sábado, 20 de agosto de 2016

Um Ninho de Mafagafes


"Não ir ao teatro é como fazer a toilette sem espelho."
 Arthur Schopenhauer

                                   O Teatro acompanhou de perto a história caririense. Cem anos após a Missão do Miranda já tínhamos por aqui a Sociedade Melpomenense de Teatro, em plena atividade. Nos  primeiros vagidos do Século XX , o pernambucano Soriano de Albuquerque fundaria o Grupo Teatral “Romeiros do Porvir” , com teatro montado na Rua Grande em Crato. Outras salas apareceriam na Rua do Fogo e na Sociedade São Vicente de Paulo, na Praça da Sé. Nos anos quarenta, Waldemar Garcia , cratense, o maior nome do Teatro cearense no Século XX, fundaria o Grupo de Teatro Amadores Cratenses  e , em Juazeiro, já funcionava um Teatro Escola, encabeçado por Menezes Barbosa. As três décadas que se seguiram  viveriam, basicamente, do teatro estudantil e de alguns  visionários e abnegados  . O advento das Mostras Cariri das Artes, já nos anos 90, parece ter feito despertar, novamente, as Artes Cênicas no Sul do Ceará.
                                   Esta pequena síntese  histórica brota  da necessidade de entusiasticamente contextualizar as artes performáticas  na nossa região, quando terminamos por assistir ao espetáculo “Poeira” do Grupo Ninho de Teatro aqui do Cariri. O Ninho com sua força gravitacional congregou atores , atrizes , diretores inspirados, que há mais de dez anos vinham, obstinadamente, trilhando o difícil e árduo caminho de fazer um teatro de qualidade, mesmo diante dos terríveis obstáculos das verbas exíguas, da ausência de Secretarias de Cultura  e do amadorismo.  Acompanho, como amante dos palcos, a evolução vertiginosa do Grupo que, dia a dia, terminou por se vivificar como um dos mais importantes de todo o estado do Ceará. Eles fazem Arte como missão e vocação e sabem , como dizia Cacilda Becker, que Teatro não é negócio, sempre dá prejuízo contábil, mas que os ganhos auferidos vão muito além de um simples Código de Barras.
                                   O Grupo Ninho é, de longe, o mais premiado do Cariri. Participou do Projeto “Palco Giratório” do SESC, estará, em breve no Rio, apresentando-se nas Paraolimpíadas, e este ano estará novamente no badalado Festival de Teatro de Guaramiranga. Seu último espetáculo, “Poeira”, para mim é antológico. Pareceu-me, na minha avaliação de puro espectador, um das melhores obras já produzidas em toda a história das Artes Cênicas cearenses.  Uma emocionante reverência à  trajetória  dos Mestres da nossa Cultura de Tradição , espetáculo milimétrica , coletiva e laboratorialmente  produzido, ao longo de três anos, sob orientação do LUME Teatro de Campinas em São Paulo. Percorrendo um caminho tão pantanoso, com risco permanente de cair no caricato, de afundar-se na religiosidade romeiresca, os integrantes do NINHO tiveram a leveza de arrancar a vida pulsante da Cultura popular, juntando Arte & Vida & Poesia, a essência final do Teatro.
                                   A persistência do NINHO , a formação acadêmica de muitos dos seus atores, a orientação de outros profissionais mais experientes  fizeram com que se elevasse a qualidade do trabalho a um patamar poucas vezes visto  por aqui. O resultado de tudo , mais que surpreendente: é emocionante. O NINHO e seus mafagafinhos : Edceu Barboza, Elizieldon Dantas, Jânio Tavares, Joaquina Carlos, Monique Cardoso, Rita Cidade, Sâmia Oliveira e Zizi Talécio acabaram por me convencer que é possível, sim, fazer Teatro da mais alta qualidade, com nível profissional, sem quase nenhuma ajuda governamental,  com a inexistência orçamentária das nossas Secretarias de Cultura e, mais, sem que ao menos nossa cidade possua uma Sala de espetáculos que mereça esse nome. Essa realidade se por uma lado é alentadora e enche nossos olhos,  por outro lado trava-nos a língua com o fel da pergunta que não pode calar : “Que Teatro fabuloso não poderíamos desenvolver, se a realidade fosse outra ?
                                   O GRUPO NINHO de Teatro , ontem, fez florescer, diante dos meus olhos, sua mais nova ninhada. Que espetáculo meninos ! Vocês , hoje, se juntam a Soriano de Albuquerque e Waldemar Garcia : fazem parte da vitoriosa trajetória teatral da nosso Cariri. Nos últimos sessenta anos,  ninguém vez teatro, por aqui, no nível que vocês apresentam hoje !  Quem ainda não viu o “Poeira” , se avexe !  Vocês estão refazendo a maquiagem sem o espelho, como dizia Schopenhauer , vão ficar arrepiados  e de cara borrada . Voltem ao NINHO, imediatamente, amigos !

Crato, 20/08/16



quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Caçando Pokemóns

                                  
J. Flávio Vieira
                         N os últimos dias, por incrível que possa parecer, começaram a pulular, Brasil afora, professores de português. A notícia pode até parecer salutar, à primeira vista: finalmente estaríamos olhando para o umbigo e redescobrindo que   “a última flor do Lácio, inculta e bela” faz parte intrínseca da nossa individualidade. Cultivá-la, podá-la cuidadosamente, tratá-la com desvelo , no fundo, seria acariciar a nós mesmos, afinal a língua é possivelmente o que existe de mais visível e profundo na nossa identidade cultural. A notícia seria alvissareira se não tivesse , por pano de fundo, o que existe de mais abjeto no coração humano : o preconceito.
 
                                   Em São Paulo, o médico Guilherme Capel Pascua, de plantão, atenderia um paciente humilde que, confidencialmente , em linguagem simples, externou os sintomas na sua língua própria. O doutor, com sorriso sardônico, zombaria dele e , nas Redes Sociais ( o Oráculo de Delfos da atualidade) debocharia do coitado : “Não existe Paleumonia e nem Raôxis !” , diria ele, para seus amigos , caçadores de Pokemóns. A foto de Dr. Guilherme, um médico visivelmente recém-formado, ganharia o noticiário e ele terminaria demitido, junto com vários funcionários do mesmo hospital, que corroboraram a gozação, inclusive citando outras, de outros clientes, igualmente pouco alfabetizados, que teriam cometido ( na avaliação desfocada deles) sérios crimes gramaticais. 
                        Não pretendo aqui crucificar um colega, ainda imberbe, na sua atitude, ao meu ver, totalmente estapafúrdia. O consultório é um confessionário e somos todos, desde Hipócrates, sujeitos ao Segredo Médico. Nem sob tortura, sob ação judicial, podemos revelar o que nos foi confidenciado. O médico, diante do seu paciente, não é um técnico de gravata diante de um televisor; devemos ser, necessariamente, uma alma diante de outra alma. Precisamos que ser , sim, intérpretes das diversas línguas portuguesas existentes no Brasil, isso faz parte do nosso mister e da nossa formação . E mais ( pasmem Dr. Capel e seus asseclas! ) , não existe erro linguístico nas informações do cliente humilde . A língua é dinâmica e viva , não pode se ater a simples regras formais e fossilizadas da escrita culta. Tenho absoluta certeza que o Dr. Guilherme não fica corrigindo seus amigos do Facebook quando estes utilizam o típico linguajar das Redes Sociais, com palavras truncadas, sem o til e o cedilha e plena de neologismos. Além de tudo,  colocaram o paciente humilde precisando se expressar com termos técnicos , distantes dele. Dr. Capel passaria numa prova de economês , filosofês ou cibernetiquês ?  
                        O mais preocupante para mim, no entanto, é que a visão do Dr. Guilherme não é apenas dele, mas de toda uma geração de novos profissionais , sempre se sentindo superiores aos seus pacientes e certos que foi por simples mérito próprio que chegaram ao conhecimento e à formação acadêmica. Os que não conseguiram estudar e aprender a língua formal,  não o fizeram porque, na sua visão, são preguiçosos ou burros.  O enteado do paciente , triste, informaria à imprensa que seu padrasto não teve condições de continuar os estudos porque ele , o enteado,  teve tuberculose aos dois anos e, na época, ou o mecânico estudava ou pagava seus remédios. A visão de Dr. Guilherme e de seus comparsas, certamente, era a de que ele deveria ter deixado o enteado morrer e, meritocraticamente, ir aprender gramática.
                        Na última quarta-feira, a atual presidenta do STF , Carmen Lúcia, ao ser saudada como tal , recusou o título informando que queria ser tratada como presidente, uma vez que era “amante da língua portuguesa”.  Não soube se o gramático paulista  Dr. Guilherme Capel criticou a ministra. Ao paciente humilde do médico não se pode cobrar conhecimento da língua erudita, mas era de se esperar que a uma pessoa que ocupa um dos mais altos cargos da justiça do país tivesse conhecimento de causa. As duas formas são perfeitamente corretas segundo Bechara e outros mestres da língua portuguesa. Até Machado de Assis utilizou o “presidenta” nas “Memórias Póstumas”. Como sempre, havia mais de uma simples correção gramatical na fala da ministra. Existia uma deselegância desnecessária , era como se dissesse : “Presidenta, não ! Não me compare com aquela gentalha!”
                        A escolha do “Presidenta” pela atual presidenta eleita do Brasil, tem um fortíssima razão linguística. Ela pretende realçar a força feminina do seu cargo. É mesmo bom que a ministra mantenha o seu “presidente” antes do seu nome. A Suprema Corte do país tem dado mostras claras de que nossos problemas vão bem além das interpretações de regras gramaticais. Mesmo que os gramáticos vesgos Lúcia e Capel estivessem certos linguisticamente,  Patativa do Assaré já tinha matado a charada: “é melhor escrever errado  a coisa certa do que escrever certo a coisa errada”.


Crato, 12/08/16

sexta-feira, 12 de agosto de 2016


LIVRO DE GRAÇA NA PRAÇA
BELO HORIZONTE
PRAÇA DE SANTA TEREZA
11 DE SETEMBRO DE 2016
IMPERDÍVEL !

sexta-feira, 29 de julho de 2016

O Cardápio e a Indigestão

                               
J. Flávio Vieira

                               A coisa parece andar ainda em banho-maria, mas o certo é que há já visíveis sinais dos sorrisos abertos, da solidariedade à flor da pele, da exacerbada sensibilidade social  e das tapinhas nas costas: estamos mergulhados, novamente, em clima eleitoral. Forças políticas se organizam, babões e cabos eleitorais se inflamam e, pouco a pouco, as peças se vão colocando no tabuleiro de xadrez. A população, aparentemente, encontra-se ainda sem muito apetite, meio cabreira e olhando de soslaio. E as razões são muitas para tanta desconfiança. Que valia tem o Título de Eleitor se os votos de milhões podem ser anulados por quatro gatos pingados, no tapetão ? Além de tudo,  as administrações públicas das três maiores cidades caririenses, na última gestão, foram, simplesmente, abaixo de qualquer crítica. Em nada avançamos, continuaram as mesmíssimas deformidades eleitorais de sempre, Saúde-Educação e Cultura, a mola mestra de qualquer cidade que se preze, foram simplesmente relegadas à sarjeta. Salvou-nos, apenas, a administração estadual anterior, que, alinhada com o governo federal, ao menos em termos de obras construídas, bateu todos os recordes conhecidos na história do estado. A última gestão da prefeitura do Crato, infelizmente, não conseguiu , simplesmente, acertar em uma única área. Marcamos passos por quatro anos, amarrados em processos burocráticos, licitações emperradas, secretários na sua maior parte sem conseguir desempenhar um mínimo de papel decente, se sucedendo quase que em escala de plantão e uma Câmara Municipal omissa, silenciosa, compactuando com a tragédia que se foi desenhando mês após mês. O Crato se tornou uma mera caricatura daquilo que já foi um dia e nisso, é imprescindível que se entenda, há muito da responsabilidade do seu povo e dos seus governantes. O descrédito chegou a um nível que sequer a candidatura natural à reeleição do atual gestor municipal se faz viável, nem mesmo apoio podendo diretamente dirigir a um ou outro candidato, tamanho o desgaste que foi acumulando, principalmente ante à tremenda expectativa que despertou nos cratenses com a histórica votação recebida em 2012.
                   Por tudo isso, claro, o cratense anda meio desconfiado , como cachorro em noite de São João. O cardápio que se apresenta, atualmente,  não parece trazer iguarias novas à degustação. A maior parte dos pratos já nos causaram indigestão em regabofes anteriores. Mas a mesa , aos poucos, vai sendo servida. É o que temos para o banquete democrático , se é que é ainda possível falar em Democracia no Brasil. Escolhamos o menos pior ! E mais, sejamos criteriosos na escolha dos vereadores ! Que possam desempenhar a função fiscalizadora e legislativa !  Não tem sentido pagarmos tão caro ( e eles são todos funcionários públicos, embora não pensem assim!) para se limitarem a dar nomes de rua e títulos de cidadania ! E mais: empanturrarem a máquina pública com seus asseclas e viverem cobrando taxinhas para aprovarem  projetos do interesse da população. Basta !  Se não for possível eleger um prefeito à altura do município de Crato, por inteira falta de opções ,  ao menos catemos , cuidadosamente, os nossos representantes na Câmara Municipal ! Uma Câmara isenta, independente e fiscalizadora já será , ao menos, um bom passo para escapar do marasmo histórico em que nos metemos !


Crato, 29/07/16  

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Expocrato - Sucesso ou Insucesso ?

                             Finda-se mais uma Expocrato e a sensação que se percebe nos seus organizadores é que foi de um sucesso estrondoso: público gigantesco,  shows dos últimos dias extrapolando qualquer previsão otimista de telespectadores. Os negócios aparentemente não foram dentro da expectativa, mas aí se deposita o ônus na crise , ademais , de há muito a Expocrato deixou de ser uma Feira Agropecuária, hoje é bem mais de Entretenimento. Críticos e defensores são unânimes : esta é a maior festa de todo o interior do estado.
 
                        Claro que a visão de sucesso carrega consigo muitas definições e perspectivas. O primeiro transplante cardíaco brasileiro , feito pelo Dr. Zerbinni, foi um êxito tremendo na vião da ciência, abrindo fronteiras até então intransponíveis, mas um terrível fracasso para a família do João Boiadeiro que veio a falecer nos dias seguintes. Em termos de público nos shows, de encontro das famílias tradicionais do Crato, de aquecimento da temporada de férias, da arrecadação com a venda dos espaços, não existe nenhuma dúvida : Ponto para a Expocrato/2016 !
                        No meu fraco entender, no entanto, continuam faltando ainda sal, tempero e galinha  nesta canja insossa. A democratização da festa há muito tempo foi para as cucuias. Hoje apenas os abastados e os turistas conseguem se achegar do divertimento, com ingressos às vezes caríssimos, bebidas de uma só marca, com preços achacantes. Espetinho e cerveja  de R$ 8,00; refrigerantes de lata a  R$ 6,00; estacionamento de R$ 20,00,  mas que em alguns dias chegou a R$ 50,00; mesas vendidas no espaço dos shows por até R$ 200,00 e Cadeiras por até R$ 20,00. Preços que impedem qualquer trabalhador de chegar à ExporaCrato, como terminou por ser redenominada. E não se debite a culpa aos pobres comerciantes: eles apenas estão se protegendo dos preços milionários cobrados pelos espaços . A terceirização contínua já por muitos anos da grade  dos shows, por sua vez, faz com que se priorizem apenas os artistas mais midiáticos , o que nada tem a ver com a qualidade dos seu trabalhos. Assim o estado e o município deixam de fazer Política Cultural, coisa de sua responsabilidade. Mais uma vez muitas e muitas tribos são sempre alijadas : a galera do Rock, o pessoal da Seresta, os evangélicos, as crianças, a Cultura de Tradição, a Música Instrumental, a Música Contemporânea do Cariri. Se todos pagam seus impostos, não deveriam todos ter acesso aos  benefícios ? Os artistas caririenses ( isto é uma lástima e tem sido uma política torpe do estado e do município que se diz da Cultura) os tem  desprezado reiteradamente como porcos infames na Expocrato . É bom que o povo que não tem espaço nem na sua festa mais importante,  se lembre disso neste ano eleitoral !
                                   O pior é que ano após ano, depois da grande festa, com arrecadações que avaliamos vultosas, nunca vemos os balanços transparentes da transação comercial feita no espaço público. A Câmara municipal este ano, até acenou com a possibilidade de por regras neste corso, mas, de repente, calou-se e voltou a sua cansadíssima tarefa do dia a dia de dar nome a ruas e títulos de cidadania. Sei que o Ministério Público zeloso, deve acompanhar de perto, o desenrolar dos acontecimentos. Não vemos, no entanto, obras importantes no parque, de infraestrutura e manutenção compatíveis  com a grandiosidade do evento e dos preços estratosféricos cobrados.
                                   O sucesso da Expocrato, assim, me parece, como tudo nesta vida, bastante relativo. Em tempos tão temerosos, os afortunados da sorte devem estar sorridentes nos seus camarotes percebendo que tudo tem que ser caro mesmo se não “mistura”. O Zé-Povinho toma de conta e aí os bacanas não podem ficar à vontade.  A elite, no entanto, tem que se decidir, se a proposta é nada para o povão e tudo para o andar de cima, que pobre fede, que liso não tem classe, então, amigos, a partir de agora, fiquem longe, nada de sorrisos falsos e tapinhas nas costas.  Querem votos? Procurem as mansões e os palacetes! Não se misturem com a gandaia , não !

J. Flávio Vieira


Crato, 22/07/16  

quinta-feira, 31 de março de 2016

Dolores


J. Flávio Vieira

                                                               Em meio ao curso de um golpe aos direitos democráticos, empreendido  pela Casa Grande e seus Capitães-do-Mato: A mídia  e a pseudo-justiça brasileiras , quando os vampiros afinam os dentes para tomar conta do Banco de Sangue; um fato, nesta semana, nos remeteu aos tempos da Inquisição. No Rio Grande do Sul, a pediatra Maria Dolores Bressan enviou uma mensagem, a uma cliente, informando que não mais atenderia o filho desta, seu paciente desde tenra idade, pela gravíssima razão de o menino ser filho de uma militante do PT e de um filiado do PSOL. Ariane Leitão, a mãe do pimpolho, é vereadora em Porto Alegre e foi Secretária Estadual de Políticas para as Mulheres. Injuriada com a atitude preconceituosa  da profissional, procurou a justiça e divulgou seu desapontamento nas Redes Sociais. Em tempos de acirramento dos conflitos de classes , quando o retorno  à era pré-1888 volta a ser o grande sonho da elite brasileira, estabeleceu-se uma polêmica digna do velho faroeste.  O presidente do Sindicato dos Médicos gaúcho deu entrevista justificando plenamente a atitude da Dra. Dolores e mais afirmando que ela precisa se orgulhar da decisão tomada. Embasou seu parecer no Código de Ética Médico  ( inciso VII, dos Princípios Fundamentais) , que reza : salvo casos de emergência, o médico pode se negar a atender pacientes que não lhe interesse o atendimento. O Conselho Regional do Rio Grande do Sul, o fórum específico para julgamento de ilícitos éticos, aparentemente não comunga desta mesma ideia.  
                                   A atitude da Dra. Dolores me pareceu estapafúrdia, típica desses tempos sombrios em que vivemos. Se o Sindicato saca o Código de Ética em defesa, o que me parece mais preocupante do que o destempero da profissional, bastaria olhar o inciso I , que abre os mesmos Princípios Fundamentais do Código  : “A Medicina  é uma profissão a serviço da saúde do ser humano e da coletividade e será exercida sem discriminação de nenhuma natureza” ou  a proibição expressa, claramente,  do Art. 23 :  “Tratar o ser humano sem civilidade ou consideração, desrespeitar sua dignidade ou discriminá-lo de qualquer forma ou sob qualquer pretexto.” E nem precisa lembrar, aqui, o famoso Juramento de Hipócrates que a Dra. Dolores, com os olhos marejados de lágrimas, deve ter, mão estendida, rezado na sua formatura: “Não permitirei que questões de religião, nacionalidade, raça, política partidária ou situação social se interponham entre o meu dever e meu paciente”. Num tempo em que os códigos éticos foram substituídos pelo Código de Barras de que valem essas palavras ritualísticas e milenares?  A rigor , na visão estreita do Sindicato dos Médicos do Rio Grande do Sul, qualquer médico poderá se recusar a atender um paciente invocando razões como : “Eu não atendo pacientes pretos!”; “Eu me nego a medicar homossexuais!”; “Aleijado? mongol ? Atendo nada! Xô ! Procurem a APAE”.
                                   Mesmo se nos detivermos apenas nos possíveis ou inexistentes ilícitos éticos na conduta da Dra. Dolores é sempre bom lembrar que  há preceitos acima dos simples códigos regulatórios. A Constituição e leis federais criminalizam discriminações de quaisquer espécies. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, já no seu segundo artigo preceitua :  “Todos os seres humanos podem invocar os direitos e as liberdades proclamados na presente Declaração, sem distinção alguma, nomeadamente de raça, de cor, de sexo, de língua, de religião, de opinião política ou outra, de origem nacional ou social, de fortuna, de nascimento ou de qualquer outra situação.” E é sempre bom lembrar que D. Ariane Leitão, a mãe do menino rejeitado, não se enquadra naquele perfil típico dos que, dia-a-dia, são levados ao pelourinho pela Casa Grande : é branca, olhos claros, deve ter plano de saúde, vem de classe média alta e transita nas hostes políticas. Imaginem o que sofrem, no dia a dia, os negros, pobres, nordestinos , homossexuais nos Centros de Saúde, Brasil afora!
                                   Ao médico não deve interessar a que partido seus pacientes são filiados, se são honestos ou marginais, casados ou amasiados, se são budistas ou islâmicos, se são ricos ou pobres, a não ser, claro, que esta informação tenha alguma relevância na história clínica. Quando opero na urgência um bandido perigoso tenho que ter com ele o mesmo desvelo que teria com um santo; o julgamento devo remeter aos tribunais e a Deus.  Somos sacerdotes e não técnicos, somos médicos e não juízes. Todos devem ser tratados, com o mesmo cuidado e deferência, mesmo que esta meta esteja distante , ela tem que ser perseguida compulsivamente. No caso específico da Dra. Dolores e do Sindicato dos Médicos do Rio Grande do Sul que me parecem cúmplices, existe ainda um agravante, o paciente que foi rejeitado é uma criança que não tem filiação partidária e que está sendo punida simplesmente por conta do exercício democrático dos seus pais. Hitler e Torquemada possivelmente teriam sido mais piedosos.
                                   Em tempos em que a Democracia parece  um estorvo; em que a abolição dos escravos é tida como um excrescência; em que as larvas são convocadas para curar a  ferida; a atitude da Dra. Dolores pareceu normal e até elogiável.  Podem me chamar de velho e obsoleto, demente e louco, mas é preciso sonhar neste crepúsculo com uma aurora que já raiou e que, quem sabe, volte a encher o horizonte com seus raios,espargindo para longe tanta e tanta escuridão.

Crato, 31/08/16   
                                     
                                  
                                  
                                  
                                    

                                   

sábado, 28 de novembro de 2015

Aparição em Serrinha dos Nicodemos

A crônica de Serrinha dos Nicodemos  , perpetuada de língua em língua, pelos mais velhos , cantava a pedra : A padroeira da cidade , desde que se entenderam de gente era N. S. dos Desamparados. A imagem, exposta na capelinha da vila, fora trazida , há mais de oitenta anos , por um padre espanhol , Pablo de Montieux, que ali chegara numa desobriga. A Virgem , desde então, velava pela pequena  e árida Serrinha, com sua roupa florida, seu cetro na mão direita e o menino de Jesus , com cara de sapeca, pendurado no braço esquerdo, ornado com uma linda roupinha dourada e de lantejoulas que contradiziam totalmente com sua origem humilde.  O sacerdote demorou apenas uma semana na vilazinha, mas simpático e muito solícito, terminou sendo o responsável pela epidemia de Pablinhos e Demontieus que começaram a aparecer na região, depois da sua partida. Não que o velho padre fosse o pai biológico de tantos rebentos, não tinha mais idade e nem palpite para tanto: os meninos saiam da pia batismal com esses nomes, como uma homenagem desprendida dos serrenses para com o condutor da santa querida àquela localidade.   N. S. dos Desamparados amparava a geração de avós e bisavós de Serrinha, as gerações mais novas  , no entanto, adoravam a mesma santa, mas a conheciam por um nome totalmente diverso, estranho e de origem etimológica difícil de se determinar : Nossa Senhora de Seforegreli !
                                               As versões sobre a origem de tão estrambótico nome variavam: alguns remetiam a uma cidade italiana  e a um outro missionário franciscano que passara na região muitos anos antes de De Montiuex, no início da colonização daquelas brenhas, em tempos de ciclo do couro. Os serrenses andaram pesquisando em arquivos de Matozinho, cidade vizinha,  livros velhos de batizados, degustados em parte por traças, não conseguiram desvendar o mistério. Os párocos de Serrinha, que se foram sucedendo, terminaram , também ,por adotar o nome popular da Santa. Não adiantaria lutar contra   anos e anos de tradição, de maneira que N. S. dos Desamparados terminou desamparada, ofuscada pela outra de Seforegreli.
                                               Alguns anos atrás, o pessoal do IBGE, em período de Censo, passou por Serrinha . Junto com a pesquisa dos dados municipais, andaram escavacando relatos históricas da formação da Vila. Detiveram-se, em dado momento, com a Santa padroeira e seu nome estrambótico. Anotaram as mais corriqueiras versões. Alguém, então, lembrou do mais idoso habitante de Serrinha : o velho Castriciano Solos do Mar. Ainda lépido e na ponta dos cascos nos seus 103 anos. Casara, inclusive, recentemente , pela quarta vez e , sem quaisquer aditivos químicos ou ajuda de universitários, era pai de menino ainda de cueiro. Os técnicos, orientados por funcionários da prefeitura, resolveram conversar com a testemunha ocular dos fatos ocorridos naquelas brenhas, nos últimos noventa anos. 
                                   Com dificuldade, em lombo de burro, chegaram no Sítio Bréa, distava umas duas léguas de beiço de Serrinha , já fronteira com Matozinho.  Castriciano os atendeu   com aquela solicitude própria do sertanejo.  Já no primeiro contato explicou o vigor que ainda o acompanhava :
--- Pão de milho, arroz, feijão de corda e bucho ! Isso é que dá sustança ao homem ! A desgraça do mundo foi galinha de granja e macarrão ! Antes dessa porcaria, num tinha baitola no mundo, não !
        Conversa vai, conversa vem, o pessoal do IBGE, então, entrou no varejo do assunto:
    --- O senhor pode explicar de onde vem o nome da padroeira da cidade, N.S. de Sefrolegreli ?

                         O velho, com um chapéu de massa atolado até as orelhas, meio tamborete de sampa, pôs-se nas pontas dos pés, tragou fortemente o cigarro escora-carroça que pendia do bico e contou uma história que não fazia parte dos anais oficiais da história de Serrinha.
                        A primeira padroeira da cidade , na verdade, seria N. S. dos Desamparados que chegou nas mãos do querido Pe De Montieux. Acontece que nos anos cinquenta, uma notícia abalou toda a região. Carmosina, uma menina que morava ali na Bréa, chegou , no Natal, esbaforida em casa contando uma história que tinha visto Nossa Senhora que lhe tinha aparecido, por trás de uma moita de mufumbo, na revência do açude do Calangro. Segundo Carmosina, que mantinha um ar de espanto e sobre naturalidade, a Santa chorara  muito, disse que estava preocupada com os destinos deste mundo eivado de pecado. N. Senhora  ainda afirmara que tinha revelações terríveis para contar  a Carmosina e agendou a volta dela por mais duas vezes: no Carnaval e no São João, quando, enfim,  revelaria as tenebrosas previsões. Sinésio da Bréa, o pai de Carmosina, procurou, imediatamente, o Pe. Ernestino Vilas Boas, então pároco de Serrinha. Revelou-lhe o acontecido. Ernestino tentou dissuadir-lhe : aquilo devia ser fantasia de adolescente , que diabos a Virgem viria fazer num fim de mundo daqueles ?
                                   A incredulidade de Ernestino, no entanto, não contaminou a população. Quando a notícia vazou , espalhou-se mais rápido que fogo em painço. Em tempos de seca de mais de três anos, o povo desesperado viu-se, enfim, diante de uma boia em meio à enxurrada. Num mês, a população de Serrinha triplicou. Começou a chegar romeiro de tudo quanto era canto e a se espremer nas terras próximas ao Açude do Calangro. Barracas cobertas de palha se foram levantando, palhoças para venda de mantimentos e bebidas. Vendedores de santinhos , de imagens , terços e rosários rapidamente montaram suas barraquinhas nas redondezas. Até as meninas da “Boite Chão de Estrelas” de Serrinha, vendo o afluxo crescente de pessoas naquele lugar, montaram um pequeno anexo ali : a  “Barraca Corisco Ariado” .  Mais uma vez, o sagrado e o profano ali se postavam como o anverso e o reverso da mesma medalha.
                                   Pe Ernestino, de início relutante e incrédulo, vendo o  crescimento desenfreado de romeiros, resolveu, embora discretamente, aderir ao fenômeno. Primeiro percebeu que não adiantava nadar contra o Tsunami, depois, mais pragmaticamente, sabia  que aquela multidão podia render em óbolos para a paróquia. Todo dia, por volta das nove da manhã, horário da aparição da santa,  Carmosina, toda vestida de branco,  puxava uma corrente de orações próximo à moita de mufumbo , seguida pela multidão que já ali se espremia. À noite, então, aquilo tudo virava uma festa, com a cachaça correndo solta, a sanfona roncando num arraial montado estrategicamente em uma das vielas mais escuras e o rela-bucho comendo solto até o amanhecer. Frequentemente corria uma mão de tapa em pé de ouvido e peixeira no vazio, efeitos colaterais frequentes desta mescla de álcool-música-dança.
                                   No início de fevereiro, aproximando-se a data da próxima aparição da Santa, as levas de romeiros quadruplicaram e com elas também as soluções e os problemas. Carmosina  passou a entrar em transe frequentemente, a aparecer mais tensa e com cara de outro mundo. Uns três dias antes da data prevista para a aparição , ela chamou o pai e explicou que havia um problema. N. Senhora aparecera em sonho para ela e tinha dito que havia cancelado a vinda, pois aquilo ali estava uma verdadeira Sodoma & Gomora, um antro de pecado e que não viria mais de jeito nenhum.  Sinésio, então, agitado com a reação dos romeiros frente a este novo problema, resolveu procurar o Pe. Ernestino e o pôr a par da complicação. O sacerdote, comendo pelas beiradas como quem come pirão quente, não quis meter o beiço no meio da tigela. Disse  a Sinésio que a promoção do evento era deles , que não tinha nada a ver com isso e quem havia parido Mateus o devia embalar.
                                   Sinésio, depois, da reza das nove horas, então, pediu a palavra e falou com a turba. Maquiavelicamente resolveu não dar a notícia ruim de uma vez só: temia um arranca-rabo. Informou, então, que N. Senhora tinha aparecido em sonho à Carmosina e avisado que não tinha mais condições de aparecer ali .
                                   --- Ela disse, meus amigos, que isso aqui tá uma verdadeira esculhambação, um verdadeiro  cabaré  e que num vem mais é de jeito nenhum ! Até o Capiroto , envergonhado, se recusaria a se meter num Cu-de-boi desses !
                                   De qualquer maneira, Sinésio disse que Carmosina ainda ia tentar negociar com Nossa Senhora, mas que o povo ao menos se comportasse. Quem sabe ela não aceita aparecer amanhã, conforme tinha combinado ?
                                   No dia seguinte, uma multidão gigantesca se apinhava, ao redor da sagrada moita de mufumbo. Às nove horas em ponto, com todos ajoelhados, uma Carmosina aflita começou a chorar desesperadamente ao redor da moita. Ela pressintia o quebra-quebra que aconteceria logo mais. Segundo o velho Castriciano que  já cinquentão botara uma taperazinha ali pra vender mendraca com caju, aquele foi o maior rapapé já acontecido por aquelas bandas.
                                   O velho Sinésio, trêmulo, aproximou-se de uma Carmosina encharcada de lágrimas e deu o diagnóstico final :
                                   --- Amigos, é uma pena, mas eu avisei ! Essa putaria aqui ia terminar dando nisso !  Vocês estavam mais desmantelados que corrida de siriema ! Carmosina pelejou mas Nossa Senhora botou foi a maior banca. Disse que não vem é de jeito nenhum !  
                                   E , então, antes do novo dilúvio, firmou a sentença final de que não apareceria mais nem que a vaca botasse os bofes, com uma frase que terminaria batizando definitivamente a Nossa Senhora de Sifrolegreli de Serrinha . Nossa Senhora teria sapecado :
                                   --- Vocês lá querem Nossa Senhora nada, seus pecadores !  Se eu for, eu grele !



Crato, 28/11/15