sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Uma questão de classe




                        A tolerância é a melhor das religiões.
                                                                                            Victor Hugo

                                               Vivemos , nos últimos meses, sombrios tempos, tintos de intolerância. Cidadãos, que se querem respeitáveis,  saem à rua pedindo o fim da democracia e a intervenção militar. Manifestantes gritam o nome de  político de extrema direita, defensor declarado da pena de morte sem julgamento, da homofobia, da violência contra a mulher, plataforma que , nas pesquisas, contempla mais de 15% do eleitorado. Igrejas de viés pentecostal  tomam de assalto templos de religiões de raiz afro e os destroem, depois de agredir sacerdotes. Na rua , vozes gritam contra o aborto, ao mesmo tempo que -- vá lá entender ! --  pedem a instituição da pena de morte, num país em que a justiça está nas esquinas fazendo trottoir. As Redes Sociais, dia após dia, se vêm repletas de agressões e racismo puros contra nordestinos, negros e os que não tiveram o mérito suficiente para achacar os cofres públicos. Escritora de renome internacional é agredida selvagemente ao vir discutir , no país, questões de Gênero. Obras de arte são vilipendiadas sob a alegativa de imoralidade. Louvam muitos a volta do trabalho escravo, do trabalho infantil, da cassação dos direitos trabalhistas, da aposentadoria a se perder de vista. Direitistas cospem fogo pedindo diminuição da maioridade penal como solução salvadora para a violência urbana.
                            Neste retorno às trevas, algo atônitos, não conseguimos entender esta guinada aparentemente repentina rumo à selva. Onde estavam todos esses intolerantes dois anos atrás? Escondiam-se em catacumbas ? Reuniam-se em cavernas ? Hibernavam à espera de tempos propícios? Por incrível que possa parecer, eles simplesmente circulavam por entre todos os outros mortais, travestiam-se de avançados  e modernos, metamorfoseavam-se por trás de discursos algo dúbios, mas com laivos de compreensão e benevolência, ajoelhavam-se piedosamente nos templos e oravam pela paz mundial. Aguardavam o momento da emboscada, a degola da democracia, quando de conspiradores passaram, imediatamente, a opressores e, munidos de impunidade política e jurídica, invadem as ruas e vielas perpetrando toda espécie de atrocidades. Atropelado o Estado de Direito, cada um passa a ter a desfaçatez de criar suas próprias leis e executar suas sumárias penas. Havia mais  legalidade e ordem nos tempos de Hamurabi.
                            Interessante é que a intolerância da Casa Grande  é extremamente seletiva. Tolera-se a corrupção desenfreada que enlameia todas as esferas dos três poderes. Permite-se, sem um pio, que um presidente compre, com dinheiro público, abertamente, todo o Congresso para que não seja sequer  investigado. Baixa-se a cabeça, contritamente, para o vilipêndio do corte absurdo de direitos trabalhistas; do estrupo das regras de aposentadoria; da dispensa gigantesca de dívidas tributárias de bancos, do agronegócio, de grandes empresas brasileiras. A mesma turma elitizada que se horroriza com o nu na obra de arte, admira a venda, em promoção, de todo patrimônio público brasileiro, num queima de proporções planetárias.
                            O avião, sem as duas asas, despressurizado, está caindo vertiginosamente. As madamas, na Classe Executiva, no entanto, implicam com alguns pés rapados da Classe Econômica, enquanto chacoalham suas joias.  Que se dane a companhia aérea, elas perfumadas e chiques não têm nada a ver com o acidente! O avião, simplesmente, não lhes pertence! Vai ver que foram os esfomeados, da farinhada, que deram azar ! Que se lasquem ! A culpa é deles !

Crato, 17/11/17
                               

                                    

sábado, 11 de novembro de 2017

Cospe-Brasa




                                Matozinho vivia dias difíceis , os matozenses andavam mais apertados que pobre em final de mês. O começo da tragédia tinha começado com a morte inesperada de do prefeito “Ursulino do Caixete” , um boticário do município, numa capotagem de carro na ladeira da Serra da Jurumenha. O grande problema é que os sucessores naturais : Petronildo  Carimbó, o seu vice;   e o presidente da Câmara, “Cricri do Rolo”, pereceram no mesmo acidente. Vinham de uma reunião política, em Serrinha, segundo a versão oficial  e de uma provável  pescaria, com garotas de programa arrebanhadas na capital, segundo o afiadíssima língua do povo. O certo é que Matozinho,  que já vivia acéfala há muito e muito tempo, teve suas condições pioradas ( ninguém imaginou que desgraça, como surrão, não tem fundo!) e que o péssimo que se está vivenciando tem sempre a possibilidade de piorar ainda. Simplesmente, não ficou ninguém na linha de sucessão: não existia juiz na época em Matozinho. O esperado era que novas eleições fossem convocadas. Após o funeral, no entanto, a oposição arrebanhou correligionários rapidamente e, na Câmara,  decidiu, às caladas da noite, que Asfilófilo Currimboque, deveria assumir um mandato tampão, completando o  do seu antecessor. Ele  era um arrivista, chegara na cidade há alguns anos e ali vivia como mascate, vendendo quinquilharias de porta em porta. Como diabos pôde nosso contrabandista ser alçado ao cume do poder ? A grande questão é que por trás de  Asfilófilo existia toda uma voraz classe política pronta a açambarcar as verbas municipais  e o nosso muambeiro fazia-se a pessoa mais que perfeita para essa plataforma de governo: não possuía escrúpulos maiores, entendia todas as manobras imagináveis das falcatruas , das sonegações , das trapaças e ilusionismos  e, com espírito nômade, na hora do pega para capar, anoiteceria e não amanheceria em Matozinho.
                                               Asfilófilo assumiu a prefeitura   e seguiu o roteiro predeterminado. Demitiu em massa funcionários e colocou no lugar seus apaniguados. Dizia-se que , em Matozinho, quem não fosse currimboque não fazia faísca. Passou a cobrar impostos extorsivos  dos pequenos  ambulantes da cidade e a dispensar os impostos dos grandes fazendeiros e comerciantes. Sabendo-se político de um só mandato,  caiu , sem quaisquer escrúpulos, em cima das verbas municipais, distribuindo-as , abertamente, com todos aqueles que o ajudaram na subida.  Ademais, com o aval da Câmara, passou a vender todo o patrimônio de Matozinho : prédios, casas, terrenos, escolas, postos de saúde, sob a alegação de quem eram dispendiosos e  não tinham função. Algumas pessoas mais esclarecidas recorreram juridicamente dessas decisões a desembargadores da capital. O processo porém não andou e percebeu-se que Asfilófilo , esperto, deveria estar molhando a mão de alguns figurões de beca. Incrivelmente, os matozenses permaneceram quietos diante do estupro, as únicas reações aconteciam através da língua de peixeira amolada do povaréu,  nas Redes Sociais do interior : a praça e as janelas.
                                               Próximo ao fim do mandato, Asfilófilo , já sem opções, usou seus últimos cartuchos : pôs  à venda o prédio da Prefeitura e da Câmara Municipal, segundo ele decrépitos demais e com risco de ruírem. Prometeu que construiria, com o arrecadado, um Centro Administrativo. Estava a seis meses do fim do seu mandato ou pilhagem. Como conseguiria com o tempo tão curto que lhe restava?  Naquele momento abrira-se, já,  o processo eleitoral na cidade. Os cúmplices de Asfilófilo, aos poucos,  se vão afastando dele, Temendo contaminarem-se com sua popularidade em subsolo. Os antigos correligionários de Ursulino arregimentam-se para tomar de volta as rédeas do poder, apresentaram um candidato popularíssimo , o velho Capistrano, já eleito anteriormente e afinadíssimo com os mais pobres e humildes. Do outro lado, os que se beneficiaram com o governo pirata de Asfilófilo já apontaram seu candidato: um velho cabo da polícia de Matozinho, chamado Aderaldo Cospe-Brasa.  Metido a brabo, zuadento, tido por justiceiro,  tinha fama de fazer desaparecerem supostos bandidos,  em passeios turísticos pelas bibocas de Bertioga. Vivia a urrar nos bares e nas praças que cadeia para bandido tinha que ter pelo menos sete palmos; que cura para viadagem era peia no lombo; que lugar de mulher é na cozinha ou na cama e que a desgraça do Brasil aconteceu quando a tal da Princesa Isabel ( só podia ser uma mulher mesmo !) botou na cabeça oca que preto é gente e não macaco.  Tem uma récua de partidários o Aderaldo, acreditam que para resolver a bandalheira deixada por Asfilófilo, só mesmo um mão-de-ferro. Ficam irritados quando alguém lembra que eles, definitivamente, não são bons de escolha nem de memória: teriam sido os principais atores da tragédia chamada: Asfilófilo Currimboque.
                                               Semana passada,  apareceu um escândalo na cidade: descobriu-se que “Cospe-Brasa” , quando na ativa, vivia chantageando os organizadores do jogo do bicho e recebendo propina para manter os olhos fechados. D. Vitalina, uma língua de veludo de Matozinho, jura de pés juntos que às vezes Aderaldo não Cospe-Brasa, e lembra que ele viveu,  maritalmente  , num longo romance com uma Rainha Negra do “Maracatu Estrela Cadente” que se chamava , nos folguedos, Marivalda. Na vida real, no entanto, a rainha, não tinha nada a Temer : tirado os adereços,  trabalhava como vaqueira e atendia pelo  nome de Valdemar. Afe !


Crato, 10/11/17

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

O Violino e o Reco-Reco

                                                                                 J. Flávio Vieira




                               No  último dia 27 de setembro ,  a pedido do Conselho Federal de Medicina, o juiz federal Renato Borelli expediu liminar impedindo os enfermeiros, em todo o país , de prescrever remédios, solicitar exames e realizar consultas. A medida levantou grande polêmica, principalmente por conta do impacto que causou no atendimento do SUS no Brasil e da incontinenti  desestruturação do Outubro Rosa. Só para se ter um exemplo, a Casa de Parto David Capistrano, no Rio de Janeiro , tocada por enfermeiras obstétricas, especializada em parto humanizado, simplesmente teve que sustar suas atividades. O Conselho Federal de Medicina ( CFM) e o COFEN , Conselho Federal dos Enfermeiros, imediatamente impeliram-se numa batalha judicial que, diga-se de passagem, já se arrastava por muitos anos. De lado a lado, as artilharias passaram a disparar seus projéteis. Um médico de Toledo, no Paraná, emitiu, em rede social, um comentário extremamente grosseiro e deselegante: “Estudei 12 anos, em tempo integral, para fazer isso e jamais vai ter uma enfermeira que fez um curso de bosta de meio período, me dando ordem ! Vai limpar bosta de bunda suja, sim !”. Enfermeiros queixaram-se da atitude extremamente corporativista do CFM e este rebateu lembrando a expansão tentacular dos enfermeiros em atividades, antes, embutidas do Ato Médico.
                                               Há quarenta anos na estrada,  tenho acompanhado todo o script desta tragicomédia. Permito-me, assim, mesmo sem ter o distanciamento necessário, meter minha colher nesta sopa de letrinhas. Primeiramente, acredito que as entidades médicas e de enfermagem não podem ser criticadas por estarem apenas executando o papel que delas se espera. Destas corporações  cobra-se , justamente, que lutem pelo espaço dos seus associados no mercado de trabalho, a cada dia menos definido e delimitado com a expansão das especialidades médicas e paramédicas.  As entidades também devem impedir a conflagração de brigas pessoais e rixas individuais, elevando os embates para  as sociedades classistas.
                                               Sempre é bom lembrar como encetou esse acúmulo de atribuições, antes eminentemente médicas,  que os enfermeiros terminaram por ter que assumir. Com a criação do Sistema Único de Saúde, após a Constituição de 1988, retomou-se , por fim, o curso da Medicina Preventiva no Brasil. Com todas as deformidades possíveis, com subfinanciamento, falhas no atendimento, a mudança no modelo de assistência conseguiu, em quase trinta anos, um impacto fenomenal nos nossos indicadores de Saúde como : Mortalidade Infantil , Mortalidade Materna, Universalização, quase que abolição das doenças de controle vacinal. O grande problema é que a classe médica que aos poucos se foi diplomando, desde então, formou-se dentro de um modelo totalmente  de viés curativo e hospitalocêntrico. Esta realidade tornou-se ainda mais forte e preponderante com a expansão desenfreada das novas Escolas Médicas , muitas privadas e caríssimas. Profissionais médicos formam-se para a especialização e a superespecialização e para tratar quem pode pagar pelo atendimento. Sempre utilizaram o SUS e os Programas de Saúde da Família como mero bico: ou quando estão em fins de carreira ou aposentados ou quando recém-formados pretendem fazer um pé-de-meia, enquanto aguardam a Residência Médica. É frequente a grande volubilidade de médicos no SUS, impedindo um trabalho mais contínuo e persistente. E a questão vai bem mais além do salário que muitas vezes é bem acima do mercado, mas passa por questões de estabilidade trabalhista e muito pela própria filosofia que norteia seus sonhos e aspirações. Este vácuo fez com que os enfermeiros precisassem assumir muitas das atribuições que  antes não lhes pertenciam, todas legalizadas por Resoluções do Ministério da Saúde e do Conselho Nacional de Saúde: receitar dentro dos programas; acompanhar os pré-natais; solicitar exames; prescrever hemoterapia; realizar partos. Além de tudo,  os enfermeiros viram-se impelidos a assumir a maior parte das gerências de Unidades de Saúde e das Gestões Municipais de Saúde.  São os enfermeiros, na realidade, os mais importantes protagonistas do atendimento público na assistência primária, no Brasil. As entidades médicas permaneceram algo silentes, durante todo esse processo. Revoltaram-se, mais por questões ideológicas, com a vinda dos médicos estrangeiros no “Mais Médicos” e, agora, por fim, vendo a proliferação de escolas e de formandos, acordaram para a necessidade de garantir sua fatia nesse mercado.
                                               Discordo totalmente do colega paranaense, não só pela grosseria e baixeza de seus comentários, mas principalmente pela obtusidade. A Medicina moderna faz-se, necessariamente, de maneira multidisciplinar. Como cirurgião, posso até me arvorar de, em determinadas situações, ser o protagonista principal do tratamento . Mas sei, perfeitamente, que o sucesso de tudo depende de um trabalho de equipe que envolve muitos e muitos personagens: enfermeiros, técnicos de enfermagem, fisioterapeutas, farmacêuticos, etc. Não adianta me orgulhar como primeiro violino na orquestra,  se o virtuosismo do Concerto pode vir de água abaixo  se atravessar, lá atrás, o aparentemente insignificante reco-reco. Ademais, muitas e muitas vezes, o médico tem um papel secundário no atendimento global , como nos tratamentos paliativos, em pacientes terminais, quando o psicólogo , a enfermagem  alternam-se nos cuidados mais importantes. Por outro lado, o doutor paranaense não estudou só doze anos , como ele enfatiza na sua desastrosa citação: saúde exige formação continuada .
                                               Percebo, claramente, que há bem mais torresmo no meio dessa paçoca. Por que , depois de tantos e tantos anos, exatamente agora, sai a liminar que limita as atividades da enfermagem? O SUS, desde o seu nascedouro, luta contra um inimigo feroz que é a Ideologia Neoliberal. Para todos efeitos, nesta perspectiva de Estado Mínimo, num país eminentemente capitalista e hoje neofascista, o SUS encontra-se na contramão da história. A liminar permanecendo válida e confirmando-se, em instâncias superiores, determinará, a médio prazo, o sepultamento de SUS,   que já vive combalido e anêmico por financiamento e administração inadequados. Sem enfermagem, no modelo atual, não existe Sistema Único de Saúde. O sonho de que profissionais médicos venham a assumir as atividades que lhes competem, numa Medicina Preventiva, com foco na Atenção Básica e distribuição equânime em todas as bibocas do país ,  é filosoficamente ilusória. Nem salários à semelhança do judiciário, nem segurança trabalhística, os arrancarão das maiores cidades, nem os farão generalistas. Talvez uma carreira pública específica, bem remunerada, com dedicação exclusiva e possibilidade de ascensão profissional , do interior para beira-mar, influenciasse de alguma maneira a procura pela Saúde Pública. Seria, no entanto, um projeto de custo elevado e de efeito a longo prazo, num país em que o pobre é visto como um preguiçoso, um fracassado, um mero estorvo. Restarão, no cardápio,  aos mais desprivilegiados socialmente:  o Trabalho Escravo, a Aposentadoria post-mortem, as delícias da Ração do Dória e, para completar o kit, podem se livrar disto tudo, morrendo precocemente , à míngua, acometidos de doenças gravíssimas típicas do Século que voltamos a viver: o Dezenove.


Crato, 20 de Outubro de 2017   

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Os filhos do filhós


A cultura não se herda, conquista-se.
                                                                                   André Malraux

                               Há alguns dias, um escritor cratense ,radicado em Recife,  queixou-se ter trazido um amigo para visitar a cidade e perambulou por tudo quanto foi de restaurante em busca de nosso prato mais típico: “Baião de Dois com Pequi” e, simplesmente,  não encontrou. Observando direitinho, vemos a cidade apinhada das mais versáteis  culinárias : Sushis, Pizzas e Massas , Comida chinesa, o minimalismo francês, os fast-food americanalhados. Cafés chiques e barracas sofisticadas, de diversas franquias,  têm invadido o espaço público. As novas gerações adquiriram novos hábitos alimentares, já sob a influência de um mundo globalizado e sem cancelas. Há, claro, ainda focos de resistência mantidos, principalmente, pelos mais velhos, mas nossa culinária caririense tradicional, botou o rabinho entre as pernas , adquiriu características quase que marginalescas e reside, agora, em guetos. Onde degustar , na cidade, nas casas mais sofisticadas, um “porco na rola”, uma panelada, uma galinha à cabidela, o aluá, uma buchada, o nosso baião de dois com pequi ? E as sobremesas nossas mais queridas : rapadura, queijo com mel de engenho, doce de leite à Isabel Virgínia, alfenim, batida, o quebra-queixo, o passa-raiva, o sequilho, a peta,  onde encontra-los ? São algumas vezes vendidos, quase que clandestinamente, como se tratassem de drogas perigosas e ilícitas.
                                   Quando reitora, Violeta Arraes esperava equipe vinda da Europa para visitar a Urca. A turma de cerimonial estava prestes a preparar um jantar com frutos do mar para recepcionar os estrangeiros. D. Violeta mandou suspender a sofisticação litorânea , para o espanto de todos,  e ordenou preparassem galinha caipira e baião-de-dois para o opíparo regabofe. De camarão eles viviam fartos! O interessante era, sim, provar a doce iguaria regional.
                                   Carregamos conosco este complexo de cachorro com rabugem. Toda nossa cultura é vista, imediatamente, como atrasada, cafona: coisa para ser cultuada pela gentalha.  Submetemo-nos a um eterno processo colonizador que vem desde Cabral e que continua, agora, não mais com as caravelas, mas pelas asas céleres da TV, da Internet, das Redes Sociais. Ao mercado interessa a uniformização de desejos e preferências para empurrar seus produtos de goela abaixo. O mundo , para o capital, não tem pessoas , indivíduos : possui apenas consumidores. Estes nem percebem  que nos tornamos apenas um taxi,  aguardando a uberização inexorável do mundo à nossa volta. Sem individualidade, uniformizados pela Mídia, somos uma mera garrafa PET , sem possibilidade alguma de reciclagem.
                                   Resta-me algum fiapo de esperança quando testemunho as últimas  escaramuças desta cultura de resistência. Empresa de carros móveis, na cidade, vendendo , todo santo dia : milho cozido, pamonha, canjica. Doceiras, na praça da Sé, negociando nossos doces caseiros mais desejados. Filas para a compra de Filhós,  na barraca São José. Bicicleta oferecendo, de porta em porta, garapa de cana. Por um momento pressinto que, em meio à devastação, flores  ainda teimam em brolhar.
                                   E vem-me  , de repente, uma ideia que me parece mais que oportuna. Com tantos cursos de Gastronomia , na região, com TCC´s , dissertações de mestrado e teses sendo produzidas, por que esquecer nossa Culinária Regional ? Vamos cadastrar, enquanto é tempo, as receitas dos nossos botecos, das nossas cozinheiras e avós, dos nossos bares, das comidas dos mercados, dos cabarés, das feiras, das quitandas. Pode parecer o desvario inconsequente de uma criança buscando prender o sorvete que se dissolve entre os dedos, mas quem sabe não restará um pouquinho do doce, entre as já enjambradas falanges,  para o lambe-lambe de futuras gerações ?

 05/10/17 

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Back to Past

Nos filmes de ficção científica, vez por outra, se constroem máquinas com capacidade de retroceder a um passado distante. Giram-se botões luminosos e, subitamente, o caboclo se vê abduzido e jogado no meio da Batalha de Waterloo ou na construção de uma pirâmide na quinta dinastia egípcia. Em meio ao script  já preparado, o personagem futurístico tentará mudar o curso da história, com consequências imprevisíveis no futuro já estabelecido. Apetecem-nos sempre estes roteiros imaginários, ao revés dos livros oficiais. Que seria da humanidade hoje, se nas suas viagens ao passado, Cristo fosse salvo da cruz; Aníbal  conquistasse Roma ou Hitler vencesse em Stalingrado ?
                                   O Brasil atual, amigos, cabe num filme ficção científica. Há um ano resolvemos mexer numa máquina perigosa, apertando botões esdrúxulos, ao arrepio da Democracia. Desde então fomos arremetidos à Idade Média. Vejam as manchetes atuais e prestem  atenção: aparentemente o cenário é moderno, mas o roteiro digno da Idade das Trevas. Campanha de moradores da Zona Sul do Rio de Janeiro, impelida pelas Redes Sociais, incentiva a população a não dar esmolas aos mendigos e promete empreender “gritarias” com quem for flagrado em atos caritativos pois isto incentiva a permanência deles na rua e prejudica, certamente, o Turismo. Dória, prefeito da maior cidade do país, invadiu a Cracolândia,  expulsando os toxicômanos com medidas higienistas, tratando-os não como pacientes, mas como criminosos. Volta à Câmara dos Deputados a PL 4931/2016  que estabelece autorização a profissionais de saúde mental a proceder à chamada “Cura Gay” , tornando patológica a Orientação Sexual e taxando, claramente, o homossexualismo e suas variações como doença.
 Em Porto Alegre, por esses dias, o Santander Cultural suspendeu a exposição de artes:  “Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira“, por pressão de grupos de ultradireita e, pasmem , decisão judicial,  sob pretexto de pornografia. O MASP , mais importante museu de arte do Brasil, nestes dias, cobriu as obras de nus  da exposição : "Pedro Correia de Araújo: Erótica" com um pano preto, temendo, certamente, represárias por grupos ultrarradicais. Recentemente, o juiz José Eugênio Amaral de Souza Neto, em São Paulo, liberou um homem que havia assediado uma passageira num ônibus e ejaculado sobre ela, entendendo não ter havido violência, constrangimento ou grave ameaça à vítima. Em Guarulhos , São Paulo, um outro juiz entendeu que um homem bater na filha de 13 anos com um fio elétrico porque ela perdeu a virgindade com o namorado é "mero exercício do direito de correção" e  absolveu o pai da acusação de lesão corporal. Em manifestações contra a corrupção nas ruas, grupos direitistas pedem o retorno da Ditadura Militar e o “cantor” Zezé de Camargo informa, do alto do seu conhecimento dos livros de história, que no Brasil nunca houve ditadura militar, apenas num “militarismo vigiado”. Em troca de apoio ao desgoverno atual, a bancada ruralista tem usado como moeda de troca um ataque estruturado contra os povos indígenas e suas terras. Afrodescendentes sofrem preconceito aberto e declarado nas Redes Sociais e nas suas relações mais corriqueiras, pobres vêm todos os dias esvaírem-se seus direitos trabalhistas. Na Baixada Fluminense, traficantes, envolvidos com pastores evangélicos, obrigaram a pais de santo destruírem seus próprios terreiros e a profanarem suas imagens religiosas. Ainda nestes dias, o General Antonio Hamilton Mourão sugeriu a necessidade de intervenção militar no Brasil com fins de resolver o problema da corrupção, sem que o desgoverno instalado no Planalto tivesse dado um pio sequer.
                                   Nas películas de ficção, ao menos, existe sempre a possibilidade, no finalzinho, do fluxo da máquina se reverter e o viajante voltar à modernidade. No  nosso filme pessoal , um misto de sci-fiction e terror, a saída não é tão evidente. Quem poderia mover a alavanca de retorno ? O judiciário que chancelou o “golpe” , desacreditado, sem mais nenhum decoro na sua parcialidade, com indícios fortes de envolvimento no nosso retorno às trevas? Do outro lado, o povo, desiludido, eterna massa de manobra,  e que ao invés de uma esperada crise convulsiva tem apresentado preocupantes crises de ausência. A máquina parece que emperrou , definitivamente, no Século XIII , preparem-se para a Inquisição e a Peste Negra !   O mecânico que vem sendo chamado para consertá-la é cego, mudo, surdo e tem graves problemas de saúde mental.  A plateia assiste calada ao desfecho inevitável da sua própria tragédia.  The End !

Crato, 19/09/17

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Vulpt !

O velho Vicente Vieira, no início dos anos 50, precisou empreender uma viagem a Salvador, inteiramente a contragosto. Matuto de quatro costados, bicho do mato da Lagoa dos Órfãos, em Várzea Alegre, semianalfabeto ; um dia teve como que uma revelação dessas que despertam figuras místicas como Tereza de Calcutá e Francisco de Assis. Resolveu, de pronto, que os filhos que já fervilhavam ao seu redor, como pintos em palhiço, deveriam levantar voo e estudar. Este pensamento era totalmente atípico na sua época, quando os rebentos iam se acumulando nos trabalhos agrícolas, seguindo os passos dos pais, e seu mundo terminava por se limitar às escarpas da Serra Negra e do Riacho do Machado. A revolução do velho Vicente não só abriu os horizontes dos meninos da Lagoa dos Órfãos. Impeliu também a que parentes próximos tomassem a mesma decisão. De repente, uma revoada de guris levantava voo para cidades maiores, em busca da alfabetização e do conhecimento. Depois daquele dia,   aquelas brenhas jamais seriam as mesmas. Seu Vicente, dentro da vida opressiva e incerta da agricultura nordestina, vislumbrou aquilo que os governos , muitas vezes intencionalmente, ignoram : só a Educação tem a capacidade redentora de transformar mentes, homens e nações.
                        Naquele 1952, o deslocamento até à capital da Bahia parecia proeza para um Indiana Jones. Embarcar em algum caminhão por estradas esburacadas e quase intransitáveis  até à beira do São Francisco, fazer a travessia em um Ferry-boat e pegar o trem, do outro lado,  em Senhor do Bonfim que arrastava-se lento até à capital. O percurso durava, com sorte, entre sete a dez dias.  Aquela sua viagem a Salvador, apesar do contratempo, tinha um sabor especial. O velho Vicente ia participar da formatura do terceiro filho homem, Raimundo, em Medicina , na mais tradicional Escola Médica do Brasil. Aquele se fazia como o ponto alto do sonho premonitório que um dia o tomou de assalto nas ressequidas matas da Lagoa dos Órfãos. Dadas as circunstâncias de penúria e dificuldades, aquela vitória assemelhava-se à sua Stalingrado. Derrotara rua por rua, casa por casa, beco por beco, dois inimigos poderosos e tidos como invencíveis : a miséria e a pobreza. Simples, embarcou para a festa com poucos penduricalhos no seu matulão: roupas novas que adquirira, ainda com cheiro de naftalina, nas Casas Abraão em Crato; sapatos novos que para  ele eram um terrível incômodo a substituir a comodidade das suas currulepes. Ah ! levava também sua sabedoria matuta curtida e destilada na universidade da vida  e a irreverência que bebera nas águas barrentas da Extrema e das Calabaças.
                        Em Salvador, em meio aos atropelos e à velocidade da cidade grande, sentiu-se um pouco como preá dentro de fojo. Acostumado à vida em 16 rotações, aquelas 78 do disco de cera baiano lhe pareciam opressivas. Pressentia que, com acelerador atolado,  o carro da existência chegava mais rápido a sua estação final: o Abismo. Agoniou-se com o aperto das suas acomodações no quarto de terceiro andar na  República do filho, mas a alegria sobrepujava todas essas aparentes vicissitudes. Sabendo das dificuldades do pai , em Várzea Alegre, para atendimento especializado, o futuro Dr. Raimundo marcou uma consulta para o velho com um dos seus professores: Dr. Fernando Filgueiras. O médico -- pasmem ! --  tinha profunda formação humanística e  viu-se, num átimo, tomado pela conversa franca do matuto e por seu linguajar límpido e peculiar. Seu Vicente fez-lhe logo um pedido:
                        --- Doutor, vou pedir só uma coisa ao senhor. Depois que me consultar,  queria que me desse a receitar do “De Venha cá”.
                        Dr. Fernando, risonho, sem entender bem, quis destrinchar o pedido :
                        --- Mas que consulta é essa seu Vicente ?
                        --- Doutor, o senhor vai passar uns remédios e vai dizer : tome tudinho e depois  “venha cá!” . Aí , quando eu voltar, vai passar outra melhor que vai resolver meus problemas. Eu moro longe , a mais de cem léguas, e cá num piso mais. Quero, então, que o senhor me dê logo a receita final, a do “De venha cá!”.
                        Entre as muitas peripécias do velho Vicente em terras cabralinas contava ele , ao médico,  a sua eterna reclamação com os banheiros. Para Vicente , acostumado a ter a floresta como WC, aquilo era um cerceamento total de liberdade.
                        --- O povo aqui é como jumento de lote, Dr. Fernando,  caga tudo num monte só !
                        --- Seu Vicente e como é lá na Várzea Alegre, não tem toillete, não ?
                        --- Tem o campo todo, Dr. Fernando. Cada dia o banheiro é uma moita diferente ! O senhor não sabe o que é felicidade, não. Se acocorar debaixo de um pé de pião roxo, fumando um cigarro de palha e , depois, se limpar com um sabugo !  Oh ! alívio, Oh ! felicidade !
                        --- Com um sabugo, seu Vicente ? E presta ?  Num tem papel higiênico não ?
                        --- Papel higiênico ? Tá doido, seu doutor ?! Papel higiênico perde feio pra sabugo ?
                        --- Como assim, seu Vicente ?
                        --- Sabugo tem logo três serventias : limpa, coça e penteia ! E aqui na Bahia, depois do meio dia,  parece que tem ainda outras prestâncias !
                        Depois da colação de grau de Raimundo, Seu Vicente voltou ao médico, levando uns exames solicitados e, também, decidido a pegar a receita do “ De venha ca´”. Dr. Fernando, então, começa a encompridar conversa. O velho Vicente  disse-lhe que havia passado um aperreio danado depois da festança. Degustara a típica comida baiana, puxada a dendê,  e a iguaria o tinha destemperado. Tinha retornado à República apertado , deixado os convidados na comemoração.
                        --- Passei a noite cagando sem o cu saber , seu doutor ! O pior é que procurei sabugo no banheiro e não tinha, nem papel, nem folha, nem pedra. Não tinha como me limpar.
                        --- Vixe, Seu Vicente ! E como diabos foi que o senhor resolveu essa sinuca de bico ?
                        --- Dr. Fernando, só teve um jeito e melhor a até que o sabugo .  Era tarde da noite e,   eu nu, desci escanchado no corrimão da escada : vulpt !


25/08/2017

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

A unção da água


                                              
Houve um tempo em que a luz elétrica ainda não tinha inundado as ruas. Os fantasmas ainda perambulavam  pelos cantos das casas e dos becos assustando os passantes. Os carros ainda não tinham se apossado das vielas e expulsado os burros e as carroças. A rua ainda era o playground   das residências , transformando-se em campo de futebol, em rodas de peteca, em correrias de pega-pega e bandeira. Os dias amanheciam com a lua e adormeciam nos crepúsculos. A luz baça dos candeeiros imprimia um ar meio intimista  e meio sinistro aos ambientes. De noitinha , as cadeiras saltavam lépidas  para as calçadas , rodinhas se formavam, fofocas se debulhavam: a TV ainda não havia hipnotizado as pessoas. Vivia-se e morria-se a prestação. A morte ainda não era servida  em módicas mensalidades nos leitos da UTI.  Os cratenses viam-se nas quermesses, nas bodegas , na missa. A vida era simples , sem arroubos, sem vales ou picos.
                            A classe mais humilde encontrava-se, mais frequentemente, nos chafarizes. Ali iam as donas de casa , diariamente, pegar a fila, com seus vasilhames, com fins de abastecer os depósitos de casa : o pote, a jarra, o tonel,  a bacia. A água ainda não descia, amestrada,  em canos das fontes do pé da serra. Enquanto aguardavam a vez, conversas puxavam conversas, fofocas fluíam , como a água do chafariz. “Vitalina , minha comadre, parece que tá buchuda de um comerciante da Rua Grande !”  “Hercília, tem saído de casa de tardezinha, dizendo que vai buscar lenha no cafundó. Acho que anda costurando pra fora!” “Marreco, ontem, furou dois cabras!” Água escorrendo, latas d´água na cabeça, lá iam subindo as mulheres ladeira acima. O chafariz era o grupo de WhatsApp da época.
                            O chafariz era um anexo das nossas fontes do pé da serra. O murmuro das águas impregnava a vizinhança de uma tranquilidade de  levada corrente. Transeuntes lavavam-se, banhavam-se,   aplacando o calor do dia a dia. As vidas pareciam mais líquidas, fluindo lentamente sem estertor e sem cascatas à medida que as horas serpenteavam , sem pressa,  em direção à foz crepuscular. As pessoas , mais úmidas, imantavam-se um pouco da limpidez da água. As almas faziam-se mais transparentes como se ungidas , novamente, em pia batismal. Ao voltarem para a pobreza de suas casas, apaziguados e bentos pelas águas de Oxum, os espíritos pairavam por sobre a miséria: como se as águas  já se lhe bastasse. Como se o dilúvio  já não existisse, como se alguém gritasse “Terra a vista ! ” e a pombinha acabasse de retornar com o galho de oliveira dependurado no bico.


18/08/17