dois contos de réis. No dia aprazado do julgamento, chegando ao Fórum, procurou Gebrônio que estava em outra audiência. Impaciente, na maior inocência desse mundo, abriu a porta, interrompendo a seção anterior à sua, indo diretamente ao assunto:
                                   --- Doutor juiz, eu já tô aqui esperando o senhor. Recebi a intimação que a impeleita é hoje. Trouxe aqui os dois contos que o senhor combinou comigo pra poder julgar a questão a meu favor !
                                   Vendo, de repente, revelada a falcatrua na frente de todo mundo, sentindo-se desrespeitado, Gebrônio soltou os cachorros:
                                   --- Cabra safado! Nojento ! Você tá querendo é me desrespeitar,  é, seu infeliz ? Chamem os guardas ! Vou mandar prender você por desacato à autoridade !
                                   Né de Firmino, no entanto, enfrentou a fera e não perdeu a pose e lascou, publicamente, a expressão que se tornou, a partir daí, imortal  em Matozinho :
                                   --- Num trasteje, não, doutor ! Num trasteje, não !


Crato, 26/01/2018

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Cassino Sul Americano

-- O fluxo contínuo do Sonho







“Play It again, Sam !”
       Humphey Bogart , em “Casablanca”

                                                               O Cassino Sul Americano foi o primeiro Centro de Convenções do Cariri. Inaugurado há exatos cem anos -- em 20 de dezembro de 1918 -- carregava consigo uma vocação multifuncional. O velho casarão, da também centenária Praça Siqueira Campos,  funcionava como Bar na parte de baixo, como Cassino no alto e, enfim, como Cinema e Centro de Eventos , nos fundos. Ali aconteceram famosas conferências, como a do folclorista Leonardo Mota, do Integralista Severino Sombra e acolheu o primeiro show de Luiz Gonzaga, após firmar sucesso nos anos 40. Seria ainda palco das  grandes festividades alusivas ao Centenário da Independência, acontecidas em 1922. O prédio, de propriedade dos Drs. Raimundo de Norões Milfont e Belém de Figueiredo,  teve como primeiros arrendatários:  Cícero Araripe ( pai do futuro prefeito Dr. Ossian) , no Bar e Cassino;  e o boticário Dr. José Gonçalves de Sousa  Rolim,  no Cinema/Auditório.
                                               O Cine Cassino  fez-se o segundo cinema fundado no Cariri e aquele que, de longe, teve a maior longevidade. Resistiu aos avanços da TV, ao Videocassete,  à modernização inevitável da região e suas projeções só pararam em 07 de fevereiro de 1992, quando ruiu a nave principal do auditório. Foram setenta e quatro longos anos de atividade, encantando com o feitiço do cinema muitas e muitas gerações de caririzeiros.  De princípio,  o cinema era mudo ( a fala só chegaria no futuro Cine Moderno , em 1934) e era musicado por uma vitrola pilotada manualmente pelo projetista. O primeiro deles chamava-se José Raimundo dos Santos ( Zé de Toinha)  que controlava a velocidade da música e da projeção,  dependendo do clima da película. Manipulava uma manivela,  numa velha máquina que usava o carbureto como fonte incandescente para a projeção do feixe mágico de luz.  Depois, a música incidental contou com a ajuda de músicos, entre eles o saxofonista “Abelha”, irmão de Ló Geraldo.  Um sem número de funcionários foram aos poucos atraídos pela encantadora novidade : os porteiros Cícero Laranjal e sua esposa, D. Heroína; “Seu Sá” , o primeiro gerente; Amarílio,  responsável pelo desenho das propagandas de filmes em tabuletas espalhadas pela cidade, distribuídas por Zelito Viana e Mário Oliveira. Este último dedicou toda a vida ao Cine Cassino, lá trabalhando desde os dez anos de idade e  acabou sendo seu último proprietário . Cleto Milfont contratava meninos ( pagos com ingressos)  para, em algazarra, divulgar em megafone, pelas ruas, os filmes em cartaz.
                                   O Cassino Sul Americano , com a magia do Cinema, imantou toda uma futura geração de cineastas caririenses: Rosemberg Cariry, Hermano Penna, Jéfferson Albuquerque, Émerson Monteiro, Hélder Martins,  Ronaldo Brito, Jackson Bantim, Luiz Carlos Salatiel, José Roberto França. Teceu , ainda, com seu escurinho e o romântico das suas histórias, o clima propício para o encontro e a leitura em Braile do amor e da sedução. Aos poucos, a cidade e as pessoas já não se conformaram mais com suas vidas comezinhas e sem glamour, começamos a melhorar o figurino, o script, o cenário , os adereços... Passamos a criar o filme das nossas vidas:  mais charmoso, mais rico, mais sexy, mais hollywoodiano...

J. Flávio Vieira
Janeiro/2018  

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Cine Babilônia


                                              
Deusdedith Chinchorro  chegara a Matozinho como caxeiro viajante. Vinha de Serrinha dos Nicodemos, em lombo de burro, carregando uma infinidade de quinquilharias : roupas, adereços, perfumes, pós, batons, ferramentas, chapéus, chocolates e biscoitos finos. Perambulava nas vilas da redondeza, fazendo-se uma espécie de shopping center ambulante. Deusdedith  abastecia-se, em Serrinha, de outros tropeiros que provinham da capital, sublocando, assim a atividade mercantil. A  vinda do nosso mascate era aguardada com uma certa ansiedade e existia, inclusive, uma programação de visitas: de início as madames de maior poder aquisitivo e, por, fim a classe média e o povaréu. Terminado o primeiro dia de visitação, já quase tinham se esvaído os últimos itens a ser comercializados. Aquele se fizera um ano de inverno propício que, se por um lado, tinha encharcado as estradas , dificultando a viagem, por outro, enchera de esperança e dinheiro os alforjes do camponês. E o campesino sabe perfeitamente que seu bem estar depende muito mais de questões climatológicas que de ações políticas.
                                               Terminadas as atividades comerciais do segundo dia,  Chinchorro,  serelepe como pinto em apanha de arroz, fincou praça no Bar de Godô. E foi na difusora local das fofocas matozenses que lhe contaram sobre uma novidade na vila. Tinha sido inaugurada, na semana anterior, o  Cine Babilônia e , desde então, exibia-se a película “A Paixão de Cristo”.  O mascate , nascido e vivido em Serrinha, acostumado à luz de pifó e de fogueira, viajadíssimo, mas só nas quebradas mais brejeiras desse mundão de meu deus, criou sustança nas canelas para conhecer a novidade. No dia seguinte, na boquinha da noite, já estava Deusdedith na fila para comprar o ingresso. Após a aquisição, foi informado que era preciso levar a cadeira que foi, imediatamente, alugada no Bar de Godô. Meio desconfiado, como cachorro em noite de São João, sentou-se um pouco mais atrás, próximo à porta, rota de fuga, em caso de ser arrolado como testemunha no processo de Caifás. Só então observou melhor o ambiente. A sala era pequena e abrigava apenas umas vinte e poucas pessoas, todos transparecendo uma certa ansiedade. À frente uma grande colcha branca pregada na parede às custas de tachas , fazia as vezes de tela. Atrás uma máquina esquisita, movida a magneto, que, quando cutucada, cuspia um canudo de luz incandescente.  Logo abaixo, estavam acomodados , a um lado , os dois músicos, contratados diretamente da banda municipal: o saxofonista “Abelha” e o pandeirista “Fon-Fon”, responsáveis pela música incidental quando da projeção da película , uma vez que a tecnologia matozense ainda não tinha alcançado o cinema falado. De comum acordo, Abelha e Fon-Fon entenderam que era preciso adaptar músicas do cancioneiro nacional para fazer a trilha sonora da “Paixão”, assim ficaria mais fácil para a matutada compreender o script e sentir o clima.
                                   De repente, o torpedo de luz começou a jogar as imagens, em movimento, na tela. Os espectadores, de início, tentavam entender o que estava acontecendo, mas , rapidamente, foram arrebatados pela magia do cinema. A fuga do Egito, a manjedoura, o nascimento de Cristo. Aí Abelha e Fon-Fon já atacaram ao ver o Cristo pequeninho saltitando entre os animais:
                                   “Mamãe eu quero, Mamãe eu quero,
                                   Mamãe eu quero mamar...
                                   Dá a chupeta, dá a chupeta,
                                   Dá a chupeta pro neném num chorar !”
                                  
                                   Logo adiante, quando Jesus,  já com seus discípulos, evita o apedrejamento de Maria Madalena, a orquestra já tinha escolhido a música adequada arrancada de Ataulfo Alves:
                                   “ Atire a primeira pedra, ai, ai, ai
                                   Aquele que não sofre por amor...”
                                   A plateia, com olhos lacrimejantes acompanhava o desenrolar das ações, já temendo o epílogo trágico. Deusdedith, capiongo como em missa de sétimo dia, acompanhava a Paixão. De repente, a cerimônia do beija-pé. A banda já tinha, previamente, escolhido o repertório do acervo de J. Cascata :
                                   “Ô pé de anjo, ô pé de anjo,
                                   És rezador, és rezador,
                                   Tens o pé tão grande
                                    Que és capaz de pisar Nosso Senhor”
                                   Adiante, frente ao sofrimento indescritível da cruz, Nossa Senhora ajoelha-se ante o Cristo crucificado e Abelha põe a trilha :
                                  
                                 “Aos pés da Santa Crus,
                                   Você se ajoelhou
                                   E , em nome de Jesus,
                                   Um grande amor você jurou”.

                                   Próximo ao último suspiro, Jesus balbuciando o    “Eli, Eli, lamá sabactâni, soluços altos ouviam-se por todos os cantos. Abelha, então, traz sua música incidental para a gravidade do momento:
                                   “Ai, Ai, Ai, Ai,
                                   Está chegando a hora !
                                   O dia já vem raiando, meu bem,
                                   Eu tenho que ir embora”

                                   A última cena da “Paixão” trazia o momento máximo da esperança, quando a pedra do túmulo, no terceiro dia, resvalou e o Cristo ressuscitou, aparecendo para várias pessoas, nos  quarenta dias seguintes. Neste instante, estranhamente,  a banda simplesmente colocou os instrumentos no chão e passou, então, apenas a assoviar, freneticamente, até o aparecimento, na tela do “The End”.
                                   A plateia não entendeu bem , a escolha do silvo apenas dos músicos, na apoteose do espetáculo. Deusdedith , com a importância e empáfia que o nome lhe trazia, procurou Abelha, antes de sair e perguntou, diretamente, a razão do Assobio final. O músico , então, desvendou o mistério.
                                   --- Por que o assobio ? Ora, ora, depois que Cristo ressuscitou e pegou a aparecer como visage pruma ruma de gente, que que ele fez ? Ele num foi pro céu, sentar do lado direito de Deus ? Pois, então ? Ele ASSUBIU !



                                                                Crato, 12/01/2018 

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Acasos e Ocasos



                               Assolados por ideias de grandeza, puxados por laivos de megalomania, tendemos a imaginar que a vida se alimenta dos mais importantes momentos, dos instantes épicos, das grandes concelebrações. Sempre a ideamos  plena e  untada  nas  almejadas Ilíada e  Odisseia , onde, como protagonistas, assumiríamos o papel de um Ulisses ou de um Teseu com seu Velo de Ouro. Imersos num cotidiano tantas e tantas vezes repetitivo e sem glamour, angustiamo-nos , frequentemente, com o mero papel de ponta, de figurante que terminamos por assumir na tragicomédia da existência. Como no teatro, no grande palco deste mundo, há esfarrapados de sobra para um só Ramsés;  há  plateia vultosa para um reduzido plantel de gladiadores. Diante do espelho, dia após dia, o homem observa sua imagem refletida e grunhe calado: como Alexandre, o grande,  se transformou naquele pobre grumete escaveirado?
                   O viver, no entanto, para o conforto dos homens comuns, não se tece nos grandes painéis, não se pinta e se expõe nos largos outdoors. A vida se fia de uma substância fluida, etérea e amorfa que se esconde na sucessão estroboscópica dos mais simples instantes. Como uma antimatéria da morte,   dissipa-se ao simples contato com o Real. A vida se alimenta de acasos. Uma troca de olhares; um espermatozoide que, numa maratona, encontrou com um óvulo; o aborto que não aconteceu; o parto que não complicou; o sarampo que cooperou; acidentes que a sorte evitou; uma troca de olhares... e o ciclo vital segue seu curso !  Ela, também, implode-se , dia após dia, em simples acasos. Armada a corda bamba da existência,  saímos , eternos equilibristas, esperando uma lufada mais forte do vento; o movimento da sombrinha que não corrige o corpo pênsil  ; o salto e o baque.
                   A vida, assim, não se concentra na grandiosidade do visível e do maiúsculo; ela vela-se nas entrelinhas do microscópico, longe das medalhas, das estátuas, dos obeliscos. Evapora-se entre acasos e ocasos. Parece um algodão doce que o menino leva à boca:  inexequível  mastigar, lamber, engolir; dura o fugaz segundo do contato com a língua. Impossível palpar a nuvem branca e dissolúvel à nossa frente. Contentemo-nos  com seu  inefável e efêmero docinho.

Crato, 05/01/2018    

                   

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

PRISMA

A nuvem negra no horizonte, o trovão de estralo, o relâmpago que trinca os céus trazem sinais anunciatórios de tempo bom ou de temporal ? Péssima previsão para os que sonham com a praia no dia seguinte; ótimos augúrios para o nordestino que se prepara para semear a terra. Alimenta-se a vida dessa relatividade simples, clara, cristalina. A morte do animal,  que entristece a natureza hoje,  é a mesma que , como esterco fertilizante, produzirá a seiva nutritiva que fará eclodirem nas árvores próximas, as flores e os frutos vindouros.
                                               Uma simples gotícula, suspensa na nuvem mais banal,  tem a capacidade de, como prisma, fazer resplandecer no horizonte o milagre do arco-íris. Pasmos, estupefatos, observamos a arcada celeste multicolorida: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil e violeta. Qual a mais bonita delas ? Alguém preferirá o azul, aquele outro o amarelo, você talvez o violeta. Por vezes alguns podem dizer detestar uma ou outra tonalidade. Não haverá nunca um consenso. O desejo, este animal arisco, está  escondido no olho de quem observa. Mas basta um pouquinho de sensibilidade para se entender que a beleza do arco-íris não se concentra nesta ou naquela coloração, o que o faz belo, inesquecível, radiante, é, na realidade, a diversidade de seus matizes. Você não detestaria o amarelo ou amaria o violeta, se não existissem o laranja, o verde, o vermelho. E, antes de mais nada, é preciso nunca esquecer que todo encanto que nos arrebata os olhos precisou do negro que se pariu assim  para que todas as outras gradações e degradés saltassem nítidos e diversos nas nossas retinas.
                                                 Se assim é na física, assim o é na vida e nas nossas selvas e abismos interiores. Negros, brancos; pobres, ricos; feios , bonitos; sadios , doentes; cidadãos , estrangeiros; esquerdopatas, destromaníacos, somos todos nuances , tons e semitons de um mesmo arco-íris. Reflexos múltiplos de uma mesma imagem na sala de espelhos deste mundo. Eu não existo sem os meus diferentes. Somos todos o cômputo de um feixe  branco e incandescente  que nos criou ,  meros produtos da sua refração. Podemos até imaginar que o branco é insípido e sem graça, insulso, mas é ele quem ilumina toda a Criação, de onde brota toda a Energia e nós somos meros estilhaços de fótons e fortuitos grãos de estrelas .  É deste mesmo feixe branco e incandescente  que se irradia a Luz que nos banha desde o Gênesis e que não nos faltará quando soarem as trombetas do Apocalipse. Este talvez seja o pote de ouro que todos pensávamos encontrar no fim do Arco-Íris.


Crato, 14/12/17   

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

As malas, os Malas e as Mulas

A SOLASMADECE -- Sociedade Organizada de Ladrões , Sequestradores e Malacas  Derivados,  do Ceará --  realizou seu Congresso anual , no último fim de semana. O Crato sediou o evento,  numa chácara na Serra da Minguiriba, onde foram discutidas as estratégias para a consecução dos seus trabalhos, em 2018, aqui na nossa cidade.  O lema do Congresso estava estampado numa faixa logo na entrada do casarão : “Bandido que se organiza em quadrilha , um dia chega a Brasília !” . Abriu as atividades Pedro Salamargo, também conhecido como “Chute-nos-Quiba”, que expôs as maiores dificuldades do banditismo no Brasil. Segundo ele, os ladrões de grosso calibre, os malas das malas, casavam e batizavam e ficavam soltos; já os médios e pequenos afanadores , para serem afastados da concorrência,  iam em cana, comiam o pão que o diabo amassou, aquilo não era justo: Queremos Isonomia! -- vociferou Salamargo  ! Falou ainda das principais preocupações porque vinha passando a categoria, além da concorrência dos tubarões da ladroagem. Preocupava-se com o aumento absurdo no valor das propinas que tinham que repassar  para policiais, agentes prisionais, membros do judiciário. Aquilo era um achaque! Numa crise dessas,  quando já tem larápio roubando larápio, quebrando todas as regras éticas da profissão ! Era preciso , sim, estabelecer uma Tabela Nacional, única e reajustada, anualmente, de comum acordo com todos os interessados, nos Congressos da SOLASMADECE.  
                                               O Congresso se prolongou de sexta, até o  último domingo de novembro. As mesas todas foram bastante concorridas, principalmente as que envolveram os temas mais atuais : “Sequestro Relâmpago, como se livrar do  Raio !” ; “Vem pra Caixa Você Também ! Socializando o dinheiro dos Bancos 24 H”; “Prisão não foi feita pra ladrão : Quanto custa o Habeas Corpus ?”.
                                               Na culminância do evento, “Chute-nos-Quiba” convocou o especialista em estratégia da SOLASDEMACE, “Esprito-de-Porco”, para traçar junto com os malacas cratenses, as estratégias criminosas para o Crato, em 2018. Solicitou, também, que o representante da cidade, um trapaceiro conhecido por “Farta-de-Fôlego” ficasse de olho, com fins de indicar se havia algum empecilho para a ação ser executada naquela data. “Esprito-dePorco” então pediu que todos se levantassem para ouvir, antes, o Hino Nacional. Terminada a execução, passou, imediatamente, a traçar a Agenda/ 2018.
--- Em Janeiro, proponho a gente assaltar o BIC Banco e o Banco Caixeral !
“Farta-de-Fôlego” , rapidamente, posicionou-se:
--- Num dá , mermão ! Não tem mais BIC, nem Banco Caixeral no Crato !
“Esprito-de-Porco”, estranhou mas continuou:
--- Proponho, então, que a gente mande uns discuidistas para a fila do cinemas , pra pegar a carteira do povo!
“Farta-de-Fôlego”, mais uma vez protestou:
--- Mermão, como ? Num tem mais nenhum Cinema no Crato !
O estrategista, mais uma vez, tentou consertar:
---- Vamos, então, em janeiro, fazer um arrastão no SESI, no dia do pagamento dos salários !
“Farta-de-Fôlego” mais uma vez o desilidiu:
--- Não tem mais SESI no Crato, não ! Já faz é tempo, ó !
“Esprito-de-Porco” começou a se impacientar:
--- Pois vamos tentar, na Prefeitura, invadir o Paço Municipal no dia do pagamento !
Lá atrás, em coro, os representantes cratenses, gritaram:
--- Num dá, a administração do Crato ainda não assumiu !
--- Pois vamos tentar uma onda de assaltos contra os funcionários da Receita Federal aqui do Crato ou sequestrar os alunos da Faculdade de Medicina, os boyzinhos são todos filhos de papai !
---- Aqui não tem mais Receita Federal, meu brother ! E a Faculdade de Medicina, é como o saci Pererê: todo mundo fala dele mas nunca existiu !
“Esprito-de-Porco”, então, colérico, gritou:
--- Que diabos de políticos são esses aqui desse inferno de cidade? Só no Crato, mesmo !  Nem pra  achacar mais isso presta ! Que diabos eles tão fazendo ? Já que não fazem nada, num é melhor chamar pra eles irem fazer estrupício  junto com a gente, não ?
Lá de trás, o coro dos representantes do Crato, tirou  suas últimas  ilusões:
----    Já tão !

Crato, 08 de Dezembro de 2017