Feliz !

Feliz !

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Je suis Charlie ?

Imaginem essas cenas retiradas do dia a dia do nosso noticiário. Rapazinho, no sul do país, revoltado com o fim do relacionamento decretado pela namorada, resolve, em represária, jogar na internet fotos íntimas do casal, tiradas no Motel em tempos de bem aventurança. O pai da mocinha, revoltado coma exposição pública e definitiva da filha, faz justiça com as próprias mãos, sapecando vários tiros no jornalista improvisado. Em Goiana, Pernambuco, uma lojinha de biquínis terminou pregando uma peça em várias veranistas. O adolescente, filho da dona do comércio, instalou uma câmera escondida no provador e filmou inúmeras mocinhas peladas, na troca de roupa. Depois disso, preparou um CD com as imagens e saiu vendendo em pontos estratégicos: “Garotas Quentes do Verão 2012”. Tudo acabou quando um pai comprou o CD e lá se deparou com a filha em trajes de Eva. O caso foi parar na justiça , os pais e o autor do delito fugiram,  temendo linchamento.
                                   Os dois episódios são típicos desses tempos em que todas as barreiras da individualidade terminaram por ruir. Claro que, em nome da liberdade de pensamento e expressão,  muitos, certamente, saltarão com a justificativa de que é justa a veiculação das fotos. Quem se sentir ferido ou lesado deve procurar a justiça em busca de ressarcimento pelo dano causado.  A atitude do povo goianense e do pai da mocinha da internet em procurar , com força de trabuco, resolver as querelas soam como coisas de Neanderthais. Aprofundemos um pouco mais a questão. Pensem no suplício de todos  lesados , trafegando pela lentidão irritante da justiça brasileira. Oito anos depois, quem sabe, poderá sair uma sentença indenizatória favorável aos danos morais perpetrados pelo namorado abusado e pela lojinha de biquínis. O bolso, como sendo a parte mais sensível do corpo, certamente pesará, pedagogicamente, na consciência dos implicados. Mas as fotos, uma vez veiculadas, continuarão a se espalhar como vírus Ebola e o dano continuará a se fazer permanentemente. Os novos namorados da mocinha poderão receber as imagens pornográficas, como bulling,  e as garotas quentes do verão 2012 continuarão fervendo em outros verões, com cd´s copiados e enviadas imagens pelos tablets e smartphones. Quem lhes devolverá , um dia, a honra eternamente maculada ?
                                   A atitude dos linchadores, claro, pode parecer primária e tribal. Colocando o caso em cada um de nós, no entanto, vem a pergunta : Você teria uma conduta diferente, como pai ?  Ficaria quietinho, procuraria e justiça e esperaria, pacientemente, pelo fim do processo, mesmo vendo o vírus se alastrando, dia a dia ?
                                   Esta questão é extremamente atual. Há poucos dias, os jornalistas da Revista humorística francesa “Charlie Hebdo” foram executados, sumariamente, por três islâmicos que se sentiram ofendidos por charges seguidas retratando ( o que é proibido pela sua religião) e  detratando o profeta Maomé. As repercussões internacionais foram imensas após a barbárie. Líderes mundiais se reuniram na França numa imensa marcha  a favor da liberdade de pensamento e de expressão. De lado se punham os jornalistas injusta e barbaramente executados e, do outro, os vilões: o Islamismo tido como religião brutal e atrasada, totalmente dessincronizada com os tempos modernos em que vivemos.
                                   Nada justifica o massacre, claro, mas é bom, sempre, refletir sobre suas raízes mais profundas. A França possui o maior contingente de maometanos da Europa – 10% da sua população. Vieram, praticamente todos, das antigas colônias francesas, da África e Ásia, sugadas pelos insaciáveis canudos do Colonialismo. Na França são vistos como cidadãos de segunda classe, mesmo com cidadania legal francesa. Carregam, consigo, aquele travo das minorias sapateadas. Não têm o mesmo acesso ao emprego, ao lazer, à educação em meio a esse Apartheid silencioso. São proibidos de assumir aainda, publicamente, seus símbolos religiosos. Quando dos primeiros ataques da Charlie Hebdot , entraram na justiça  francesa, contra o que consideravam uma agressão e perderam fragorosamente em nome da Liberdade de Expressão, embora se imagine que, por trás de tudo, havia decisões eivadas do mesmo preconceito que lhes atravanca o dia a dia. A revista, claro, tem posições francamente iconoclastas e ataca não só o Islã, mas todas as outras grandes religiões mundiais. Daí vem a perigosa conclusão de que o Islã é violento e sanguinário, pois as outras não reagem da mesma maneira.  O Islamismo, é bom lembrar, é a mais jovem das grandes religiões, talvez, por isso mesmo, ainda esteja em tempos de depuração, no Século XII, para ser mais preciso. Há um passado sombrio que acompanha a todas : A Inquisição, As Cruzadas, a dizimação das comunidades indígenas, o Holocausto, As oferendas aplacatórias da ira divina  dos Incas e Aztecas.
                                   A grande encruzilhada termina por aparecer. Tem ou não limite a liberdade de expressão ? Tudo pode ser veiculado e a regulação será feita , tão-somente, pela justiça ? A imprensa se queixa que lhes estão querendo infringir marco regulatório. Mas ela é livre ? Ela não é manietada por seus patrocinadores e pelo Capital que a sustenta ? Imaginem se a Revista Carta Capital, a dois dias antes da eleição presidencial, publicasse uma reportagem mostrando que o candidato Aécio Neves faria parte do Cartel de Medellin. Imaginem ainda que esta  notícia, infundada, o fizesse perder a eleição. Claro que ele entraria na justiça e daqui a uns sete anos terminasse ganhando a questão e recebendo uma indenização. Mas seu mandato perdido quem o ressarciria? E seus eleitores que teriam sido burlados como seriam ressarcidos ?

                                   Voltando para os princípios universais da Ética não me parece que essa pretensa Liberdade de Expressão se enquadre em nenhum deles. A conduta do Charlie Hebdo pode ser usada como uma Lei Universal ? Estaria essa Liberdade beneficiando o maior número de pessoas possível ? Entendo que há limites éticos sim, nessa Liberdade e que precisam ser regulados não só pela justiça, mas pela própria sociedade. O respeito às diferenças, às opções sexuais, à religião ou ao ateísmo e o combate indiscriminado a qualquer tipo de preconceito são direitos inalienáveis dos seres humanos. Emocionei-me e chorei com o massacre dos humoristas do Charlie Hebdot, nada justifica aquele ato terrível. A agressão reiterada, no entanto, a minorias eternamente escravizadas poderiam ter sido evitadas, a  Sociedade Francesa já vem se responsabilizando secularmente por essa atitude. Queria que o humor continuasse a me fazer refletir sobre a vida , sim, mas também que me proporcionasse sua mais perfeita função : Rir.

20/01/15

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Quintal

E os anos se vão sucedendo,  sem que a gente nem perceba. As primeiras décadas parecem a lenta subida de uma rampa: dá para curtir a paisagem, prazerosamente dividir com os companheiros de jornada as sensações da viagem. De repente, chegamos a um  topo que é sempre imprevisível  e é como se o carro disparasse , ladeira abaixo. As imagens passam estroboscopicamente, os amigos se dispersam, como por encanto,  e a vida segue num estranho frenesi, enquanto esperamos  a beira do precipício e o ruflar inconsequente das débeis asas do Ícaro.   
                                   Pouco a pouco, ante a perspectiva do voo, nossa viagem vai se tornando mais e mais solitária. Os companheiros tomam estradas paralelas, seguem cursos inesperados, buscando todos um inexistente Shangri-lá. Como Fernão Dias Paes Leme, acabaremos cedo ou tarde descobrindo que eram falsas as almejadas esmeraldas. O tesouro terá ficado , talvez, espalhado pelas trilhas :  no bem que possamos ter partilhado, nas lágrimas que por ventura ajudamos a enxugar, nos etéreos momentos de simples e cristalina felicidade que dividimos com os que estavam no caminho,  ao nosso lado. Quando levantarmos o voo final, logo ali, na plataforma do despenhadeiro que nos aguarda   à frente, essas certamente serão as imagens que brilharão nos nossos olhos,   antes do impacto derradeiro nos imperceptíveis rochedos pontiagudos  do fundo do abismo.
                                   Abaixo, a visibilidade é pouca, a bruma feroz. O que nos espera naquelas abissais regiões , quando as asas se partirem e o remanso último   nos venha a sorver para  goela do tempo ? Alguns imaginam que , lá embaixo, exista um éden nos esperando, como conforto final do nosso mergulho : cascatas, música inebriante, paz.  Uns até garantem que nos será permitido voltar e tentar outras trilhas mais amenas e menos penosas, para outros  mergulhos menos turbulentos e  outras aterrisagens mais dóceis. Asseguram até que exista uma grande Torre de Controle invisível e poderosa ( com um estranho e enviesado censo de justiça)  que controla todos  percursos aéreos e decide sobre pousos, decolagens e colisões. Difícil compreender  as reais regras e objetivos  desse rali vital com partida “no nada” e fim “no coisa nenhuma”: sem louros, sem prêmios aos vencedores. À beira do pélago, são meros sonhos todas as conjecturas: apenas o vórtice é real.

                                   Dentro de cada piloto, no meio da vertigem, no entanto, existe um menino, escondido em algum cantinho do bólido. É preciso, na disparada, encontrar esse garoto. Ele nos reensinará  que a essência de tudo reside na brincadeira de hoje e não na perspectiva do Papai Noel que poderá ou não vir no Natal. Ele mostrará que  alegria está aqui ao alcance das nossas mãos: na simplicidade do pião de goiabeira e da bola de meia. Papai do céu está longe  a cuidar das suas estrelas, pouco nos interessa o que existe do outro lado do muro. Deixemos lá a vida com seus bichos-papões.  A felicidade está segura aqui no nosso quintal, brincando conosco de esconde-esconde .

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Pentelho de Capivara

                                                                               
          J. Flávio Vieira

Solidônio Canabrava tinha uma pequena loja de ferramentas em Matozinho.  Negociava  implementos  metálicos,  como dobradiças, armadores,  ferrolhos, correntes  pregos, parafusos, foices, martelos. Talvez tenha sido a proximidade e a dureza  desse material, que ele tanto manipulava no dia a dia, que terminou por impregnar seu temperamento de uma  a uma certa acidez e  petrificação. Tornara-se, aparentemente, do reino mineral, antes que o tempo o levasse a esse que é o destino final de todos os viventes. Era ríspido, direto, sistemático: com ele não tinha perreps. Intolerante, não aceitava perguntas bestas, arrodeios desnecessários, eufemismos, cerca-lourenços. Sua fama espalhara-se por  todos arredores da vila. Os que o conheciam , tiravam de letra a aparente estupidez de Solidônio e até cutucavam a onça com vara nanica, esperando a resposta pronta e carrascante como mourão de cerca. Os de fora, no entanto, tantas e tantas vezes se incomodavam com a rudeza do comerciante. Como se explicar  que quem quer  pegar marreca viver gritando :  xô ! Geralmente, depois de perguntas redundantes, como:
                                               --- Esse armador, seu Solidônio, é pra armar rede ?
                                               Vinha a resposta brusca e incisiva :
                                               --- Não,  Senhora ! Imagina ! Esse armadorzinho  é pra enfiar em cu de sabiá e pegar elas como se fosse anzol!
                                               E, imediatamente, tangia o perguntador peba, da sua loja, com o mote de sempre :
                                               --- Arreda ! Arreda, Dona  Empaia !
                                               Contavam-se as histórias de Solidônio  por toda redondeza, umas verídicas e a grande parte delas nem tanto : foram aparecendo folcloricamente, no fluxo ficcional da memória coletiva de Matozinho.  Uma  rezava que ele estava arrumando alguns rolos de arame farpado na loja, quando feriu a mão acidentamente, no ponta aguda do arame. Continuou a arrumação como se nada tivesse acontecido. Logo depois, novamente, repetiu-se a mesma tragédia: as pontas farpadas foram de encontro aos dedos de Soledônio. Ele não teve conversa : olhou firmemente para o rolo e disparou :
                                               --- Ah ! Já sei ! Tu tá querendo é carne, né ? Pois toma ! --- Enfiou a mão umas quinze vezes no rolo , quase perdendo todos os dedos.
                                               De outra feita, conta-se,  sentado, comendo mel de engenho, por duas vezes, o mel caiu e lambuzou sua longa barba. O velho não contou conversa. Olhou pra barba fixamente e logo sapecou o pires na cara , ameaçando a moita de cabelos:
                                               --- Ah ! Tu num é diabética , não, né?  Tu quer é mel, é ? Pois toma !
                                               Foi por essas e outras que dali , também, saiu o apelido do nosso personagem, embebido na grossura que lhe era a maior característica :
                                               --- Pentelho de Capivara !
                                                Claro que Solidônio não suportava o epíteto, nem sequer quaisquer palavras que por acaso lembrassem esse nome. Por isso mesmo  a alcunha pegou como catarro em parede.
                                               Semana passada aconteceu o inesperado. Canabrava tinha um pequeno engenho de cana de açúcar movido ainda a máquina a vapor. Uma das grandes moendas  quebrou e tiveram que suspender a moagem. Onde diabos encontrar uma estrovenga daquelas ? O maquinário tinha sido importado , muitos anos atrás, da Inglaterra, pelo avô de Solidônio. Os engenhos estavam quase todos de fogo morto. Em tempos de mariola, Coca-Cola  e chilitos, quem diabo queria comprar batida, garapa,  alfenim e rapadura ?  O eito de cana, no entanto, estava cortado e parar tudo era um prejuízo danado.
                               Canabrava soube que, em Serrinha dos Nicodemos, existia um velho que tinha um engenho similar ao seu e que estava parado há muitos e muitos anos. As moendas, segundo lhe tinham adiantado, estavam novas e a história é que O Coronel Balbino, o dono da fazenda,  falara , diversas vezes, na venda daquele mundo de ferro, inclusive para ferro-velho. Soledônio , então, chamou um velho choffeur de praça e resolveu ir negociar em Serrinha a compra da moenda com Balbino. Durante a viagem, no entanto,  o motorista o alertou. O coronel era um bicho do mato, cabra bruto e indomável como um chucro. Para se ter uma ideia, alertou : o apelido dele é : “Apito de Engenho” ! Será que o homem é bruto ?
                               Seguia a viagem e o motorista continuava atemorizando o velho Solidônio:
                               --- O Senhor é que sabe, seu Pentelho... ou...  Seu Solidônio . Ele vai dar um coice danado no senhor ! Pode esperar! Se eu fosse o senhor eu não ia não !
                               Canabrava, no entanto, neste mister tinha PHD e M.B.A. Não quis conversa, nem mostrou-se temeroso. Mandou picar viagem. Vamos simbora !
                               Tardizinha chegaram , por fim, nas terras de Balbino. Pararam defronte a casa alta, onde , após infindáveis degraus lá estava o coronel refestelado numa preguiçosa, assistindo aos últimos estertores do dia. Solidônio, desceu do jipe, mandou o motorista esperar um pouco , subiu calmamente a escada. E, sem delongas, fitou o coronel e perguntou ?
                               --- O senhor  é o coronel Balbino , se má pregunto ?
                                 O  velho, com aquela cara dura de cobrador , sem o fitar nos olhos, latiu de lá:
                               --- Sou sim, por que ?  E se não fosse,  você tinha alguma coisa a ver com isso ?
                               --- Né por nada não, Coronel ! Pegue sua moenda e meta no cu, joviu ?
                               Desceu os degraus, entrou no jeep e voltou pra casa, após a mais rápida negociação já registrada   nos anais do CDL  de Matozinho.


Crato, 16/12/14

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Enchendo linguiça

J. Flávio Vieira

                                             Uglino Petico era feirante do ramo de miudezas. Vivia naquela vida nômade de mascate: domingo em Matozinho, terça em Bertioga, quinta em Serrinha dos Nicodemos, sexta em Ananás Florido , sábado em Jurumenha Mirim. Chegava, em geral, numa D-20 velha, apelidada de “Jega Zonza” . Aportava, sempre,  na noite anterior , na cidade agendada,  para a organização do evento. Escolhia o estratégico ponto, que mantinha geográfica e religiosamente há mais de vinte anos, estendia a lona puída no chão e, madrugadinha, arrumava , em cima,  a troçada toda :  armadores de rede; correntes ; martelos;  cordas;  ferrolhos; dobradiças; serrotes; cabos de enxada, de foice, de machado; traves de porta e janelas; imagens de santos; meizinhas como  arnica, boldo, hortelã, bicarbonato, jurubeba; temperos que inundavam o mundo com seu cheiro : colorau, pimenta do reino, cominho, alho, louro...
U
                                                Cedinho já começava a vender a toda matutada e varava o dia neste ofício. Tardezinha, recolhia tudo, arrumava na velha caminhonete e partia para uma outra Vila a fim de começar tudo novamente. Vidinha cansada, atribulada, mas divertida.  Depois de tantos anos,  já conhecia todos os companheiros de ofício e terminara por criar uma fiel freguesia. A noite que antecedia à feira , onde todos os comerciantes ambulantes se reuniam para arrumar os picuaios a serem vendidos no dia seguinte, passada canseira do arruma-arruma, se transformava sempre numa festa. A zinebra corria solta, sempre havia alguém com um pé-de-bode e, como por encanto,  apareciam um violão, um triângulo , um pandeiro. Altas noites, a cumplicidade da escuridão fazia  os casados se arrumarem  e os solteiros arranjarem um cobertorzinho de orelha para varar o frio da noite. Com tantos anos de estrada, os casais se iam formando naturalmente. Uglino tinha mulher em Matozinho, mas usava, no meio do mundo, como refil, o corpo morno de Dorinha Manzape, uma vendedora de filhóis, charutos e quebra-queixos.  O colete  já durava mais de dez anos e , contava-se a boca miúda,  pelo menos os cinco últimos filhos de Dorinha contaram, certamente, com a participação especial de Petico, seja como ator principal, seja como coadjuvante.
                                               Estes rebentos de Dorinha vinham  se juntar com mais doze que Uglino produzira com D. Estelita , sua fiel companheira, recebida em pé de padre, há mais de trinta anos.  Petico , comentava-se, era uma espécie de jumento de lote e esta história vazara de fontes mais que confiáveis : das amplificadoras quengais  da Rua do Caneco Amassado. Tinha o homem  fama de touro reprodutor e, também, comentava-se  uma outra similaridade que o aproximava do jerico: portentoso nos países baixos, era gigante pela própria natureza.  Mais de uma neófita da mais tradicional das profissões já havia refugado  ante a visão  daquela arma aterradora que parecia o pau da bandeira  nas quermesses de Matozinho. Enfrentar aquela surucucu, não era empreita para amador, mas obra para profissional com curso no  Butantã.
                                               À medida que os filhos foram surgindo, um a um, Uglino notou que , com a entrada de Dorinha em campo, começou uma certa disputa entre as duas mulheres, cada qual querendo ser mais fértil que a outra. Petico tentou até fazer com que as duas utilizassem algum método anticoncepcional, mas instalada a corrida da fertilidade, notou que seria impossível entregar esta tarefa à Dorinha e Estelita. Buscou, então, o Posto de Saúde e um Programa do governo chamado de  BEMFAM. Lá, a D. Veneranda,a mais antiga enfermeira da vila,  tentou orientar o paciente. Ela  se mostrava visivelmente constrangida. Era uma das últimas virgens sacramentadas dali e acreditava que se nunca tinha traçado e cortado o baralho não devia lhe caber a função de dar as cartas. Mas que jeito ? Olhos fitos no chão, cara de acerola, indicou, cheia de dedos,   o uso da camisinha. Era método prático, tranquilo e, o melhor, ficaria completamente sob controle dele.  Informou, então,  de forma muito genérica sobre o uso da estrovenga.
                                               --- Você já viu , no mercado, o magarefe enchendo linguiça ? Pois é daquele jeito, viu ? Só não precisa  picotar a carne, né ?
                                                Petico fez-se meio renitente, por muitos motivos. Aquele papelzinho deixado em cima do caramelo, tinha tudo para tirar o gosto do bom-bom. Depois, pensou consigo: já madurão, vestir aquele negócio, bimba acima,  parecia perigoso. Aquilo era coisa para adolescente , arisco,  bastava triscar que a juriti levantava voo. Na  idade dele, botar aquela vestimenta,  poderia enganar um Bráulio já meio sonolento e o bicho, meio bambo,  poderia interpretar aquela indumentária como touca  e botar-se pra  dormir imediatamente. Mas o certo é que  Veneranda tinha poder de convencimento e conseguiu, mesmo com todos arrodeios possíveis,  derrubar  os seus temores. Iria correr tudo às mil maravilhas, logo ele se adaptaria e conseguiria, por fim, pôr os dois times em disputa , fora de jogo.  Basta de tanto crescei e multiplicai !
                                               Na semana seguinte, depois da via sacra de feiras,  Uglino volta ao Posto preocupado. Procurou D. Veneranda que, ocupada, estava aplicando algumas vacinas numa récua de meninos. Com aquela voz tonitruante de camelô de feira , ele gritou, ainda da porta , sem se incomodar com a plateia :
                                               --- Enfermeira ! A tal da camisinha não deu certo , não !
                                               D. Veneranda,  com cara de urucum, se fez de mal entendida.
                                               --- Deu , não... ? E o que aconteceu , meu senhor ? Rasgou ? Estas costureiras de hoje...
                                               Uglino, quase berrando,  relatou um sério defeito de alfaiataria :
                                               ---  Não ! Ficou foi pegando marreca !


Crato, 28/ 11/ 14

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Clareira

Oremildo Jurema foi eleito com uma votação estupenda em Matozinho. Coisa de deixar o partido contrário de crista caída, mas para baixo que escada magirus de colher maxixe. Sinderval Bandeira ou Bandalheira( como era conhecido por todos) alternava-se no poder municipal, junto com apaniguados, há mais de 20 anos. O tempo , como um cupim inexorável, lhe foi roendo o brilho e a fama; o poder lhe foi proporcionando mais insatisfeitos que correligionários. A ascensão  de Oremildo , até então um nome totalmente desconhecido, apareceu naturalmente, talvez por falta de maiores opções. Montara uma pequena padaria na vila chamada de “Pubas & Manzapes” , progredira com alguma rapidez para os padrões locais e terminara por se candidatar sem muitas pretensões. Percebeu, sem ser necessário folhear nenhum compêndio de psicologia, que Matozinho vivia uma terrível crise de autoestima. A vila fora até anos atrás uma referência em toda região, mas nos últimos quinze anos, vinha perdendo terreno continuamente para Bertioga. Antigo distrito de Matozinho , a localidade tomara um impulso tremendo após o pretenso milagre acontecido, alguns anos atrás, quando se encontrou a milagrosa imagem de N.S. dos Desafogados ,nas enchentes do Rio Paranaporã. A partir daí, foi um não parar de esticar, de crescer tanto populacionalmente como economicamente, com o advento das seguidas romarias a Bertioga.
                        Oremildo montou-se neste banzo da população pelos tempos gloriosos e prometeu o retorno do passado e dos bons momentos da Vila de Matozinho. Não lhe foi difícil tocar a campanha de reabilitação, uma vez que os matozenses associavam a derrocada da vila às sucessivas e desastrosas administrações de Sinderval. Abertas as urnas, a lavagem se mostrou histórica: Oremildo viu-se eleito com mais de setenta por cento dos votos válidos. Votação expressiva, expectativas multiplicadas. A cobrança das promessas feitas em campanha não demoraram a se concretizar. O grande problema é que Oremildo mal tinha condições de administrar a “Pubas & Manzapes” e , achando pouco, viu-se ainda cercado de secretários fracos como caldo de andu. Passada a metade do mandato, não se tinha uma obra de mínima importância para apresentar. A vila regredia a olhos vistos e já parecia apenas um mero dormitório de Bertioga. A língua viperina do povo matozense não parava de tagarelar: essa era a sua única defesa : pinicar o oratório do prefeito.
                        Oremildo pressionado, reagiu como se intuitivamente tivesse incorporado Gobbels: com propaganda. Criou uma grande rede de puxa-sacos e passou a espalhar , por todo canto, histórias da carochinha, numa espécie de pabulagem pública , um deliberado projeto de cagamento de goma. Espalhava que conseguira, em Brasília, verba para construir um estádio, uma quadra coberta, um Centro de Convenções . Apresentava ainda a planta de um Elevador do Açude do Sabugo até o topo da Serra da Jurumenha e a verba, dizia,  já estava garantida. Pegava ainda carona nas obras desenvolvidas na região pelos governos estadual e federal, sem lhes  ter dado, em contrapartida,  um pau pra bater num gato. Os matozenses , de início, até se abestalharam com as novas promessas, mas rápido, como não dá para enganar  todos durante todo tempo, descobriram, fácil, a manobra. Faltava gaze no posto de saúde, merenda escolar para garotada, professores e funcionários viviam com salário atrasado:  a propaganda desvanecia-se frente à dura realidade cotidiana. Todos se perguntavam onde era aquela ilha da fantasia que Oremildo administrava pois desejavam se mudar para lá.
                        Os matozenses passaram a tomar a propaganda descabida dos apaniguados de Oremildo, como mangofa. A irreverência é a última defesa às mãos dos desafortunados. Semana passada, um dos maiores críticos do prefeito, o velho Mané Vieira, chegou na praça da matriz e, estranhamente, passou a criticar todos aqueles que viviam falando do prefeito, um homem bom, cumpridor de promessas e grande administrador. Os amigos das rodinhas de praça estranharam a mudança súbita de Mané. Estaria tresvariando? Estava ficando gagá e conversando arisias ?
                         Uma das maiores promessas de Oremildo na campanha tinha sido a construção de uma estrada ligando Serrinha dos Nicodemos a Matozinho. A obra fazia-se naturalmente difícil pois tinha que varar  toda a Serra da Jurumenha, subindo e descendo, pois Serrinha ficava justamente do outro lado da montanha. Na noite anterior, uma chuva grossa tinha caído na vila e fizera rolar uma grande pedra do topo da serra, ladeira abaixo,  e abrira uma grande clareira na cabeleira da serra, perfeitamente perceptível de Matozinho. Quando se discutia a possível demência do velho Mané Vieira, ele se mostrou mais lúcido do que sempre:
                        --- Povo falador esse de Matozinho ! Vôte ! Oremildo promete, Oremildo cumpre !
                        E,  mostrando  a clareira no alto da serra:

                        --- Ó ali onde já vem apontando a estrada de Serrinha ! Lavem a boca quando forem falar o nome de Oremildo, seus fofoqueiros miseráveis !

17/11/14

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Sitônio da Furquia

J. FLÁVIO VIEIRA


                               Vivendo em áreas inóspitas, onde a sobrevivência parece mais uma dádiva dos céus, a pobreza , nos cafundós-do-judas ,  desenvolve técnicas de guerra contra os rigores da natureza. Sabe que qualquer pequeno detalhe pode ser crucial e muitas vezes o determinante entre a vida e a morte.  Talvez, por isso mesmo, a solidariedade seja um sentimento bem mais presente por ali que nas grandes metrópoles, onde somos todos estrangeiros dentro do mesmo país. Nos grotões, o  sofrimento  e a sequidão ao derredor umedece as almas e as torna mais maleáveis e afáveis. A cacimba e  o paiol  passam, facilmente, a ser bens comunitários. As cercas das senzalas naturalmente se desfazem       , como que dando exemplos pedagógicos aos muros da casa-grande.
                        Em Matozinho, assim, logo que a TV anunciou a Seca no Sudeste do Brasil, a gandaia se agitou. Conhecia  bem aquela paisagem cinza :   leitos dos rios se transformando em estradas, carro pipa sendo disputado a tiro.  Os matozenses , de conversa em conversa, começaram a se preocupar. A notícia, porém, não lhes causou  estranheza, ora o Beato já havia até cantado a pedra: “O Sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão!”. O problema, na visão dos matozenses, é que os sulistas são mofinos danados e não entendem  desse negócio de seca. Faltou chuva um mês por lá, dá desespero, neguinho bota pra chorar e fica esperando o fim do mundo.
                        --- Aqui, nós já somos tudo bargados.Tem peixe em Matozinho com três anos de idade que ainda nem sabe nadar! Tem menino já encabelando que, quando vê chuva caindo, sai correndo doido pensando que o céu tá se rasgando! Essa miuçaia das bandas de lá, tudo engravatado e cheio de carambas e uais  não aguenta o arrocho, não!
                        Foi pensando no aperreio do povo  do Sudeste que Sitônio da Furquia, um marcador de cacimba de Matozinho, resolveu fazer um adjunto para ajudar os irmãos do Sul neste momento tão ressequido e difícil. Sitônio viera dos Inhamuns e se gabava de entender do assunto como ninguém.
                        --- Comi palma frita, mucunã lavada  nove vezes, espremi mandacaru e raiz de imbu pra tirar  a água. Em estiagem sou PhD !
                        Sitônio reuniu alguns amigos mais próximos e criaram um Coletivo que matuto agora, depois de Lula, tá é chique meu filho ! O famoso C.L.P.  – Coletivo Língua de Papagaio. O objetivo principal era desenvolver técnicas  anti-estiagem com o fito de ajudar os irmãos do Sul, nestes novos tempos de choro com lágrima em pó e ranger de dentes sem saliva. E lá se reuniram inúmeros especialistas no assunto: esgotadores de fossas, tiradores de mel-de-abelha, profetas de chuva, caçadores de tatus, curiosos e sobreviventes.  Aos poucos , nas reuniões, o CLP foi catalogando pontos importantes a serem desenvolvidos. Técnicas de marcação e cavamento de cacimbas e poços; plantio de xerófitas aguaceiras como imbu, mandacaru e palma; economia de água catalogada no seguintes pontos:  banho em dedal, banho de cuia, sabugo e caco de telha,  uso de espanador como papel higiênico, tapagem e reparo de vazamento de potes, jarras, cabaças e ancoretas; aproveitamento de fontes alternativas como : barriga d´água, água de joelho. O Coletivo Língua de Papagaio já tinha organizado todo um Dossiê e dirigiu-se ao prefeito Sinderval Bandeira que prometeu levar a questão adiante,  quando , por fim, as eleições terminassem. É que, em período eleitoral, nada sai do lugar, o país todo pára e só se pensa em voto.  Nem mesmo paulista dá por falta da água !
                        Passada a eleição, Sitônio já se preparava para se dirigir à prefeitura com as ideias escritas, num grande calhamaço de papel almaço, pelo escrevinhador geral da CLP: Totonho das Cabaceiras. Pensava em dar continuidade ao projeto , formar a equipe e oferecer os serviços de consultoria  aos sulistas que andam mais perdidos que tucanos em noite estrelada. À noite, no entanto, “Da Furquia” soube da ruma de impropérios que o povo do sul estava jogando em cima dos nordestinos, por conta do resultado da eleição. Chamados de burros, de idiotas e ameaçados de morte até, por terem votado segundo sua própria vontade. Tinha até uns jornalistas inflamados, rogando praga, falando numa tal de  separação:  apartar o Brasil em duas bandas: a sabedoria e progresso na parte de  baixo e a burrice e o atraso na porção de riba. Sitônio, fulo da vida, chamou uma reunião de emergência do CLP. Decidiram, por unanimidade, cancelar a assessoria proposta  ao Sudeste.
                        --- Pois se é assim que vocês querem seus brocóios, que assim seja ! Guerra é guerra ! Cuidado com a lambedeira de doze polegada no vazio, viu ? Se vocês não aguentam o pote, como não vão se meter a pegar na rodilha ! Uma ruma de maricas desses que se caga com medo de seca,  ainda tem a cara de pau de querer desfazer de nordestino ! Querem separar o Brasil? Pois lembrem que aqui em cima vai ficar o cuscuz, a tapioca, a buchada e a galinha de cabidela.  Pois se lasquem na seca que não vamos ajudar ninguém , não ! Querem água,  é ? Pois lá vai : Azeite , senhora vó !
                        No mesmo dia andaram dando uns safanões num pobre mestre de couro de Matozinho. Motivo ? Por azar,  o homem tinha o nome de “Sulino”.
                        Andaram comentando, dias depois, na praça,   que Sitônio tinha botado um nome muito esquisito numa jumenta do seu roçado. Dias depois, alguns membros do CLP passando por ali,  mataram a charada. A jumenta estava sendo coberta, na manga, pelo jumento de lote.  Meio agoniada com a virilidade excessiva e monumental  do companheiro, tentava se safar , em vão, do assédio sexual, subindo uma ribanceira.  Nisso, ouviu-se quando Sitônio gritou, revelando, por fim, o apelido estrambótico que colocara na biroba:
                        ---  Aguente o ferro !  Num rifugue não ,  viu,    seu  Diogo Mainardi !

Crato, 06/11/14