quinta-feira, 5 de março de 2015

Duas covas

J. Flávio Vieira

“A justiça é a vingança do homem em sociedade,
 como a vingança é a justiça do homem
 em estado selvagem.”
Epicuro                   
                                               Nestes dias que antecederam o Carnaval, um fato algo inusitado preencheu os nossos noticiários locais. Um dentista e estudante de Medicina aqui em Juazeiro, após ser assaltado próximo a um bar na Lagoa Seca, por dois motoqueiros, acelerou sua Hylux e, pouco mais à frente, atropelou e matou os dois pretensos assaltantes. Feito o que, calmamente, esperou a chegada da polícia e explicou, sem nenhum constrangimento aparente, o ato heroico que terminara de executar. Foi preso, imediatamente, em fragrante delito, por duplo homicídio confessadamente doloso.

                                   Até aí, a história parece não ter muitas circunvoluções. Qualquer um de nós, posto em situação similar, seria capaz, por impulso,  de providenciar uma ação parecida. Há, em todos , aquele instinto de defesa, quase reflexo, e é sempre impossível a gente saber como se comportaria se colocado em iguais condições de temperatura e pressão. O mais impressionante e sintomático foi a imediata reação da população nas Redes Sociais, apoiando abertamente a coragem do estudante e o alçando à categoria de herói. “É dessa maneira que se deve proceder com bandido!”, gritavam alguns. “Bandido bom é bandido morto”, teclavam outros. “Agora só falta mesmo vir aquela turminha dos direitos humanos que só defende salafrários”, sussurravam muitos. Organizou-se até uma passeata em defesa do dentista detido e o certo é que, mesmo diante do fragrante, ele terminou solto, poucos dias depois,  e vai responder em liberdade.
                                   O caso, não de todo estranho e talvez até perfeitamente esperado nos seus desdobramentos, nos impulsiona para algumas reflexões de final de semana. Depreendemos dele, claramente, uma total    desconfiança do populacho para com a Justiça do seu país. As penas parecem sempre brandas e com progressão vergonhosa; a morosidade nos julgamentos e penalidades é de fazer sorrirem as tartarugas; cadeia é sempre dependência de pobres , negros e mulatos; a boa condição econômica torna malfeitores totalmente blindados para o Código Penal. Basta ver a tranquilidade do estudante depois do atropelamento e morte dos dois assaltantes. Ficou ali impassível, certo que havia cometido um ato épico , esperando os encômios de todos, que, aliás,  não tardaram de pulular na imprensa e Redes Sociais. Contou à polícia tudo , informando que depois do assalto perseguira os criminosos e os atropelara intencionalmente. Acreditou, piamente, que a justiça, por fim, havia sido feita; o que não teria acontecido se esperasse os policiais, os investigadores e o juiz. Quando lhe deram ordem de prisão, com certeza ficou confuso, não entendendo aquela inversão de valores absurda.
                                   Não sou advogado , mas percebo a enrascada jurídica em que nosso estudante se meteu ao confessar um duplo homicídio doloso  com confessa  intenção de matar. Além de tudo, como revanche de um assalto anterior cometido pelas vítimas que ele relata, mas de que não há aparentemente testemunhas e nem foi registrado Boletim de Ocorrência. Por conta de algum dinheiro e objetos afanados, vai ser achacado por ações penais sérias e de danos morais, de defesa complicada- quem viver, verá !
                                   Entendo o desencanto da população com os sempre morosos caminhos da justiça. Mas, em pleno Século XXI, é impossível  defender que as pessoas saiam no meio da rua fazendo justiça com as próprias mãos. A luta da Sociedade, se desolada com a ineficiência do judiciário, deve ser no sentido de aperfeiçoá-lo e não retornar às Cavernas, deixando que os Códigos Civil e Penal sejam escritos e reescritos dia a dia por cada um que se queira arvorar de juiz.
                                   Por outro lado, imaginem o risco que, estatisticamente, o estudante correu, ao reagir ao assalto. A probabilidade de êxito, tem se mostrado, a todo momento, é mínima. Depois, em se tornando esta prática uma regra dos cidadãos a partir daqui, como estimulam os internautas nos seus comentários, a reação previsível dos bandidos, nas próximas “paradas”, será de roubar e matar logo, para não sofrerem perseguições. Vacilão bom, vai ser vacilão morto. As pessoas que defendem os Direitos Humanos querem , tão-somente, que todos sejam julgados à luz da lei e que era seja igualitária para todos independentemente de cor, sexo, influência política, poderio econômico.   
                                   Podemos todos achar que a Justiça além de cega, está com os pratos da balança tortos e o fio da espada também cego, como dizia Millôr.  Temos, ao menos, por onde começar. Nossa função é providenciar-lhe a cirurgia de catarata , mandar aferir-lhe a balança e amolar o fio da espada. Quem toma para si a missão única de combater monstros deve cuidar para não se tornar um deles . Alerta a sabedoria chinesa   que quem embarcar para a vingança deve cavar duas covas.

Crato, 05/03/15

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Os Muros da Cidade Alta


J. FLÁVIO VIEIRA

                                           Findo o período momino, o Governador da Bahia,  Rui Costa ,  debruçando-se sobre os crescentes índices de violência no Carnaval, chegou a uma conclusão polêmica : a separação dos foliões que pagam dos que não pagam, por cordas, nos trios elétricos, é o principal motor das cenas de agressividade. “Quanto menos cordas, menos violência teremos no Carnaval”, fechou o governador em entrevista.
   
                                   Dias antes, um dos maiores compositores brasileiros, Gilberto Gil, dono de um camarote exclusivíssimo no Circuito Barra-Ondina, citou uma frase não menos polêmica, ao ser perguntado sobre o esgotamento daquela modalidade de Carnaval baiano, extremamente industrializado. Gil disse que sempre foi assim no Brasil : As elites nos camarotes assistindo ao povo brincando e se divertindo na avenida. Para ele, essa modalidade de festa à baiana só cresce por conta da tecnologia e dos negócios. A tendência seria, neste oásis da classe rica que são os camarotes, acontecerem festas específicas outras, enquanto na rua, rolaria o carnaval propriamente dito. As duas frases me parecem perfeitas para uma reflexãozinha, neste período quando sacudimos os confetes e serpentinas e deslanchamos o início real de 2015.
                                   O Carnaval, desde seus primórdios, teve sua força no potencial anárquico que carregava consigo. De repente, o mundo virava de ponta cabeça : homens se vestiam de mulher; escravos esguichavam água nos amos; amores ganhavam a eternidade de  quatro dias; maridos escapavam à sorrelfa a despeito da vigilância das esposas. Charangas, blocos de sujos ganhavam a rua e  cada um  se travestia , de repente, dos seus desejos mais íntimos, banhados numa certa cortina de anonimato. A irreverência da festança caiu no gosto dos brasileiros e o Carnaval foi tomando um vulto inesperado, principalmente em alguns polos que se foram tornando mais tradicionais : Rio de Janeiro, Salvador e Recife.
                                    O Mercado, o deus dos dias atuais, rapidamente percebeu que existia ali uma enorme possibilidade de lucro. Só que numa festa tão anárquica era preciso colocar regras fixas para poder cobrar o ingresso. Aí vieram os cordões de isolamento, os camarotes exclusivos, o desfile fechado dos blocos na Sapucaí, a venda de fantasias e adereços, os bailes mominos  em clubes. O Rio de Janeiro terminou por acabar com seu invejável e vultoso carnaval de rua, resumiu-o a um mero espetáculo de arquibancada. As Marchinhas picantes e bem humoradas de outrora foram substituídas pela monotonia de Sambas-Enredos repetitivos e chatos.   Só nos últimos anos, o Rio  vem tentando correr atrás do prejuízo com “A Banda de Ipanema”, o “Monobloco” e outros tantos que tais.
                                   Salvador, que começou com o sonho de Dodô-Armandinho-Osmar,  industrializou seu Carnaval, com seus trio-elétricos fechados por cordão de isolamento e os foliões todos com seus abadás uniformizados e seus camarotes todos caríssimos. O povão ,se quiser brincar, fica de “pipoca” do lado de fora, sujeito aos safanões e aos descuidistas . Talvez muitos dos trombadinhas  contratados pelos mesmos blocos para forçar os pipoqueiros a comprarem seu ingresso nos próximos carnavais. A Axé Music, monocórdica, depois de trinta anos espatifando tímpanos, perdeu fôlego e percebe-se, claramente, que já não traz o fervor e a alegria dos velhos tempos. O formato do Carnaval de Salvador parece estar em pleno declínio.
                                   Restou Recife que mantém a tradição do Carnaval de Rua, com seu frevo que carrega uma bagagem lúdica de mais de um século e sua dança esfuziante e malabarística. Não há cordões de isolamento nos blocos, as fantasias são simples e perfeitamente criativas e não existe apartheid. Todos estão juntos na avenida. Há 25 anos acompanho o Carnaval de Olinda e Recife e conto nos dedos as brigas que presenciei. O “Galo da Madrugada” que arrasta mais de um milhão de foliões de todas as classes sociais dá , anualmente, um exemplo de como é possível juntar tantos , mesmo sob o poder do álcool, alegres, irmanados e tolerantes.
                                   A citação de Rui Costa, assim, me parece perfeita. Vivemos em uma sociedade de castas, apesar de propalarmos a beleza da nossa miscigenação. Os bacanas não querem se misturar com o povaréu. Infelizmente, um dia esses conjuntos têm alguma intersecção. Não dá para morrer de fome quieto  no morro, vendo o vizinho logo abaixo comendo caviar. O Cordão de Isolamento faz com que essas diferenças surjam claras e translúcidas : dentro da corda os cidadãos, fora da corda, a corja.
                                   A frase de Gil, com todo respeito que tenho ao meu compositor brasileiro preferido, me parece muito infeliz. Primeiramente, passa essa separação como uma coisa natural. Os ricos nos camarotes e a pobreza na rua. E mais , transparece uma tendência de imutabilidade: sempre foi assim, meu povo, nunca vai mudar! Por outro lado, Gil esquece que não foi bem isso que aconteceu no Carnaval de Salvador. A Elite já não se conforma em ficar no camarote, ela invadiu a avenida, impermeabilizando-se pelas cordas do blocos  e não permite mais ao povão brincar: “Xô, carniça ! O Carnaval, agora, é privilégio dos bacanas!” Gil que  um dia já morou na Cidade Baixa, deveria lembrar-se como é difícil a vida para quem quer ir à Cidade Alta e  não lhe dão acesso ao Elevador Lacerda.  
                                   Felizmente, essas fórmulas industriais de Carnaval parecem estar se exaurindo. Organizar uma festa anárquica por natureza é, simplesmente, arrancar-lhe a essência. Depois, os festins da Elite são contidos, cheio de regras, seguranças e arrebites extracurriculares. Um dia ruirão todas os camarotes, os trios sairão dos caminhões e virão para rua, as cordas se esfacelarão e todos serão exatamente iguais:  partilhando a alegria, a dança e o milagre da vida.

Crato, 24/02/15

                                   

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Selfie

                J. Flávio Vieira

                               Todo verão, amigos,  --não se enganem não !—lá se vem uma moda nova. Tivemos uma infinidade delas que se alternaram na mesma regularidade das estações. Já vieram:  o Walkman, o Celular, a máquina digital, o smartphone que, de alguma maneira, terminou por fundir muitas outras funções. Com ele, chegou uma das mungangas mais incríveis desses tempos : os selfies. O cabra bate selfie com o defunto no cemitério;  ensanguentado no acidente que acabou de sofrer; com a namorada na cama depois do venha-ver. E, mais que tudo! Manda imediatamente para as redes sociais, pois já não existe vida possível fora da virtualidade. Sem se mostrar para os outros, não é possível sobreviver.  Cada uma dessas invenções trazem, consigo, a ideia de ascensão social. Não ter no verão uma dessas estrovengas , remete, imediatamente, o sujeito  para a base da pirâmide e , de lá, não dá para ver o sol e nem se deleitar com a sombra. Claro que, em pouco, as feiras populares, fervilhantes vão se apropriando dessas modas , com produtos alternativos, para que o povaréu não fique na pior e possa também, de esguelha, bicorar um pouco desse paraíso de consumo. Quando a classe privilegiada descobre que o filho da empregada já possui a última novidade, a moda , imediatamente, é sustada e se inventa outra.  O ciclo, como um moto-contínuo,  se vai repetindo. 
                         A moca desse verão, por incrível que possa parecer,  é o tal do “Pau de Selfie”.  Talvez o leitor já tenha visto este penduricalho por aí. O sujeito usa um suporte para agarrar o Smartphone , dando uma certa distância, e facilitando o enquadramento, ao abrir mais o ângulo da selfie a ser tirada. As praias, os pontos turísticos se encheram destes “paus”, nestas férias, dava para se fazer uma apresentação de “Maneiro-pau”, se Mestre Cirilo topasse a brincadeira. Imaginem a dificuldade de carregar um trambolho desses, nas viagens, junto com uma infinidade de outras quinquilharias. Na Chapada Diamantina, um dos mais bonitos espetáculos , o pôr-do-sol visto do Morro do Pai-Inácio. Lá se postam inúmeros turistas , cada qual com o seu pau-de-selfie ( felizes, impávidos e orgulhosos com o novo aparelho), filmando o espetáculo e  privando-se, assim,  de assistir a ele. Vale mais o registro e, principalmente, a possibilidade de mostrar aos outros o vídeo, depois. A beleza do crepúsculo não interessa, degustá-lo, calmamente, nem pensar ! Nada de beber o Champanhe ! Vamos é mostrar aos amigos o rótulo do Moet-Chandon ! Freud diria, quem sabe, observando o brilho incandescente nos olhos dos pausistas,  que o pau-de-selfie, é um símbolo fálico, imprimindo aos seus proprietários um poder viril avassalador e inusitado.
                        Dizem os pausistas, justificando a aquisição, que a importância do  pau-de-selfie seria se bater a foto sem precisar incomodar ninguém. Se se refletir um pouco, veremos que a própria Selfie vai além do simples narcisismo. Há , por trás do retrato tirada por mim mesmo, uma certa dose de individualismo: eu sou eu e não preciso de ninguém! O pau de Selfie é, apenas, um aperfeiçoamento dessa arrumação. Houve um tempo, em que, nas viagens, as pessoas , solicitamente, pediam para os companheiros baterem suas fotos e retribuíam o favor, tirando a de outras pessoas e outros casais. Quantas amizades não começaram nestes simples contatos? Quantas paqueras não se encetaram, motivadas pelas fotografias que se iam alternando ? Se se reparar bem, esse individualismo tem sido um dos sintomas mais fortes dos tempos em que vivemos. As pessoas fogem dos relacionamentos como  o satanás da água benta. Amizades já não se fazem entre companheiros de trabalhos ou colegas de classe, até, porque, já não são colegas, mas concorrentes. As pessoas preferem, cada vez mais, os encontros ocasionais às relações mais sólidas. Casais já não querem filhos sob o pretexto que dá muito trabalho, atrapalha a vida pessoal e , economicamente, é um investimento muito desfavorável.
                                    As cidades, assim, parecem ter uma população muito grande, mas , na verdade, têm encolhido dia após dia, vêm se tornando desertas, simplesmente porque cada um dos seus habitantes deixou de viver na megalópole e passou a habitar no seu próprio mundo. Os habitantes de São Paulo cabem numa selfie.  Claro que existe uma praça gigantesca onde periodicamente muitos se encontram : as Redes Sociais. Essa encontro asséptico, no entanto, evita o toque, o olho-no-olho, o beijo, o abraço e, talvez, por isso mesmo, tenha se tornado tão importante e desejado. Dá a falsa impressão de que não estamos sós no mundo, que temos mais de dois mil amigos que nos curtem  e que, assim, a solidão não nos baterá à porta.

                                   O problema é que as grandes questões do planeta precisam cada vez mais do diálogo, da dissolução de diferenças seculares entre os homens, da conversa, da compreensão e da visão holística. Nosso barco está à deriva e cada um dos tripulantes mete a cabeça no buraco, como avestruz, acreditando que o iceberg que está logo à frente não lhe diz respeito. Antes do impacto final estarão todos no convés , com seus pau-de-selfie para registrar o fabuloso naufrágio do  Titanic.

09/05/15

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Je suis Charlie ?

Imaginem essas cenas retiradas do dia a dia do nosso noticiário. Rapazinho, no sul do país, revoltado com o fim do relacionamento decretado pela namorada, resolve, em represária, jogar na internet fotos íntimas do casal, tiradas no Motel em tempos de bem aventurança. O pai da mocinha, revoltado coma exposição pública e definitiva da filha, faz justiça com as próprias mãos, sapecando vários tiros no jornalista improvisado. Em Goiana, Pernambuco, uma lojinha de biquínis terminou pregando uma peça em várias veranistas. O adolescente, filho da dona do comércio, instalou uma câmera escondida no provador e filmou inúmeras mocinhas peladas, na troca de roupa. Depois disso, preparou um CD com as imagens e saiu vendendo em pontos estratégicos: “Garotas Quentes do Verão 2012”. Tudo acabou quando um pai comprou o CD e lá se deparou com a filha em trajes de Eva. O caso foi parar na justiça , os pais e o autor do delito fugiram,  temendo linchamento.
                                   Os dois episódios são típicos desses tempos em que todas as barreiras da individualidade terminaram por ruir. Claro que, em nome da liberdade de pensamento e expressão,  muitos, certamente, saltarão com a justificativa de que é justa a veiculação das fotos. Quem se sentir ferido ou lesado deve procurar a justiça em busca de ressarcimento pelo dano causado.  A atitude do povo goianense e do pai da mocinha da internet em procurar , com força de trabuco, resolver as querelas soam como coisas de Neanderthais. Aprofundemos um pouco mais a questão. Pensem no suplício de todos  lesados , trafegando pela lentidão irritante da justiça brasileira. Oito anos depois, quem sabe, poderá sair uma sentença indenizatória favorável aos danos morais perpetrados pelo namorado abusado e pela lojinha de biquínis. O bolso, como sendo a parte mais sensível do corpo, certamente pesará, pedagogicamente, na consciência dos implicados. Mas as fotos, uma vez veiculadas, continuarão a se espalhar como vírus Ebola e o dano continuará a se fazer permanentemente. Os novos namorados da mocinha poderão receber as imagens pornográficas, como bulling,  e as garotas quentes do verão 2012 continuarão fervendo em outros verões, com cd´s copiados e enviadas imagens pelos tablets e smartphones. Quem lhes devolverá , um dia, a honra eternamente maculada ?
                                   A atitude dos linchadores, claro, pode parecer primária e tribal. Colocando o caso em cada um de nós, no entanto, vem a pergunta : Você teria uma conduta diferente, como pai ?  Ficaria quietinho, procuraria e justiça e esperaria, pacientemente, pelo fim do processo, mesmo vendo o vírus se alastrando, dia a dia ?
                                   Esta questão é extremamente atual. Há poucos dias, os jornalistas da Revista humorística francesa “Charlie Hebdo” foram executados, sumariamente, por três islâmicos que se sentiram ofendidos por charges seguidas retratando ( o que é proibido pela sua religião) e  detratando o profeta Maomé. As repercussões internacionais foram imensas após a barbárie. Líderes mundiais se reuniram na França numa imensa marcha  a favor da liberdade de pensamento e de expressão. De lado se punham os jornalistas injusta e barbaramente executados e, do outro, os vilões: o Islamismo tido como religião brutal e atrasada, totalmente dessincronizada com os tempos modernos em que vivemos.
                                   Nada justifica o massacre, claro, mas é bom, sempre, refletir sobre suas raízes mais profundas. A França possui o maior contingente de maometanos da Europa – 10% da sua população. Vieram, praticamente todos, das antigas colônias francesas, da África e Ásia, sugadas pelos insaciáveis canudos do Colonialismo. Na França são vistos como cidadãos de segunda classe, mesmo com cidadania legal francesa. Carregam, consigo, aquele travo das minorias sapateadas. Não têm o mesmo acesso ao emprego, ao lazer, à educação em meio a esse Apartheid silencioso. São proibidos de assumir aainda, publicamente, seus símbolos religiosos. Quando dos primeiros ataques da Charlie Hebdot , entraram na justiça  francesa, contra o que consideravam uma agressão e perderam fragorosamente em nome da Liberdade de Expressão, embora se imagine que, por trás de tudo, havia decisões eivadas do mesmo preconceito que lhes atravanca o dia a dia. A revista, claro, tem posições francamente iconoclastas e ataca não só o Islã, mas todas as outras grandes religiões mundiais. Daí vem a perigosa conclusão de que o Islã é violento e sanguinário, pois as outras não reagem da mesma maneira.  O Islamismo, é bom lembrar, é a mais jovem das grandes religiões, talvez, por isso mesmo, ainda esteja em tempos de depuração, no Século XII, para ser mais preciso. Há um passado sombrio que acompanha a todas : A Inquisição, As Cruzadas, a dizimação das comunidades indígenas, o Holocausto, As oferendas aplacatórias da ira divina  dos Incas e Aztecas.
                                   A grande encruzilhada termina por aparecer. Tem ou não limite a liberdade de expressão ? Tudo pode ser veiculado e a regulação será feita , tão-somente, pela justiça ? A imprensa se queixa que lhes estão querendo infringir marco regulatório. Mas ela é livre ? Ela não é manietada por seus patrocinadores e pelo Capital que a sustenta ? Imaginem se a Revista Carta Capital, a dois dias antes da eleição presidencial, publicasse uma reportagem mostrando que o candidato Aécio Neves faria parte do Cartel de Medellin. Imaginem ainda que esta  notícia, infundada, o fizesse perder a eleição. Claro que ele entraria na justiça e daqui a uns sete anos terminasse ganhando a questão e recebendo uma indenização. Mas seu mandato perdido quem o ressarciria? E seus eleitores que teriam sido burlados como seriam ressarcidos ?

                                   Voltando para os princípios universais da Ética não me parece que essa pretensa Liberdade de Expressão se enquadre em nenhum deles. A conduta do Charlie Hebdo pode ser usada como uma Lei Universal ? Estaria essa Liberdade beneficiando o maior número de pessoas possível ? Entendo que há limites éticos sim, nessa Liberdade e que precisam ser regulados não só pela justiça, mas pela própria sociedade. O respeito às diferenças, às opções sexuais, à religião ou ao ateísmo e o combate indiscriminado a qualquer tipo de preconceito são direitos inalienáveis dos seres humanos. Emocionei-me e chorei com o massacre dos humoristas do Charlie Hebdot, nada justifica aquele ato terrível. A agressão reiterada, no entanto, a minorias eternamente escravizadas poderiam ter sido evitadas, a  Sociedade Francesa já vem se responsabilizando secularmente por essa atitude. Queria que o humor continuasse a me fazer refletir sobre a vida , sim, mas também que me proporcionasse sua mais perfeita função : Rir.

20/01/15

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Quintal

E os anos se vão sucedendo,  sem que a gente nem perceba. As primeiras décadas parecem a lenta subida de uma rampa: dá para curtir a paisagem, prazerosamente dividir com os companheiros de jornada as sensações da viagem. De repente, chegamos a um  topo que é sempre imprevisível  e é como se o carro disparasse , ladeira abaixo. As imagens passam estroboscopicamente, os amigos se dispersam, como por encanto,  e a vida segue num estranho frenesi, enquanto esperamos  a beira do precipício e o ruflar inconsequente das débeis asas do Ícaro.   
                                   Pouco a pouco, ante a perspectiva do voo, nossa viagem vai se tornando mais e mais solitária. Os companheiros tomam estradas paralelas, seguem cursos inesperados, buscando todos um inexistente Shangri-lá. Como Fernão Dias Paes Leme, acabaremos cedo ou tarde descobrindo que eram falsas as almejadas esmeraldas. O tesouro terá ficado , talvez, espalhado pelas trilhas :  no bem que possamos ter partilhado, nas lágrimas que por ventura ajudamos a enxugar, nos etéreos momentos de simples e cristalina felicidade que dividimos com os que estavam no caminho,  ao nosso lado. Quando levantarmos o voo final, logo ali, na plataforma do despenhadeiro que nos aguarda   à frente, essas certamente serão as imagens que brilharão nos nossos olhos,   antes do impacto derradeiro nos imperceptíveis rochedos pontiagudos  do fundo do abismo.
                                   Abaixo, a visibilidade é pouca, a bruma feroz. O que nos espera naquelas abissais regiões , quando as asas se partirem e o remanso último   nos venha a sorver para  goela do tempo ? Alguns imaginam que , lá embaixo, exista um éden nos esperando, como conforto final do nosso mergulho : cascatas, música inebriante, paz.  Uns até garantem que nos será permitido voltar e tentar outras trilhas mais amenas e menos penosas, para outros  mergulhos menos turbulentos e  outras aterrisagens mais dóceis. Asseguram até que exista uma grande Torre de Controle invisível e poderosa ( com um estranho e enviesado censo de justiça)  que controla todos  percursos aéreos e decide sobre pousos, decolagens e colisões. Difícil compreender  as reais regras e objetivos  desse rali vital com partida “no nada” e fim “no coisa nenhuma”: sem louros, sem prêmios aos vencedores. À beira do pélago, são meros sonhos todas as conjecturas: apenas o vórtice é real.

                                   Dentro de cada piloto, no meio da vertigem, no entanto, existe um menino, escondido em algum cantinho do bólido. É preciso, na disparada, encontrar esse garoto. Ele nos reensinará  que a essência de tudo reside na brincadeira de hoje e não na perspectiva do Papai Noel que poderá ou não vir no Natal. Ele mostrará que  alegria está aqui ao alcance das nossas mãos: na simplicidade do pião de goiabeira e da bola de meia. Papai do céu está longe  a cuidar das suas estrelas, pouco nos interessa o que existe do outro lado do muro. Deixemos lá a vida com seus bichos-papões.  A felicidade está segura aqui no nosso quintal, brincando conosco de esconde-esconde .

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Pentelho de Capivara

                                                                               
          J. Flávio Vieira

Solidônio Canabrava tinha uma pequena loja de ferramentas em Matozinho.  Negociava  implementos  metálicos,  como dobradiças, armadores,  ferrolhos, correntes  pregos, parafusos, foices, martelos. Talvez tenha sido a proximidade e a dureza  desse material, que ele tanto manipulava no dia a dia, que terminou por impregnar seu temperamento de uma  a uma certa acidez e  petrificação. Tornara-se, aparentemente, do reino mineral, antes que o tempo o levasse a esse que é o destino final de todos os viventes. Era ríspido, direto, sistemático: com ele não tinha perreps. Intolerante, não aceitava perguntas bestas, arrodeios desnecessários, eufemismos, cerca-lourenços. Sua fama espalhara-se por  todos arredores da vila. Os que o conheciam , tiravam de letra a aparente estupidez de Solidônio e até cutucavam a onça com vara nanica, esperando a resposta pronta e carrascante como mourão de cerca. Os de fora, no entanto, tantas e tantas vezes se incomodavam com a rudeza do comerciante. Como se explicar  que quem quer  pegar marreca viver gritando :  xô ! Geralmente, depois de perguntas redundantes, como:
                                               --- Esse armador, seu Solidônio, é pra armar rede ?
                                               Vinha a resposta brusca e incisiva :
                                               --- Não,  Senhora ! Imagina ! Esse armadorzinho  é pra enfiar em cu de sabiá e pegar elas como se fosse anzol!
                                               E, imediatamente, tangia o perguntador peba, da sua loja, com o mote de sempre :
                                               --- Arreda ! Arreda, Dona  Empaia !
                                               Contavam-se as histórias de Solidônio  por toda redondeza, umas verídicas e a grande parte delas nem tanto : foram aparecendo folcloricamente, no fluxo ficcional da memória coletiva de Matozinho.  Uma  rezava que ele estava arrumando alguns rolos de arame farpado na loja, quando feriu a mão acidentamente, no ponta aguda do arame. Continuou a arrumação como se nada tivesse acontecido. Logo depois, novamente, repetiu-se a mesma tragédia: as pontas farpadas foram de encontro aos dedos de Soledônio. Ele não teve conversa : olhou firmemente para o rolo e disparou :
                                               --- Ah ! Já sei ! Tu tá querendo é carne, né ? Pois toma ! --- Enfiou a mão umas quinze vezes no rolo , quase perdendo todos os dedos.
                                               De outra feita, conta-se,  sentado, comendo mel de engenho, por duas vezes, o mel caiu e lambuzou sua longa barba. O velho não contou conversa. Olhou pra barba fixamente e logo sapecou o pires na cara , ameaçando a moita de cabelos:
                                               --- Ah ! Tu num é diabética , não, né?  Tu quer é mel, é ? Pois toma !
                                               Foi por essas e outras que dali , também, saiu o apelido do nosso personagem, embebido na grossura que lhe era a maior característica :
                                               --- Pentelho de Capivara !
                                                Claro que Solidônio não suportava o epíteto, nem sequer quaisquer palavras que por acaso lembrassem esse nome. Por isso mesmo  a alcunha pegou como catarro em parede.
                                               Semana passada aconteceu o inesperado. Canabrava tinha um pequeno engenho de cana de açúcar movido ainda a máquina a vapor. Uma das grandes moendas  quebrou e tiveram que suspender a moagem. Onde diabos encontrar uma estrovenga daquelas ? O maquinário tinha sido importado , muitos anos atrás, da Inglaterra, pelo avô de Solidônio. Os engenhos estavam quase todos de fogo morto. Em tempos de mariola, Coca-Cola  e chilitos, quem diabo queria comprar batida, garapa,  alfenim e rapadura ?  O eito de cana, no entanto, estava cortado e parar tudo era um prejuízo danado.
                               Canabrava soube que, em Serrinha dos Nicodemos, existia um velho que tinha um engenho similar ao seu e que estava parado há muitos e muitos anos. As moendas, segundo lhe tinham adiantado, estavam novas e a história é que O Coronel Balbino, o dono da fazenda,  falara , diversas vezes, na venda daquele mundo de ferro, inclusive para ferro-velho. Soledônio , então, chamou um velho choffeur de praça e resolveu ir negociar em Serrinha a compra da moenda com Balbino. Durante a viagem, no entanto,  o motorista o alertou. O coronel era um bicho do mato, cabra bruto e indomável como um chucro. Para se ter uma ideia, alertou : o apelido dele é : “Apito de Engenho” ! Será que o homem é bruto ?
                               Seguia a viagem e o motorista continuava atemorizando o velho Solidônio:
                               --- O Senhor é que sabe, seu Pentelho... ou...  Seu Solidônio . Ele vai dar um coice danado no senhor ! Pode esperar! Se eu fosse o senhor eu não ia não !
                               Canabrava, no entanto, neste mister tinha PHD e M.B.A. Não quis conversa, nem mostrou-se temeroso. Mandou picar viagem. Vamos simbora !
                               Tardizinha chegaram , por fim, nas terras de Balbino. Pararam defronte a casa alta, onde , após infindáveis degraus lá estava o coronel refestelado numa preguiçosa, assistindo aos últimos estertores do dia. Solidônio, desceu do jipe, mandou o motorista esperar um pouco , subiu calmamente a escada. E, sem delongas, fitou o coronel e perguntou ?
                               --- O senhor  é o coronel Balbino , se má pregunto ?
                                 O  velho, com aquela cara dura de cobrador , sem o fitar nos olhos, latiu de lá:
                               --- Sou sim, por que ?  E se não fosse,  você tinha alguma coisa a ver com isso ?
                               --- Né por nada não, Coronel ! Pegue sua moenda e meta no cu, joviu ?
                               Desceu os degraus, entrou no jeep e voltou pra casa, após a mais rápida negociação já registrada   nos anais do CDL  de Matozinho.


Crato, 16/12/14