sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Condomínio Brasil

                                  Entre tantas notícias  mal cheirosas , que superpovoam nossa mídia tão amestrada e tão entulhada de filtros próprios e higiênicos, uma, mais colorida,  me saltou aos olhos nesta semana. Na Espanha um grupo de amigos, que se conheceu na média idade, empreendendo caminhadas e percorrendo trilhas, resolveu se reunir, anos depois, todos no outono da existência, dividindo um mesmo condomínio. Criaram uma República aos moldes das de estudantes, mas agora para a terceira idade. Num determinado momento da existência se puseram a perguntar: por que não dividir a curta estrada à frente com amigos diletos e fraternos, testemunhas oculares dos épicos episódios de nossas vidas? Fugiam, assim, da companhia superprotetora dos filhos e netos, distanciavam-se dos abrigos de idosos onde teriam que conviver com estranhos, sobreviventes de outras tragédias , protagonistas de alheias comédias. Construíram condomínio adequado aos seus longos anos, com projetos arquitetônicos específicos,  administrado por eles mesmos, com áreas de jardinagem, de atividade física, acompanhados por profissionais habilitados nas mais diversas áreas ( fisioterapia, enfermagem, ludoterapia, etc). Hoje já somam mais de oitenta inquilinos e a experiência tem se reproduzido em toda a Europa.  Segundo os moradores , existiu um momento, nas suas vidas, em que os filhos cresceram e se tornaram independentes, pois agora é a vez dos pais , arribarem de casa e alçarem voos próprios.
   
                                    Pus-me a pensar , já me acercando dos momentos em que estes pensamentos costumam nos acicatar, o quanto inteligente e prazerosa terá sido essa iniciativa. Imaginem se cercar dos nossos amigos mais diletos, com tempo para degustar memórias e histórias, dividir experiências e angústias, numa fase da vida que costuma primar pela solidão e desesperança !
                                   De repente, porém,  me caiu a realidade como um bólido sobre a cabeça. Estou no Brasil, onde a idade pesa como outro qualquer preconceito; onde a experiência acumulada de nada vale. Os idosos são um mero rebotalho da sociedade, sangradores da previdência e que, para piorar tudo, teimam em não morrer. Sem amparo estatal de asilos que lhes deem guarida, com os pouquíssimos descendentes que pudessem ser incriminados como abandonadores de incapazes ; com a consciência pesada por estarem minando os recursos do país com seus achaques, hordas de idosos perambulam pelas ruas como espantalhos. Agora, já sem direitos de aposentadoria,  seguirão, como os judeus libertos dos campos de concentração, em pleno inverno,  para a marcha da morte.
                                 A maior prova de desenvolvimento de qualquer nação está na maneira como trata aqueles que estão fora das frias regras da produtividade capitalista : os idosos e as crianças. Somos apenas uma balela, um arremedo de país: sem visão social, sem atenção às nossas fragilidades, sem solidariedade humana , com cidadãos de primeira, segunda e terceira categorias e, hoje, ainda , fincando novos pelourinhos a cada dia. Nem uma democracia mais temos! Construímos condomínios como os da Espanha, sim,  mas lá colocamos apenas engravatados, almofadinhas, marajás, todos imunes às leis . E pior, todas as taxas condominiais pagas pela população pobre e escravizada, aquela que está do lado de cá do muro.   
                                 Essa talvez seja, hoje, o maior fel que contamina a vida dos idosos. A certeza de que todos lutaram em vão, que fizeram sacrifícios das suas vidas e do seu tempo, no altar da pátria, por  deuses espúrios, impiedosos e insensíveis. Plantou-se a semente de uma árvore que devia abrigar , com suas sombras, o destino de todos. Frutificou, no lugar,  uma planta carnívora , devoradora de liberdade, aspirações e esperanças.


Crato, 13/01/2017

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Um Incidente Pavoroso

                                               
As chacinas seguidas que têm acontecido, em presídios brasileiros,  nesses seis primeiros dias de 2017,  dão uma clara ideia do total baratinamento governamental em que vivemos. Brigas de facções, envolvendo o PCC e o Comando Vermelho,  fizeram com que fossem massacrados 60 detentos em Manaus e, em represária,  33 em Roraima. Esta mortes em presídios, em menos de uma semana, representam 25% de todas os assassinatos acontecidos em prisões  brasileiras em todo o ano passado. A partir da calamidade, se sucederam incontáveis e tragicômicas situações sintomáticas de um governo à deriva que não tem ciência de onde veio nem para onde se destina.
                                            A princípio,  a estratégia foi jogar a responsabilidade no Estado do Amazonas e na empresa de Manaus, privada, que administra o presídio. O presidente em depoimento tardio, denominou o acontecido de um “Acidente Pavoroso”. O Ministro da Justiça , de comum acordo, lançou a responsabilidade no Amazonas. A privatização sequer foi questionada.  Devido às repercussões negativas, rapidamente, como é típico dos desgovernos, tiveram que, como sempre, voltar atrás. “Acidente”  seria um evento fortuito e inesperado, dependente do mero acaso. A quem responsabilizar ? O destino, a má sorte ?  Imediatamente o Governo do Amazonas informou que o risco de uma tragédia iminente tinha sido denunciado ao Ministério da Justiça e esse não tinha tomado nenhuma providência. O Ministro teve que se retratar e assumir a imobilidade e suas consequências posteriores, inclusive com o risco de cair.  O desacerto, porém, ainda se agravaria.
                                     Viria o acréscimo ado sco da nossa Reacionariocracia. De repente, a mídia e as redes sociais destilariam o ódio, o ranço, o preconceito tão em voga nos últimos tempos. Até mesmo o governador do Amazonas ! Para todos,  teria sido ótimo o acontecido : mais de cem bandidos a menos ! Bandido bom, como se repete ad nauseam, é bandido morto ! Claro, desde que seja o ladrão de galinha,  pobre, negro e marginalizado. Não entram nessa regra os peixes graúdos de colarinho branco e mesas regadas a vinho e caviar. O corrupto de carteirinha, os manipuladores de super-salários , os filhinhos do papai ,  os sonegadores vultosos, os desviadores dos mananciais públicos, para esses, pobrezinhos, as benesses e frestas das leis !
                                               Tão iníquas como esse pensamento obtuso , pré-histórico e anticivilizatório,   foram as medidas  anunciadas pelo governo para resolver o holocausto nas nossas prisões. Construção de mais cinco presídios ! Eles não seriam suficientes sequer para cobrir o déficit de vagas na região Norte! Se construídos as prisões ( e sabe-se lá quando !) só abateriam em 0, 4% as necessidades atuais.  O presidente do STF também visitou o Amazonas e apenas se certificou da explosão da bomba de pavio curto que já sabia acesa há muito e muito tempo. Todas essas medidas propaladas não mexem com a raiz do problema da violência e criminalidade, são endereçadas apenas à repressão que sabemos secularmente não têm qualquer capacidade  de minorar a situação.
                                      É imprescindível entender verdades que recusamos engolir. O Crime Organizado no Brasil é mais organizado que o governo instituído. Eles controlam as prisões brasileiras , o tráfico, as favelas, os morros. São eles que mandam e desmandam nos presídios, que estabelecem as regras internas, aliciam a polícia , políticos e membros do judiciário. Fazem revoltas quando assim o desejam e armam chacinas ao seu bel-prazer. E mais: nos estados mais importantes, o governo se curva às facções criminosas , negociam com elas, liberam uso de celulares, aceitam regras de não transferência de presos. Eles causam tantos acidentes pavorosos quantos quiserem sem que o estado , manietado, tenha condições de abrir o bico.
                                     As mortes acontecidas nos presídios são responsabilidade do estado. Se não temos condições de dar segurança aos detidos, é nosso dever liberá-los. Nem adianta pensar que a Pena de Morte acontecida, ao arrepio da lei, pode resolver o problema. Já existe a pena de morte nas ruas, instituída pelo Crime organizado e pelo desorganizado , até agora, a questão apenas tem se agravado. Não é o Tribunal Carandiru que irá  deixar o país mais seguro e mais justo. Infelizmente vamos dando as costas agora a um destes agravantes desencadeadores, que sei, não é único : a Desigualdade Social.
                                   Todos aqueles que agora felizes curtem as mortes com um indisfarçável ar de prazer e de vingança  devem lembrar que a mesma sanha que pôs as Facções Criminosas umas contra as outras pode, em um futuro bem próximo, os unir para vir , mais uma vez, cobrar nas ruas , com juros de sangue e sofrimento, as contas que se vêm juntando secularmente no pavoroso banco das relações humanas brasileiras. Será a carnificina, neste momento, mais uma vez,  catalogada como Acidente Pavoroso ?

Crato, 06/01/2017

                                      

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

De Luas e Eclipses

                                    Pois é, amigos,  desembestado o carro de ladeira abaixo, à procura do despenhadeiro, todas as previsões sobre o desastre iminente, são meras especulações. Cada um interpreta à sua maneira a causa possível da pane : freio quebrado, barra da direção fraturada, pouca habilidade do motorista,  e o posto de gasolina concorrente pode imputar o destroço a combustível adulterado. Todas os itens vêm à baila, ao sabor das emoções e dos interesses de cada um .
      
                                   Falar em veículo desgovernado remete imediatamente ao Brasil, nos tristes e temerosos dias em que vivemos. Pedem para que apertemos os cintos, mas como fazê-lo se o piloto ao invés de sumir, nunca existiu ? Um sindicato de sicários tomou de posse o poder, amparado pela mídia e pelo judiciário . O carro foi colocado estrategicamente no topo da ladeira íngreme, com um motorista incompetente e  cego,  sem óleo de freio. Não era previsível a desabalada carreira em busca do abismo ? O grande problema é que não éramos meros espectadores, sequer percebemos que na verdade somos todos passageiros desta viagem às profundezas abissais do pélago mais profundo.
                                       Sob o pretexto de combate à corrupção, afastamos a presidenta eleita. A única figura pura, limpa e imaculada em toda este filme de terror. Se por acaso alguma falcatrua houvesse em seu nome, já não teriam encontrado ? Colocamos um vice de história suspeitíssima para assumir o cargo, que convocou auxiliares que nem Fernandinho Beira Mar aceitaria. Caiu ,até agora um ministro, a cada mês, por conta de denúncias de irregularidades e desvios. O Presidente da Câmara está preso, o Presidente do Senado tornou-se réu e o líder do presidente  no Senado é o Jucá , aquele que melhor definiu a necessidade do golpe : estancar a sangria.
                                       A Lava-a-Jato faria um bem imenso ao país, se não fosse caolha , se seus dirigentes não atirassem em todos os pássaros e não tivessem um cuidado todo especial para com a preservação de um dó deles: os tucanos. Com medidas seguidamente ao arrepio da Constituição, instâncias superiores omissas, salários estratosféricos, a quem devemos recorrer , ao Chapolin Colorado ? Aos poucos a população vai percebendo quem deve pagar o pato da FIESP : o povo ! Seus direitos têm sido continuamente cassados, o desemprego vai às alturas, o PIB mergulha no pântano, o pouco que restava do patrimônio público vai sendo entregue de mão beijada ao capital estrangeiro, a desigualdade social volta a crescer e com ela suas tensões.   O remédio amargo, que fossiliza o Brasil por vinte anos, não vai surtir efeito. Estamos na UTI , com o governo respirando com ajuda de  aparelhos midiáticos !
                                  As classes mais abastadas que lutaram desesperadamente pelo golpe , embasbacas , se calam. As panelas de teflon já não soam. As camisas verde-amarelas estão mofando no baú. Por que ? Não eram todos bem intencionados, revoltados off e on line com a corrupção? Agora ela está mais que nunca escancarada, as vísceras da política estão expostas. As delações atingirão mais de cem deputados. Cozinheiros da nação, vamos à luta ! A corrupção não era uma ilhazinha no oceano da política brasileira, como concluiria nosso Simão Bacamarte, a corrupção é todo um continente e, talvez, todo o planeta !
                                    Mas tudo isto não era previsível?  As razões que levaram à defenestração de uma presidenta eleita nada tinham a ver com boas intenções. É o mesmo movimento separatista que , historicamente,  alimentou a escravidão por quase quatro séculos, que destruiu o arraial de Canudos, que bombardeou o Caldeirão !  Não dá para viver bem na Casa Grande se não se tem a Senzala do lado. A felicidade de cada um de nós depende da desgraça do outro. Só nos satisfazemos e nos sentimos plenos, comparando-nos com a penúria , a fome, a miséria do vizinho. Sem este contraste, profundamente anticristão, no país que se autoproclama o mais católico do mundo, não nos sentimos completos. A minha Ferrari só tem importância se for única,  se todos os outros andarem de jumento.
                                      Agora, os mesmos filhinhos do papai que gritam nas redes sociais contra a Ditadura de Cuba, saem nas ruas pedindo a volta dos militares, claro só possível num estado de exceção. Computam os que foram mortos na Revolução Cubana por perseguição ideológica, mas não conseguem fazer as contas dos que morreram no Brasil,  nos últimos sessenta anos,  de causas perfeitamente evitáveis como fome, diarreia, violência urbana, infecções respiratórias, miséria, incúria governamental.  Se opõem a que juízes e promotores respondam por crimes de responsabilidade, como se os magistrados, infalíveis e imaculados, fizessem parte das hostes celestiais e só tivessem que prestar contas ao criador. Ah mas se revoltam quando juízes matam pessoas como em Sobral e vivem soltos; quando desembargadores vendem sentenças e pegam por pena apenas a aposentadoria; quando policiais enquadram magistrados dirigindo sem documentação e embriagados e , ao invés de condecorados, são penalizados por terem cumprido a lei.
                                        Estamos vivendo um momento crítico no país, talvez um dos mais sérios da nossa história. O primeiro passo para começarmos a pôr o veículo nos trilhos é entender que fomos nós mesmo os responsáveis pelo descarrilamento.  Não somos vítimas , mas agentes e atores ativos da nossa tragédia: quando elegemos e reelegemos políticos corruptos e iguaizinhos --- imagem e semelhança-- ao grosso da população brasileira; quando rasgamos a Constituição  ao doce sabor dos nossos mais escusos interesses; quando nos imbuímos da certeza que para a lua brilhar e reluzir no céu é imprescindível que exista uma outra face oculta, onde todas as perversões podem acontecer sem o nosso conhecimento.


Crato, 02 de Dezembro de 2016   

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Discurso de Abidoral Jamacaru na Câmara Municipal de Crato

A CIDADE DA CULTURA E A CULTURA DA CIDADE


                                              Resultado de imagem para abidoral jamacaru  A Cultura de um povo é aquele complexo que inclui suas crenças, sua Arte, suas leis, sua moral, seu conhecimento, seus costumes e hábitos. É a Cultura que identifica uma civilização. Quando estudamos civilizações antigas como os Sumérios, os Egípcios, os Gregos e Romanos é através da Cultura desses povos ( sua música, sua poesia, sua pintura , escultura e sua língua) que conseguimos entender como eram e como funcionavam essas sociedades. É a Cultura que nos dá uma visão do nosso passado, que baliza o nosso presente e aponta a direção do nosso futuro.
                            O Crato carrega consigo , historicamente, o legado de Cidade da Cultura. Esse título não nos foi concedido por mero acaso. Aqui tivemos o primeiro grito republicano no Brasil, entoado por D. Bárbara, Tristão e José Martiniano. Publicamos o primeiro jornal do interior do estado, “O Araripe, em meados do Século XIX. Formamos a primeira médica do nordeste,  Amélia Benébien. Fundamos o primeiro cinema do interior do Ceará, o “Paraíso”,  em 1911. Os primeiros albores do Teatro caririense despertaram aqui, assim como o primeiro curso secundário do interior ( o Seminário São José) e  a primeira Universidade do Sul cearense. Mantemos atualmente instituições culturais importantes como Instituto Cultural do Cariri, a SOLIBEL, a SCAC, a Academia dos Cordelistas, a Editora A Província, a Fundação Elói Teles. A Cultura de Tradição com suas Bandas Cabaçais, seus Reisados, Maneiros-Pau, Cocos e Lapinhas , encabeçada por incontáveis Mestres da Cultura de Tradição Popular, luta, incessantemente, pela preservação das nossas mais profundas raízes. Pululam, por aqui ,entre filhos reais e adotivos,  poetas, músicos, artistas plásticos, escritores , atores,  dramaturgos, cineastas, muitos de renome internacional.
                            Nos últimos tempos, no entanto, o Crato tem, politicamente, deixado de lado sua vocação mais importante,  o que tem coincidido com nossa visível decadência na região. Destruímos quase todo nosso patrimônio arquitetônico, fechamos nossas salas de cinema, o nosso teatro municipal encontra-se em situação calamitosa, assim como nosso Museu Histórico e de Artes Plásticas. Já fizemos circular mais de 170 jornais, hoje já não possuímos um só de tiragem regular. A Biblioteca da Cidade da Cultura tem acervo precaríssimo. A Fundação J. de Figueiredo Filho que teria a precípua função de alavancar nossas manifestações culturais se tornou um mero cabide de emprego, nunca conseguiu exercer suas reais funções.  A Cidade da Cultura tem sido uma verdadeira madrasta para com seus artistas locais. Não temos agenda cultural organizada. Rádio e Imprensa locais  abrem pouco espaço para nossos artistas. Em seguidas gestões, a Secretaria de Cultura não consegue exercer suas atividades, principalmente por conta de não ter orçamentação adequada. A mais importante festa da cidade, a Expocrato, optou por eventos e shows de mero entretenimento, com cachês exorbitantes, a troco de negligenciar todos os artistas caririenses que não encontram abrigo para dar visibilidade a suas Artes. O público mais exigente  tem simplesmente se esvaído em busca de alternativas de maior qualidade como o Festival de Inverno de Garanhuns em Pernambuco.
                            A hecatombe Cultural da cidade está implicitamente ligada  ao arrefecimento do nosso fulgor econômico. Hoje a Economia Cultural é o setor de maior dinamismo na economia mundial , houve um crescimento de 6,3% nos últimos anos, quando a economia mundial cresceu apenas 5,7% . A Economia Cultural   corresponde atualmente a 7% do PIB mundial. Em 2006,  tínhamos no Brasil mais de 300.000 empresas culturais que geravam  quase 2 milhões de empregos formais. Isto com um investimento de apenas 0,65% dos orçamentos das prefeituras e autarquias, quando a UNESCO propõe que se invista no mínimo 2%. Os Poderes Executivo, Legislativo e a Iniciativa Privada precisam acordar para esta realidade. O soerguimento da Cidade do Crato depende intrinsecamente de investimentos sérios e permanentes na nossa histórica vocação cultural.
                            Entendo que junto comigo estão sendo homenageados todos aqueles artistas  que trilham por este mesmo caminho tortuoso mas essencial. Agradeço ao Poder Legislativo , a minha família,  a todos os amigos e ao público que compartilham comigo desse  momento mágico. São instantes assim que me fazem perceber ter valido a pena dedicar quase meio  século da minha existência  a tornar o mundo mais sonoro e mais bonito.
Muito Obrigado !  


                             

         ( Pronunciamento de Abidoral Jamacaru no recebimento do Prêmio Elói Teles, na Câmara Municipal de Crato em 22/08/2016)             

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Que Crato salta das urnas de Outubro ?



                                                        J. Flávio Vieira

                                               Passado o período eleitoral, as coisas aparentemente voltam ao ritmo menos frenético de sempre. Perdedores , babões , puxa-sacos recolhem-se ao anonimato, geralmente escondendo as provas que os ligavam diretamente ao crime. Os vencedores  empertigam-se , mantêm um certo ar aristocrático, dividindo-se entre o bulling aos adversários abatidos e a luta renhida por cargos e colocações no futuro governo. Até o povaréu, que geralmente serve de mero figurino nestas apresentações, comemora a vitória, ou lamenta a surra,  como se se tratasse do seu time de preferência em final de campeonato.
                            Reconheço que me dirigi às urnas meio ressabiado. Primeiro porque acabava de descobrir, neste processo vil porque passa o Brasil, que meu título de eleitor  é um mero objeto decorativo. A grande festa democrática , na verdade, é um jogo de cartas marcadas. As urnas servem apenas para ratificar o poder econômico, como poder político. Se por acaso se rebelarem as urnas , juntam-se quatro centenas de marginais e as jogam no lixo. Fiz de conta, assim mesmo, que o título tinha alguma serventia e me dirigi à seção acreditando que era importante, apesar dos pesares , cumprir meus deveres como cidadão e escolher  os menos piores.
                            Baixada a poeira das emoções, nos veremos, a partir de janeiro,  diante de novas administrações na Câmara e Paço Municipais. Apesar do retrospecto profundamente negativo dos rumos tomados pela cidade de Crato nos últimos 35 anos, torço para que o bonde volte aos trilhos  e que o barco à deriva ao menos consiga encontrar um porto a se dirigir. Nos últimos anos, o Crato, a antiga “Pérola do Cariri” , viu sua joia transformar-se em simples bijuteria. Fomos, disparadamente, o município caririense que mais murchou e perdeu brilho nos últimos tempos. Somos  hoje uma mera caricatura.  A administração atual parece ter colocado a última pá de barro nesta inumação progressiva e inexorável. Como médico, percebo que o prognóstico desse doente, à beira da cova, não é dos mais auspiciosos, mas existindo ainda alguma centelha de vida, sempre sobrevive , também alguma esperança.
                            Torço, assim, para que a futura Câmara Municipal, que teve renovação considerável do seu plantel, deixe de ser apenas um balcão de negócios escusos, uma mera Casa de Leilões. Que legislem, que trabalhem não duas vezes por semana nas suas sessões que às vezes não duram uma hora. Pensem no bem da cidade, acima de tudo,  aprovem conscientemente o que possa engrandecer o município e fiscalizem a aplicação dos recursos comuns. Cada um lute pelas reivindicações coletivas das suas áreas de apoio, mas não esqueçam da cidade como um todo, em todas suas diversidade e complexidade. Quando o navio soçobra leva consigo todos os tripulantes !
                            Torço, também, para que o futuro governo municipal lute desesperadamente para que possamos recuperar o tempo perdido no último quartel. Dentro de recursos federais cada dia mais escassos, de arrecadação municipal em baixa,  mais que nunca é necessário priorizar as verbas para as áreas mais críticas. Não somos ingênuos ao ponto de imaginar que o futuro gestor não tem seus compromissos eleitorais, deve ter , no entanto, a inteligência de utilizar os mais capazes assessores da sua base de apoio. Áreas como Saúde, Educação e Cultura  precisam ser encabeçadas por técnicos da mais alta qualificação, já não cabem, nos dias de hoje, meros marionetes, amadores e simples prepostos. O futuro administrador terá, necessariamente, que entender o Crato como integrante de um Cariri praticamente conurbado. Será necessário, quebrar o nosso bairrismo crônico e  manter parcerias próximas com Juazeiro, Barbalha, Brejo Santo e demais cidades ,  com fito de conjuntamente tentar resolver problemas e obstáculos comuns. Carecemos, eternamente, de obras mínimas de infraestrutura como calçamento de ruas, reforma de estradas vicinais, saneamento urbano, construção de espaços de convivência como praças e logradouros. Temos a URCA que precisa ser vista carinhosamente como um importante fator no desenvolvimento das políticas locais.     E o mais importante, na minha visão,  é não perder o foco no sentido de impulsionar a Cidade do Crato nas suas precípuas e históricas vocações, tendo um olhar especial para a forte Cultura local e o nosso gigantesco patrimônio ecológico. Além de tudo, depois de muitos anos, temos agora um alinhamento de planetas com o Governo Estadual, multivitorioso  em eleições locais, além de ter bebido, desde criancinha, as benfazejas águas das nossas fontes.
                            Por tudo isso, me sobra ainda algum otimismo.  Faço votos para que Zé Ayrton e André Barreto possam nos restituir um pouco do fulgor de outrora. Nem precisamos de uma economia intensamente pujante e de um comércio voraz.  Basta-nos  uma cidadezinha  alegre, justa, acessível,  brejeira, saudável, musical em que seus habitantes , a cada dia, possam louvar o milagre  da vida com seus incontáveis mistérios.

Crato, 07/10/16  

                                  

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

sábado, 20 de agosto de 2016

Um Ninho de Mafagafes


"Não ir ao teatro é como fazer a toilette sem espelho."
 Arthur Schopenhauer

                                   O Teatro acompanhou de perto a história caririense. Cem anos após a Missão do Miranda já tínhamos por aqui a Sociedade Melpomenense de Teatro, em plena atividade. Nos  primeiros vagidos do Século XX , o pernambucano Soriano de Albuquerque fundaria o Grupo Teatral “Romeiros do Porvir” , com teatro montado na Rua Grande em Crato. Outras salas apareceriam na Rua do Fogo e na Sociedade São Vicente de Paulo, na Praça da Sé. Nos anos quarenta, Waldemar Garcia , cratense, o maior nome do Teatro cearense no Século XX, fundaria o Grupo de Teatro Amadores Cratenses  e , em Juazeiro, já funcionava um Teatro Escola, encabeçado por Menezes Barbosa. As três décadas que se seguiram  viveriam, basicamente, do teatro estudantil e de alguns  visionários e abnegados  . O advento das Mostras Cariri das Artes, já nos anos 90, parece ter feito despertar, novamente, as Artes Cênicas no Sul do Ceará.
                                   Esta pequena síntese  histórica brota  da necessidade de entusiasticamente contextualizar as artes performáticas  na nossa região, quando terminamos por assistir ao espetáculo “Poeira” do Grupo Ninho de Teatro aqui do Cariri. O Ninho com sua força gravitacional congregou atores , atrizes , diretores inspirados, que há mais de dez anos vinham, obstinadamente, trilhando o difícil e árduo caminho de fazer um teatro de qualidade, mesmo diante dos terríveis obstáculos das verbas exíguas, da ausência de Secretarias de Cultura  e do amadorismo.  Acompanho, como amante dos palcos, a evolução vertiginosa do Grupo que, dia a dia, terminou por se vivificar como um dos mais importantes de todo o estado do Ceará. Eles fazem Arte como missão e vocação e sabem , como dizia Cacilda Becker, que Teatro não é negócio, sempre dá prejuízo contábil, mas que os ganhos auferidos vão muito além de um simples Código de Barras.
                                   O Grupo Ninho é, de longe, o mais premiado do Cariri. Participou do Projeto “Palco Giratório” do SESC, estará, em breve no Rio, apresentando-se nas Paraolimpíadas, e este ano estará novamente no badalado Festival de Teatro de Guaramiranga. Seu último espetáculo, “Poeira”, para mim é antológico. Pareceu-me, na minha avaliação de puro espectador, um das melhores obras já produzidas em toda a história das Artes Cênicas cearenses.  Uma emocionante reverência à  trajetória  dos Mestres da nossa Cultura de Tradição , espetáculo milimétrica , coletiva e laboratorialmente  produzido, ao longo de três anos, sob orientação do LUME Teatro de Campinas em São Paulo. Percorrendo um caminho tão pantanoso, com risco permanente de cair no caricato, de afundar-se na religiosidade romeiresca, os integrantes do NINHO tiveram a leveza de arrancar a vida pulsante da Cultura popular, juntando Arte & Vida & Poesia, a essência final do Teatro.
                                   A persistência do NINHO , a formação acadêmica de muitos dos seus atores, a orientação de outros profissionais mais experientes  fizeram com que se elevasse a qualidade do trabalho a um patamar poucas vezes visto  por aqui. O resultado de tudo , mais que surpreendente: é emocionante. O NINHO e seus mafagafinhos : Edceu Barboza, Elizieldon Dantas, Jânio Tavares, Joaquina Carlos, Monique Cardoso, Rita Cidade, Sâmia Oliveira e Zizi Talécio acabaram por me convencer que é possível, sim, fazer Teatro da mais alta qualidade, com nível profissional, sem quase nenhuma ajuda governamental,  com a inexistência orçamentária das nossas Secretarias de Cultura e, mais, sem que ao menos nossa cidade possua uma Sala de espetáculos que mereça esse nome. Essa realidade se por uma lado é alentadora e enche nossos olhos,  por outro lado trava-nos a língua com o fel da pergunta que não pode calar : “Que Teatro fabuloso não poderíamos desenvolver, se a realidade fosse outra ?
                                   O GRUPO NINHO de Teatro , ontem, fez florescer, diante dos meus olhos, sua mais nova ninhada. Que espetáculo meninos ! Vocês , hoje, se juntam a Soriano de Albuquerque e Waldemar Garcia : fazem parte da vitoriosa trajetória teatral da nosso Cariri. Nos últimos sessenta anos,  ninguém vez teatro, por aqui, no nível que vocês apresentam hoje !  Quem ainda não viu o “Poeira” , se avexe !  Vocês estão refazendo a maquiagem sem o espelho, como dizia Schopenhauer , vão ficar arrepiados  e de cara borrada . Voltem ao NINHO, imediatamente, amigos !

Crato, 20/08/16