quarta-feira, 29 de outubro de 2014

De cima ou de baixo : um mesmo Brasil



J. FLÁVIO VIEIRA

Brasi de Baxo subindo,
Vai havê transformação
Para os que veve sintindo
Abandono e sujeição.
Se acaba a dura sentença
E a liberdade de imprensa
Vai sê legá e comum,
Em vez deste grande apuro,
Todos vão te no futuro
Um Brasi de cada um.
Patativa

                                               O certo é que o ninho tucano já tinha preparado o alpiste e o xerém para comemoração. A Grande Mídia, devota aliada, já havia colocado o smoking para a festa e havia filhotes por todo o terreiro esperando o aviso para começar o rapapé. O diabo é que o tiro saiu pela culatra e todos ficaram encandeados com o brilho de uma estrela que resplandeceu nos céus do Brasil. Baile desfeito, fantasias rasgadas, o desapontamento da Mídia levou-a, imediatamente, a buscar culpados pelo cancelamento das festividades. E o culpado mais óbvio, quem seria? Ora, o mordomo !
                                   De imediato os colunistas dos grandes jornais, mostrando mapas e infográficos, tentavam demostrar que o país estava dividido: Norte e Nordeste, todo vermelho ; Sul, Sudeste e Centro-oeste azuis. A pobreza, o atraso, a dependência econômica haviam eleito a candidata pior. As Redes Sociais, de repente, se viram atulhadas de insultos , impropérios, ameaças, ditos preconceituosos contra nortistas e nordestinos, coisas dignas do III Reich. E o bombardeio não pára !  A Casa Grande não se conforma  com qualquer movimento abolicionista, parece que vivemos ainda em pleno Século XIX.  Se o eleito tivesse sido o candidato tucano, com a mesma margem de votos,  a linha editorial seria completamente diferente. Não haveria divisão, estava tudo perfeito, a virada era mais que esperada, finalmente brotava a esperança no país. Basta ver todo o material pronto pela UOL, ligada à Folha de São Paulo, já pronto para comemoração, que terminou vazando depois da derrocada. Só encômios e elogios ao bravo povo brasileiro.
                                   A divisão alardeada é a mais perfeita falácia. Não  os chamo de levianos porque dá um azar miserável. Segundo os publicitários , o povo, em todo o mundo, vota de maneira pragmática. Todo eleitor pensa especificamente em que candidato, se eleito, poderá melhorar sua vida pessoal e profissionalmente. O nosso bem-estar próprio é o que conta, a felicidade da nação é apenas uma questão distante e filosófica.  Os médicos apoiaram abertamente os tucanos ao se sentirem feridos pela quebra da reserva de mercado trazida pelo “Mais Médicos”.  Assim, na França, Bordeaux é historicamente socialista, única e exclusivamente porque seus habitantes entendem que são os socialistas que têm uma sensibilidade maior para seu meio de vida : as vinícolas. A Flórida é secularmente Democrata e a Califórnia Republicana. Se se reparar direitinho, não dá para pintar as regiões do Brasil de Vermelho ou Azul.  Aécio ganhou no Sul e no Sudeste, mas lá Dilma teve mais de 26 milhões de votos, inclusive mais que em todo Norte-Nordeste.  Cotejem , minunciosamente,  Fortaleza, onde Dilma teve franca maioria, possivelmente perdeu nas urnas da Aldeota e do Meireles. No Leblon, no Rio, Aécio saiu vitorioso. Em  Caetés, Pernambuco, terra de Lula, Dilma teve 90% dos votos, mas 10% escolherem o tucano. Em São João Del Rey, terra do peessedebista, Aécio teve 65% dos votos, mas 35 % sufragaram o nome  da Dilma. Em Minas , estado natal do peessedebista, ele levou uma peia histórica. Se houvesse a divisão alardeada pela mídia e pintada no mapa do Brasil, Aécio teria sido o grande vitorioso, com uma margem gigantesca de votos. Simplesmente a população vota naqueles em que mais confia para resolver seus problemas mais prementes.  Pois foram os brasileiros espalhados no  Sul,  Sudeste,  Norte, Centro-oeste e Nordeste que deram a maioria absoluta à candidata petista.  Há de haver  razões mais justas para explicar o fenômeno.
                                   A elite brasileira tem que entender : o voto de cada um dos brasileiros tem o mesmo valor, independente de raça, cor, grau de instrução, poderio econômico. Os ricos e remediados sentiram-se  feridos em seus interesses por conta da regulamentação do emprego da doméstica ( ninguém pode mais ter empregada!); pela melhoria das condições de vida da pobreza que agora tem moto e carro e ninguém mais anda no trânsito; por ter aparecido nos aeroportos, coisa antigamente só de grã-fino; por não mais querer trabalhar no campo , só que com diárias de R$ 10,00.  Antes de apregoar que foram os votos comprados pelo Bolsa Família o responsável pela derrota do tucano, têm que afinar primeiro o discurso. Em off chamam o Bolsa Família de “Bolsa  Fome”, “Bolsa Esmola” , o “ vício do cidadão”. No microfone e no palanque pousam de pais do Programa .  Deduz-se, então, seguindo-se as premissas da elite,  que se D. Ruth e FHC são os pais, então, foram eles os reais responsáveis pela derrota do PSDB nestas eleições.
                                   A divisão alardeada  é perigosa e potencialmente mortal, quando incita preconceitos vis e seculares.  A Globo, a Bandeirantes, a Record, o SBT, a Folha de São Paulo, o Estadão estiveram em oposição franca e determinada à Presidente Dilma. A “Veja”, numa atitude criminosa, antecipou uma edição, nas vésperas do pleito, com denúncias caluniosas e sem prova, tentando mudar o curso inevitável da história. Sabemos que a liberdade de imprensa significa a plena liberdade do grande capital em veicular as informações de seu interesse, pois é ele que financia a Mídia. Pois é essa mesma trupe que agora tenta seccionar o país no meio, enfiando na cabeça do povo que foram os esfomeados e esfarrapados que elegeram o PT, em troca de um prato de feijão.
                                   Se deseja , um dia, retomar o poder, a elite brasileira precisa  compreender o Brasil em toda sua dimensão e complexidade. O mundo vai bem além da Avenida Paulista.  Justiça Social tem que preceder à Caridade. O Brasil, historicamente, não é vermelho ou azul, mas de todas as cores e essa é nossa mais importante grandeza.


Crato, 29/10/14

sábado, 18 de outubro de 2014

O Cabra da Peste

                
                                               J. Flávio Vieira


A década de 1860 foi trágica para todo o Cariri. Iniciou-se, por aqui, a terrível epidemia de Cólera que ceifou incontáveis vidas. Só  no primeiro ano da tragédia, 1862, mais de duas mil almas  sucumbiram em Crato, Milagres, Barbalha, Jardim, Missão Velha, Santana. A região entrou em pânico, pessoas abastadas fugiram, o Exu bloqueou, com fogo de artilharia,  a entrada de pessoas vindas do Cariri, temendo contaminação. Um padre negou-se a dar extrema unção ao Padre Marrocos , um seu irmão em Cristo, e outro escafedeu-se para outras paragens. Segundo o Jornal “O Araripe, o delegado de Crato Francisco José de Pontes Simões, abandonou seu cargo,  temendo a peste, só voltando “gordo e rechonchudo” quando os casos começaram a rarear, dois anos depois. Como em toda grande epidemia, não houve respeito a classes sociais, a sexo ou  poderio econômico. A população terminou dizimada igualmente. Imaginem uma hecatombe dessas no Cariri, em tempos em que quase não havia profissionais de saúde, em que inexistiam hospitais, em que nada se sabia sobre a causa e tratamento da doença. Aqui em Crato foi preciso construir um novo Cemitério, ali nas imediações da Igreja de São Miguel, a fim de acolher as incontáveis perdas. Estabelecida a histeria coletiva, não tão diferente do que acontece hoje com o Ebola, muitos foram inumados ainda vivos, igualzinho  à Peste Negra, na Idade Média.
                                   Designado a vir combater a epidemia  no Cariri , aqui chegou, em 1861, o médico militar Dr. Antonio Manoel Medeiros.  Chefiou, na região, uma equipe que incluía os Drs. Pedro Théberge  de Icó , Cristovão Holanda Cavalcanti e Manuel Marrocos . Trabalhou incessantemente até 1864 , visitando todas as cidades acometidas da moléstia e , com os parcos recursos disponíveis, buscou minimizar as mortes e lenir o sofrimento. Dr. Medeiros era natural de Aracati, onde nascera em 1820 , formara-se na Bahia e a ele devemos a primeira cirurgia realizada no Sul do Ceará. O ato aconteceu em 29 de Novembro de 1861, uma amputação, registrada no Jornal “O Araripe”. O paciente foi cloroformizado , esta sendo também a primeira anestesia registrada nestas plagas. Um avanço formidável para a época, uma vez que o Clorofórmio passou a ser utilizado apenas a partir de 1846, na Inglaterra.
                                   A vida de Dr. Antonio Manoel de Medeiros  foi épica. Poderia fazer parte da Ilíada caririense. Tão logo deixou o Cariri, foi designado , como voluntário, para a Guerra do Paraguai, onde prestou serviços valiosos como Diretor em  hospital de Montevideo.  Terminou condecorado comas Ordens de São Bento de Aviz, da Rosa e de São Gregório Magno em Roma. Exerceu, a partir de 1872, o cargo de Delegado do Cirurgião-Mor do Estado do Ceará. Logo depois, enfurnado no interior do estado, no combate a várias epidemias de Varíola e  Febres, adoeceu , em viagem de Icó a Fortaleza,  e veio a falecer em Limoeiro, em 1879, aos 52 anos. Faltou-lhe, nos últimos instantes,  a assistência médica que durante toda a existência proporcionou a  grande número de cearenses pobres e famintos.  Numa vida tão breve, imersa numa Arte tão longa, além dos estudos, das viagens seguidas, do combate incessante às epidemias, do trabalho no campo de batalha, o que lhe terá sobrado para dedicar à sua vida pessoal e à sua família ?  
                                   O certo é que o Dr. Medeiros  ofereceu-se quase à imolação no altar da Ciência. Deu-nos o melhor da sua arte e o melhor dos seus dias. Lutou, palmo a palmo, contra um inimigo terrível e desconhecido, enquanto tantos escapavam pela tangente. O Cariri nada lhe ofertou em troca, nem o mais simplório reconhecimento. Sequer o nome de uma rua, de um hospital, de um edifício. Nem mesmo uma citação honrosa. Nada ! Cento e cinquenta anos depois, neste dia dos médicos, lhe ofereço este texto , simples, descolorido, cru. Mas percebo , claramente, que é por conta de pessoas despojadas e corajosas como o Dr. Antonio Manoel de Medeiros que ainda vale a pena exercer a Medicina não como técnica , mas como vocação, fatalismo  e arte. São artistas como ele que impulsionam os movimentos de rotação e translação da terra.


Crato, 17/10/14 

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

O acordo ou a corda

Nas últimas semanas,  o Crato se viu assaltado por uma onda de seguidos suicídios. Alguns deles em pessoas jovens que deviam carregar nos olhos o dourado sonho da existência.  Este ato extremo, que leva pessoas a fugirem pela porta dos fundos, põem toda a cidade em polvorosa. Parentes e amigos jamais tirarão da mente um certo sentimento de culpa : -- Eu poderia ter pressentido os primeiros sintomas e , quem sabe, evitado a catástrofe ! Os conhecidos e transeuntes embebem-se num certo blues, como se perguntassem : o que há de errado neste mundo que ninguém o suporta sem algum tipo de anestesia ?
                                   Longe de ser um questão meramente doméstica, os suicídios alcançam, no mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde, quase 900.000 mortes ao ano. Este valor numérico , pasmem vocês, ultrapassa as mortes por guerras, os homicídios e desastres naturais somados ! E, o pior de tudo, desde a década de 70, os suicídios cresceram mais de 60 % e, ultimamente, têm tomado um vulto totalmente inesperado. Acredita-se que a crise econômica global possa ter contribuído para o aumento. O desemprego, o arrocho salarial, principalmente em países europeus, a instabilidade da economia em nações outrora prósperas, impulsionam o desencanto junto à juventude. Acredita a OMS que a urbanização desenfreada , certamente, tem exposto a população às agruras e estresse das cidades e megalópoles. Desde 2010, pela primeira vez, a maior parte da humanidade vive em zonas urbanas e não nas rurais.  Deixamos o campo e sua plácida tranquilidade,’ para a violência da rua, do trânsito, a competição terrível no mercado de trabalho. E mais que tudo, perdemos a identidade e passamos, na cidade grande, a ser apenas um número, no meio da manada, com a clara sensação de que corremos em disparada para o abismo logo à frente.
                                   Estudos têm demostrado que os laços sociais são fortes aliados na prevenção dos suicídios. Amigos, namorados e namoradas, parentes,  esposas, maridos,  filhos, companheiros de trabalho  e  de farra são os liames imprescindíveis que nos prendem à vida e lhes dão algum significado. Estudos feitos nos EUA demonstram que quase metade dos adultos se consideram solitários e este preocupante percentual é exatamente o dobro da década de 80. Este isolamento proporcionado pela urbe , certamente,  estaria impulsionando os casos de depressão responsável esta  por mais da metade de todos os suicídios.
                                   Basta refletir sobre os destinos da modernidade , para se perceber que nós mesmos destilamos nossa própria cicuta. As pessoas fogem dos relacionamentos sérios, como o trombadinha da polícia. As relações passaram ser na sua maioria transitórias e eventuais : amizades coloridas, rolos, ficas. Mulher ou homem que consiga uma certa ascensão econômica prefere a cueca ou calcinha do parceiro na cadeira, nunca no guarda roupa. Casamentos se dissolvem como gelo em Teresina: a primeira cara feia, o primeiro bate-boca ou arranca –rabo é motivo para o divórcio. Já há incontáveis casais que simplesmente optam por não ter filhos, sob a alegação de que atrapalha demais e dá muita dor de cabeça. A explosão da comunidade global fez com que a comunicação ficasse, aparentemente,  mais fácil, mais rápida com o Smartphone, a Internet, o WhatZapp, as Redes Sociais. A tecnologia aproximou absurdamente os distantes, mas afastou terrivelmente os próximos. Nas rodas de bar , já não se conversa: se tecla. Passamos a ter incontáveis amigos virtuais, mas praticamente deletamos os amigos reais. O Curtir substituiu o bate papo, o olho no olho, o toque, o abraço. Não bastasse isso, a vida profissional se tornou um verdadeiro campo de guerra. Já não temos companheiros mas competidores. O objetivo de todos é o mesmo do Flamengo :  vencer, vencer, vencer. Como em toda maratona poucos vão ao pódio e muitos são os derrotados.  Viver é consumir e aí daqueles que ferirem esse mandamento básico. De repente, uma grande turba percebe-se só no mundo aniquilada : sem família, sem amigos, sem agregados, sem companheiros.  O parto atravessado da vida não se suporta sem anestesia: álcool, lexotan, tabagismo, cocaína, fanatismo, religião,  moralismo...  A solidão no meio da turba talvez seja a mais cruciante solidão. Vale a pena continuar a jornada ?
                                   Há algo errado na viagem, quando tantos desembarcam antes da estação final.  É preciso mudar o roteiro, aproximar o grupo de viajantes para que possam dividir a estafa do caminho e desfrutar juntos a paisagem que passa definitiva na janela. Como o trem   segue sempre  para o descarrilamento inevitável, o companheirismo, a solidariedade, a  amizade , no final, serão a única atração verdadeira do nosso roteiro turístico. Não dá para viver sozinho, nem existe felicidade individual. São as nossas relações interpessoais que nos atam ao vazio da existência. Só temos duas opções neste mundo : o acordo ou a corda.


Crato, 08/10/14 

sábado, 4 de outubro de 2014

Muito joio para pouco trigo



E cá estamos nós, mais uma vez, às vésperas de eleições. Amanhã estaremos postados diante das urnas prontos a , democraticamente, assinar um cheque em branco e uma procuração para aqueles que nos representarão nos próximos quatro anos. A responsabilidade é grande e, talvez por isso mesmo, esse período se encha de paixões desenfreadas e  tantas vezes incontroláveis. Torcidas se dividem nas arquibancadas no grande jogo da Democracia.      
Uma parte dos espectadores , temerosos dos arroubos típicos da época, simplesmente se isola : eu não gosto de Futebol ! O grande problema é que, na partida que vai se desenrolar, está em jogo não apenas um mero placar ou a alegria ou tristeza da vitória ou derrota. Ela definirá nossa saúde ou doença, nosso salário no final do mês, o preço do arroz e da farinha na bodega da esquina, a qualidade da educação dos nossos filhos, a tranquilidade de andarmos na rua sem armas apontadas para nossa cabeça, a segurança do nosso emprego. Ou seja : não somos torcedores mas atletas, sair do jogo significará, apenas, desfalcar o nosso time e ter que engolir as consequências do placar desfavorável.  
Outros, simplesmente, alheios às consequências futuras, passarão para o time adversário, facilmente, vendendo o passe, de forma imediatista, por um chinelo, um milheiro de telha, um dinheirinho a mais, por um emprego ou futuras licitações ( aí varia apenas o preço da sem-vergonhice). Terão assim negociado, como Judas, o futuro dele e de seus filhos. Transformam , sem pejo, o grande templo democrático, num bordel.
Grande contingente de brasileiros, no entanto, começa a ter ciência da importância da eleição. Passa a entender que a culpa das deformidades seguidas dos políticos, metidos em escândalos reiterados de corrupção, tem um só e grande responsável : o povo que os elegeu. Os políticos são apenas o reflexo perfeito dos eleitores: nem mais nem menos.  Teremos representantes melhores quando melhorar o nível ético dos representados. Quem suborna o guarda de trânsito para evitar a multa; quem arranja uma sinecura para um parente; quem sonega o imposto devido; quem embolsa o dinheiro público em qualquer cargo que exerça,  tem hombridade moral para se escandalizar com os desfalques de políticos e apaniguados ?
Claro que o cidadão comum pode se sentir  na berlinda na hora de escolher o menos pior. Não pode confiar no marketing dos candidatos que prometem como sem falta e faltam como sem dúvida. Por outro lado, toda grande mídia é perfeitamente facciosa : Rádios, TV´s e grandes jornais defendem seus patrocinadores que apoiam os candidatos do interesse do grande capital e não do zé povinho. O Brasil, praticamente, não possui partidos políticos, apenas um amontoado de candidatos unidos por interesses comuns,  geralmente pútridos e escusos. Como escolher ?   Como separar o pouco trigo em meio à profusão de tanto joio ?
No caso específico dos deputados,  é catar aqueles que mais se associam com a defesa da nossa classe. Se sou peão, dificilmente o empresário me representará. Se sou canário, certamente o gavião não será meu melhor representante.  Se o candidato pleiteia a reeleição , avalie-se o que ele fez na anterior, que projetos apresentou e que frutos estes projetos trouxeram para nosso quotidiano. Na eleição presidencial o mais importante é responder à pergunta: Minha vida melhorou ou piorou nos últimos anos ? Estamos melhor agora do que há dez anos atrás ? Emprego, moradia , salário, acesso à escola melhoraram ou pioraram ? A resposta a essas perguntas pode nortear nosso voto mais preciso e consciente.
 No horizonte delineiam-se dois projetos políticos claros : de um lado aquele que centra sua maior atenção na população mais simples e carente , a fatia maior da população brasileira, que vê o estado como responsável direto por nosso bem estar. Do outro,  um projeto centenário que foca sua atenção na elite brasileira que deve receber todas as benesses e distribuí-las caritativamente com a pobreza, nesta plataforma o estado é sempre um árbitro distante e cada um deve se virar como  puder. O cardápio está à mesa, escolham os pratos e vamos ao grande  jantar democrático, palatável ou indigesto, a escolha é sua !


Crato, 03/09/14

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Arca


J. Flávio Vieira

                                                               Passados tantos anos, as imagens se vão turvando, surpreendidas, aqui e ali,  apenas pela fresta da saudade. A ausência, antes dolorida como uma chaga aberta, foi, aos poucos , se anestesiando, bafejada pelo bálsamo do tempo, mas a cicatriz  permanece ainda sensível como um queloide. A vida, depois do cataclismo, precisou ir tomando jeito. Recolhidos os estilhaços do cristal esfacelado, tentamos recompor o amálgama dos dias e das horas. Restou-nos o ranço final do caju sorvido , esse travo que  lutamos para não obscurecer o dulcíssimo sabor da polpa que o antecedeu. Afinal, a vida talvez seja exatamente isso : a capacidade de se ir reconstruindo nosso mundo a cada dilúvio prenunciado, catando e depositando na Arca os nossos despojos de guerra.
                                                               Fecho os olhos e tento te imaginar nonagenário, como serias hoje. O tempo te teria sugado todas as forças ? Manterias o vigor mínimo para apreciar os milagres da existência ? A inexorabilidade dos dias te levaria a um estágio no reino vegetal antes da mineralidade extrema, destino de todos nós ? Serias um velhinho lépido, com um mínimo de dignidade, ou apenas mais um objeto de decoração da casa ? Fecharias o ciclo da vida, retornando à outra extremidade da infância, ou obterias o privilégio da lucidez, do bom humor e da resignação que sempre te foram fortes aditivos  existenciais ? Desfrutarias de  uma vida ou apenas de  sobrevida ?

                                                               Estas perguntas ferem-nos como um punhal, talvez porque carreguem consigo a impossibilidade de resposta. Pesa-nos a certeza da imponderabilidade de tudo, do amálgama perecível dos segundos, da finitude líquida e fluida dos casos , ocasos e acasos. Nossos sentimentos assentam seus  sonhos de perenidade  na  amorfa e gelatinosa  nuvem da impermanência. Resta-nos, tão-somente, curtir cada vidrinho do cristal despedaçado , onde vemos refletido o divino acaso que nos pôs juntos na mesma viagem. Ali o caquinho do teu perene bom humor e que terminou contagiando toda a família. Acolá o fragmento do teu despojamento, pronto a enfrentar as vicissitudes sem a seriedade que elas pretendem nos exigir. Adiante o estilhaço da tua complacência ante o sofrimento e a perspectiva do abismo. Ao lado o pedacinho da tua inteligência que ainda reluz como se permanecesse imantada. Aos poucos refazemos o cristal que um dia embelezou esse mundo com seu brilho e sua transparência. Até parece que um dia não se esfacelou ante os arroubos do tempo. Ganha até um certo ar de perenidade, sempiternos fragmentos ungidos pela cola da Saudade. 

29/09/14

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Farol

Eram os gloriosos Anos 60, aqui em Crato. Vivíamos a época de ouro do futebol na nossa cidade. Campos se multiplicavam pelos subúrbios. Toda uma geração de garotos  se imantava na conquista das Copas do Mundo de 1958 e 1962. Times de Futebol Association como o “Sport”, o “Satélite”, o “Rebelde” e craques como Anduiá, Charuto, Chico Curto, Antonio e Luiz Pé de Pato, Fruta-Pão , Netinho, Pinto, Enoque levavam a torcida a superlotar o precário Campo do Sport. Paralelamente, os nossos times de Futebol de Salão ganharam renome em todo estado pela combatividade e efetividade do seu jogo. Ainda menino, encantava-me com as disputas gloriosas e acirradas entre o Votoran, o Volkswagen, a AABB e o Crato Tênis Clube e com as jogadas de craques como Gledson, Reginaldo, Dote, Luciano, Pernambuco, Zé Vicente, Paulo Cézar, Gilton. Desses times, periodicamente, se convocava a aguerrida Seleção Cratense de Futebol.
                                   Com tantos embates empedernidos e fabulosos, surgiu a necessidade imperiosa do seu registro midiático e foi justamente neste período que floresceu o jornalismo esportivo da região, em Crato polarizado entre as duas Rádios : a pioneira Araripe e a jovem e recém-inaugurada Educadora. Foi neste cenário e com alguns célebres personagens que aconteceu, nessa época, o mais monumental acontecimento da história radiofônica caririense.
                                   A Seleção Cratense de Futebol de Salão , multivitoriosa, viajou para um embate duríssimo com a Seleção de Iguatu que jogava em casa. A transmissão naqueles tempos áureos era dificílima. Iguatu encontrava-se numa zona silenciosa de radiodifusão e só existiam duas maneiras de executar a tarefa. Conectar a rede diretamente no fio do telégrafo ou na linha do trem, captando, depois, por fios, diretamente aqui, os sons possíveis e múltiplos que viessem. A qualidade era péssima, cheia de ruídos e sons adventícios, principalmente quando se utilizava a modalidade linha do trem. E mais, sem possibilidade de comunicação direta com a Rádio local, nunca se sabia se a transmissão estava sendo possível. Era  sempre um tiro no escuro. Pois bem, a Rádio Educadora adiantou-se e, em ofício, solicitou a linha aos “Correios e Telégrafos”. A Araripe ficou no olha-e-veja, tarde despertou para o fato de ter sido sobrepassada pela concorrência . Restava-lhe, tão somente, optar pelo péssimo recurso da linha do trem e a incerteza da possibilidade de retransmissão ou a certeza de perder a audiência para a Educadora por conta da baixa qualidade sonora. Um jovem locutor esportivo, então, teve uma ideia inusitada. Ouvir no estúdio da Araripe em Crato, a transmissão da concorrente e , através dela, fazer a própria veiculação da partida, como se lá estivessem. O comentarista esportivo, mais tarimbado, temeu pela dificuldade quase intransponível do feito, mas, sem opção, acedeu. A equipe cedo se trancou no estúdio da Araripe, para que todos pensassem que haviam viajado para Iguatu e, de lá, sorrateiramente, ouvindo a emissão defeituosa e cheia de ruídos da Educadora, retransmitiram, como se lá estivessem, todo o jogo. Até mesmo o segundo gol do time do Crato , gritaram antes . Como foi possível ? O jovem locutor, atento, em meio a propaganda da Araripe, percebeu quando a torcida do Crato berrou : Gol de Gledson ! E, antes da adversária, sapecou : -- Gollll da Seleção Cratense ! Gledson ! O comentarista, anos depois, contava que o mais terrível era ter que comentar os lances sem ver e, mais, no intervalo do jogo, ver-se na imperiosa necessidade de fazer considerações minuciosas por mais de quinze minutos sobre a partida. Nem é preciso dizer que todo Cariri optou pela transmissão da Rádio Araripe, limpíssima e sem quaisquer barulhos estranhos. Quando a Educadora descobriu o blefe , estabeleceu-se uma celeuma danada, protestos e mais protestos, editoriais no noticiário. Nem sequer perceberam que haviam presenciado a mais extraordinária façanha do Rádio caririense em todos os tempos, protagonizada por um jovem locutor esportivo, ainda pouco conhecido, chamado Heron Aquino e um comentarista já mais taludo e que se tornaria, depois, um dos nomes mais queridos do jornalismo cearense : Elói Teles.
                                   Pois bem, amigos, rápido, cinquenta anos se foram desfolhando, como por encanto, na Folinha da parede. O nosso querido comentarista já hoje flutua nas ondas celestiais. Neste  dez de setembro, o Dia da Imprensa , o Cariri emudece um pouco mais, quando seu companheiro,  o jovem locutor de outrora, resolveu dependurar o microfone.
          Neste interlúdio de meio século, Heron Aquino se tornou o mais completo nome do Rádio Caririense. Locutor, Narrador Esportivo, Noticiarista, Disk-Jóquei, Cerimonialista, Assessor de Imprensa, Produtor, Publicitário, Diretor de Emissoras de Rádio, Redator e Repórter, desempenhou as mais variadas e díspares funções com galhardia, competência e simplicidade. Trabalhou ainda em Fortaleza,  na Ceará Rádio Clube e na TV Ceará e poderia ter tido uma fulgurante e próspera carreira nas terras alencarinas se  a saudade do pé-da-serra não tivesse vencido aos doces prazeres da beira-mar.  Aqui retornou e fez sua voz brilhante e característica se transformar na voz oficial da nossa cidade. Ético,  nunca fez da sua atividade um balcão de tramoias e negociatas, não precisou por qualidades em quem não tem, nem pespegar virtudes em salafrários. Equilibrado sempre propagou a notícia como um mote para que o ouvinte , do outro lado, desenvolvesse sua própria glosa.
            Sem Heron, o Rádio perde uma voz importante e isenta e um técnico de uma completude  quase que insubstituível.     Ele     seguiu, intuitivamente,  os preceitos de Pulitzer do bom jornalismo : foi sempre breve para que fosse ouvido; claro para que lhe apreciassem; original para que nunca o esquecessem e , acima de tudo, preciso para que , como um farol, muitos viessem a ser guiados por sua luz.

Crato, 10/10/14