sexta-feira, 26 de maio de 2017

Bummm !


Eita , que este  mundo em que vivemos, hoje,  não é para amadores !  Trump estrompa os Estados Unidos , Kim Jong-un assombra na Coréia do Norte, brincando com seus mísseis. Só nos últimos dias,  tivemos um atentado  em Manchester, na Inglaterra, com mais de vinte crianças trucidadas por um terrorista islâmico suicida; no Brasil manifestações generalizadas contra um presidente  pego com a mão na botija em esquemas de corrupção , esperando o último empurrãozinho para ser defenestrado;  e um outro atentado em São Paulo, patrocinado pelo estado,  contra  toxicodependentes de rua que , ao invés de tratamento adequado e acolhimento, recebem cassetetes e repressão policial. A sociedade moderna está contaminada com uma explícita e intragável sanha de preconceitos de toda espécie. A nossa classe política encontra-se eviscerada, excrementos  à mostra. As redes sociais, a caixa de ressonância destes tempos sombrios, destila veneno contra nordestinos, judeus, homossexuais, imigrantes, negros.  Sentimo-nos como se  o planeta fosse um grande paiol de pólvora, com vinte doidos dentro,  fumando charuto, enquanto, acendem uma fogueira para comemorar o São João. Bumm !
                                   A cena mais patética destes tempos tenebrosos, não aconteceu em Brasília, até porque não temos mais governo . Ruiram as últimas decrépitas paredes da nossa República.  Restou apenas uma quadrilha de facínoras , encastelada  e dividindo seu butim. Para mim , a invasão policialesca da Crocolândia em São Paulo  foi a mais patognomônica ação dessa era sombria em que vivemos. Como sempre, a elite política e econômica do país, nega-se a encarar nossas mazelas de frente. Procuramos soluções superficiais , na tentativa de solucionar a complexidade dos nossos problemas. E foi , assim, historicamente, sempre ! Dizimou-se o Arraial de Canudos, trucidando um bando de esfarrapados famintos, intencionalmente, para que se não enfrentassem as perversas  causas sociais do fenômeno.  Bombardeou-se o “Cadeirão da Santa Cruz do Deserto”, sob pretexto de dispersar fanáticos religiosos, temendo a mesma elite, na verdade,  os naturais laivos socialistas do sonho do Beato Zé Lourenço. No Sudeste,  houve inúmeras denúncias anteriores de higienismo do estado, quando se recolhiam mendigos e moradores de rua, soltando-os em cidades mais distantes, ou no mar,  numa reedição da stultífera navis medieval. A medida tomada pelo almofadinha prefeito de São Paulo, assim, tem respaldo histórico. Talvez seja por isso mesmo que ele tenha a mania de se travestir de Gari : pretende varrer aquilo que considera a  sujeira humana, da cidade. Para ele, pobres , famintos, viciados não fazem parte do gênero humano: são lixo.
                                   A invasão policial e violenta da Cracolândia, com a expulsão dos toxidependentes, a destruição de prédios tombados, alguns com famílias dentro que terminaram feridas, teve repercussão internacional. Entidades  psiquiátricas e de defesa dos direitos elementares da cidadania se puseram frontalmente contra. A medida, além de violenta e higienista, beira às cenas de Campos de Concentração na II Guerra. Expulsaram-se os toxicômanos , simplesmente, sem nenhum projeto atrelado de reabilitação . Alguns foram internados contra a vontade, inclusive medida ilegal sustada logo depois pela justiça. Na inglória tentativa de se “limpar” a paisagem urbana do Centro de Sampa, criaram-se muitas e muitas outras Cracolândias. Dória jogou inseticida em algumas formigas que perambulavam por fora do formigueiro e imaginou que , assim, acabaria com a saúva no milharal. Colocou um dique para impedir o fluxo do rio e nem imagina que,  represada a água, agora a enchente virá com muito mais força.

                                   Precisamos enfrentar os nossos problemas na sua raiz se  queremos tê-los solucionados. Já que Dória , o Super-Gari, investiu-se da missão de limpar e higienizar o país, bem que poderia começar pela classe política que hoje perfaz a maior fossa séptica do Brasil, a começar por aqueles do seu partido. Dificilmente Dória dirigirá seu trator nessa direção , simplesmente porque não tem ideias suicidas. Sempre é mais fácil enxotar maltrapilhos e viciados. Mas já que deu a ideia, bem que o povo pode inspirar-se nele e partir para a limpeza geral do aterro sanitário que é a política partidária brasileira. Essa sim a maior produtora de vandalismo na nação. Os confrontos de Brasília, na última segunda-feira,  já foram um bom começo !  Esse é o higienismo que necessitamos !

26/05/17

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Panelada e Caititu



J. Flávio Vieira

                               A segurança de Matozinho  sempre foi entregue a três ou quatro samangos que corriam o risco eterno de morrer de enfado ou de preguiça. Tanto assim que Severo  , o mais tranquilo guarda local, era um dos mais procurados para indicar pules no jogo do bicho, tanto vivia a dormir e sonhar pelos cantos da delegacia. A cadeia local vivia entregue às moscas e o escrivão, Toinho do BO, já até desaprendera  a escrever. As embuanças  resolviam-se na rua : bebedeiras, briga de marido e mulher, tapas no pé-do-ouvido e muxoxos. Raramente as lambedeiras faziam bainha em bucho de gente.  Matozinho, assim, não podia ter queixas da sua polícia municipal.
                        A coisa pesava, no entanto, quando, periodicamente, principalmente em tempos de eleição, a Polícia Militar do estado vinha mostrar serviço na cidade. Os milicos chegavam, então, enfatiotados, com ar de superioridade, humilhavam os guardas locais e sojigavam o povo, a toda hora, dando geral, buscando armas, colocando sob suspeita  tudo quanto era de vivente. Nesta ocasiões, de preferência, prendiam logo os dois mais conhecidos malacas da Vila : “Panelada” e “Caititu”. Os dois  possuíam uma extensa Folha Corrida preenchida de falcatruas,  como  pequenos furtos, negócios enrolados, compra e venda de cheques sem fundo, receptação de objetos afanados, contratação de pistoleiros e coiteiros,   estelionatos de pequena monta. Os dois malandros viviam destes rolos , mas tinham uma profissão oficial que lhes envolvia numa certa aura de honestidade. “Panelada” dizia-se mecânico numa pequena oficina na periferia da vila,   e  “Caititu” exercia a especializadíssima profissão de coveiro.
                        Pois, naqueles dias, a Polícia Militar entrou com estardalhaço em Matozinho. Vinha investigar o roubo reiterado de cargas de caminhão. Dirigiram-se diretamente ao Dr. Olímpio Matagão, o juiz de direito em exercício,  naqueles cafundós do judas.  Olímpio sempre fora mais desmantelado que queda de helicóptero. Fazia acordos com rábulas por debaixo dos panos, vendia sentenças, sem pejo, como quem negocia  gimgibirra ou quebra-queixo em banca de feira. Contava-se dele que , um dia, tendo negociado com um matuto uma sentença a  favor, numa briga de terra, o babaquara invadiu uma audiência de Matagão e gritou , como se fora a coisa mais natural desse mundo :
                        --- Seu juiz, eu vim trazer o dinheiro que o senhor pediu pra julgar aquela questão a meu favor !
                        Matagão encolerizado, levantou-se , saiu empurrando o matuto à base de safanões, gritando-lhe impropérios , até jogá-lo atrás de uma porta,  e, enquanto metia-lhe a mão no bolso e pegava o maço,  lhe sussurrou :
                        --- Tá doido , Mané ! Isso se dá é detrás da porta e não na frente dessa ruma de fofoqueiro !
                        Matagão, de posse das informações da PM, já pensando em alguma ôia que pudesse vir do Sindicato dos Caminhoneiros , arrolou as figurinhas carimbadas de sempre , a fim de colher informações : “Panelada” e “Caititu”. O primeiro a ser ouvido : “Panelada”.
                        Olímpio, com ar sério e enérgico, começou o interrogatório e o jogo de caça ao rato :
---  “Panelada”, você conhece “Caititu”?
O malaca já providenciou o primeiro drible:
--- Conheço sim, seu juiz ! Mas caçaram tanto que quase num tem mais esse bicho aqui em Matozinho ! Tá em extinção !
Olímpio , exasperou-se :
--- Não se faça de engraçadinho não, seu moleque ! Você sabe de quem eu tô falando !Me fale dos caminhões !
“Panelada” providenciou o segundo traço :
---  Tem o Fênemê, o Chevrolet e o Ford ! O senhor tá querendo comprar um ?
Matagão, nervoso, voltou a atacar:
--- Quero saber, se você sabe quem está nas estradas tirando os carregos ?
--- Na de Bertioga, o terreiro de “Pai Catolé”. Na estrada de Serrinha,   pode procurar “Mãe Zulene de Iansã”.
                        Fulo da vida, Matagão mandou que levassem “Panelada”, que driblava melhor que Garrincha na direita,  e trouxessem  “Caititu” para o interrogatório. Quem sabe ele não resolveria cooperar? O homem chegou naquela tranquilidade típica dos inocentes.
Matagão, recompôs-se   e atacou :
--- “Caititu”, você conhece “Panelada”?
O malaca mostrou que não entregaria o jogo fácil:
--- Conheço, seu juiz ! Mas deus me livre de comer ! Fico logo impando !
Olímpio percebeu que estava diante de um outro Pelé  e interrogou novamente:
--- Você tá se fazendo de mal-entendido, seu malaca ! Diga logo onde esconde a carga roubada dos caminhões !
Caititu nem bateu a passarinha :
--- Sei disso não, seu doutor ! Carga ? Caminhão ? Eu sou coveiro, não vendo casa, não vendo óleo, não vendo leite... Nem sentença, seu juiz, nem sentença ...
Matagão entendeu a indireta e , fumaçando por todas as chaminés, ameaçou :
---- Venha ! Venha !Sabia que eu possa deixar você apodrecendo na cadeia, seu meliante ?
Caititu nem mudou o tom de voz e deixou claro a vantagem que levava sobre o juiz por ser coveiro :
--- O senhor pode me prender, seu doutor ! Fico lá um ano, dois, dez, mas um dia eu saio ! Agora se eu prender vocimicê, eu quero é ver ! O Senhor não sai de lá mais é nunca !

Crato, 12/05/2017


sexta-feira, 5 de maio de 2017

3 de Maio : Semente e Fruto


                                               Era um domingo na pacata Vila do Crato. Há exatos duzentos anos,  a vilazinha resumia-se a uma pequena praça central de onde saiam radialmente onze ruelas. No extremo sul cearense,  o Crato sempre teve uma ligação fortíssima com Pernambuco, mesmo depois da nossa emancipação daquele estado,  no finalzinho do Século XVIII. Boa parte da nossa colonização branca dali procedeu, de lá  também importamos a nossa mais preponderante cultura:  a cana de açúcar e as ideias iluministas viriam também a reboque. Naqueles idos, o Ceará vinha assoberbado de muitos problemas: uma seca que já se arrastava por mais de dois anos e  uma consequente carestia nos gêneros de primeira necessidade; o domínio português no comércio da Província revoltava os comerciantes nativos; por outro lado, após a chegada da família real,  o Sul do país começou a se tornar preponderante no Brasil, relegando o Nordeste a um plano inferior.
                                   Pois foi em meio a esse  cenário,  que naquela fatídica manhã de  3 de Maio de 1817 , um seminarista cratense do Seminário de Olinda, de 22 anos, envergando sua batina negra,  subiu ao altar da Igreja da Sé , após a missa dominical. Com voz forte e empostada leu um manifesto enviado de Recife em que proclama a Independência e a República no Brasil. Na plateia uma elite local constituída de proprietários rurais e comerciantes e muitos populares aplaudem freneticamente a iniciativa. A reviravolta política progride com o hasteamento da bandeira branca da república e a deposição imediata de toda a burocracia monárquica cratense. Novos serventuários seriam imediatamente eleitos , o Capitão-mor da Vila , Pereira Filgueiras, representante maior da monarquia na região,  num primeiro momento, pareceu aderir ao movimento libertário e seria içado a “Comandante das Tropas” revolucionárias. Dois dias depois conseguiriam a adesão de Jardim, uma das mais importantes vilas caririenses na época.
                                   O sonho pioneiro e premonitório da República do Crato durou, exatamente, oito dias. O governo central retomou as rédeas do poder político com a ajuda das elites comerciais e feudais num Ceará de forte viés lusitano. A bandeira da República foi defenestrada e rasgada. Os revoltosos foram detidos entre eles:  José Martiniano ( o seminarista revolucionário ), seus irmãos Tristão e Pe José Carlos. Junto ,  a primeira heroína e presa política brasileira , a matrona dos Alencares : D. Bárbara. Eles permaneceriam detidos, precariamente,  em prisões pútridas e fétidas em Fortaleza,  Recife e Salvador. Por um mero acaso, escapariam da pena de morte e  seriam liberados, quatro anos depois, por conta de ordens da Corte, após uma Anistia Geral que se seguiu à  Revolução Liberal do Porto.
                                   Na última quarta feira, dois séculos depois, um ator subiu ao altar da Sé e refez o ato e o discurso históricos. A pequena plateia , após a missa, deve ter se perguntado, já sem a emoção passada:  que  legado deixou a fugaz República do Crato ?  Aparentemente, resumiu-se tudo a um gesto tresloucado e inglório. A partir daquele momento,  começamos a computar baixas. O Nordeste foi, pouco a pouco, perdendo sua força política e econômica no cenário brasileiro, vendo a gangorra guinar para  o sul e sudeste . O interior do Ceará, então o apogeu da província,  foi paulatinamente  percebendo  sua influência esvair-se para Capital. E o Crato , depois do segundo quartel dos Novecentos, observaria, atônito, seu poderio mercantil e político obnubilar-se no Cariri. O movimento seminal encetado em Pernambuco, no entanto, de tão curta sobrevivência, fincou ideias iluministas que redundariam logo depois na Independência do Brasil, embora o sonho republicano ainda tivesse hibernado por mais de setenta anos.
                                   Acredito que o mais importante testamento deixado pelos revolucionários de 1817 tenha sido a coragem e a determinação de lutar contra as forças opressoras, mesmo colocando o pescoço no laço da forca. No fundo, eles não titubearam em plantar uma árvore que daria frutos para serem saboreados por futuras gerações. Hoje , quando novamente a Democracia é colocada em cheque; quando a Escravidão tende a reaparecer, no baile,  fantasiada de reforma trabalhista; quando o entreguismo governamental põe em risco a Independência conquistada em 1822;   quando a miséria e a fome reaparecem como plataforma de governo; quando os verbos administrar e afanar já são sinônimos; o ideário e a coragem de Bárbara, José Martiniano, Pe Carlos José e Tristão , mais que nunca parecem exemplares e atuais. O Altar da Pátria aguarda ansioso um outro três de maio.


Crato, 05/05/17  

sábado, 29 de abril de 2017

Afrodízio sapeca alho no Vampiro

       


J. Flávio Vieira

                                               Afrodízio  Chinchorro subiu, ontem, num banco da Praça Siqueira Campos,  e cuspiu, quase aos berros, um discurso mais inflamado que olho de menino com conjuntivite. Quem o visse de longe, teria a certeza que se tratava de um Bakunin , ou um Engels falando à massa, depois de lhe terem pisado na unha encravada. Chamou todos à luta, conclamou o povo para invadir as ruas que lhes pertenciam por direito, contra os despautérios  promovidos pelo governo com suas medidas assassinas , que rasgavam e picotam a CLT, restabeleciam a Escravidão no Brasil  e destinavam a aposentadoria  apenas para  uns poucos macróbios : Matusalém, Noé, Tália Márcia, Dr. Borges, Belo Leite.
                                   --- Às armas se for preciso ! Dignidade ou Morte ! -- Vociferou Afrodízio , com rosto vermelho como se untado de urucum.
                                   Na Siqueira Campos,  muitos manifestantes já se concentravam, esperando o deslocamento até o Giradouro, percebendo que , na perspectiva do estupro, à vítima cabia ao menos o direito de espernear. Bandeiras vermelhas, pobres, professores, religiosos, organizações sociais se mesclavam , numa brilhante colcha de retalhos, uma pequena mostra daquela maior que compunha, historicamente,  a grande aquarela brasileira. Estranhamente, agora,  faltavam os membros antigos da indignação seletiva : as panelas de Teflon e as Hilux com seus adesivos Verde-amarelos. À Mídia, também, já não interessava a transmissão das levas de manifestantes, agora apelidados de vândalos e de barreira aos verdadeiros trabalhadores que seriam aqueles que não adeririam à Greve. A turba se perguntava, então,  se quem estava impedindo as pessoas de trabalharem eram eles ou o governo que produziu, em pouco mais de um ano, quatorze milhões de desempregados.  Por que servir pão de ló para os  legislativo e judiciário e só  mucunã para o povaréu ?
                                   A fala dura e progressista de Afrodízio, nosso Lênin tupiniquim, mostrou-se a  todos como típica dos tempos bicudos em que vivíamos. Chinchorro nunca fora de se manifestar publicamente, levara sempre vida reclusa e pacata. E mais : sempre fugira do trabalho,  como vampiro do alho. Até os quarenta , como filho único, vivera à sombra frondosa da mãe, pensionista de um alto funcionário da Receita Federal. Depois que seu guarda-chuva foi fazer a contabilidade com o Criador, rápido   engraçou-se da viúva de um procurador e continuou levando a vida agora sob novo patrocínio. Não precisa achar nada, só procurar o que fazer, como seu antecessor. Nem em outubro, com sol a pino, se conseguia ver suor escorrendo do seu topete. Assim, o discurso de Afrodízio desencadeou emoções díspares na plateia. Os empresários locais tomaram aquilo como uma gozação: logo quem vinha a público defender e incitar os trabalhadores, um preguiçoso de carteirinha! Os manifestantes, por outro lado, entenderam a revolta de Anfrízio como sintomática dos novos tempos : até ele -- quem diria ? -- estava se sentindo prejudicado, a que ponto o descalabro governamental tinha chegado !
                                   A turba, finalizado o discurso inflamado  e inflamável , aplaudiu-o freneticamente. Aguardavam-no para a passeata e as manifestações que se seguiriam. A coisa está feia, comentaram com ele, até Anfrízio vai fazer greve ! O homem, no entanto, ainda rubro e meio encolerizado , fez chegar ao ápice sua indignação :
                                   --- Não ! Não ! Não ! Contra esta bandalheira toda, a safadeza generalizada que agora governa esse país, eu deixo aqui o meu protesto .  Vocês, políticos,  para não trabalhar ainda precisam roubar , afanar e lascar os outros  ! Vocês não são dignos do ócio ! Irresponsáveis ! Não quero me misturar com salafrários feito vocês !  Amanhã, mesmo vou procurar emprego !


Crato, 29/04/17 

sexta-feira, 21 de abril de 2017

De Calças Baixas

                               
Tendemos a ver os novos tempos com  olhos embotados  em névoas de passado. Os novos costumes, as recentes nuances da Moral, a dinâmica inevitável do fluxo da humanidade  caem nos nossos olhos, em geral, como argueiros. Difícil se conseguir fazer um upgrade na nossa visão de mundo. O mais comum é que nos fossilizemos em algum momento da nossa adolescência. Frases como : “Nosso tempo era muito melhor !” , “Na nossa época, sim, havia respeito!” , “Esses meninos de hoje estão perdidos!” brotam, sempre,  de algum sentimentalista louco. Alguém  que reclama da Ferrari que passa veloz, montado no seu jegue ronceiro. A vida passa, as horas escorrem pela ampulheta, a paisagem se modifica e  com os costumes e hábitos não poderia ser muito diferente. Comparar , sem o necessário distanciamento, práticas e peculiaridades temporais, sem projetá-las em novos e modernos contextos é um exercício iníquo e inglório. Mas claro que nem tudo que vem banhado de novo, necessariamente, traz consigo consistência de evolução. Murilo Mendes dizia que as coisas no planeta mudam muito mais do que evoluem. Diante da Esfinge do verde , pronta a nos devorar na nossa tentativa de decifrá-la, é preciso catar as escolhas  do carcomido e do pútrido.
                        Acho, assim,  sempre temeroso fazer ilações sobre comportamentos modernos, totalmente díspares dos valores de que fui infundido. São aberrações ou apenas uma mera consequência do curso normal da existência ? Esse preâmbulo me pareceu necessário para explicar a minha estupefação,  quando venho presenciando condutas esdrúxulas de alguns futuros colegas de profissão. Estou diante de deformidades reais, com fantasia de moderno   ou   apenas ficando velho, ranzinza e obsoleto ?
                        Dias atrás, sextanistas de Medicina, da Universidade Vila Velha, no Espírito Santo, encontraram uma modalidade nova de se fotografarem antes da formatura. Todos de jaleco e estetoscópio no pescoço, baixaram as calças e mantiveram as mãos , na altura do abdômen, simulando a imagem da genitália feminina. Publicaram a fotografia em Redes Sociais com a legenda de “Pintos Nervosos”. A ideia que me passaram, claro, foi a de que, uma vez diplomados,  estariam todos aptos e com recursos suficientes para se empanturrarem em libações sexuais. Estariam na mira pacientes e acompanhantes ? As festas de término de curso, nos últimos tempos, perderam a solenidade típica de anos atrás. Frequentemente, em bailes monumentais, os novos formandos são chamados , um a um, ao som de músicas do mais baixo qualidade, muitas vezes aparecendo eles de sunga, ou fantasiados de  gogo boys, executando danças com forte viés sexual. Assim são apresentados à sociedade presente que aguarda, ansiosa, novos e exímios profissionais da arte médica.
                                   Essas mudanças abruptas coincidem com a disseminação de Escolas Médicas Privadas, geralmente cobrando altíssimas mensalidades dos seus alunos. Grande parcela destes empréstimos é financiada pelo mercado financeiro, com prestações a serem quitadas a se perder de vista. Os alunos, assim, se diplomam sem qualquer sensibilidade social ou ética. Investindo maciçamente na  carreira, pretendem, a todo custo, fazer valer, financeiramente, a aplicação. Sentem-se como meros agiotas  trabalhando na Bolsa de Valores. As especialidades são catadas, pragmaticamente, entre aquelas mais lucrativas.  As consultas e procedimentos que virão,  terão o fito único de ressarci-los  do  capital empregado, com os lucros, claro, que pensam em auferir. O paciente que já foi o fim único da Medicina , passa a ser relegado a um simples meio. Muitos dos novos profissionais falam apenas em qualidade de vida ( deles), carros importados, carreiras políticas. De há muito se vêm diplomando apenas técnicos da arte médica, alguns de grande qualidade e conhecimento científico, mas sem nada do perfil humanístico que a Medicina continua a exigir. Hipócrates é coisa do passado remoto; o Deus Asclepius foi substituído por Hermes e Mercúrio.
                                   Os futuros médicos que baixaram as calças, no Espírito Santo, infelizmente, são , hoje, o protótipo do novo esculápio. O Código de Ética já não tem nenhum significado, a nova relação médico-paciente passou a ser meramente comercial e regulamentada, pois, pelo Direito do Consumidor. Não há nenhuma diferença palpável entre o técnico de refrigeração que conserta a geladeira e o médico atual que tentará dar um jeito numa máquina muito mais complexa. É esta realidade que hoje nos salta aos olhos. E sei que vou ser chamado de retrógrado, abestalhado e velho, pois ainda creio que a confiança, o toque, a solidariedade, a compreensão,  o calor humano , a luta contra as injustiças sociais, o olho no olho são medicamentos mais poderosos que muitos outros que pendem das prateleiras das farmácias. O que presenciei semana passada não foi um strip-tease de alguns doutorandos, mas a Medicina Brasileira literalmente baixando as calças.


Crato, 20/04/17     

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Um Botão de Manacá




                                              
Um botão de manacá  pende por sobre uma pequena rocha no campo . Ele está grávido como uma promessa, pulsante na sua potência reprimida.  Resigna-se, por um lado,  sentindo-se apenas a perspectiva da florzinha vindoura. Está naquela encruzilhada dúbia e pétrea que a manieta entre a semente e o fruto. As borboletas livres e multicoloridas , adejam entre as rosas e, distantes do impasse existencial do botãozinho, já sonham com as pétalas que eclodirão daqui a um pouquinho ; do perfume que inundará a paisagem; do orvalho que pairará por entre as flores, atraindo os raios solares para o milagre refratário do arco-íris. O botão, as borboletas, os colibris  apenas aguardam o desenlace irremissível e  mágico do milagre. Como os sapos que hibernando sobre a areia esperam o clique da chuva no interruptor do sono e da vigília.
                            Imantados do ciclo natural da vida, do moto-contínuo dos solstícios e equinócios,  percebem, sem ânsia e sem atropelos,  que o botãozinho logo mais eclodirá inundando o mundo com seu aroma e seu colorido. Dias depois, o pólen  será espargido ao mundo pelas borboletas, difundindo o sêmen criador;  logo depois, a florzinha  murchará, as pétalas ressequidas cairão uma por uma na terra , adubando o solo e realimentando o manacá nas futuras frutificações. Há uma mão invisível lançando o bumerangue da vida, entre auroras e crepúsculos, primaveras e verões, entre o grão e o pomo,  o gênesis e o apocalipse.  
                            A rocha, próxima ao broto pendente, a princípio, pode empanturrar-se  de empáfia, arvorando-se ares de eternidade. Afinal está ali fixa , estática e praticamente com a superfície imutável há séculos e séculos. Vestiu-se apenas de algum limo no transcorrer de muitos anos. O botão do manacá , fatalissimamente, na sua mutabilidade, se trajará de cores, se borrifará de perfumes inebriantes para um baile único , fugidio e efêmero.  A rocha, na sua louca presunção, nem sequer percebe que o desaparecimento do botãozinho, após a festa , é apenas momentâneo e que ele voltará , logo depois, multiplicado, trajando muitos outros vestidos e adereços para o sempiterno bailado da existência. É que a vida monta-se na mutabilidade,  no corcel arrisco do efêmero. Viver é continuamente trocar roupas e figurino para o ininterrupto bailado da vida.
                            O Cariri, nesta semana, se viu chocado e entristecido quando uma das flores mais almiscaradas do seu manacá feneceu e caiu por terra. D. Newton havia preenchido de cor e aroma nossa paisagem urbana por muitos e muitos anos. Chegamos a imaginar que , como a rocha do nosso jardim, seria imarcescível.  Esquecemos, por um momento, que a vida carrega consigo , como irmã siamesa, a mutabilidade que se nutre do transitivo e do fugaz. Abatemo-nos ante  a flor despetalada, mas é preciso entender que a árvore continua firme e intacta e que o pólen acabou de ser distribuído copiosamente pelos campos opimos.  Seu exemplo, sua lembrança, seu testemunho humano continuarão brotando nos nossos pés de serra, encantando-nos com suas cores e com sua fragrância.


Crato, 07/04/17

sexta-feira, 31 de março de 2017

Sapato Novo


J. Flávio Vieira


                                               Se há um troço difícil de calçar na vida de um homem é a tal da aposentadoria. São poucas as vezes em que o novo pisante  não se apresenta grande ou pequeno demais no pé do antigo trabalhador : geralmente começa a fazer calo, a criar bolhas, levando muitas vezes à total inadequabilidade. As mulheres , por outro lado, mais facilmente incorporam essa nova fase da vida. Mais afeitas , historicamente, às labutas da casa, voltam a se interessar pelos afazeres do dia a dia, investem sua atenção nos netos e, mais sociáveis do que os marmanjos, participam de atividades lúdicas próprias à terceira idade e, com tempo disponível, mergulham em excursões , viagens, com amigas da mesma geração. Mais espiritualizadas, na sua maioria, voltam-se para atividades religiosas e caritativas. Já os homens, coitados, não têm nenhuma serventia em casa. Quando se metem a ajudar nas atividades do lar, quase sempre é uma tragédia. Brigam com os funcionários, com os filhos e com a patroa. São , rapidamente, enxotados de casa, antes que as secretárias peçam demissão e a mulher o divórcio. Buscam então guarida nas únicas entidades que acolhem outros aposentados e  os suportam : os bares e as rodinhas de praça.
                                   Aqui em Crato, as rodinhas se organizam , naturalmente, por castas sociais. Nada de preconceito, apenas os assuntos de natureza comum apresentam-se bem diferentes. Os mais abastados, se reúnem na calçada da Farmácia Gentil que terminou sendo apelidada de Senado , tanto por conta dos respeitáveis frequentadores, como, talvez, por conta de a própria rua carregar o nome de um Senador : Pompeu. A classe média, em geral, se congrega na  Praça Siqueira Campos, que poderia até ser apelidada de Câmara dos Deputados. Já os velhinhos mais simples montam rodinha na Praça da Sé, que pode ser considerada nossa outra Câmara de Vereadores.  Ali corre sempre uma pauta do dia, com assuntos que se estendem desde a questões políticas municipais, estaduais e nacionais; aos embates desportivos;  até às fofocas, ao disse-que-disse, ao quem-com-quem. Invariavelmente, com olhos untados de um passado longínquo, todos se escandalizam com os rumos que vão tomando os costumes modernos e a conclusão final é única :
 --- No nosso tempo ? Ah! no nosso tempo, sim ! Naquele tempo tinha vergonha, tinha regra ! Não era essa esculhambação, não !  Era muito melhor!
                                   Esta semana , nossa Câmara de Vereadores , na praça da Sé, discutia a aprovação da Terceirização Irrestrita pelo Congresso Nacional. O mesmo assunto se colocado em pauta, no Senado, certamente, teria mais defensores, uma vez que engloba mais figuras do patronato cratense. Ali, no entanto, com a nossa Câmara constituída mais de barnabés aposentados, a grita era geral. Rasgaram a CLT ! -- rosnavam alguns ;  Revogaram a Lei Áurea ! --- completavam, indignados,  outros. Foi quando pediu a palavra o velho Filúvio Candéia. Comedido, voz pausada, Filúvio, já beirando os noventa, fora Caixa no antigo Banco Cariri. Ele, então, soltou uma apreciação que havia escapado à maior parte dos vereadores ali da Praça da Sé.
                                   Segundo Filúvio, a votação da última semana, firmando a Terceirização Irrestrita do Trabalho, tinha sido apenas a culminância de um processo que já se vinha arrastando há muitos e muitos anos.
                               --- Os pais , hoje, geram os filhos e os entregam às babás, à TV, às academias e aos professores para os criarem. Simplesmente porque mergulhados no mercado de trabalho para sobreviver, não têm mais tempo para nada. Terceirizaram a criação dos meninos !  Se vocês repararem direitinho quase mais ninguém faz as refeições em casa, principalmente nas capitais. Terceirizamos a cozinha há muito tempo !  Os supermercados substituíram as feiras livres; a Internet  tomou de conta  do balcão das lojas . Tudo terceirizado ! A juventude fugiu das igrejas e montou seu templo nos Shopping Center, é só vocês observarem bem! Terceirização da religiosidade ! Os matutos trocaram os jumentos e os burros pelas motos! Terceirizaram o transporte !  E na política , nem é bom comentar ! Esse presidente que tá aí? Ganhou eleição ? Teve voto? Foi também terceirizado, meu povo! E nós, também, pobres eleitores do país, colocamos no Congresso uma laia de ladrões e corruptos que envergonha até mesmo os traficantes do morros do Rio de Janeiro ! O que fizemos ? Terceirizamos nossa dignidade e nossa cidadania! E não ficou só nisso não, meus amigos, completou Filúvio para uma plateia atenta e sem resposta. Até no amor, meus amigos, até no amor  ! Semana passada, Beroaldo, um amigo meu que mora na Bréa, aqui no Crato, ao voltar do trabalho, deu com a esposa pelada deitada na cama do casal, com o vizinho. Exasperado, furioso, quis saber o que aquilo significava.

---- O que isso significa, Marilu ? É ponta, é galha, é? Desgraçada !

                        Marilu, com olhos lânguidos , o fez compreender que viviam em novos tempos bem temerosos:

--- Né nada não, Beró ! Fica peixe ! Terceirizei !


Crato, 31/03/2017