segunda-feira, 18 de junho de 2018

Um lírio entre os abrolhos




“Torne-se comum e você será extraordinário;
tente se tornar extraordinário
e você continuará sendo comum...”



                                   Era um amigo pouco peculiar. Com formação profundamente dogmática, versado em muitos idiomas, com  imersão em teologia e conhecedor atilado dos meandros da filosofia que lhe permitiram acessar.  Conseguia, apesar disso,  esticar o pescoço para além da linha do muro. Gostava de Osho, talvez porque o guru indiano abrisse-lhe frestas na porta aparentemente impenetrável cerrada à sua volta. De origem humilde, escarafunchava árvores, arbustos  e garranchos genealógicos, com perspicácia , mesmo com a certeza que naqueles galhos não cantariam pássaros nobres e de sangue azul. Mantinha uma conduta ética impecável, sua vida sempre foi uma linha reta, sem desvios, sem picos ou vales. Tinha, no entanto, um humor fino , leve , às vezes banhado de uma agridoce ironia. Sua espiritualidade não era de superfície e irradiava uma luz interior perene. Mostrava-se um homem de poucas dúvidas, com inteira consciência da efemeridade da sua viagem terrena mas cônscio de que estenderia em outras escalas e dimensões. Extremamente reservado no seu posicionamento político, pouco afeito a extremismos, parecia , no entanto, usando como fulcro, centrar o seu compasso sempre no ponto mais frágil do papel e era dali que demarcava seu círculo no mundo. Como pastor de almas, nunca lhe faltaram palavras  para minorar o sofrimento e as agruras inevitáveis do seu rebanho. Vezes pragmático, outras untado numa meiga filosofia de vida, apontava veredas possíveis em meio aos obstáculos da autopista da existência.
                            Apesar da formação escolástica, em tempos mais plúmbeos e fechados, não era careta, nem vestia-se de falsos moralismos. Conversava-se de tudo  com ele, sem que se sentisse ofendido nem abismado. Um agnóstico como eu, não lhe tirava do sério, talvez porque entendesse que era apenas alguém que deixara  a fé cair em alguma vereda do caminho e estava à procura.  Lembro de ter assistido com ele , em São Paulo,  “Sonhos de uma Noite de Verão” de Shakespeare, numa montagem onírica feita pelo grupo Ornitorrinco. Fiquei um tanto temeroso pois, na peça, apareciam  muitos nus, homens e mulheres. Ele não me pareceu, em nenhum momento, escandalizado. Na volta, o motorista do taxi comentou que soubera  o espetáculo era muito esculhambado e imoral. Ele foi taxativo: não existe nada de imoral na peça, meu filho, aquilo é Arte !
                            Escrevia com muita fluência, um português castiço e correto  e com extremo conhecimento da língua, embora , pela própria formação, tivesse um estilo um tanto cartorial. Deixou uma extensa e importante obra Genealógica impublicada, tecida ao longos de muitos e exaustivos anos, aclarando inúmeros ramos das famílias do Cariri e dos Inhamuns.  Como administrador, muitas vezes foi criticado porque sempre colocou o coração  acima do cérebro. Cada funcionário era, para ele, mais que uma simples peça no tabuleiro da empresa, via-os na complexidade das suas vidas, com suas fraquezas, suas limitações e toda a carga vezes insuportável que a vida lhes tinha  dependurado nas costas. Não se alimentava na frieza tumular das regras administrativas, a instituição não podia, a seu ver, se reger por uma simples tabela de Deve-Haver.
                            Carregava consigo um apurado senso musical, como autodidata chegou, inclusive, a tocar violino. Meu amigo mantinha um papo formidável, com bom humor, com ecletismo, distribuindo  causos e mais causos que lhe foram caindo no landuá da vida.
                            Padre Teodósio levou uma existência franciscana, monástica e simples. Como os lírios do campo, soube ser luxuoso, chique e lorde na mais completa simplicidade. Tornou-se extraordinário , fazendo-se um homem comum, um humilde camponês dos tórridos sertões dos Inhamuns. Que encontre, do outro lado do quintal, a paz e a tranquilidade que tanto destilou quando convivia conosco no imenso casarão. Adeus, meu amigo !

Crato, 15 de Junho de 2018
                               

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Maneiro Pau





                                               Sinésio soube da novidade , na Praça da Sé, conversando com outros companheiros da terceira idade.  Reuniam-se ali , quase que diariamente, logo cedinho , que velho é bicho madrugador feito tetéu. Falavam, com entusiasmo, num tal de Forró do Chicote Mole . Juntava-se,  na Exposição, nos domingos, uma cambada de sobreviventes das duras batalhas da vida, para uma horazinha de lazer. Num mundo projetado para ser o paraíso da juventude e quando muito o purgatório dos experientes, aquela era uma notícia para lá de promissora. Sinésio aposentara-se , há uns cinco anos, com seus sessenta e lá vai pedrada. Fora coletor de impostos da prefeitura, antes que a modernidade trouxesse os computadores, a internet, o pagamento bancário por boleto. Enviuvou quando atravessava a quarta década. Dona Umbilina teve um AVC desses fulminantes que a fez ensebar o capim, em poucos dias. Os três filhos já tinham ganhado o mundo, naquele destino nômade típico do cearense, cujo mapa do estado se confunde com o Mapa-múndi. Foi tocando a vida conforme o prato lhe era servido.  Resolveu trocar o atacado do casamento pelo varejo das relações. Todo mês, quando ia à agência bancária pegar o minguado dinheirinho do aposento, dava de cara com o mesmo caixa que o olhava com aquela cara de “ainda vivo?” , de “desse jeito esse velhote quebra a previdência”.  Seu maior lazer era sentar-se com os ex-combatentes e trocar em miúdo as últimas fofocas cabeludas da cidade, discutir as questões mais difíceis da história da filosofia como religião, futebol e política, sabendo que aquilo dava panos para mangas e que não havia qualquer possibilidade de consenso no próximo milênio. Unia a todos uma espécie de dor e desencanto comuns, todos, no fundo, embora não reconhecessem, como que se queixavam de uma ou outra jogada meio troncha  realizada no grande tabuleiro da vida.  
                                    O Forró do Chicote Mole tocou Sinésio de maneira muito peculiar. Fora um dançarino pé-de-ouro em tempos de Jovem Guarda, vivia antenado com a programação dos bailes, dos convívios  e das tertúlias. A atração entre ele o D. Umbilina havia surgido justamente nas festinhas. O imã entre os dois foi, desde sempre, muito mais musical e coreográfico do que amoroso. Depois do casamento, claro, com as atribulações da vida, de lado a lado, eles terminaram por se afastar das badalações. Diziam sempre que dançavam todos os dias, mas agora já na segunda acepção da palavra.
                                    Agora, no entanto, já não havia freio de mão na sua vida, só embreagem e acelerador. Por que não voltar à ativa e botar o esqueleto para sacolejar ? Comprou uma roupa nova, um perfume da Avon, emperiquitou-se todo e, no domingo, noitinha, partiu para o famoso Forró. Antes de entrar no campo de batalha , tomou umas talagadas numas pequenas barracas ao redor do parque. Esperou que as orelhas esquentassem e só então adentrou no grande pátio. Ali formigava de gente, sentiu como se todos ali estivessem ávidos, armando usas armas já meio enferrujadas, com as últimas balas da cartucheira. Sinésio começou a soltar-se no salão e não lhe falaram parceiras: o pé-de-ouro ressuscitara. Dançavam todos pelo mero prazer lúdico do baile, já não existiam muitas restrições no agarrado e nem aquela ânsia louca, dos velhos tempos,  do sarro, do esfrega-esfrega. Em nenhum momento percebeu a ressureição do vulcão aparentemente extinto, da retificação do engenho  de fogo morto. Sabia que erupções eram sempre possíveis e que chegando um pouco de bagaço na boca da fornalha contava como certa a inflamação de materiais que já foram um dia facilmente comburentes. Pela primeira vez, dançava a dança pela dança, talvez, por isso mesmo, imaginou, o Forró tivesse aquela denominação de “Chicote Mole”.
                                    Entre as partes, enquanto o sanfoneiro arrancava dos dedos xotes, sambas e xaxados, Sinésio continuou o abastecimento nas cachaças dos barraqueiros. Aos poucos, animado, estava meio grogue e mais bonito e rico do que sempre fora. Talvez tenha sido a alegria, o charme e a riqueza proporcionados pela “Kariri com K” que fez dele se aproximar um anjo de criatura: Alta, longos cabelos, corpo recortado como as ladeiras do Belmonte. Montada num sapato de salto que mais parecia uma escada, aproximou-se leve, fogosa e sensual  e, do alto de seus vinte e poucos anos,  convidou Sinésio para  o salão. Atracaram-se e caíram na frenética “Escadaria”  , dançando miudinho.  O casal era um show a parte e, aos poucos, os pares que estavam ao lado, se foram afastando e virando plateia. Sinésio feliz, imaginou que aquilo acontecia por admiração e, também, por alguma inveja, dos outros velhotes não se conformando em vê-lo se transformar no pegador da festa.
                                    O que não condizia com o objetivo da festa terminou por acontecer. Excitado, Sinésio conduzia seu partner para as  partes mais escuras e isoladas do salão, o famoso lugar conhecido por “corrupio”. Viu-se com o poder alavancador dos velhos tempos, só que, em meio ao frenesi, começou a perceber uma força contrária, um vetor de igual força e intensidade, como que comprovando a segunda Lei de Newton, a da ação e reação. Meio desconfiado, pediu licença para ir ao banheiro, com a autoestima nas alturas. Enquanto tirava água do joelho, um velhote encostou-se no mictório ao lado e, de cara sisuda, perguntou se ele era agricultor. Sinésio negou e quis saber porque ele assim o imaginara. O velho, com cara de poucos amigos e ar reprovativo, deixou o enigma no ar:
                                    --- Pois é ! Vi logo que não era !   Comprando pepino,  como se fosse tomate !  Vivendo e aprendendo !
                                    Lançado ao ar  o enigma da esfinge, Sinésio nem tentou decifrá-lo. Saltou o muro quietinho e enfurnou-se  em casa por uma semana. Depois do silêncio obsequioso , tentou retornar à normalidade. Voltou, por fim, à rodinha da praça. Esperava que o enigma permanecesse indecifrável.  Mal apontou na extremidade do logradouro, o coro já entoou a musiquinha com o apelido que, a partir daquela data, o acompanharia por toda esta encarnação. Referia-se à luta de esgrima acontecida naquele domingo, em que Sinésio fora espetado sem pena.
“ Maneiro Pau !
Maneiro Pau !
Dê de lá que dou de cá
Maneiro Pau “

Recife, 25/Maio/ 2018

sexta-feira, 18 de maio de 2018

São Gualberto do Cuvioco


J. Flávio Vieira


                                               Existia uma regra geral típica de Matozinho. Proprietário de bar, que se prezasse, tinha que ser casca grossa. Nada de meter-se com mesuras excessivas, com muitos “com licenças”, com demasiados “por favor”. Bar que que merecesse essa denominação não tinha muitos querequequés que aquilo não era salão de beleza, não sinhô ! Botequim tradicional possuía não um dono, mas um  general por trás do balcão. Havia que se manter a autoridade e a ordem no ambiente. Bêbado se meteu a besta com palavrório inapropriado tinha a boca fechada por muque. Coçou-se para pegar faca, já encontrava o dono de facão em punho; sacou de pistola,  levava cano de escopeta nos peitos, antes que pronunciasse qualquer baboseira. Aquilo era boteco e não cabaré! Cuspia logo o balconista, antes de jogar o primeiro pinguço engraçadinho de porta para fora. Bar com estes estatutos , ganhava confiança da freguesia e já era meio caminho andado para o sucesso.
                                   Destoava dessa regra pétrea o famoso “Cuvioco do Gualberto”. Fazia-se um estabelecimento mirrado, de duas portas, encravado em uma das ruelas , sem saída, próximo à Praça da Matriz. Talvez porque fosse uma instituição flex que envolvia mais de uma atividade comercial. Um misto de bar, de confeitaria, padaria, tabacaria. O Gualberto , em pauta, era um sessentão, comprido como um dia de fome, mas de trato fácil, voz mansa e pausada, educado. Nunca o flagraram com rispidezes , com altear de voz. Tirante isso, tinha lá suas idiossincrasias. Não era de levar, também, desaforo para casa e, claro, precisava, à sua maneira, manter a boa convivência e a boa reputação do seu Cuvioco. Uma das especialidades da casa eram os doces: banana em rodelas, coco, leite cremoso e talhado. Ficavam postados sob o balcão, em grandes aribés, envolto por um vidro grosso, como chamariz para os que transitavam pela calçada. Eram preparados pelas mãos de fada da esposa do Gualberto: D. Mariquinha.
                                   Para os padrões matozenses, nosso taberneiro era um gentleman, um diplomata, mais fino que assovio de sagui gay. Claro que as regras diplomáticas do Itamaraty sofreram lá seus reajustes até chegarem a Matozinho. Dia desses,  “Rosenildo Trapaiada”, um desses malas da região, o típico malaca que não paga as contas antigas e põe as novas em incubadora para amadurecerem, pediu uma tirrinta de doce de coco a Gualberto. Ao terminar, solicitou a conta e , ao saber que se tratara de dois reais, sacou uma nota de cem do bolso, já contando com a possibilidade de não ter troco disponível e recair na inevitável “pendura”. Gualberto, com uma calma beneditina, perguntou ao cliente se não tinha dinheiro mais trocado. Claro que não tinha!
                        --- Tenho não, rapaz ! Se vire ! Dê um jeito! Se quiser posso passar depois para acertar, já que não tem troco.
                        Como se pegasse um cálice sagrado na ceia larga, Gualberto rasgou a nota de cem reais no meio e entregou um pedaço à “Trapaida”, sem se alterar.
                        --- Tem problema , não ! Você é amigo nosso, de toda confiança. Leve esse pedaço, quando você trouxer os dois reais, devolvo o outro. Você cola, Rosenildo,  e vai ficar como novo ! Se avexe, não !
                        De outra feita, entrou no “Cuvioco”, em dia de feira, um matuto meio apressado. Olhou de cima do balcão de vidro as bacias de doce , logo abaixo e , com o dedo, ficou tamborilando em cima do vidro, apontando o de sua escolha ,meio exasperado.
                        --- Toc, toc, toc... Bote esse aqui ! Bote esse aqui ! Toc, toc, toc...
                        Gualberto, sossegado, nem bateu a passarinha. Meteu a mão, pegou a colher de pau dentro da panela  e colocou o doce de coco em cima do vidro do balcão, exatamente no local onde o matuto apontava.
                        --- Pronto, meu amigo ! Você manda ! Bom apetite !
                        A história, no entanto, que levou o povo de Matozinho a admirá-lo, ainda mais, pelas finesse e educação aconteceu pertinho do São João. Antonildo Jurubeba era um freguês assíduo do “Cuvioco”. Tinha apenas uma perna, a outra perdera num desastre de trem. Andava com ajuda de muletas.  Tomava lá suas talagadas, mas frequentava o ambiente mais pelo papo, pelo debulhar da conversa, do que propriamente pelas meropeias. Tinha o hábito de sentar em um tamborete grande do bar  e recostar as costas na parede, equilibrando-se apenas nas duas pernas traseiras do  banco. Punha-se, então,   a balançar-se, num leve movimento de vai e vem, impulsionado pelo único pé que lhe restara. Gualberto incomodava-se com aquilo, mas , do alto da sua diplomacia, não reclamava de Antonildo, parte por conta do defeito, parte porque temia perder a freguesia. Naquele dia, porém, Gualberto parece ter vindo trabalhar depois de chute  nos quibas. Jurubeba chegou como sempre, pediu um oito de fubuia e entornou como se fosse água benta. Encostou as muletas na parede e tomou assento no seu tamborete, elevando os dois pés dianteiros do bicho  e descansando o lombo na parede de trás.
                                   Nisso, o depósito de fleugma do proprietário do “Cuvioco” parece ter esvaziado.   Sem se alterar, sem mostrar quaisquer sintomas de exasperação, Gualberto pegou um serrote, em uma das prateleiras, ajoelhou-se e começou a serrar as pernas dianteiras e suspensas  do tamborete de  Antonildo. O homem deu um salto danado.
                                   --- Oxe ! Tá ficando doido, Gualberto ! Serrando os pés do banco ? Tu num tem o que fazer, não ?
                                   O dono do bar, tranquilo, voz leve e macia, com aquela paciência quase que budista,  explicou :
                                   --- Nada, não ! Eu notei, Antonildo, que banco pra você só carece ter duas pernas !  Vou cortar essas duas aqui da frente, só serve pra atrapalhar ! Vai vê, o doutor cortou essa outra sua, por essa mesma causa !
                                   Por essas e por tantas outras, os matozenses já pensam em dar entrada no processo de canonização do nosso São Gualberto do Cuvioco.

Crato, 18/05/18

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Despojos de Guerra


Cenildo acordou cedinho. Aonde deixara guardado aquele sono interminável da juventude? De hábitos noctívagos, sempre ralhara com aquele necessidade de levantar cedo e partir para o trabalho na repartição onde enfrentou, por muitos anos, a pouca flexibilidade do Relógio de Ponto,  sempre o esperando com aquela cara de poucos amigos. Agora , um desses contrassensos da vida, quando vestira o pijama de aposentado, e as manhãs se ofereciam lúbricas para o seu deleite, Morfeu , como um amante temeroso, saltava pela janela do quarta ainda de madrugadinha.
                                   Sem muito ter o que fazer com os lençóis, Cenildo ganhou a rua aos primeiros raios do sol. Peitou com os primitivos espreguiçares da cidade ainda insone e com seus personagens primais: o velho que trazia o pão ainda quente da padaria; operários que corriam para o trabalho,  como ele um dia o fizera; o primeiro bêbado da manhã e o último ébrio da noite anterior; os comerciantes que abriam as bocas sedentas de seus armarinhos. Para ele, aquele era um dia especial. Rumou até a repartição da prefeitura para tirar um diploma inusitado: A Carteira de Idoso. Pois é, era preciso comprovar, com documento , sua condição de senilidade para poder auferir os enormes benefícios que a velhice pode proporcionar. De posse da carteirinha, teria direito a estacionamento gratuito e com vagas especiais, prioridade em filas, abatimento em passagens. Cenildo seria , por fim, um velho documentado, assumido  e regulamentado. Perderia, claro, a partir daquele momento, a licença poética de mentir a idade, de usar subterfúgios para parecer mais jovem:  pintar o cabelo e a barba, aplicar o Botox,  usar roupas adolescentes, abastecer o som do carro com funks, breganejos e forrós estridentes da hora.  Demorara um pouco a tomar a decisão drástica, esperou lá uns cinco anos, mas , por fim, entendeu que já não era possível deter a inundação com uma caquera de passarinho: perdido por cem, perdido por mil ! Meio a contragosto, chegou no departamento municipal, ainda no romper da aurora. Na fila, já lá se empertigavam uns dez velhotes, insones como ele,  e com aquela cara de quem entornou um suposto copo de leite condensado e só então descobriu que se tratava de chá de boldo. Depois de algumas horas de espera, chegou por fim ao pé do balcão. Aguardava-o um barnabé de cenho franzido que maquinalmente preencheu   o formulário e anexou os documentos que Cenildo lhe passou. Sem levantar a cabeça, informou ao solicitante que voltasse com uma semana para pegar a carteirinha.
                                   Cenildo retornou no prazo combinado. Depois da aposentadoria andava meio a esmo, à deriva, perdido como  cachorro que cai de caminhão de mudança. Tanto tempo na rua, a casa lhe funcionava como simples guarida noturna. Não entendia do seu funcionamento, do fluxo diário e contínuo do seu pulsar. Apenas a cama e a TV lhe pareciam familiares. Depois de devidamente emplacado como idoso, Cenildo acrescentou algumas dúvidas mais ao seu estranhamento. A carteirinha como que lhe deu os superpoderes do Homem Invisível. Trafegava pelas ruas como um espectro. Em casa, quase que passava desapercebido. Deslizava em meio às multidões na rua, como uma agulha que tentasse, loucamente, tecer uma colcha de retalhos com seu fio invisível.  Muitas vezes assaltou-o a sensação de que já tinha feito a passagem e estava perambulando por este mundo, como alma penada. A única prova de que isto não acontecera é que, a cada final de mês, como por encanto , recobrava , novamente, seu estado sólido e concreto. A partir do dia vinte e oito, os filhos e a esposa lhe sorriam, o padeiro o cumprimentava   com certa galhardia, o dono da bodega lhe fazia mesuras, alguns amigos das antigas acervavam-se e puxavam conversa. A  visibilidade, no entanto, durava pouco: por volta do dia dez, retornava, aos poucos,  ao estado gasoso, à fluidez etérea e transparente . Era como se hibernasse.
                                   Cenildo tomou nas mãos a carteirinha mágica. Pareceu desvendar, em meio aos traços vetustos, a silhueta de um menino.  Onde estava ele agora ? Investira-se da mesma invisibilidade do velho que lhe embotava as feições ? Do fundo do peito,  teve a certeza de que se morresse, voltaria , contraste dos contrastes, a ser vívido, palpável e real como já fora um dia, ao menos enquanto durasse  os trâmites do inventário, da divisão de bens, da rapinagem final dos seus despojos de guerra.

Crato, 11/05/2018

sexta-feira, 27 de abril de 2018

O Capeta da Redação


J. Flávio Vieira

                                               Tenho uma preferência particular no cômputo das maiores invenções da humanidade. Ao longo dos anos, pessoas geniais e inventivas foram desenvolvendo técnicas e instrumentos que terminariam por modificar, significativamente, o curso da história e o cotidiano dos seres neste planeta.  Ottmar Mergenthaler (1854-1899), nascido na Alemanha,  é um dos meus escolhidos. Ele terminou por fixar-se no Estados Unidos e deixou esse mundo, prematuramente, aos 45 anos, ceifado pela doença icônica dos Novecentos: a Tuberculose.  Ottmar criou a máquina de Linotipo e transformou, crucialmente, os rumos da impressão gráfica pelo mundo.
                                   Talvez, hoje, embebidos todos pela revolução digital-cibernética, esta conquista pareça menor e desprezível. Desde a invenção da imprensa ocidental por Gutemberg, no Século XV , os textos para impressão eram construídos por módulos móveis. Letra por letra, montava-se um grande carimbo que, untado de tinta, levava ao papel os caracteres gráficos que se desejavam fixar. As gráficas, assim, possuíam enormes gavetas onde eram colocados os “Tipos” em incontáveis formatos e tamanhos, separados pela espécie de letra. Cabia ao gráfico escolher tipo por tipo e ir, aos poucos, compondo o grande carimbo para, depois, levar para as máquinas de impressão. Daí surgiu o nome “Tipografia”. Quando governos sentiam-se perseguidos ou denunciados pela imprensa, era comum empastelarem  os jornais para dificultar a sua circulação, o que consistia, simplesmente, em misturar todos os tipos, deixando as gráficas inoperantes, até que, com muita paciência,  conseguissem, novamente, reorganizar as pecinhas em seus respectivos lugares, em ordem alfabética.


                                   A grande façanha de Mergenthaler  foi a invenção genial da máquina de Linotipo. A geringonça, gigantesca, mais ou menos do tamanho de um guarda-roupas de quatro portas, tinha um tanque na sua parte superior onde era fundido o chumbo que descia por canaletas até um ponto onde eram moldadas placas, uma espécie de tijolinho. Estas placas chegavam ainda quentes e maleáveis para que se esculpissem, um pouco mais abaixo,  palavras nelas, comandadas por um teclado ( parecido com uma grande máquina de datilografia) que era manobrado por um artista gráfico. À medida que eram esculpidas, após um processo de refrigeração, iam pouco a pouco descendo e se organizando, lado a lado, organizadamente, formando então um grande carimbo que era levado para a impressão das páginas de livros e jornais. Imaginem a complexidade desta descoberta! Tinha-se um processo de fundição/escultura/refrigeração/arrumação  das plaquetas de chumbo! Além de tudo, após o processo gráfico, as placas podiam ser fundidas muitas vezes e reaproveitadas, em outros projetos gráficos !  Eram possíveis de seis mil a oito mil letras esculpidas por hora com o guarda-roupas de Ottmar. A inventividade do alemão fez com que se intensificasse a velocidade nas gráficas, aumentando a produção de livros e jornais, tanto que Mergenthaler é considerado o segundo Gutemberg.
                                   Quem , por acaso, mete as fuças na construção de livros e jornais , sabe, perfeitamente, que juntinho de nós trabalha um capeta tinhoso : o Satanás do erro e da incorreção. Por mais que redatores, revisores e copidesques se empenhem na perfeição do trabalho, não tem jeito! O capeta  estará ali , pertinho, esperando o momento de plantar os erros ortográfico, sintático, gráfico, ou  de pontuação...  
                                   Nos anos 50, o jornal católico  “A Ação”, aqui em Crato, era editado ainda com os primários tipos móveis. Tinha na redação um dos maiores latinistas cearenses: o Padre Neri Feitosa. Inteligente, profundamente versado na língua portuguesa vernácula, Neri vivia em tempos em que erro de concordância era passível de pena de morte. O hebdomadário lançou uma série de reportagens em que, semana após semana, se mostrava a biografia dos monsenhores da região. Depois de alguns meses, dado por fim o seriado, alguém, preocupado, lembrou nosso redator de que escapara um nome importante: o Mons. Tavares; o que trazia um certo desconforto nas hostes religiosas locais. Neri, então, mostrando jogo de cintura imprescindível a quem exerce a função, resolveu que sanaria o problema na próxima edição, o que realmente o fez. O artigo começava enfaticamente : “Deixamos, propositalmente,  por último, nesta coluna biográfica ,  o Mons. Tavares porque ele é o chefe da Milícia Católica no Cariri”. Na hora da composição, o capeta da incorreção, plantou o tipo errado. No outro dia, bem humorado, mons. Tavares lia o jornal quando se deparou com o erro fatal na sua biografia . Ao invés de Chefe da Milícia Católica, saíra impresso : Chefe da Malícia Católica... Tavares, sorridente, comentou que a emenda saíra pior que o soneto.
                                   Com o avanço da tecnologia, imaginou-se que o capeta  seria expulso definitivamente das redações e relegado ao seu ostracismo infernal. Leda pretensão! Ele continuou nas engrenagens das máquinas de linotipo, escondeu-se nos bytes do computador, enfurnou-se até nos auto corretores dos celulares. Uma conhecida nossa quase perde o emprego numa multinacional porque , ao conversar com sua superiora, pelo What´sapp, ao teclar : “Certo, Chefa!” , o autocorretor corrigiu para “Certo, Chata!” e ela enviou a mensagem maquinalmente.
                                   Na era dos computadores, então, este problema poderia estar sanado de uma vez  por todas. O Word carrega seu pai dos burros próprio e alerta para as falhas mais corriqueiras . Mas peca com a sintaxe, com as palavras homônimas, com o termo errôneo naquele local, mas existente em uma outra acepção. Há alguns anos, um jornal da região, já vivia nos áureos e gloriosos tempos do offset e da edição por computação gráfica. Quanta facilidade ! Quanto avanço ! Os digitadores abriam as caixas já prontas das colunas e apenas montavam as páginas anexando as novas matérias e as novas fotos. Pois bem, numa das edições, o diagramador estava completando a Coluna Social. Retirou todas as notícias da edição anterior e colocou as mais atuais, como sempre tentando por qualidade em que não tem. Sacou as imagens antigas e incluiu as fotos atuais das locomotivas e dos bacanas da região. O Capeta da Incorreção, no entanto, estava ali espreitando o momento exato de atacar. E sabia perfeitamente que o tamanho do avanço tecnológico é sempre proporcional à imensidão do erro possível. Tudo parecia perfeito, com uma única exceção. O técnico colocou as novas matérias, as novas fotografias,  mas esqueceu de apagar as legendas identificadoras de cada foto. No outro dia, edição na rua, a catástrofe estava instalada. Uma das fotos mostrava um juiz caririense, de cara empapuçada, sério que só uma vaca mijando, como se alguém tivesse acabado de lhe avisar que iam retirar seu auxílio-moradia. Aquela cara de quem está há três dias sem ir ao banheiro, ótima para se fazer cobrança. Logo abaixo, a antiga legenda que deveria ter sido sacada. Referia-se, na edição anterior, a uma aniversariante adolescente e dizia assim, agora resumindo  a cara do juiz: “Essa coisinha fofa, quinze aninhos, responde pelo nome de Bianca”.  Até o Capeta riu baixinho da presepada, com medo do processo.

Crato, 27/04/2018


sexta-feira, 20 de abril de 2018

Ateliê


Lembrei-me de uma história antiga, recentemente, que muito reflete essa sina de bumerangue da vida brasileira. Visitando uma Exposição de Arte  Moderna, num desses museus contemporâneos, um  sujeito espanta-se com uma obra inusitada. Uma grande tela, completamente branca, tendo apenas, abaixo, a assinatura do autor: Teo Syd - 2017. Junto, em uma placa metálica dourada, aposta no lado direito,  com letras  alto-relevo, o nome da obra branca esdrúxula : “A Fuga dos Judeus do Egito”.  Impressionado com a criatividade do pintor, o visitante aproxima-se  e procura tentar entender a concepção da obra. Onde estava retratado o episódio bíblico, numa tela inteiramente branca ?
--- Este quadro representa a fuga dos hebreus do Egito ?
--- Isso mesmo ! -- Retorna o autor.
--- Mas cadê os hebreus, que não consigo identificar no quadro ?
--- Os hebreus já atravessaram o Mar Vermelho e foram embora em busca de Canaã ! -- Confirma o artista ?
--- E o Mar Vermelho com suas margens milagrosamente escancaradas , para a travessia do povo de Deus ,   onde está ?
--- As margens abriram muito, para a passagem de Moisés e sua corriola e as águas estão fora das extremidades da pintura, assim não aparecem !
--- E cadê o exército do Faraó que vinha em perseguição dos judeus ? --Quis saber o visitante.
--- Ele se atrasou e ainda não chegou. Acaba de sair do Cairo !
                                   O quadro retratava um momento ímpar, onde alguns eventos já tinham ocorrido e outros ainda estavam por acontecer. Entre o que ainda não foi , o que já ocorreu  e o que ainda será.
                                   Esta história vem a reboque de uma mais recente. Semana passada, em Brasília, numa Exposição de Arte de Vanguarda, um artista plástico, Arcanjo Vannicelli,  apresentou um quadro similar ao da história anterior. Tela branca, quase imperceptível, na galeria alvíssima e iluminada. Logo abaixo o nome alatinado da peça : Terra Temerosus Brasilis. A peça chamou a atenção de um desses ratos de galeria. Ele se acercou de um senhor que cenho algo carregado, que se postava, de pé, em um dos lados da pintura. Afastou-se, observou com distância regulamentar, logo depois bem próximo e, curioso, puxou conversa.
--- Esta quadro pretende representar o Brasil, nos dias atuais?  É isso ?
--- Isso mesmo, meu senhor ! Tenta trazer um pouco do espanto porque todos estamos passando.
--- Onde estão simbolicamente representados os verdadeiros governantes do país ?
--- Foram expulsos ou tão presos, não aparecem na obra !
---- E onde podemos ver os atuais governantes, que tomaram o poder de assalto ?
--- Escondidos ! Não podem aparecer, sob risco de linchamento !
--- E o poder judiciário , onde posso identificar aqui nesta tela ?
--- O céu não aparece na tela, meu amigo, está fora do foco. Os juízes estão no Olimpo: metade pensa que é  Deus e a outra metade tem certeza!
---- E o povo, cadê ? Onde está escondido, nesta brancura toda ?
---- O povo está só observando, como o senhor, ele não faz parte da pintura !
                                   Impaciente, nosso visitante quis entender melhor detalhes  daquela que um dia poderia ter sido uma aquarela. Achou estranho a obra em branco. Cuidadosamente, passou a mão e não sentiu o relevo do quadro e nem a aspereza do pano. Voltou-se, então, para o seu interlocutor.
--- Oxe ! Não tem tela aqui , não ! Isso é parede. A obra é um mural ?
--- Meu amigo, não lhe conto, até ontem tinha. Venderam a peça de madrugadinha, por uma pechincha !
--- O Senhor, como autor da obra, permitiu a negociação por uma ninharia ?
--- Eu não sou autor da obra não! Sou um crítico de arte !
--- E quem é o sujeito que pintou o quadro ? Cadê ele !
--- O Ângelo ?  Ele pra tudo que pintava ou fazia só usava a direita. Tentou numa luta, nesses dias,  um golpe  e caiu do cavalo.  
--- Ah ! Então o senhor é, aqui, o  responsável por isso tudo !
--- Eu ?
--- Você sim ! -- Firma o visitante, com alguma aspereza.
--- Você num mora aqui em Brasília ?
--- Não, eu sou de Curitiba, meu senhor !
--- Ah, seu irresponsável,  o senhor mora lá, é ?!
--- Moro !

Crato, 30/04/2018
                                     

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Agridoce




                                               Nordestinos, somos seres de duas estações. O pêndulo das nossas almas cicla entre estes dois polos: verão e inverno. Vezes no gris do estio, vezes no verde da invernada.  Para nós,   tempo bom significa relâmpagos, trovões e torreame. Nossos corações, órfãos de estações,  primaveram com as chuvas e outonam com o sol abrasador. Divididos entre o alento e o desencanto, as intempéries da seca nos abatem mas não nos derrubam. A tristeza da estiagem sempre será recompensada pela alegria multiplicada da futura fertilidade invernosa. O nordestino sabe que a felicidade está guardada mais na esperança rediviva do que no paiol com seus cíclicos movimentos de cheio-vazio.
                                   Enfrentando os verões, por vezes sucessivos, nosso espírito acinzenta-se como toda a natureza, mas, nos primeiros pingos  promissores de chuva,  saltamos da terra como os sapos, levantamos voo como as tanajuras, florescemos igualzinho aos marmeleiros. O matuto, calejado e temperado  nos rigores do clima, não se exaspera fácil. Carrega consigo aquela resignação quase mineral dos rochedos. Aprendeu com os juazeiros, com a palma, com os mandacarus , as lições  do florescer e do resistir. Às vezes, pode até parecer morto, seco e desfolhado como os umbuzeiros em outubro. Mas aquilo é sempre um recuo tático, uma sofisticada estratégia bélica. Nas raízes,  guarda a essência líquida da sobrevivência e, nos primeiros borrifos de chuva, cobrirá, rapidamente, a nudez, com o verde fosforescente do   vestido de gala , próprio para a festa que se anuncia.
                                   Nordestinos, compreendemos também as aulas da economia e da parcimônia. Neste pêndulo, o exagero de hoje pode significar a escassez do dia seguinte. Apesar de tudo, o matuto depreende que somos todos passageiros de uma mesma arca e que não há côdea de pão que não possa ser dividida em múltiplos pedacinhos para o regalo de muitos. Há mais solidariedade na escassez  do campo do  que na fartura do arranha-céu.  
                                   Talvez, escanchados nesta vida pendular, terminamos por entender que a felicidade não é um adereço de superfície , como uma maquiagem. Verão e Inverno , como crepúsculo e aurora, tornam-se apenas fases do ciclo natural de nossas vidas. Na roça, aprende-se a valorizar os mais simples frutos que a existência faz brotar na nossa colheita. Por que se exasperar ? O amargor de hoje é tão somente o prenúncio do mel que provaremos amanhã. E o contraste agridoce transforma-o numa iguaria  mais leve e saborosa ! A treva faz-se apenas a esperança do albor que já começa a esticar seu pescoço na linha do horizonte. Se hoje acordamos verão, de noitinha adormeceremos inverno. A vida fica mais una na dualidade das estações.

Crato, 13/04/18