segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Clareira

Oremildo Jurema foi eleito com uma votação estupenda em Matozinho. Coisa de deixar o partido contrário de crista caída, mas para baixo que escada magirus de colher maxixe. Sinderval Bandeira ou Bandalheira( como era conhecido por todos) alternava-se no poder municipal, junto com apaniguados, há mais de 20 anos. O tempo , como um cupim inexorável, lhe foi roendo o brilho e a fama; o poder lhe foi proporcionando mais insatisfeitos que correligionários. A ascensão  de Oremildo , até então um nome totalmente desconhecido, apareceu naturalmente, talvez por falta de maiores opções. Montara uma pequena padaria na vila chamada de “Pubas & Manzapes” , progredira com alguma rapidez para os padrões locais e terminara por se candidatar sem muitas pretensões. Percebeu, sem ser necessário folhear nenhum compêndio de psicologia, que Matozinho vivia uma terrível crise de autoestima. A vila fora até anos atrás uma referência em toda região, mas nos últimos quinze anos, vinha perdendo terreno continuamente para Bertioga. Antigo distrito de Matozinho , a localidade tomara um impulso tremendo após o pretenso milagre acontecido, alguns anos atrás, quando se encontrou a milagrosa imagem de N.S. dos Desafogados ,nas enchentes do Rio Paranaporã. A partir daí, foi um não parar de esticar, de crescer tanto populacionalmente como economicamente, com o advento das seguidas romarias a Bertioga.
                        Oremildo montou-se neste banzo da população pelos tempos gloriosos e prometeu o retorno do passado e dos bons momentos da Vila de Matozinho. Não lhe foi difícil tocar a campanha de reabilitação, uma vez que os matozenses associavam a derrocada da vila às sucessivas e desastrosas administrações de Sinderval. Abertas as urnas, a lavagem se mostrou histórica: Oremildo viu-se eleito com mais de setenta por cento dos votos válidos. Votação expressiva, expectativas multiplicadas. A cobrança das promessas feitas em campanha não demoraram a se concretizar. O grande problema é que Oremildo mal tinha condições de administrar a “Pubas & Manzapes” e , achando pouco, viu-se ainda cercado de secretários fracos como caldo de andu. Passada a metade do mandato, não se tinha uma obra de mínima importância para apresentar. A vila regredia a olhos vistos e já parecia apenas um mero dormitório de Bertioga. A língua viperina do povo matozense não parava de tagarelar: essa era a sua única defesa : pinicar o oratório do prefeito.
                        Oremildo pressionado, reagiu como se intuitivamente tivesse incorporado Gobbels: com propaganda. Criou uma grande rede de puxa-sacos e passou a espalhar , por todo canto, histórias da carochinha, numa espécie de pabulagem pública , um deliberado projeto de cagamento de goma. Espalhava que conseguira, em Brasília, verba para construir um estádio, uma quadra coberta, um Centro de Convenções . Apresentava ainda a planta de um Elevador do Açude do Sabugo até o topo da Serra da Jurumenha e a verba, dizia,  já estava garantida. Pegava ainda carona nas obras desenvolvidas na região pelos governos estadual e federal, sem lhes  ter dado, em contrapartida,  um pau pra bater num gato. Os matozenses , de início, até se abestalharam com as novas promessas, mas rápido, como não dá para enganar  todos durante todo tempo, descobriram, fácil, a manobra. Faltava gaze no posto de saúde, merenda escolar para garotada, professores e funcionários viviam com salário atrasado:  a propaganda desvanecia-se frente à dura realidade cotidiana. Todos se perguntavam onde era aquela ilha da fantasia que Oremildo administrava pois desejavam se mudar para lá.
                        Os matozenses passaram a tomar a propaganda descabida dos apaniguados de Oremildo, como mangofa. A irreverência é a última defesa às mãos dos desafortunados. Semana passada, um dos maiores críticos do prefeito, o velho Mané Vieira, chegou na praça da matriz e, estranhamente, passou a criticar todos aqueles que viviam falando do prefeito, um homem bom, cumpridor de promessas e grande administrador. Os amigos das rodinhas de praça estranharam a mudança súbita de Mané. Estaria tresvariando? Estava ficando gagá e conversando arisias ?
                         Uma das maiores promessas de Oremildo na campanha tinha sido a construção de uma estrada ligando Serrinha dos Nicodemos a Matozinho. A obra fazia-se naturalmente difícil pois tinha que varar  toda a Serra da Jurumenha, subindo e descendo, pois Serrinha ficava justamente do outro lado da montanha. Na noite anterior, uma chuva grossa tinha caído na vila e fizera rolar uma grande pedra do topo da serra, ladeira abaixo,  e abrira uma grande clareira na cabeleira da serra, perfeitamente perceptível de Matozinho. Quando se discutia a possível demência do velho Mané Vieira, ele se mostrou mais lúcido do que sempre:
                        --- Povo falador esse de Matozinho ! Vôte ! Oremildo promete, Oremildo cumpre !
                        E,  mostrando  a clareira no alto da serra:

                        --- Ó ali onde já vem apontando a estrada de Serrinha ! Lavem a boca quando forem falar o nome de Oremildo, seus fofoqueiros miseráveis !

17/11/14

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Sitônio da Furquia

J. FLÁVIO VIEIRA


                               Vivendo em áreas inóspitas, onde a sobrevivência parece mais uma dádiva dos céus, a pobreza , nos cafundós-do-judas ,  desenvolve técnicas de guerra contra os rigores da natureza. Sabe que qualquer pequeno detalhe pode ser crucial e muitas vezes o determinante entre a vida e a morte.  Talvez, por isso mesmo, a solidariedade seja um sentimento bem mais presente por ali que nas grandes metrópoles, onde somos todos estrangeiros dentro do mesmo país. Nos grotões, o  sofrimento  e a sequidão ao derredor umedece as almas e as torna mais maleáveis e afáveis. A cacimba e  o paiol  passam, facilmente, a ser bens comunitários. As cercas das senzalas naturalmente se desfazem       , como que dando exemplos pedagógicos aos muros da casa-grande.
                        Em Matozinho, assim, logo que a TV anunciou a Seca no Sudeste do Brasil, a gandaia se agitou. Conhecia  bem aquela paisagem cinza :   leitos dos rios se transformando em estradas, carro pipa sendo disputado a tiro.  Os matozenses , de conversa em conversa, começaram a se preocupar. A notícia, porém, não lhes causou  estranheza, ora o Beato já havia até cantado a pedra: “O Sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão!”. O problema, na visão dos matozenses, é que os sulistas são mofinos danados e não entendem  desse negócio de seca. Faltou chuva um mês por lá, dá desespero, neguinho bota pra chorar e fica esperando o fim do mundo.
                        --- Aqui, nós já somos tudo bargados.Tem peixe em Matozinho com três anos de idade que ainda nem sabe nadar! Tem menino já encabelando que, quando vê chuva caindo, sai correndo doido pensando que o céu tá se rasgando! Essa miuçaia das bandas de lá, tudo engravatado e cheio de carambas e uais  não aguenta o arrocho, não!
                        Foi pensando no aperreio do povo  do Sudeste que Sitônio da Furquia, um marcador de cacimba de Matozinho, resolveu fazer um adjunto para ajudar os irmãos do Sul neste momento tão ressequido e difícil. Sitônio viera dos Inhamuns e se gabava de entender do assunto como ninguém.
                        --- Comi palma frita, mucunã lavada  nove vezes, espremi mandacaru e raiz de imbu pra tirar  a água. Em estiagem sou PhD !
                        Sitônio reuniu alguns amigos mais próximos e criaram um Coletivo que matuto agora, depois de Lula, tá é chique meu filho ! O famoso C.L.P.  – Coletivo Língua de Papagaio. O objetivo principal era desenvolver técnicas  anti-estiagem com o fito de ajudar os irmãos do Sul, nestes novos tempos de choro com lágrima em pó e ranger de dentes sem saliva. E lá se reuniram inúmeros especialistas no assunto: esgotadores de fossas, tiradores de mel-de-abelha, profetas de chuva, caçadores de tatus, curiosos e sobreviventes.  Aos poucos , nas reuniões, o CLP foi catalogando pontos importantes a serem desenvolvidos. Técnicas de marcação e cavamento de cacimbas e poços; plantio de xerófitas aguaceiras como imbu, mandacaru e palma; economia de água catalogada no seguintes pontos:  banho em dedal, banho de cuia, sabugo e caco de telha,  uso de espanador como papel higiênico, tapagem e reparo de vazamento de potes, jarras, cabaças e ancoretas; aproveitamento de fontes alternativas como : barriga d´água, água de joelho. O Coletivo Língua de Papagaio já tinha organizado todo um Dossiê e dirigiu-se ao prefeito Sinderval Bandeira que prometeu levar a questão adiante,  quando , por fim, as eleições terminassem. É que, em período eleitoral, nada sai do lugar, o país todo pára e só se pensa em voto.  Nem mesmo paulista dá por falta da água !
                        Passada a eleição, Sitônio já se preparava para se dirigir à prefeitura com as ideias escritas, num grande calhamaço de papel almaço, pelo escrevinhador geral da CLP: Totonho das Cabaceiras. Pensava em dar continuidade ao projeto , formar a equipe e oferecer os serviços de consultoria  aos sulistas que andam mais perdidos que tucanos em noite estrelada. À noite, no entanto, “Da Furquia” soube da ruma de impropérios que o povo do sul estava jogando em cima dos nordestinos, por conta do resultado da eleição. Chamados de burros, de idiotas e ameaçados de morte até, por terem votado segundo sua própria vontade. Tinha até uns jornalistas inflamados, rogando praga, falando numa tal de  separação:  apartar o Brasil em duas bandas: a sabedoria e progresso na parte de  baixo e a burrice e o atraso na porção de riba. Sitônio, fulo da vida, chamou uma reunião de emergência do CLP. Decidiram, por unanimidade, cancelar a assessoria proposta  ao Sudeste.
                        --- Pois se é assim que vocês querem seus brocóios, que assim seja ! Guerra é guerra ! Cuidado com a lambedeira de doze polegada no vazio, viu ? Se vocês não aguentam o pote, como não vão se meter a pegar na rodilha ! Uma ruma de maricas desses que se caga com medo de seca,  ainda tem a cara de pau de querer desfazer de nordestino ! Querem separar o Brasil? Pois lembrem que aqui em cima vai ficar o cuscuz, a tapioca, a buchada e a galinha de cabidela.  Pois se lasquem na seca que não vamos ajudar ninguém , não ! Querem água,  é ? Pois lá vai : Azeite , senhora vó !
                        No mesmo dia andaram dando uns safanões num pobre mestre de couro de Matozinho. Motivo ? Por azar,  o homem tinha o nome de “Sulino”.
                        Andaram comentando, dias depois, na praça,   que Sitônio tinha botado um nome muito esquisito numa jumenta do seu roçado. Dias depois, alguns membros do CLP passando por ali,  mataram a charada. A jumenta estava sendo coberta, na manga, pelo jumento de lote.  Meio agoniada com a virilidade excessiva e monumental  do companheiro, tentava se safar , em vão, do assédio sexual, subindo uma ribanceira.  Nisso, ouviu-se quando Sitônio gritou, revelando, por fim, o apelido estrambótico que colocara na biroba:
                        ---  Aguente o ferro !  Num rifugue não ,  viu,    seu  Diogo Mainardi !

Crato, 06/11/14

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

De cima ou de baixo : um mesmo Brasil



J. FLÁVIO VIEIRA

Brasi de Baxo subindo,
Vai havê transformação
Para os que veve sintindo
Abandono e sujeição.
Se acaba a dura sentença
E a liberdade de imprensa
Vai sê legá e comum,
Em vez deste grande apuro,
Todos vão te no futuro
Um Brasi de cada um.
Patativa

                                               O certo é que o ninho tucano já tinha preparado o alpiste e o xerém para comemoração. A Grande Mídia, devota aliada, já havia colocado o smoking para a festa e havia filhotes por todo o terreiro esperando o aviso para começar o rapapé. O diabo é que o tiro saiu pela culatra e todos ficaram encandeados com o brilho de uma estrela que resplandeceu nos céus do Brasil. Baile desfeito, fantasias rasgadas, o desapontamento da Mídia levou-a, imediatamente, a buscar culpados pelo cancelamento das festividades. E o culpado mais óbvio, quem seria? Ora, o mordomo !
                                   De imediato os colunistas dos grandes jornais, mostrando mapas e infográficos, tentavam demostrar que o país estava dividido: Norte e Nordeste, todo vermelho ; Sul, Sudeste e Centro-oeste azuis. A pobreza, o atraso, a dependência econômica haviam eleito a candidata pior. As Redes Sociais, de repente, se viram atulhadas de insultos , impropérios, ameaças, ditos preconceituosos contra nortistas e nordestinos, coisas dignas do III Reich. E o bombardeio não pára !  A Casa Grande não se conforma  com qualquer movimento abolicionista, parece que vivemos ainda em pleno Século XIX.  Se o eleito tivesse sido o candidato tucano, com a mesma margem de votos,  a linha editorial seria completamente diferente. Não haveria divisão, estava tudo perfeito, a virada era mais que esperada, finalmente brotava a esperança no país. Basta ver todo o material pronto pela UOL, ligada à Folha de São Paulo, já pronto para comemoração, que terminou vazando depois da derrocada. Só encômios e elogios ao bravo povo brasileiro.
                                   A divisão alardeada é a mais perfeita falácia. Não  os chamo de levianos porque dá um azar miserável. Segundo os publicitários , o povo, em todo o mundo, vota de maneira pragmática. Todo eleitor pensa especificamente em que candidato, se eleito, poderá melhorar sua vida pessoal e profissionalmente. O nosso bem-estar próprio é o que conta, a felicidade da nação é apenas uma questão distante e filosófica.  Os médicos apoiaram abertamente os tucanos ao se sentirem feridos pela quebra da reserva de mercado trazida pelo “Mais Médicos”.  Assim, na França, Bordeaux é historicamente socialista, única e exclusivamente porque seus habitantes entendem que são os socialistas que têm uma sensibilidade maior para seu meio de vida : as vinícolas. A Flórida é secularmente Democrata e a Califórnia Republicana. Se se reparar direitinho, não dá para pintar as regiões do Brasil de Vermelho ou Azul.  Aécio ganhou no Sul e no Sudeste, mas lá Dilma teve mais de 26 milhões de votos, inclusive mais que em todo Norte-Nordeste.  Cotejem , minunciosamente,  Fortaleza, onde Dilma teve franca maioria, possivelmente perdeu nas urnas da Aldeota e do Meireles. No Leblon, no Rio, Aécio saiu vitorioso. Em  Caetés, Pernambuco, terra de Lula, Dilma teve 90% dos votos, mas 10% escolherem o tucano. Em São João Del Rey, terra do peessedebista, Aécio teve 65% dos votos, mas 35 % sufragaram o nome  da Dilma. Em Minas , estado natal do peessedebista, ele levou uma peia histórica. Se houvesse a divisão alardeada pela mídia e pintada no mapa do Brasil, Aécio teria sido o grande vitorioso, com uma margem gigantesca de votos. Simplesmente a população vota naqueles em que mais confia para resolver seus problemas mais prementes.  Pois foram os brasileiros espalhados no  Sul,  Sudeste,  Norte, Centro-oeste e Nordeste que deram a maioria absoluta à candidata petista.  Há de haver  razões mais justas para explicar o fenômeno.
                                   A elite brasileira tem que entender : o voto de cada um dos brasileiros tem o mesmo valor, independente de raça, cor, grau de instrução, poderio econômico. Os ricos e remediados sentiram-se  feridos em seus interesses por conta da regulamentação do emprego da doméstica ( ninguém pode mais ter empregada!); pela melhoria das condições de vida da pobreza que agora tem moto e carro e ninguém mais anda no trânsito; por ter aparecido nos aeroportos, coisa antigamente só de grã-fino; por não mais querer trabalhar no campo , só que com diárias de R$ 10,00.  Antes de apregoar que foram os votos comprados pelo Bolsa Família o responsável pela derrota do tucano, têm que afinar primeiro o discurso. Em off chamam o Bolsa Família de “Bolsa  Fome”, “Bolsa Esmola” , o “ vício do cidadão”. No microfone e no palanque pousam de pais do Programa .  Deduz-se, então, seguindo-se as premissas da elite,  que se D. Ruth e FHC são os pais, então, foram eles os reais responsáveis pela derrota do PSDB nestas eleições.
                                   A divisão alardeada  é perigosa e potencialmente mortal, quando incita preconceitos vis e seculares.  A Globo, a Bandeirantes, a Record, o SBT, a Folha de São Paulo, o Estadão estiveram em oposição franca e determinada à Presidente Dilma. A “Veja”, numa atitude criminosa, antecipou uma edição, nas vésperas do pleito, com denúncias caluniosas e sem prova, tentando mudar o curso inevitável da história. Sabemos que a liberdade de imprensa significa a plena liberdade do grande capital em veicular as informações de seu interesse, pois é ele que financia a Mídia. Pois é essa mesma trupe que agora tenta seccionar o país no meio, enfiando na cabeça do povo que foram os esfomeados e esfarrapados que elegeram o PT, em troca de um prato de feijão.
                                   Se deseja , um dia, retomar o poder, a elite brasileira precisa  compreender o Brasil em toda sua dimensão e complexidade. O mundo vai bem além da Avenida Paulista.  Justiça Social tem que preceder à Caridade. O Brasil, historicamente, não é vermelho ou azul, mas de todas as cores e essa é nossa mais importante grandeza.


Crato, 29/10/14

sábado, 18 de outubro de 2014

O Cabra da Peste

                
                                               J. Flávio Vieira


A década de 1860 foi trágica para todo o Cariri. Iniciou-se, por aqui, a terrível epidemia de Cólera que ceifou incontáveis vidas. Só  no primeiro ano da tragédia, 1862, mais de duas mil almas  sucumbiram em Crato, Milagres, Barbalha, Jardim, Missão Velha, Santana. A região entrou em pânico, pessoas abastadas fugiram, o Exu bloqueou, com fogo de artilharia,  a entrada de pessoas vindas do Cariri, temendo contaminação. Um padre negou-se a dar extrema unção ao Padre Marrocos , um seu irmão em Cristo, e outro escafedeu-se para outras paragens. Segundo o Jornal “O Araripe, o delegado de Crato Francisco José de Pontes Simões, abandonou seu cargo,  temendo a peste, só voltando “gordo e rechonchudo” quando os casos começaram a rarear, dois anos depois. Como em toda grande epidemia, não houve respeito a classes sociais, a sexo ou  poderio econômico. A população terminou dizimada igualmente. Imaginem uma hecatombe dessas no Cariri, em tempos em que quase não havia profissionais de saúde, em que inexistiam hospitais, em que nada se sabia sobre a causa e tratamento da doença. Aqui em Crato foi preciso construir um novo Cemitério, ali nas imediações da Igreja de São Miguel, a fim de acolher as incontáveis perdas. Estabelecida a histeria coletiva, não tão diferente do que acontece hoje com o Ebola, muitos foram inumados ainda vivos, igualzinho  à Peste Negra, na Idade Média.
                                   Designado a vir combater a epidemia  no Cariri , aqui chegou, em 1861, o médico militar Dr. Antonio Manoel Medeiros.  Chefiou, na região, uma equipe que incluía os Drs. Pedro Théberge  de Icó , Cristovão Holanda Cavalcanti e Manuel Marrocos . Trabalhou incessantemente até 1864 , visitando todas as cidades acometidas da moléstia e , com os parcos recursos disponíveis, buscou minimizar as mortes e lenir o sofrimento. Dr. Medeiros era natural de Aracati, onde nascera em 1820 , formara-se na Bahia e a ele devemos a primeira cirurgia realizada no Sul do Ceará. O ato aconteceu em 29 de Novembro de 1861, uma amputação, registrada no Jornal “O Araripe”. O paciente foi cloroformizado , esta sendo também a primeira anestesia registrada nestas plagas. Um avanço formidável para a época, uma vez que o Clorofórmio passou a ser utilizado apenas a partir de 1846, na Inglaterra.
                                   A vida de Dr. Antonio Manoel de Medeiros  foi épica. Poderia fazer parte da Ilíada caririense. Tão logo deixou o Cariri, foi designado , como voluntário, para a Guerra do Paraguai, onde prestou serviços valiosos como Diretor em  hospital de Montevideo.  Terminou condecorado comas Ordens de São Bento de Aviz, da Rosa e de São Gregório Magno em Roma. Exerceu, a partir de 1872, o cargo de Delegado do Cirurgião-Mor do Estado do Ceará. Logo depois, enfurnado no interior do estado, no combate a várias epidemias de Varíola e  Febres, adoeceu , em viagem de Icó a Fortaleza,  e veio a falecer em Limoeiro, em 1879, aos 52 anos. Faltou-lhe, nos últimos instantes,  a assistência médica que durante toda a existência proporcionou a  grande número de cearenses pobres e famintos.  Numa vida tão breve, imersa numa Arte tão longa, além dos estudos, das viagens seguidas, do combate incessante às epidemias, do trabalho no campo de batalha, o que lhe terá sobrado para dedicar à sua vida pessoal e à sua família ?  
                                   O certo é que o Dr. Medeiros  ofereceu-se quase à imolação no altar da Ciência. Deu-nos o melhor da sua arte e o melhor dos seus dias. Lutou, palmo a palmo, contra um inimigo terrível e desconhecido, enquanto tantos escapavam pela tangente. O Cariri nada lhe ofertou em troca, nem o mais simplório reconhecimento. Sequer o nome de uma rua, de um hospital, de um edifício. Nem mesmo uma citação honrosa. Nada ! Cento e cinquenta anos depois, neste dia dos médicos, lhe ofereço este texto , simples, descolorido, cru. Mas percebo , claramente, que é por conta de pessoas despojadas e corajosas como o Dr. Antonio Manoel de Medeiros que ainda vale a pena exercer a Medicina não como técnica , mas como vocação, fatalismo  e arte. São artistas como ele que impulsionam os movimentos de rotação e translação da terra.


Crato, 17/10/14 

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

O acordo ou a corda

Nas últimas semanas,  o Crato se viu assaltado por uma onda de seguidos suicídios. Alguns deles em pessoas jovens que deviam carregar nos olhos o dourado sonho da existência.  Este ato extremo, que leva pessoas a fugirem pela porta dos fundos, põem toda a cidade em polvorosa. Parentes e amigos jamais tirarão da mente um certo sentimento de culpa : -- Eu poderia ter pressentido os primeiros sintomas e , quem sabe, evitado a catástrofe ! Os conhecidos e transeuntes embebem-se num certo blues, como se perguntassem : o que há de errado neste mundo que ninguém o suporta sem algum tipo de anestesia ?
                                   Longe de ser um questão meramente doméstica, os suicídios alcançam, no mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde, quase 900.000 mortes ao ano. Este valor numérico , pasmem vocês, ultrapassa as mortes por guerras, os homicídios e desastres naturais somados ! E, o pior de tudo, desde a década de 70, os suicídios cresceram mais de 60 % e, ultimamente, têm tomado um vulto totalmente inesperado. Acredita-se que a crise econômica global possa ter contribuído para o aumento. O desemprego, o arrocho salarial, principalmente em países europeus, a instabilidade da economia em nações outrora prósperas, impulsionam o desencanto junto à juventude. Acredita a OMS que a urbanização desenfreada , certamente, tem exposto a população às agruras e estresse das cidades e megalópoles. Desde 2010, pela primeira vez, a maior parte da humanidade vive em zonas urbanas e não nas rurais.  Deixamos o campo e sua plácida tranquilidade,’ para a violência da rua, do trânsito, a competição terrível no mercado de trabalho. E mais que tudo, perdemos a identidade e passamos, na cidade grande, a ser apenas um número, no meio da manada, com a clara sensação de que corremos em disparada para o abismo logo à frente.
                                   Estudos têm demostrado que os laços sociais são fortes aliados na prevenção dos suicídios. Amigos, namorados e namoradas, parentes,  esposas, maridos,  filhos, companheiros de trabalho  e  de farra são os liames imprescindíveis que nos prendem à vida e lhes dão algum significado. Estudos feitos nos EUA demonstram que quase metade dos adultos se consideram solitários e este preocupante percentual é exatamente o dobro da década de 80. Este isolamento proporcionado pela urbe , certamente,  estaria impulsionando os casos de depressão responsável esta  por mais da metade de todos os suicídios.
                                   Basta refletir sobre os destinos da modernidade , para se perceber que nós mesmos destilamos nossa própria cicuta. As pessoas fogem dos relacionamentos sérios, como o trombadinha da polícia. As relações passaram ser na sua maioria transitórias e eventuais : amizades coloridas, rolos, ficas. Mulher ou homem que consiga uma certa ascensão econômica prefere a cueca ou calcinha do parceiro na cadeira, nunca no guarda roupa. Casamentos se dissolvem como gelo em Teresina: a primeira cara feia, o primeiro bate-boca ou arranca –rabo é motivo para o divórcio. Já há incontáveis casais que simplesmente optam por não ter filhos, sob a alegação de que atrapalha demais e dá muita dor de cabeça. A explosão da comunidade global fez com que a comunicação ficasse, aparentemente,  mais fácil, mais rápida com o Smartphone, a Internet, o WhatZapp, as Redes Sociais. A tecnologia aproximou absurdamente os distantes, mas afastou terrivelmente os próximos. Nas rodas de bar , já não se conversa: se tecla. Passamos a ter incontáveis amigos virtuais, mas praticamente deletamos os amigos reais. O Curtir substituiu o bate papo, o olho no olho, o toque, o abraço. Não bastasse isso, a vida profissional se tornou um verdadeiro campo de guerra. Já não temos companheiros mas competidores. O objetivo de todos é o mesmo do Flamengo :  vencer, vencer, vencer. Como em toda maratona poucos vão ao pódio e muitos são os derrotados.  Viver é consumir e aí daqueles que ferirem esse mandamento básico. De repente, uma grande turba percebe-se só no mundo aniquilada : sem família, sem amigos, sem agregados, sem companheiros.  O parto atravessado da vida não se suporta sem anestesia: álcool, lexotan, tabagismo, cocaína, fanatismo, religião,  moralismo...  A solidão no meio da turba talvez seja a mais cruciante solidão. Vale a pena continuar a jornada ?
                                   Há algo errado na viagem, quando tantos desembarcam antes da estação final.  É preciso mudar o roteiro, aproximar o grupo de viajantes para que possam dividir a estafa do caminho e desfrutar juntos a paisagem que passa definitiva na janela. Como o trem   segue sempre  para o descarrilamento inevitável, o companheirismo, a solidariedade, a  amizade , no final, serão a única atração verdadeira do nosso roteiro turístico. Não dá para viver sozinho, nem existe felicidade individual. São as nossas relações interpessoais que nos atam ao vazio da existência. Só temos duas opções neste mundo : o acordo ou a corda.


Crato, 08/10/14 

sábado, 4 de outubro de 2014

Muito joio para pouco trigo



E cá estamos nós, mais uma vez, às vésperas de eleições. Amanhã estaremos postados diante das urnas prontos a , democraticamente, assinar um cheque em branco e uma procuração para aqueles que nos representarão nos próximos quatro anos. A responsabilidade é grande e, talvez por isso mesmo, esse período se encha de paixões desenfreadas e  tantas vezes incontroláveis. Torcidas se dividem nas arquibancadas no grande jogo da Democracia.      
Uma parte dos espectadores , temerosos dos arroubos típicos da época, simplesmente se isola : eu não gosto de Futebol ! O grande problema é que, na partida que vai se desenrolar, está em jogo não apenas um mero placar ou a alegria ou tristeza da vitória ou derrota. Ela definirá nossa saúde ou doença, nosso salário no final do mês, o preço do arroz e da farinha na bodega da esquina, a qualidade da educação dos nossos filhos, a tranquilidade de andarmos na rua sem armas apontadas para nossa cabeça, a segurança do nosso emprego. Ou seja : não somos torcedores mas atletas, sair do jogo significará, apenas, desfalcar o nosso time e ter que engolir as consequências do placar desfavorável.  
Outros, simplesmente, alheios às consequências futuras, passarão para o time adversário, facilmente, vendendo o passe, de forma imediatista, por um chinelo, um milheiro de telha, um dinheirinho a mais, por um emprego ou futuras licitações ( aí varia apenas o preço da sem-vergonhice). Terão assim negociado, como Judas, o futuro dele e de seus filhos. Transformam , sem pejo, o grande templo democrático, num bordel.
Grande contingente de brasileiros, no entanto, começa a ter ciência da importância da eleição. Passa a entender que a culpa das deformidades seguidas dos políticos, metidos em escândalos reiterados de corrupção, tem um só e grande responsável : o povo que os elegeu. Os políticos são apenas o reflexo perfeito dos eleitores: nem mais nem menos.  Teremos representantes melhores quando melhorar o nível ético dos representados. Quem suborna o guarda de trânsito para evitar a multa; quem arranja uma sinecura para um parente; quem sonega o imposto devido; quem embolsa o dinheiro público em qualquer cargo que exerça,  tem hombridade moral para se escandalizar com os desfalques de políticos e apaniguados ?
Claro que o cidadão comum pode se sentir  na berlinda na hora de escolher o menos pior. Não pode confiar no marketing dos candidatos que prometem como sem falta e faltam como sem dúvida. Por outro lado, toda grande mídia é perfeitamente facciosa : Rádios, TV´s e grandes jornais defendem seus patrocinadores que apoiam os candidatos do interesse do grande capital e não do zé povinho. O Brasil, praticamente, não possui partidos políticos, apenas um amontoado de candidatos unidos por interesses comuns,  geralmente pútridos e escusos. Como escolher ?   Como separar o pouco trigo em meio à profusão de tanto joio ?
No caso específico dos deputados,  é catar aqueles que mais se associam com a defesa da nossa classe. Se sou peão, dificilmente o empresário me representará. Se sou canário, certamente o gavião não será meu melhor representante.  Se o candidato pleiteia a reeleição , avalie-se o que ele fez na anterior, que projetos apresentou e que frutos estes projetos trouxeram para nosso quotidiano. Na eleição presidencial o mais importante é responder à pergunta: Minha vida melhorou ou piorou nos últimos anos ? Estamos melhor agora do que há dez anos atrás ? Emprego, moradia , salário, acesso à escola melhoraram ou pioraram ? A resposta a essas perguntas pode nortear nosso voto mais preciso e consciente.
 No horizonte delineiam-se dois projetos políticos claros : de um lado aquele que centra sua maior atenção na população mais simples e carente , a fatia maior da população brasileira, que vê o estado como responsável direto por nosso bem estar. Do outro,  um projeto centenário que foca sua atenção na elite brasileira que deve receber todas as benesses e distribuí-las caritativamente com a pobreza, nesta plataforma o estado é sempre um árbitro distante e cada um deve se virar como  puder. O cardápio está à mesa, escolham os pratos e vamos ao grande  jantar democrático, palatável ou indigesto, a escolha é sua !


Crato, 03/09/14