sexta-feira, 21 de julho de 2017

Campo de Flores


J. Flávio Vieira

"O mundo é infinito porque Deus é infinito. Como acreditar que Deus , ser                                 infinito, possa ter se  limitado  a si mesmo criando um mundo fechado e limitado?" 

Giordano Bruno





                               Giordano Bruno tornou-se , com sua trajetória , um dos mais importantes ícones da história da humanidade. Sempre que se cogita na luta desigual da Ciência contra o obscurantismo, da liberdade de pensar e se expressar,  seu nome vê-se imediatamente linkado. Viveu este frade dominicano italiano, no Século XV, ainda sob o domínio absoluto da interpretação religiosa em todas as facetas da vida humana. Bruno envolveu-se firmemente com os horizontes da Cosmologia Científica que nascia sob intensa perseguição religiosa. Defendia a infinitude do universo, a existência de outros planetas e  sistemas solares. Propalava que todas as coisas têm alma e que, portanto, deviam ser respeitadas e protegidas, fazendo-se assim um dos primeiros ambientalistas. Giordano também pregava que   Deus devia ser procurado no interior de cada pessoa e não nas coisas ou nos templos, o que confrontava diretamente o sistema hierarquizado das igrejas instituídas. Estas pensamentos ,na época, foram vistos como extremamente heréticos, não apenas pela Igreja Católica mas até pelos Calvinistas e Luteranos. Terminou preso e julgado pela Inquisição Romana. Torturado,  não abjurou. Manteve-se intransigente quanto aos seus princípios, sendo queimado na fogueira, em 17 de fevereiro de 1600, no Campo di Fiori em Roma. Tinha, então, 52 anos.
                                   Visitei, nestas férias, o Campo de Fiori. Lá existe uma estátua de bronze de Giordano, esculpida por Ettore Ferrari,  ali posta no Século XIX, em sua homenagem. O local tornou-se extremamente aprazível, cercado de cantinas coloridas, frequentado por jovens, que bebem e curtem o som de  bandas executando músicas eletrônicas e reggae. Durante o dia, em fins de semana, acontece ao redor do monumento uma feira livre, onde são comercializados produtos alimentícios e artesanais. Casais sentam ao redor do monumento, enquanto entornam copos de vinhos e palestram animadamente com o bulício e a agitação característicos da idade.

                                   Aos poucos, o Campo perdeu o ar pesado, que já possuiu um dia.  Ganhou até o sobrenome de Fiori ( Flores). A galera que se diverte, certamente nem tem conhecimento do passado trágico daquele espaço. Lá de cima, por sua vez, um Giordano circunspecto , coberto por seu manto, parece feliz com a alegria palpitante dos adolescentes ao seu derredor. Imolou-se com a certeza absoluta que dias melhores viriam, que um universo sem fronteiras e nem cancelas não podia limitar os horizontes do homem. Se cada um carrega consigo os genes da divindade,   fomos criados para desfrutar todos os frutos da árvore do  bem e do mal nesse paraíso erguido sem espadas flamejantes  e sem ações de despejo. Do alto,  Giordano percebe que  o cárcere e a liberdade são irmãos siameses; que a dor e o prazer são lâminas de um mesmo sabre. Cada gole de água fresca que corre nas fontes da história da humanidade brota das cinzas de alguma fogueira onde alguém foi imolado em sacrifício por tempos melhores e menos sombrios. O Campo que um dia foi de chamas e suplício , por conta da coragem e obstinação de um homem, viu-se, magicamente,   atapetado de flores. 

20/07/17

quinta-feira, 29 de junho de 2017

A Cólera que espuma



                                                                                                                             J. Flávio Vieira

                                               Raimundo Correia, um dos mais inspirados poetas  brasileiros, tem um soneto que reputo como um dos mais bonitos da língua portuguesa. Chama-se “Mal Secreto” e diz na suas duas quadras:
Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse o espírito que chora
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!
                            Lembrei esse poema estes dias, quando o país atravessa uma fase extremamente sombria e careta.   Acredita-se que foi há seis mil anos  que os egípcios introduziram um novo método de identificar criminosos: tatuavam-nos  para evitar a fuga. Este costume expandiu-se para o Império Romano e,  no Século XIX, os americanos e britânicos procediam da mesma maneira com seus desertores afim de  facilitar o reconhecimento. Na II Grande Guerra, os nazistas utilizaram a moda milenar, marcando e numerando  os judeus , como se ferrassem um rebanho de gado. Este hábito, assim, sempre esteve intimamente associado ao que há de mais espúrio e deplorável na natureza humana.
                                   No início deste mês, dois tatuadores , em São Bernardo do Campo, Maicon Carvalho dos Reis, e seu vizinho, Ronildo Moreira de Araújo, foram presos em flagrante pela polícia civil, por um crime absolutamente insólito. Eles tatuaram um jovem de 17 anos, na testa, com os dizeres : “Eu sou ladrão e vacilão”. Os tatuadores acusaram o menor de roubo e, simplesmente, julgaram e estabeleceram  a pena. Como juízes reencarnados,  carregavam consigo , ao menos, seis mil anos de tradição neste tipo de tortura.  Não bastasse isso, cientes de que tinham sido absolutamente justos e não haviam cometido nenhum crime, divulgaram o ato, com fotos e detalhes,  sentindo-se heróis destemidos e audazes, na Ilíada dos novos tempos : As Redes Sociais.
                                   O jovem tatuado é usuário de drogas, o caso repercutiu mundo afora e os novos Taliões terminaram presos, respondendo a crime de tortura que , em caso de condenação,  pode resultar em pena de dois a oito anos de cadeia. Por incrível que possa parecer, muitos o comentários  na mídia, pareceram francamente  a favor da atitude tomada pelos tatuadores: eles têm seguidores ferrenhos dos seus métodos. Não nos causa espécie esta constatação quando vemos, todo santo dia, pessoas, das mais diversas classes sociais, defendendo a Tortura, a Pena de Morte, o Armamento da população Civil,  o Extermínio dos Índios e  Posseiros, a Ditadura, Corruptos e Corruptores. Este mesmo grupo, dizendo-se, em geral, religiosos e cristãos ( pasmem os pouco indignados de plantão !), posta-se francamente contra  os defensores dos Direitos Humanos  e das Causas Ambientais. Avançamos, imensamente, nos últimos séculos na área tecnológica, mas humanamente, mal descemos das árvores.
                                   Imaginem a barbárie, se ,de repente, todos passarem a se arvorar de juízes e policiais! Sei que essa ânsia salta fácil do cidadão comum quando percebe o total esfacelamento da justiça no país. Em quem diabos mais se pode confiar se até muitos integrantes da Suprema Corte do Brasil mostram-se parciais, volúveis, partidários e intensamente ligados aos ditames do Capital ? A pena egípcia executada contra o ladrão de bicicleta de São Bernardo, quatro milênios depois,  é muito pior do que a prisão. É uma penalidade eterna, impossível de reabilitação. O apenado carregará, para sempre, a pecha , no rosto, mesmo que um dia resolva mudar de vida, arranjar emprego,  seguir carreira religiosa. Não muito diferente da roupa amarela que os judeus eram obrigados a usar em tempos de Inquisição, ou da numerologia   nazista.
                                   O mais terrível em tudo isso é que os defensores do Tatoo, da Pena de Morte, do “Bandido bom é Bandido morto”, são extremamente seletivos na sua escolha. Os ladrões de bicicleta devem ir para o cadafalso e para os salões de tatuagem, mas os donos dos helicópteros de Cocaína, os carregadores de mala do Caixa 2, os estelionatários da alta política brasileira, estes não ! Precisam de justiça! São figuras acima de qualquer suspeita! Manda para o Supremo e pede para a Roleta viciada escolher o Relator! Pede vistas! Dá Habeas Corpus! Envia para prisão domiciliar porque precisam, coitadinhos, cuidar dos filhinhos deles !  E se for grandão mesmo, manda que ele escolha os juízes que o vão julgar e os promotores que o vão acusar!
                                   Já que, agora, voltamos aos tempos dos faraós, sabendo que não tem ninguém perfeito nesse mundo, eu pergunto aos defensores da tatuagem: no seu caso, amigo, qual seu pior  defeito ?  Qual você escolheria para que tatuassem na sua testa?  


Crato, 29 de Junho de 2017.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Forró Irreal

As Festas Juninas sempre fizeram o Nordeste brasileiro florir. Comparam-se à ressureição do nosso semiárido com o advento das primeiras e benfazejas chuvas. Inconscientemente,  estamos todos participando de rituais das nossas  antigas festas pagãs , como a Saturnália e a Lupercália, quando comemoramos a fartura e alegria das colheitas. Claro que uma festividade de tamanha exuberância necessita da sua trilha sonora específica, aqui consubstanciada em mais de cem ritmos que se foram miscigenando junto com nossas etnias. Como pensar em São João e São Pedro, sem a sanfona de Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Sivuca,  Oswaldinho e Zé Calixto; sem o pandeiro do Jackson; sem o triângulo, o zabumba;  e sem a voz rasgada de Bilinguim, Marinês  e Lindu ? Todos nordestinos se sentem um pouco descendentes deste mesmo DNA. Para nós,  sua musicalidade é tão importante como o pé-de-moleque, a canjica , a fogueira, o rojão . Sem eles não existe Festa Junina. Pois é bom lembrar que esta tradição está ameaçada.
                                   As Bandas de Forró Eletrônico, de há muito, vinham invadindo os arraiás. Impulsionadas pela indústria cultural , trazendo consigo laivos de modernidade, passaram a imprensar os tradicionais grupos musicais juninos. Agora, as grandes festas se viram invadidas pelos Breganejos que se açambarcaram das festividades e praticamente sufocaram o pouco espaço dos grupos de tradição. Polêmicas estouraram , agressões de parte a parte. Os Sertanejos, montados em forte indústria de entretenimento, junto com o Forró de Plástico, empurram seus shows milionários, com forte apoio de um público já amestrado pela mídia tupiniquim. O Forró de Tradição reclama da invasão e da não reciprocidade deles em outras festas, de teor agropecuário, como a de Barretos em São Paulo. Causa-nos espécie que São Joãos tradicionalíssimos como   o de Caruaru e Campina Grande tenham simplesmente  acatado, sem maior discussão, a nova tendência. Que treta se esconde por trás dessa realidade ?
                                   Como a vida, a arte é dinâmica. Não há como fossilizar uma cultura por sua tradição. O Forró que Luiz Gonzaga fazia difere do que Petrúcio Amorim e Biliu de Campina hoje executam. Há, no entanto, um fio que os une umbilicalmente, como se genes tivessem passado de uma geração a outra, que filhos e netos, mesmo diferentes dos seus avós, carregam consigo nesgas de um mesmo DNA. O que difere o Breganejo e o Forró de Plástico dos seus ascendentes é a qualidade. Sua música é primária, suas letras não têm poesia nem cheiro de Nordeste, perderam a verve, a sutileza, a irreverência. Carregam mensagens pobres, com incentivo à violência, à prostituição, ao alcoolismo. E mais : são obras feitas às pressas, sem nenhum sentido de eternidade e que passarão, rapidamente, como um modismo imediato, para consumo rápido e lombra de uma só noite.
                                   Por trás dos Breganejos e das Bandas de Forró existe toda uma indústria cultural  que se mostra extremamente palatável aos governantes. Os shows, caríssimos, são facilmente superfaturados, com joguete de notas frias e reabastecimento , por baixo do pano, dos políticos que os contratam. Como concorrer com um rolo compressor desta envergadura ? A nosso ver, em nome da multiculturalidade, os Breganejos e Bandas de Forró Eletrônico devem participar das nossas festividades, desde que não se empreguem as parcas verbas públicas no seu financiamento. Com amplo amparo de publicidade de bebidas, indústria fonográfica e afins, são perfeitamente independentes e não carecem do parco dinheiro dos cofres estatais.

                                   O São João do Crato quis fugir desta realidade crua. Priorizou os grupos de raiz, com bandas de swing profundamente caririense. A Secretaria de Cultura esmerou-se na produção, dentro das terríveis limitações que sempre lhe são impostas. No último dia, no entanto, fechando as comemoraç~eos do São João e do Dia do Município, como por encanto, apareceu o Forró Real, com uma megaestrutura. Quem contratou a Banda ? Seu Show foi pago com que recurso ? Se vivemos numa pindaíba danada, com reclamações seguidas de falta de médicos e insumos nos postos de saúde, como surgiu esta verba ? Esperamos que não tenha saído dos míseros bolsos da população. Para uma cidade que, ano após ano,  vai se tornando cada vez mais virtual, parece-me um contrassenso comemorar seu aniversário com um Forró Real. 

sexta-feira, 9 de junho de 2017

O Ballet chega a Matozinho


                                            

                                  
                                                                Por uma dessa fatalidades difíceis  de se explicar, o Ministério da Educação, de repente, lembrou-se de Matozinho. E a notícia caiu como uma bomba cabeça-de-negro,  no centro da vilazinha. Pois não é que Escola Cunegundes Chinchorro,   entocada no escondidíssimo  Sítio Mata Rasa, apresentou, sabe-se lá como, uma das melhores médias brasileiras no ENEM ?  Matozinho,  que sempre viveu de moral altíssima, agora tinha mais um motivo para se gabar e passar quinau nas cidades vizinhas. Por um longo período, as cartucheiras dos gabolas de plantão permaneceriam   prenhes de munição.
                                   Rápido,  imputou-se o resultado favorável à única professora da escolinha: D. Vicência Gumercindo Catonho. A mestra utilizava uma pedagogia  antiga, pré-piagetiana, ainda com o incentivo da palmatória, do bolo  e das sabatinas. Atarracada, com cara de quem vivIa eternamente chupando tamarindo, Vicência carregava , como uma amestradora de circo, os alunos na palma da mão. Quando soube do feito inusitado, a mestra pareceu discretamente feliz, mas não fez estardalhaço.
                                   --- Fica provado que quiriquiqui e quererequequé  não ensinam nada a ninguém! Aqui a volta é seca ! Quem quiser amofinamento de menino , não traga pro Cunegundes !  Vistam uma sainha nos guris , calça comprida nas meninas e deem papinha pra eles !  Nosso lema sempre foi : Se vier com nenenhém,  você se lasca no Enem !
                                   Matozinho encheu-se mais de orgulho, quando, no mês seguinte, D. Vicência foi chamada para uma solenidade , no Rio de Janeiro, onde receberia, oficialmente, do ministro, uma condecoração pelo seu feito. Apesar da euforia do prefeito Sinderval Bandeira, doidinho para pegar carona no tento da professora, ela não cagou goma, disse, explicitamente : apenas tinha cumprido com sua responsabilidade e que mérito, se algum havia, devia ser debitado ao esforço , claro que meio forçado, dos alunos.
                                   D. Vicência seguiu para o Rio junto com uma grande comitiva da prefeitura. Lá, recebeu a comenda pela glória alcançada, exaltando-se  a importância da mestra , que trabalhava num cuvioco , onde Judas havia perdido as esporas  e jamais encontrado. De posse do diploma, recebeu ainda um ingresso para uma apresentação do Ballet Bolshoi no Teatro Municipal. A comitiva matozense, de pronto, quis também participar, embora nem soubesse bem que diabos era aquilo. Infelizmente, Sinderval foi avisado pelo cerimonial que o convite era um presente exclusivo para Vicência e que  os ingressos de toda a temporada do Bolshoi já estavam esgotados.  A comitiva, composta mais de marmanjos, encontrou um álibi perfeito e partiu para comemorar na zona do mangue.
                                   Dias depois, D. Vicência retornou a Matozinho e foi recebida , sob os acordes do Cisne Branco, executados pela  Banda Municipal. Sinderval pediu à mestra para fazer uma palestra na praça central da vila . O intuito era explicar para todos os interessados que diabo teria sido aquela presepada que ela teve que assistir no Teatro Municipal, o tal do Ballet.
                                   No domingo, logo depois da missa das seis, reuniu-se uma grande plateia na pracinha. Vicência sentou-se numa cadeira alta, no coreto e , então, deu a sua interpretação para o povo de Matozinho entender aquela estrovenga que tinham obrigado ela a assistir no Teatro, um tal de “O Lago dos Cisnes”. A mestra respirou fundo e sapecou, didaticamente, utilizando o matozês, senão era perdido, ia ficar todo mundo com cara de boi olhando pra lua.
                                   --- Meu povo, pense num bicho esquisito é o tal do Ballet ! Era a história de umas jacanãs arredor de um barreiro. E elas não apareceram, parece que tinham voado pra longe que nem ribançã!  Uma banda cabaçal, escondida, tocava uma dessas músicas que toca nas rádias quando morre presidente. Logo apareceu um cabra, vestido com uma calcinha justa, tipo  collant, que dava pra ver os pissuído tudim ! Tinha cara de baitola, andando nas pontinha dos pés, como se tivesse espinho de macaúba enfiado no calcanhar. Era vê neguim   tomando chegada para a atirar nos marrecos. Mas como ? Nem espingarda ele levava ! Do outro lado,  apareceu  uma mulher , também  com espinho nos pés, sem querer fazer barulho e vestida numa roupa que parecia mais um guarda chuva de cabeça pra baixo. Aí bota a aparecer mais gente, tudo andando de fininho. Pois num é que de repente a mulher do guarda chuva se bota pra cima do amofinado, querendo arrancar leite de pedra ! Correu, deu um cangapé e  se escanchou nele. Ficou amocegada no tum-tum do desgraçado.  Ele enguiou, fez finca-pé, e jogou ela pra longe: sai pra lá, satanás dos seiscento !  Aí ela , com raiva, ficou remexendo as cadeiras pra lá e prá cá:  dava currupio, levantava a perna quera capaz de bater na cumieira,  se oferecendo toda pro zé mané. Achou pouco e  abriu os cambitos e se arreganhou todinha no chão. Era ver uma calunga de feira  toda desconjuntada . Calada tava, mas a gente entendia o quela remoía: “tu num quer não misera ? A terra há de comer ! Os outros frutinhas ficavam pra lá e pra cá,  sem fazer nenhuma diligença. Nem deu friagem neles ! Pois a putaria continuou por mais de duas horas, naquele tu quer-ou-num quer. De vez em quanto, parava tudo, descia um pano. Acho que eles iam lá pra trás pra fazer argum cumbinemo. Teve uma hora que voltaram tudo doidinho, correndo prum lado e pro outro. Parece que tinham ido no mato e limpado o fiofó com cansanção : um frivião da peste!  Outras horas, ficavam num cerca-lourenço infeliz, numa leseira danada como se tivessem tomado chá de jurema preta. Quando a empanada desceu pela terceira vez, o vaza-corrente tomou sustança nas canela e cobrou mais jeito de homem. Vai ver tomou lá por dentro algum chá de catuaba ou comeu amendoim! No finzinho, saíram os dois abraçados, até parece que ele tava gostando da fruta que passou o tempo todo arripunando. Agora, pruquê botaro o nome daquela presepada de “O Barreiro das Jacanãs”, eu num sei não ! Num mataram nenhuma ! Também num levaro nem soca-soca, nem badoque, nem baladeira ! Que caçada velha sem futuro !  Eu fiquei foi muito encafifada. Devem tá tudo é intanguido, tudo esquanbichado,   essa hora,  depois de tanto arreganhamento  e cangapé. Ô povo atroado e besta , nãnnnn !

Crato, 09/06/17  

sexta-feira, 2 de junho de 2017

A praça, a graça, o tédio...


                              




  Você Praça
                               Acho graça
                               Você Prédio
                               Acho Tédio

De um “Grafitti”

J. FLÁVIO VIEIRA

                        Há alguns anos, na primeira gestão do governador Cid Gomes, houve a proposta da construção de uma nova sede para a realização da Expocrato. A ideia foi adiantada, em rádio local, pelo atual governador Camilo Santana, então Secretário de Governo de Cid. Abriu-se uma grande polêmica na cidade em torno do assunto, entendendo muitos dos cratenses que se estava tentando empurrar uma proposta de goela abaixo, sem discussão ampla com a população. Discussões acaloradas, agressões de lado a lado, terminou acontecendo o que seria fácil de prever: perdemos uma obra importante para a nossa cidade, destinou-se a verba para outros municípios e o Crato, mais uma vez, teve que se contentar com nadicas de nada. Nem mel, nem cabaça !
                        Agora , governador,  Camilo, cratense, acena novamente com a possibilidade de construção de um Parque definitivo para a Expocrato, mais afastado do Centro, com infraestrutura adequada a uma festividade importante no Cariri, de inclinação vocacional à agropecuária, mas que, ao longo do tempo, se foi travestindo em entretenimento. Novamente,  corremos o risco de preencher a questão com discursos antagônicos e vazios e perder mais uma vez o bonde da história. Falta apenas um ano e meio para o fim da gestão do atual governador e não sabemos qual será o apetite e a disposição do seu sucessor.
                        Vou, mais uma vez, meter minha colher de pau nesse angu insosso. O atual Parque foi viabilizado, nos anos 50, quando a cidade acabava na altura do Hospital São Francisco. Era, pois, uma área isolada e distante do centro, inserida numa localização mais rural que urbana. Serviu, ao longo desses mais de sessenta anos, única e exclusivamente para uma festa anual, não se lhe dando funções maiores nos outros mais de 350 dias . Hoje, a cidade cresceu, alastrou-se por todo o pé da serra do Araripe e o parque viu-se, de repente, no coração do Crato. Quando da  Exposição,  traz enormes transtornos à população, dificultando a mobilidade urbana, poluindo sonoramente todas as áreas vizinhas, inclusive um Hospital , uma Maternidade  e um abrigo de idosos contíguos ao parque. Sem falar-se no Cemitério N. S. da Piedade, defronte, onde , um dia, já se desejou repouso eterno a amigos e familiares ali residentes. Moradores de bairros vizinhos, mesmo a contragosto, se vêm obrigados a ficar acordados tendo que assistir , como uma tortura, a  shows da mais péssima qualidade. E os animais , motivo maior da festa, se vêm estressados e irritados com a barulheira infernal.  O Parque virou um estorvo !
                        Alio-me a um movimento recente em Crato a favor da construção do novo Parque, em área mais rural. Em nada a festa será prejudicada, ganharemos todos com os benefícios da novidade e da boa infraestrutura. Teremos, ainda, que pensar em como torna-lo produtivo e útil à agropecuária em todos os períodos do ano.   O mais importante, no entanto, será destino que  daremos ao atual . Podemos construir um grande parque urbano, com áreas de convivência; Vila Olímpica para  esportes variados ( que inclusive poderão ser utilizados pela URCA), como ciclismo, natação, futebol, Vôlei, Basquete, pista de Cooper etc;  uma Concha Acústica para shows ; um planetário; um lago; um Jardim Botânico. Seria uma espécie de Central Park cratense. Percebo, claramente, que a especulação imobiliária está de olho no espaço tão nobre e valioso. O Central Park de Nova York está no coração mais nobre da cidade e tem 3,5 Km2, com uma área verde lindíssima em meio à selva de pedra e de concreto e nem por isso, no coração capitalista do mundo, se pensou em transformá-lo em prédios e arranha-céus.
                                   Vimos , recentemente, como é possível, com simples intervenções urbanas, transformar totalmente a vida de milhares de pessoas. Basta olhar a reforma feita no Seminário aqui em Crato. Hoje o bairro revigorou-se, atraiu para si populares de outros bairros, diminuiu seus índices históricos de violência, vemos as pessoas felizes se exercitando, conversando e jogando conversa fora, crianças brincando nos parquinhos.
                                   O Crato que tem provado, nos últimos trinta anos, que sempre é possível encontrar um gestor pior do que seu antecessor, não pode perder , mais uma vez, a locomotiva da história. Corremos o risco de nos transformar numa cidade fantasma, uma Cococi caririense. Aproveitem-se os ventos favoráveis ! Unamo-nos à boa vontade do governador Camilo na construção de uma sede definitiva, mais rural, para nossa festa mais importante e no projeto grandioso de transformar o espaço de  nossa atual Exposição num Parque de Inclusão, Meditação e Curtição. Sejamos Praça e Graça e não Prédio e Tédio !

Crato, 02 de junho de 2017
                                      

                                      

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Bummm !


Eita , que este  mundo em que vivemos, hoje,  não é para amadores !  Trump estrompa os Estados Unidos , Kim Jong-un assombra na Coréia do Norte, brincando com seus mísseis. Só nos últimos dias,  tivemos um atentado  em Manchester, na Inglaterra, com mais de vinte crianças trucidadas por um terrorista islâmico suicida; no Brasil manifestações generalizadas contra um presidente  pego com a mão na botija em esquemas de corrupção , esperando o último empurrãozinho para ser defenestrado;  e um outro atentado em São Paulo, patrocinado pelo estado,  contra  toxicodependentes de rua que , ao invés de tratamento adequado e acolhimento, recebem cassetetes e repressão policial. A sociedade moderna está contaminada com uma explícita e intragável sanha de preconceitos de toda espécie. A nossa classe política encontra-se eviscerada, excrementos  à mostra. As redes sociais, a caixa de ressonância destes tempos sombrios, destila veneno contra nordestinos, judeus, homossexuais, imigrantes, negros.  Sentimo-nos como se  o planeta fosse um grande paiol de pólvora, com vinte doidos dentro,  fumando charuto, enquanto, acendem uma fogueira para comemorar o São João. Bumm !
                                   A cena mais patética destes tempos tenebrosos, não aconteceu em Brasília, até porque não temos mais governo . Ruiram as últimas decrépitas paredes da nossa República.  Restou apenas uma quadrilha de facínoras , encastelada  e dividindo seu butim. Para mim , a invasão policialesca da Crocolândia em São Paulo  foi a mais patognomônica ação dessa era sombria em que vivemos. Como sempre, a elite política e econômica do país, nega-se a encarar nossas mazelas de frente. Procuramos soluções superficiais , na tentativa de solucionar a complexidade dos nossos problemas. E foi , assim, historicamente, sempre ! Dizimou-se o Arraial de Canudos, trucidando um bando de esfarrapados famintos, intencionalmente, para que se não enfrentassem as perversas  causas sociais do fenômeno.  Bombardeou-se o “Cadeirão da Santa Cruz do Deserto”, sob pretexto de dispersar fanáticos religiosos, temendo a mesma elite, na verdade,  os naturais laivos socialistas do sonho do Beato Zé Lourenço. No Sudeste,  houve inúmeras denúncias anteriores de higienismo do estado, quando se recolhiam mendigos e moradores de rua, soltando-os em cidades mais distantes, ou no mar,  numa reedição da stultífera navis medieval. A medida tomada pelo almofadinha prefeito de São Paulo, assim, tem respaldo histórico. Talvez seja por isso mesmo que ele tenha a mania de se travestir de Gari : pretende varrer aquilo que considera a  sujeira humana, da cidade. Para ele, pobres , famintos, viciados não fazem parte do gênero humano: são lixo.
                                   A invasão policial e violenta da Cracolândia, com a expulsão dos toxidependentes, a destruição de prédios tombados, alguns com famílias dentro que terminaram feridas, teve repercussão internacional. Entidades  psiquiátricas e de defesa dos direitos elementares da cidadania se puseram frontalmente contra. A medida, além de violenta e higienista, beira às cenas de Campos de Concentração na II Guerra. Expulsaram-se os toxicômanos , simplesmente, sem nenhum projeto atrelado de reabilitação . Alguns foram internados contra a vontade, inclusive medida ilegal sustada logo depois pela justiça. Na inglória tentativa de se “limpar” a paisagem urbana do Centro de Sampa, criaram-se muitas e muitas outras Cracolândias. Dória jogou inseticida em algumas formigas que perambulavam por fora do formigueiro e imaginou que , assim, acabaria com a saúva no milharal. Colocou um dique para impedir o fluxo do rio e nem imagina que,  represada a água, agora a enchente virá com muito mais força.

                                   Precisamos enfrentar os nossos problemas na sua raiz se  queremos tê-los solucionados. Já que Dória , o Super-Gari, investiu-se da missão de limpar e higienizar o país, bem que poderia começar pela classe política que hoje perfaz a maior fossa séptica do Brasil, a começar por aqueles do seu partido. Dificilmente Dória dirigirá seu trator nessa direção , simplesmente porque não tem ideias suicidas. Sempre é mais fácil enxotar maltrapilhos e viciados. Mas já que deu a ideia, bem que o povo pode inspirar-se nele e partir para a limpeza geral do aterro sanitário que é a política partidária brasileira. Essa sim a maior produtora de vandalismo na nação. Os confrontos de Brasília, na última segunda-feira,  já foram um bom começo !  Esse é o higienismo que necessitamos !

26/05/17

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Panelada e Caititu



J. Flávio Vieira

                               A segurança de Matozinho  sempre foi entregue a três ou quatro samangos que corriam o risco eterno de morrer de enfado ou de preguiça. Tanto assim que Severo  , o mais tranquilo guarda local, era um dos mais procurados para indicar pules no jogo do bicho, tanto vivia a dormir e sonhar pelos cantos da delegacia. A cadeia local vivia entregue às moscas e o escrivão, Toinho do BO, já até desaprendera  a escrever. As embuanças  resolviam-se na rua : bebedeiras, briga de marido e mulher, tapas no pé-do-ouvido e muxoxos. Raramente as lambedeiras faziam bainha em bucho de gente.  Matozinho, assim, não podia ter queixas da sua polícia municipal.
                        A coisa pesava, no entanto, quando, periodicamente, principalmente em tempos de eleição, a Polícia Militar do estado vinha mostrar serviço na cidade. Os milicos chegavam, então, enfatiotados, com ar de superioridade, humilhavam os guardas locais e sojigavam o povo, a toda hora, dando geral, buscando armas, colocando sob suspeita  tudo quanto era de vivente. Nesta ocasiões, de preferência, prendiam logo os dois mais conhecidos malacas da Vila : “Panelada” e “Caititu”. Os dois  possuíam uma extensa Folha Corrida preenchida de falcatruas,  como  pequenos furtos, negócios enrolados, compra e venda de cheques sem fundo, receptação de objetos afanados, contratação de pistoleiros e coiteiros,   estelionatos de pequena monta. Os dois malandros viviam destes rolos , mas tinham uma profissão oficial que lhes envolvia numa certa aura de honestidade. “Panelada” dizia-se mecânico numa pequena oficina na periferia da vila,   e  “Caititu” exercia a especializadíssima profissão de coveiro.
                        Pois, naqueles dias, a Polícia Militar entrou com estardalhaço em Matozinho. Vinha investigar o roubo reiterado de cargas de caminhão. Dirigiram-se diretamente ao Dr. Olímpio Matagão, o juiz de direito em exercício,  naqueles cafundós do judas.  Olímpio sempre fora mais desmantelado que queda de helicóptero. Fazia acordos com rábulas por debaixo dos panos, vendia sentenças, sem pejo, como quem negocia  gimgibirra ou quebra-queixo em banca de feira. Contava-se dele que , um dia, tendo negociado com um matuto uma sentença a  favor, numa briga de terra, o babaquara invadiu uma audiência de Matagão e gritou , como se fora a coisa mais natural desse mundo :
                        --- Seu juiz, eu vim trazer o dinheiro que o senhor pediu pra julgar aquela questão a meu favor !
                        Matagão encolerizado, levantou-se , saiu empurrando o matuto à base de safanões, gritando-lhe impropérios , até jogá-lo atrás de uma porta,  e, enquanto metia-lhe a mão no bolso e pegava o maço,  lhe sussurrou :
                        --- Tá doido , Mané ! Isso se dá é detrás da porta e não na frente dessa ruma de fofoqueiro !
                        Matagão, de posse das informações da PM, já pensando em alguma ôia que pudesse vir do Sindicato dos Caminhoneiros , arrolou as figurinhas carimbadas de sempre , a fim de colher informações : “Panelada” e “Caititu”. O primeiro a ser ouvido : “Panelada”.
                        Olímpio, com ar sério e enérgico, começou o interrogatório e o jogo de caça ao rato :
---  “Panelada”, você conhece “Caititu”?
O malaca já providenciou o primeiro drible:
--- Conheço sim, seu juiz ! Mas caçaram tanto que quase num tem mais esse bicho aqui em Matozinho ! Tá em extinção !
Olímpio , exasperou-se :
--- Não se faça de engraçadinho não, seu moleque ! Você sabe de quem eu tô falando !Me fale dos caminhões !
“Panelada” providenciou o segundo traço :
---  Tem o Fênemê, o Chevrolet e o Ford ! O senhor tá querendo comprar um ?
Matagão, nervoso, voltou a atacar:
--- Quero saber, se você sabe quem está nas estradas tirando os carregos ?
--- Na de Bertioga, o terreiro de “Pai Catolé”. Na estrada de Serrinha,   pode procurar “Mãe Zulene de Iansã”.
                        Fulo da vida, Matagão mandou que levassem “Panelada”, que driblava melhor que Garrincha na direita,  e trouxessem  “Caititu” para o interrogatório. Quem sabe ele não resolveria cooperar? O homem chegou naquela tranquilidade típica dos inocentes.
Matagão, recompôs-se   e atacou :
--- “Caititu”, você conhece “Panelada”?
O malaca mostrou que não entregaria o jogo fácil:
--- Conheço, seu juiz ! Mas deus me livre de comer ! Fico logo impando !
Olímpio percebeu que estava diante de um outro Pelé  e interrogou novamente:
--- Você tá se fazendo de mal-entendido, seu malaca ! Diga logo onde esconde a carga roubada dos caminhões !
Caititu nem bateu a passarinha :
--- Sei disso não, seu doutor ! Carga ? Caminhão ? Eu sou coveiro, não vendo casa, não vendo óleo, não vendo leite... Nem sentença, seu juiz, nem sentença ...
Matagão entendeu a indireta e , fumaçando por todas as chaminés, ameaçou :
---- Venha ! Venha !Sabia que eu possa deixar você apodrecendo na cadeia, seu meliante ?
Caititu nem mudou o tom de voz e deixou claro a vantagem que levava sobre o juiz por ser coveiro :
--- O senhor pode me prender, seu doutor ! Fico lá um ano, dois, dez, mas um dia eu saio ! Agora se eu prender vocimicê, eu quero é ver ! O Senhor não sai de lá mais é nunca !

Crato, 12/05/2017