quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Farol

Eram os gloriosos Anos 60, aqui em Crato. Vivíamos a época de ouro do futebol na nossa cidade. Campos se multiplicavam pelos subúrbios. Toda uma geração de garotos  se imantava na conquista das Copas do Mundo de 1958 e 1962. Times de Futebol Association como o “Sport”, o “Satélite”, o “Rebelde” e craques como Anduiá, Charuto, Chico Curto, Antonio e Luiz Pé de Pato, Fruta-Pão , Netinho, Pinto, Enoque levavam a torcida a superlotar o precário Campo do Sport. Paralelamente, os nossos times de Futebol de Salão ganharam renome em todo estado pela combatividade e efetividade do seu jogo. Ainda menino, encantava-me com as disputas gloriosas e acirradas entre o Votoran, o Volkswagen, a AABB e o Crato Tênis Clube e com as jogadas de craques como Gledson, Reginaldo, Dote, Luciano, Pernambuco, Zé Vicente, Paulo Cézar, Gilton. Desses times, periodicamente, se convocava a aguerrida Seleção Cratense de Futebol.
                                   Com tantos embates empedernidos e fabulosos, surgiu a necessidade imperiosa do seu registro midiático e foi justamente neste período que floresceu o jornalismo esportivo da região, em Crato polarizado entre as duas Rádios : a pioneira Araripe e a jovem e recém-inaugurada Educadora. Foi neste cenário e com alguns célebres personagens que aconteceu, nessa época, o mais monumental acontecimento da história radiofônica caririense.
                                   A Seleção Cratense de Futebol de Salão , multivitoriosa, viajou para um embate duríssimo com a Seleção de Iguatu que jogava em casa. A transmissão naqueles tempos áureos era dificílima. Iguatu encontrava-se numa zona silenciosa de radiodifusão e só existiam duas maneiras de executar a tarefa. Conectar a rede diretamente no fio do telégrafo ou na linha do trem, captando, depois, por fios, diretamente aqui, os sons possíveis e múltiplos que viessem. A qualidade era péssima, cheia de ruídos e sons adventícios, principalmente quando se utilizava a modalidade linha do trem. E mais, sem possibilidade de comunicação direta com a Rádio local, nunca se sabia se a transmissão estava sendo possível. Era  sempre um tiro no escuro. Pois bem, a Rádio Educadora adiantou-se e, em ofício, solicitou a linha aos “Correios e Telégrafos”. A Araripe ficou no olha-e-veja, tarde despertou para o fato de ter sido sobrepassada pela concorrência . Restava-lhe, tão somente, optar pelo péssimo recurso da linha do trem e a incerteza da possibilidade de retransmissão ou a certeza de perder a audiência para a Educadora por conta da baixa qualidade sonora. Um jovem locutor esportivo, então, teve uma ideia inusitada. Ouvir no estúdio da Araripe em Crato, a transmissão da concorrente e , através dela, fazer a própria veiculação da partida, como se lá estivessem. O comentarista esportivo, mais tarimbado, temeu pela dificuldade quase intransponível do feito, mas, sem opção, acedeu. A equipe cedo se trancou no estúdio da Araripe, para que todos pensassem que haviam viajado para Iguatu e, de lá, sorrateiramente, ouvindo a emissão defeituosa e cheia de ruídos da Educadora, retransmitiram, como se lá estivessem, todo o jogo. Até mesmo o segundo gol do time do Crato , gritaram antes . Como foi possível ? O jovem locutor, atento, em meio a propaganda da Araripe, percebeu quando a torcida do Crato berrou : Gol de Gledson ! E, antes da adversária, sapecou : -- Gollll da Seleção Cratense ! Gledson ! O comentarista, anos depois, contava que o mais terrível era ter que comentar os lances sem ver e, mais, no intervalo do jogo, ver-se na imperiosa necessidade de fazer considerações minuciosas por mais de quinze minutos sobre a partida. Nem é preciso dizer que todo Cariri optou pela transmissão da Rádio Araripe, limpíssima e sem quaisquer barulhos estranhos. Quando a Educadora descobriu o blefe , estabeleceu-se uma celeuma danada, protestos e mais protestos, editoriais no noticiário. Nem sequer perceberam que haviam presenciado a mais extraordinária façanha do Rádio caririense em todos os tempos, protagonizada por um jovem locutor esportivo, ainda pouco conhecido, chamado Heron Aquino e um comentarista já mais taludo e que se tornaria, depois, um dos nomes mais queridos do jornalismo cearense : Elói Teles.
                                   Pois bem, amigos, rápido, cinquenta anos se foram desfolhando, como por encanto, na Folinha da parede. O nosso querido comentarista já hoje flutua nas ondas celestiais. Neste  dez de setembro, o Dia da Imprensa , o Cariri emudece um pouco mais, quando seu companheiro,  o jovem locutor de outrora, resolveu dependurar o microfone.
          Neste interlúdio de meio século, Heron Aquino se tornou o mais completo nome do Rádio Caririense. Locutor, Narrador Esportivo, Noticiarista, Disk-Jóquei, Cerimonialista, Assessor de Imprensa, Produtor, Publicitário, Diretor de Emissoras de Rádio, Redator e Repórter, desempenhou as mais variadas e díspares funções com galhardia, competência e simplicidade. Trabalhou ainda em Fortaleza,  na Ceará Rádio Clube e na TV Ceará e poderia ter tido uma fulgurante e próspera carreira nas terras alencarinas se  a saudade do pé-da-serra não tivesse vencido aos doces prazeres da beira-mar.  Aqui retornou e fez sua voz brilhante e característica se transformar na voz oficial da nossa cidade. Ético,  nunca fez da sua atividade um balcão de tramoias e negociatas, não precisou por qualidades em quem não tem, nem pespegar virtudes em salafrários. Equilibrado sempre propagou a notícia como um mote para que o ouvinte , do outro lado, desenvolvesse sua própria glosa.
            Sem Heron, o Rádio perde uma voz importante e isenta e um técnico de uma completude  quase que insubstituível.     Ele     seguiu, intuitivamente,  os preceitos de Pulitzer do bom jornalismo : foi sempre breve para que fosse ouvido; claro para que lhe apreciassem; original para que nunca o esquecessem e , acima de tudo, preciso para que , como um farol, muitos viessem a ser guiados por sua luz.

Crato, 10/10/14

                                     

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Desculpe, Marina, mas eu tô de mal...

       

                                               Tinha-me prometido, nestes tempos eleitoreiros, em que todos os ânimos ficam exacerbados ao extremo,  não meter minha colher de pau nesta papa fervente. Até mesmo porque todos sabem, de cor e salteado, minhas posições políticas e sempre parecerá que, catapultado por elas, não terei o equilíbrio suficiente para discernir o milho da pipoca e acabarei puxando a brasa para meu piau. Como sei  que sempre, seja quem for, partirá de suas próprias convicções , para tentar entender e interpretar os cenários que se vão configurando, não tenho pruridos e resolvi entrar no jogo. Resistir quem há-de?
                                               Nas últimas semanas, então, com o prematuro desaparecimento do Eduardo Campos e a entrada de Marina Silva, numa partida até então morna e sem maiores atrações, a Maratona ganhou múltiplos atrativos. As pesquisas têm mostrado um aumento significativo nas intenções de votos da candidata do PSB  que tem ameaçado a reeleição da presidente Dilma e praticamente aniquilou a escalada titubeante de Aécio Neves , demonstrando a curva em descendente do outrora fogoso PSDB, hoje uma espécie em vias de extinção. O clima no país, com mudanças tão rápidas no tabuleiro de xadrez, é de perplexidade. A Direitona ,que apostava as cartas todas em Aécio, de repente, descobriu que tudo era um blefe e, rápido, lançou os trunfos  na canastra de Marina, atitude que já vem sendo tomada, inclusive,  por vários membros do próprio PSDB. O grande problema é que , relutantes, não acreditam nos posicionamentos também relutantes e mais filosóficos que pragmáticos de Marina. Sabem da sua história, da sua militância sempre mais à  esquerda, inclusive como Ministra de Lula e andam mais desconfiados que cachorros em Noite de São João. Mas que opções outras teriam ? Os Petistas, por outro lado, andam tontos com a súbita mudança de cenário. De repente, a avalanche há apenas quarenta dias do primeiro turno e os necessários correções e ajustes que precisarão ser feitos de forma emergencial no curso da campanha.
                                               Por que Marina parece tão palatável para a população ? Primeiro é importante lembrar que ela encarna, um pouco, aquela saga de Lula : uma pobre, da pobre região Norte, alfabetizada apenas aos 12 anos, crescida dentro das Lutas Sociais e que sonha em um dia ser a maior mandatária do país e corrigir todas as distorções e deformidades que tão bem conhece pois viveu-as toda na própria pele. Depois, Marina surge como uma alternativa viável à alternância de poder, à polarização de mais de vinte anos, com os desgastes esperados,  PT-PSDB. Além de tudo, Marina Silva transparece além de simplicidade, honradez: sua história política tem poucas máculas até mesmo porque não exerceu muitos cargos executivos. Além de humilde, despojada, transpira dignidade, eu compraria, de olhos fechados um carro dela e ficaria feliz se fosse minha vizinha.
                                               A Candidatura do PSB, no entanto, carrega consigo dubiedades sérias , arestas difíceis de se apararem. O Programa de Governo, por exemplo, prega a Disseminação dos Conselhos Sociais, alternativa já em franco desenvolvimento na Saúde, na Educação, na Cultura, na Justiça, desde a Constituição de 1989. A Direita, no entanto, torce o nariz, acreditando que é uma tentativa  de venezuelizar ou cubanizar o Brasil. Por outro lado, reza bônus salariais para professores e funcionários públicos por desempenho, uma iniciativa francamente neoliberal, chamada de Meritocracia e que dá engulhos na Esquerda. Deseja ainda priorizar o Agronegócio, com preservação do Meio Ambiente algo parecido com fazer o omelete sem quebrar os ovos. Pretende por sua vez reduzir o consumo de combustíveis fósseis e incrementar a Energia Solar e a produção do Álcool,  sem dizer claramente o que fará com a Petrobrás e com a Energia Hidroelétrica. Propõe ainda uma Reforma Tributária, necessária mas dificílima de se articular por conta dos díspares interesses da União, dos Estados e Municípios. Quer ainda aumentar em R$ 40 bilhões as verbas destinadas à Saúde, atitude louvável, mas sem muito lastro : de onde virão os recursos ? Por outro lado,  titubeia em questões já superadas pela Sociedade, que nos remete à idade das trevas,  por mero viés religioso,  como o Casamento Gay já resolvido pela justiça e pela jurisprudência e a pesquisa com células tronco-embrionárias. Marina Silva , como cidadã, tem todo o direito de escolher e exercer a religião que lhe aprouver, o presidente do Brasil, no entanto, tem que ser necessariamente laico como determina a nossa Constituição.
                                               O mais sério, no entanto, é que se eleita, com a pequena bancada que possui o PSB, haverá a imperiosa necessidade de arrematar apoio nos partidos do Congresso. Sem suporte amplo, não se governa, lembrem de Jânio e de Collor. Apoio, significa, necessariamente, cargos que serão rateados pelos muitos partidos da base de sustentação. O governo, assim, não será do PSB, mas  de coalizão. As velhas raposas de sempre voltarão famintas ao galinheiro. O leitor me dirá, qual o problema ? Os outros não fizeram igual : O PSDB e o PT ? Claro, isso , inclusive faz parte do jogo democrático, pode ser até uma deformidade da Democracia, mas está nas regras estabelecidas. A grande questão é que o discurso de Marina fala numa “Nova Política” que vem para sepultar a “ Velha Política”. Essa “Nova Política” é indefinível, ninguém até hoje soube de que se trata, quais as novas regras e os novos instrumentos.  Que diabos de “Nova Política “ é  essa que utiliza os mesmos métodos arcaicos da anterior?
                                               Boas intenções, infelizmente, não bastam. Os bordéis, os cemitérios, as câmaras estão cheinhas de bem intencionados. Marina carrega consigo aquela carinha messiânica de beata, de irmã de caridade e promete milagres e curas miraculosas como tantos de seus pares. A mim, não basta. Já cansei de pseudo-Messias e bezerros de ouro. Sua ambiguidade crônica, tergiversando, sempre, nas questões mais importantes, me remetem àquele soldado americano da Guerra da Secessão. Temendo ser atingido,  resolveu vestir-se com a camisa do exército confederado do Sul  e a calça do exército do Norte. Imaginava que assim estaria salvo no conflito. Na batalha o que aconteceu foi que os soldados do Norte atiraram na parte de cima   e os recrutas do Sul na parte de baixo . Virar tábua de pirulito é o destino político dos hesitantes. O campo de batalha está pronto e os soldados a postos.


Crato, 03/09/14

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

A Ameixa no pudim de leite


                                

                                                                         

Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso.
 Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.
Clarice Lispector

                                                               Não tem bom sem defeito,  já reza a doce filosofia popular. Como caju, qualquer vivente deste mundão sem fronteiras, tem sempre um certo travo. Fossem os homens todos puros e imaculados, tornar-se-iam, quem sabe, igualmente insípidos e insulsos. A impureza é que os faz diferentes e únicos, que põe algum tempero no caldo que, claro, dependendo da intensidade, pode torná-lo saboroso ou intragável. A grande arte da vida tem seus segredos nesta cuidadosa cocção das nossas qualidades e extravagâncias.  Carregar nossa jornada apenas com virtudes pode nos tornar santos, mas perfeitamente assépticos. Faz-se mister dependurar, pelas beiradas,  algumas imprecisões, algumas falhas e incorreções que terminarão funcionando como a ameixa no pudim de leite.
                                                               Emengardo Loyola sabia disso por mera intuição. Ao longo de toda vida buscou dosar , com balança de precisão, predicados e pecadilhos. Transparecia, com algum estardalhaço suas qualidades : trabalhador incansável, pai de família carinhoso, uma certa carolice de papa-hóstia. Já as imperfeições apareciam algumas maquiadas e outras guardadas em cofre forte e sem senha. Percebia-se que era um pouco pão-duro, meio rapa de sola. Comentavam, também, os amigos,  das suas escapadelas, passando por baixo das cercas de arame farpado do casamento. Havia, por outro lado, um mistério difícil de desvendar. Emengardo não era rico, mas levava uma vida bastante confortável. Tinha casa própria, carro do ano, os filhos estudavam em boas escolas, a mulher não trabalhava por opção e contavam-se inúmeros imóveis  de sua propriedade. Trabalhava no setor de contabilidade de uma fábrica de sapatos há muitos anos. Auferia salário razoável e ganhara a inteira confiança dos seus patrões pelos longos e profícuos serviços prestados à empresa. Nem férias conseguia gozar, pois sempre o arregimentavam para quebrar os galhos e fechar as contas. Sua boa situação financeira sempre se imputava ao seu afinco ao emprego e, também, à sua crônica sovinice. O dinheiro entrava em sua conta em cano de quatro polegadas e saía gota a gota como em alambique.
                                                               O que ninguém sabia é que havia mais razões para a situação financeira folgada do nosso Loyola. Manipulando as contas e as verbas da firma, ele , funcionário de plena confiança dos patrões, encontrou maneiras de fazer esvair-se  dinheiro por canos paralelos, para pagamentos de empresas de fachada e que terminavam  engordando sua própria poupança bancária. Tornara-se, assim, meio sócio fantasma do negócio, sem que ninguém soubesse da empreitada. Emengardo ia de vento em popa com seu barquinho. Mantinha suas virtudes bem à mostra e também seus vícios menores os expunha com algum velamento. Tornara-se uma figura querida na cidade e, antes de tudo, humana: dosara de forma harmônica santidade e  transgressão.
                                                O diabo é que , com o passar dos anos, começou a pesar, na cabeça judaico-cristã de Loyola, o seu maior e velado vício : o surrupiamento clandestino das verbas da fábrica de sapatos. E aquele peso se foi tornando insuportável, até mesmo porque ele não podia dividir com ninguém: nem amigos, nem familiares, nem mesmo com  seu conselheiro religioso( temia a cobrança retroativa do dízimo). Um dia, por fim, ele tomou a decisão drástica: Já basta! Vou viver do meu salário!
                                               Nunca ninguém compreendeu bem a derrocada de Emengardo a partir daquele dia. As coisas começaram a minguar, caiu o padrão de vida, os filhos acostumados com uma vida mais folgada tiveram dificuldade de se adaptar aos novos tempos de cabritos magros. A esposa torceu o nariz e terminou resolvendo se separar do marido, antes que todo o patrimônio adquirido por tantos anos, fosse todo pelo ralo. Com o rabo entre as pernas, como cachorro em noite de São João, Loyola começou a ficar recluso, a se afastar dos amigos e até da igreja. Sua tristeza invadiu inclusive o seu ambiente de trabalho e os patrões começaram a olhar para ele com ar meio atravessado. Resolveram, por fim, demiti-lo, temendo que sua derrocada financeira o levasse a solapar o patrimônio da fábrica, para cobrir o buraco nas próprias finanças.
                                               Um dia, por fim, a faxineira  encontrou um bilhetinho no criado mudo, junto ao copo de 1080  que pendia de uma mão inerte:
                                               “Eu , como qualquer  simples mortal, era  edifício construído com caibros e ripas de poucas  virtudes e linhas, colunas e pilastras de muitos defeitos. Um dia resolvi, inadvertidamente,  derrubar a viga mestra de imperfeições que sustentava toda estrutura do prédio .  Ruí!”

Crato, 22/08/14 

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Capitão do Mato Virtual


                                                                                               J. Flávio Vieira

                                              Em meio ao denso nevoeiro dos trágicos acontecimentos destes últimos dias, fica sempre difícil se perceber bem os detalhes das múltiplas imagens e situações que se vão projetando , quase que estroboscopicamente, à nossa frente.  Em meio à maratona eleitoral, então, quando os ânimos naturalmente se acirram de lado a lado, a visibilidade se torna bem mais prejudicada. A perda repentina de Eduardo Campos, numa dessas catástrofes típicas dos nossos sangrentos agostos, abate-se sobre o país com estardalhaço. Desaparece uma das mais promissoras carreiras políticas do Brasil, em tempos de escassez de novas lideranças, de novos discursos. Eduardo encarnava o novo, percebia, claramente, que dificilmente este ano seria o seu, mas plantava sementes para  colher um pouco mais adiante. O Nordeste viu-se tolhido duplamente : Eduardo conhecia de perto nossas vicissitudes e agruras. O Cariri, então, viu-se ferido triplamente :  saiu de cena  um grande político brasileiro e nordestino, com profundas raízes fincadas no Sul Cearense.

                                   Como sempre, em meio à tragédia que se arrastou por toda semana, a comoção tomou de conta do país. O brasileiro tem  em si este estado de comiseração epidêmico. É do nosso feitio absorvermos , rapidamente , as tragédias nacionais, trazendo-as para dentro da nossa casa. Foi assim com Tancredo, com Getúlio, com Ayrton Senna. A Mídia, por sua vez, de olho na audiência, nem sequer consegue maquiar o prazer quase sádico em veicular, reiteradamente, as notícias mais tenebrosas. Sempre vesga, com um olho no gato e outro no peixe, faz ampla e interminável cobertura dos fatos, sem tirar o foco, porém, no outro lado da moeda : quem vai se beneficiar, politicamente, do inesperado acidente. Aí, claro, sempre puxa a brasa para sua tilápia: o poder econômico que lhe dá sustentação e, esse se associa, explicavelmente,  ao que há de pior e mais retrógrado na política brasileira ( a Direitona que há cinco séculos mama nas tetas públicas e esperneia quando alguma gotinha escapa por acaso e cai na boca do povão). A dor incomensurável da família ninguém respeita, fica sempre em segundo plano, vale o espetáculo midiático. A comoção do povo , às vezes multiplicada, esta é sempre verdadeira, mas serve-se como recheio de notícias, como pano de fundo ao que interessa, como catapulta a futuras  intenções  de votos.
                                   Há um outro lado, mais perverso e sádico que costuma acompanhar nossas grandes tragédias. Depois de alguns dias, quase que fincando um marco do fim do luto, começam a aparecer as famosas piadas de humor negro. Os psicanalistas talvez tenham uma resposta melhor para esta prática. Possivelmente, depois de um período de tristeza coletiva, o humor venha, por fim, fazer com que as coisas voltem ao normal, que o riso possa novamente aflorar nos lábios, que as catástrofes possam ser engolidas como um mero tropeço no trajeto  da humanidade.
                                    Este ano, no entanto, por conta do acirramento da campanha , no entanto, piadinhas de mal gosto, carregadas do mais negro  e despropositado humor, começaram a pulular, nas Redes Sociais quase que imediatamente.  Elas faziam um contraponto importante à consternação generalizada por que foi tomado o país. E, aí, surge uma pergunta inevitável ? Quais são os limites do Humor ? Tem-se o direito de brincar e fazer chacota com a dor alheia, sem respeitar o luto das famílias? Podemos fazer piadas sexistas, homofóbicas, racistas ? Não estaríamos, com isso,  desrespeitando pessoas ou alimentando chagas e preconceitos que a modernidade busca firmemente combater? Além de tudo, uma coisa é contar uma anedota numa mesa de bar e outra é divulga-la nas Redes Sociais, ao alcance de um número infindável de internautas.
Todos sabem que gosto de escrever textos de humor. Acredito, no entanto, que devem existir critérios éticos . Sei que nado contra a corrente e que os comediantes da atualidade têm a forte convicção que não há limites para a comédia. Pois bem, acredito que ninguém tem o direito de ser achincalhado, pessoalmente, por quem quer que seja. Sou contra, por exemplo, numa peça de teatro ou num show, se utilizar um espectador como bode expiatório, sem o seu expresso consentimento: parece-me sempre isso uma grande falta de criatividade.  O humor em cima de instituições, aí sim, tira-se a impessoalidade: fale-se do Governo, da Previdência, da Câmara de Deputados, do Senado. Corte-se, também, a rotulação, o grande motor de qualquer arraigado preconceito : todo judeu é avarento, toda bicha promíscua, toda loura burra. Isso apenas ajuda a solidificar segregações perniciosas e  seculares.     
   No caso específico do prematuro desaparecimento de Eduardo Campos, o humor negro demonstrou, claramente, que junto ao povo humilde e simples do Brasil, continua a existir uma elite perversa que persiste lutando pela manutenção da escravidão e solta seus capitães do mato, agora, nas selvas virtuais.
Crato, 19/08/14


sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Dom Pompom e o Velho Testamento

                                           Pompílio Evangelista de Mendonça carregava, junto ao nome pomposo, uma personalidade não menos respeitável. Atarracado, corpulento, voz de barítono, falava pausadamente como um bluesman. Nunca se o viu alterado, levantando a voz, discutindo ou tentando ganhar embates com sua retórica. De gestos largos, abraçava longamente a todos que o procuravam, com uma lhaneza de trato difícil de se encontrar naqueles confins de Matozinho. Extremamente bondoso, caritativo e solícito, nosso amigo atendia com muita presteza a tantos que o procurassem.  Dir-se-ia falar-se com um bispo ou um cardeal quando se procurava Evangelista, talvez, por isso mesmo todos o conhecessem por Dom  Pompom.  
 
                                   Pompílio chegara em Matozinho há uns vinte anos e vivia tocando uma fazendola onde criava gado, bodes e carneiros. Morara em várias cidades , anteriormente, e comentava-se, a boca miúda e com cuidados redobrados,  que o passado do nosso bispo popular contradizia sua postura tão fina e recatada. Balbuciava-se, aqui e ali, que fora pistoleiro de aluguel dos mais afamados e que atrás daquela figura delicada e afável escondia-se uma cascavel de doze guizos.  Isso , de falar por falar, saltava, algumas vezes de algumas línguas bífidas da Vila. Para a mor parte dos matozenses, no entanto, estas questiúnculas nem interessavam, até porque todos gostavam da figura honrada  do velho Evangelista. Apesar da divulgada folha corrida de Pompom, as pessoas o amavam mais por reconhecimento que por temor.
                                   Sabia-se por ali que a família de Pompílio era um verdadeiro clã. Tinha parentes e aderentes espalhados por todo o estado e que se ajudavam mutuamente. Mexer com qualquer um deles, ofender alguma filha dos Mendonça era cutucar nu uma caixa de marimbondo de chapéu. De repente, sem que ao menos se esperasse, lá vinha uma bala perdida, um carro desgovernado, uma pedra rolando da ribanceira: tum ! No dia do velório lá estava nosso Dom Pompom, cabisbaixo, choroso, cumprimentando todos os familiares e se pondo à disposição para desvendar o crime ou acidente tão pavoroso.
                                   Contava-se dele, um caso exemplar. Soledade, a sua primogênita , casou com Pergentino, um sujeitinho meio boêmio, chegado a um carteado e a um violão. O pai nem queria o casamento, torceu o nariz, mas Soledade fincou pé e não teve como retroceder. Entrado na família, ele passou , imediatamente, a gozar da imunidade diplomática dos Mendonça.  Casava e batizava, seguro de que tinha guarda-costas. Pergentino chegava bêbado em casa e gostava de bater na esposa. Pompom soube das lapadas frequentes, mas não se meteu : ela é que tinha escolhido aquele caminho. O problema é que um dia, a surra foi tamanha que Soledade procurou o pai , em prantos, com a cara inchada e o braço quebrado : não aguentava mais tanta peia. Dom Pompom ouviu-a calmamente e informou que sabia de tudo mas não quisera meter a colher de pau naquele angu de caroço. Agora, que ela o procurara, sim, prometeu resolver a questão. Consta dos anais de Matozinho que nosso bispo contratou um pistoleiro e pediu que resolvesse a questão. Acertou o preço: R$ 2000,00. Deu-lhe a metade e combinou hora e local, para depois da consumação do fato, se encontrarem para o restante do pagamento. Dito e feito. Pergentino estava todo serelepe no Bar do Giba, de violão em punho, entoando “A Deusa da minha rua”, quando um sujeito entrou tranquilamente no bar, disparou um único tiro a queima roupa, no cocuruto de Pergentino,  e saiu como se nada tivesse acontecido. Soledade quase enlouquece, nunca imaginara que o tratamento seria tão radical, mas calou o bico. Dom Pompom, então, procurou a polícia e , visivelmente abalado, disse-lhes que tinha informações de onde estava o assassino. Prometeu-lhes , então, uma gratificação de quinhentos reais, sob uma condição: não queria que o atirador escapasse. A polícia concordou. Pompom, então, deu o local e a hora exatos que havia combinado com o pistoleiro para o recebimento da outra metade. A polícia já chegou atirando: o homem havia resistido à prisão.
                                   Sulpício Mendonça, filho mais novo de Pompílio, sempre foi chegado aos livros. Estudou com afinco e terminou se formando em advocacia. Daí para juiz foi um pulo. Assumiu em Bertioga.  Sulpício sabia  do passado  paterno, mas sempre o respeitou, embora admitisse, para si mesmo, que a profissão que escolhera , certamente, era uma espécie de contraponto ao obscurantismo contravencional da família. Quisera trazer algum ar de legalidade à família.  Dr. Sulpício fez carreira meteórica por ali. Brevemente se esperava uma promoção : ele deveria assumir uma Vara importante na capital.
                                   Um belo dia, Dr. Sulpício participou do julgamento de uma facínora que havia assassinado as próprias  esposa e a filha. Acabado o júri , o réu pegou vinte e cinco anos de xilindró. Ao ouvir a sentença, revoltado,  ele ameaçou:
                                   --- Doutor, reze para eu passar muito tempo no xadrez, viu ? Quando eu sair, o senhor vai me pagar. Se eu matei até a minha , que dirá a sua ! Acabo com você e sua família, seu miserável !
                                   Sulpício já estava acostumado com ameaças, de maneira que nem levou muito em conta o desabafo do assassino. Ficou , no entanto, mais  encafifado que aliviado quando, três dias depois, soube que o sentenciado tinha sido morto na cela, com mais de cinquenta perfurações de cossoco. Desconfiou que Dom Pompom poderia estar por trás daquela solução tão radical. Procurou o pai e sondou-o. O velho, pausadamente, informou que tinha mexido os pauzinhos e resolvido a pendência. Sulpício agitou-se:
                                   --- Papai, não acredito ! Não precisava esta loucura! Eu sou a justiça ! Não estamos mais nos tempos das cavernas ! Meu Deus !
                                   --- Meu filho, mas aí,  já não estava mais na sua jurisdição!
                                   --- Como não, papai ! Eu sou juiz! Lembra ?
                                   Dom Pompom, então, mostrou as rígidas regras do seu  velho testamento:

                                   ---- Meu filho, você é formado em Letras ! Eu é que sou formado em Tretas, viu ?

08/08/14

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Forró das bolas dentro

J. FLÁVIO VIEIRA

                                               Não deu outra. Mal Sinderval Bandeira, prefeito de Matozinho, soube da realização do Copa do Mundo aqui no Brasil, ficou todo serelepe. Cedo começou a mexer seus pauzinhos, a futucar os políticos a ele alinhados, no estado; a cutucar o vazio dos deputados federais que foram apoiados, por sua administração. O sonho era fazer de Matozinho uma das cidades sede da World Cup. Far-se-ia, claro, necessário  fazer uma reforma ampla no estádio “Sinderzão”,com capacidade atual para 2000 torcedores,  melhorar a infraestrutura da vila, mas nada impossível, principalmente vindo dinheiro das estranjas. Antes mesmo de avançar nos primeiros passos, com o ovo ainda entalado no fundo da galinha,  Sindé, através da sua amplificadora -- os puxa-sacos locais-- já fez espalhar pelas redondezas , a notícia. E o povo já ficou mais agitado que picolé em boca de banguelo. Vendedores de rolete de cana, de din-din, de pipoca , passa-raiva e filhós sonharam, imediatamente, com um substancial incremento na venda dos seus produtos. As pensões de Matozinho, então, começaram a se mobilizar , no sentido de melhorar e ampliar suas acomodações. E o professor de inglês do Grupo Escolar Cacildo Jurumenha, conhecido como “Tobias or not Tobias”, imediatamente iniciou uma turma noturna, especial, para todos aqueles que se interessassem em aprender a língua inglesa, para melhor comunicação com os turistas.
                        Com o andar da carroça, no entanto, Sinderval começou a perceber que seu sonho ultrapassava os limites da realidade. Nem mesmo a capital do estado conseguiu se tornar sede da Copa, como diabos Matozinho poderia alimentar tamanha pretensão?  O enlevo alimentado pela Vila, no entanto, não podia ser tolhido de uma vez, sob pena de trazerem consigo suas indigestas consequências políticas. Sinderval, assim, foi comendo pelas beiradas, como quem degusta prato de angu quente. Espalhou, de início, que as verbas para ampliação do estádio tinham atrasado, depois que o pessoal da FIFA estava reestudando a divisão das sedes, por fim, jogou a culpa na administração estadual que por incúria e má gestão, havia prejudicado todo o estado, com a perda de tão importante evento. O povo que foi degustando o purgante, pouco a pouco, terminou por esquecer o amargor do remédio nas últimas doses.
                         Como prêmio de consolação, Sinderval resolveu organizar uma espécie de FIFA FUN FEST local. Botou um telão no meio do “Sinderzão”, contratou sanfoneiro, cobriu o estádio de bandeirolas verdes-amarelos e estampou acima do telão um nome mais regional : “Forrozão das Bolas Dentro”. A cada jogo do Brasil, reunia-se toda Matozinho no estádio , logo cedo, começava-se o tarrabufado até a hora do jogo e, terminado o espetáculo com a invariável vitória da nossa seleção, o rela-bucho continuava noite adentro. Matozinho virou uma festa até o fatídico jogo da semifinal.
                                   Naquele dia, quando começou o bombardeio de gols contra nosso escrete, o povo se revoltou e o pau comeu no centro. Antes que a desgraça se fizesse completa, depois do terceiro gol, os matozenses rasgaram o telão de cima abaixo e quebraram , por completo, o aparelho de retransmissão. Para todos os efeitos, assim, em Matozinho pelo menos, o Brasil perdeu da Alemanha de 3X0. Houve apenas uma exceção a esta regra.
                                   O velho Vanderico Salustiano estava na capital no dia da goleada e assistiu por lá nossa derrocada. Voltou capiongo e com o humor mais baixo que diferencial de cururu. Não comentou nada com ninguém, fechou-se como pequi verde. Uma semana depois teve uma congestão: morreu-lhe o lado esquerdo e ficou com a língua trôpega. Chamaram Janjão da botica que prescreveu a meizinha milagrosa:
                                   --- Tem que tomar Aguardente Alemã: uma gota ,  pelo menos sete vezes ao dia !
                                   Ao ouvir a prescrição, Vanderico entreabriu os olhos e, língua presa, suplicou:
                                   ---- Alemã? Alemã? Não ! De sete a um de novo, não !
                                   E bateu a caçoleta.


Crato, 01/08/14

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Equício

J. Flávio Vieira


                               Equício vivia encafifado com aquele mistério quase que kafkiniano. Estava ali , como um Sócrates moderno,  tentando entender os destinos do mundo. Ou como  um Hamlet , reencarnado, com seu tablet erguido em feitio de caveira,   e sua dúvida remasterizada :
-- Ter ou não ter, eis a questão!
 Como teria sido possível, remói o nosso Equício, a humanidade ter sobrevivido por tanto e tanto tempo, sem o Smartphone ?  Houve vida neste planeta antes da Internet ? Para que serviam os dedos e as mãos se não podiam deslizar nas telas de LED ? Houve uma época em que as pessoas precisavam ainda falar, se encontrar, se locomover para terem qualquer atividade social! Já se imaginou uma loucura dessas? Hoje essa maquininha faz tudo isso por nós! O livro que gostaria de ter está aqui dentro, a musiquinha que quero ouvir está à distância de um toque, o filme , a voz da namorada, a pizza, as compras , tudo está perfeitamente ao alcance de Equício, com um simples deslizar de tela. A coisa ficou fácil, prática e sobra tempo e mais tempo para a gente curtir esta viagem leve e  curta chamada de vida. Nossos avós, pensa Equício, precisavam se desdobrar para conseguir a caça, para descolar o alimento, para sobreviver em meio às enfermidades, às guerras. As mulheres tinham, biblicamente, os filhos com dor, não existia energia elétrica, rádio, TV, cinema. Já pensou na loucura do  mundo sem shopping? Do almoço sem Mac Donald´s ?  De ter que fazer a própria comida? E o deslocamento em lombo de burro? Um mundo sem carro, sem moto, sem trem bala e sem avião ?  
            -- Como eram infelizes nossos avós !
            Equício  tem essa revelação na fila do ônibus, onde aguarda , pacientemente, a volta para casa. Tudo depois de um longo dia de trabalho, como office-boy num escritório de advocacia.  Com sorte chegará umas dez horas da noite e às quatro terá que recomeçar de novo o trabalho de Sísifo.  Aproveita e manda um SMS para a namorada que já não vê há uns dez dias. Pelo  WhatsApp  conversa com alguns amigos que lhe mandaram mensagens e vídeos.  Lembra que precisa organizar um fim de semana para visitar os pais. Internos   num abrigo de idosos , depois que se foram se transformando num estorvo para a família ( infelizmente ainda não existe, nesses casos a tecla “Deletar”) , ele já não os contacta há uns três meses.       
                          Quando o ônibus , por fim, sai em meio ao congestionamento, Equício  vai observando, hipnotizado, as luzes dos teatros, dos cinemas, dos museus da cidade grande. Quantas opções de divertimento nós temos!  Um fim de semana desses, vou tirar para visitá-los!  Chegando à parada, desce, veloz, na velocidade típica dos novos tempos : a número cinco do créu. Olha para um lado e para outro, temendo o trombadinha.  Nem percebe, no céu, uma lua cheia argêntea,  esplendorosa, totalmente supérflua nos dias de hoje, ao alcance de um simples olhar.  Nem sabe que , a despeito de tudo, as Cataratas do Iguaçu continuam caindo com clamor e sem chips; o mar persiste quebrando suas ondas, ritmicamente, em Paraty, sem nenhum App; o Amazonas corta a floresta sob a música  dos pássaros e o mergulho incontrolável dos peixes. Equício   pega, por fim, seu Santo Graal, o aparelho pequenino que lhe dá poder, magia e  segurança e que lhe serve como filtro do mundo.  Pronto !  Eis o  admirável mundo novo : A solidão está perfeitamente atingível a um simples toque !


Crato, 03 de Julho de 2014