sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

De Luas e Eclipses

                                    Pois é, amigos,  desembestado o carro de ladeira abaixo, à procura do despenhadeiro, todas as previsões sobre o desastre iminente, são meras especulações. Cada um interpreta à sua maneira a causa possível da pane : freio quebrado, barra da direção fraturada, pouca habilidade do motorista,  e o posto de gasolina concorrente pode imputar o destroço a combustível adulterado. Todas os itens vêm à baila, ao sabor das emoções e dos interesses de cada um .
      
                                   Falar em veículo desgovernado remete imediatamente ao Brasil, nos tristes e temerosos dias em que vivemos. Pedem para que apertemos os cintos, mas como fazê-lo se o piloto ao invés de sumir, nunca existiu ? Um sindicato de sicários tomou de posse o poder, amparado pela mídia e pelo judiciário . O carro foi colocado estrategicamente no topo da ladeira íngreme, com um motorista incompetente e  cego,  sem óleo de freio. Não era previsível a desabalada carreira em busca do abismo ? O grande problema é que não éramos meros espectadores, sequer percebemos que na verdade somos todos passageiros desta viagem às profundezas abissais do pélago mais profundo.
                                       Sob o pretexto de combate à corrupção, afastamos a presidenta eleita. A única figura pura, limpa e imaculada em toda este filme de terror. Se por acaso alguma falcatrua houvesse em seu nome, já não teriam encontrado ? Colocamos um vice de história suspeitíssima para assumir o cargo, que convocou auxiliares que nem Fernandinho Beira Mar aceitaria. Caiu ,até agora um ministro, a cada mês, por conta de denúncias de irregularidades e desvios. O Presidente da Câmara está preso, o Presidente do Senado tornou-se réu e o líder do presidente  no Senado é o Jucá , aquele que melhor definiu a necessidade do golpe : estancar a sangria.
                                       A Lava-a-Jato faria um bem imenso ao país, se não fosse caolha , se seus dirigentes não atirassem em todos os pássaros e não tivessem um cuidado todo especial para com a preservação de um dó deles: os tucanos. Com medidas seguidamente ao arrepio da Constituição, instâncias superiores omissas, salários estratosféricos, a quem devemos recorrer , ao Chapolin Colorado ? Aos poucos a população vai percebendo quem deve pagar o pato da FIESP : o povo ! Seus direitos têm sido continuamente cassados, o desemprego vai às alturas, o PIB mergulha no pântano, o pouco que restava do patrimônio público vai sendo entregue de mão beijada ao capital estrangeiro, a desigualdade social volta a crescer e com ela suas tensões.   O remédio amargo, que fossiliza o Brasil por vinte anos, não vai surtir efeito. Estamos na UTI , com o governo respirando com ajuda de  aparelhos midiáticos !
                                  As classes mais abastadas que lutaram desesperadamente pelo golpe , embasbacas , se calam. As panelas de teflon já não soam. As camisas verde-amarelas estão mofando no baú. Por que ? Não eram todos bem intencionados, revoltados off e on line com a corrupção? Agora ela está mais que nunca escancarada, as vísceras da política estão expostas. As delações atingirão mais de cem deputados. Cozinheiros da nação, vamos à luta ! A corrupção não era uma ilhazinha no oceano da política brasileira, como concluiria nosso Simão Bacamarte, a corrupção é todo um continente e, talvez, todo o planeta !
                                    Mas tudo isto não era previsível?  As razões que levaram à defenestração de uma presidenta eleita nada tinham a ver com boas intenções. É o mesmo movimento separatista que , historicamente,  alimentou a escravidão por quase quatro séculos, que destruiu o arraial de Canudos, que bombardeou o Caldeirão !  Não dá para viver bem na Casa Grande se não se tem a Senzala do lado. A felicidade de cada um de nós depende da desgraça do outro. Só nos satisfazemos e nos sentimos plenos, comparando-nos com a penúria , a fome, a miséria do vizinho. Sem este contraste, profundamente anticristão, no país que se autoproclama o mais católico do mundo, não nos sentimos completos. A minha Ferrari só tem importância se for única,  se todos os outros andarem de jumento.
                                      Agora, os mesmos filhinhos do papai que gritam nas redes sociais contra a Ditadura de Cuba, saem nas ruas pedindo a volta dos militares, claro só possível num estado de exceção. Computam os que foram mortos na Revolução Cubana por perseguição ideológica, mas não conseguem fazer as contas dos que morreram no Brasil,  nos últimos sessenta anos,  de causas perfeitamente evitáveis como fome, diarreia, violência urbana, infecções respiratórias, miséria, incúria governamental.  Se opõem a que juízes e promotores respondam por crimes de responsabilidade, como se os magistrados, infalíveis e imaculados, fizessem parte das hostes celestiais e só tivessem que prestar contas ao criador. Ah mas se revoltam quando juízes matam pessoas como em Sobral e vivem soltos; quando desembargadores vendem sentenças e pegam por pena apenas a aposentadoria; quando policiais enquadram magistrados dirigindo sem documentação e embriagados e , ao invés de condecorados, são penalizados por terem cumprido a lei.
                                        Estamos vivendo um momento crítico no país, talvez um dos mais sérios da nossa história. O primeiro passo para começarmos a pôr o veículo nos trilhos é entender que fomos nós mesmo os responsáveis pelo descarrilamento.  Não somos vítimas , mas agentes e atores ativos da nossa tragédia: quando elegemos e reelegemos políticos corruptos e iguaizinhos --- imagem e semelhança-- ao grosso da população brasileira; quando rasgamos a Constituição  ao doce sabor dos nossos mais escusos interesses; quando nos imbuímos da certeza que para a lua brilhar e reluzir no céu é imprescindível que exista uma outra face oculta, onde todas as perversões podem acontecer sem o nosso conhecimento.


Crato, 02 de Dezembro de 2016   

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Discurso de Abidoral Jamacaru na Câmara Municipal de Crato

A CIDADE DA CULTURA E A CULTURA DA CIDADE


                                              Resultado de imagem para abidoral jamacaru  A Cultura de um povo é aquele complexo que inclui suas crenças, sua Arte, suas leis, sua moral, seu conhecimento, seus costumes e hábitos. É a Cultura que identifica uma civilização. Quando estudamos civilizações antigas como os Sumérios, os Egípcios, os Gregos e Romanos é através da Cultura desses povos ( sua música, sua poesia, sua pintura , escultura e sua língua) que conseguimos entender como eram e como funcionavam essas sociedades. É a Cultura que nos dá uma visão do nosso passado, que baliza o nosso presente e aponta a direção do nosso futuro.
                            O Crato carrega consigo , historicamente, o legado de Cidade da Cultura. Esse título não nos foi concedido por mero acaso. Aqui tivemos o primeiro grito republicano no Brasil, entoado por D. Bárbara, Tristão e José Martiniano. Publicamos o primeiro jornal do interior do estado, “O Araripe, em meados do Século XIX. Formamos a primeira médica do nordeste,  Amélia Benébien. Fundamos o primeiro cinema do interior do Ceará, o “Paraíso”,  em 1911. Os primeiros albores do Teatro caririense despertaram aqui, assim como o primeiro curso secundário do interior ( o Seminário São José) e  a primeira Universidade do Sul cearense. Mantemos atualmente instituições culturais importantes como Instituto Cultural do Cariri, a SOLIBEL, a SCAC, a Academia dos Cordelistas, a Editora A Província, a Fundação Elói Teles. A Cultura de Tradição com suas Bandas Cabaçais, seus Reisados, Maneiros-Pau, Cocos e Lapinhas , encabeçada por incontáveis Mestres da Cultura de Tradição Popular, luta, incessantemente, pela preservação das nossas mais profundas raízes. Pululam, por aqui ,entre filhos reais e adotivos,  poetas, músicos, artistas plásticos, escritores , atores,  dramaturgos, cineastas, muitos de renome internacional.
                            Nos últimos tempos, no entanto, o Crato tem, politicamente, deixado de lado sua vocação mais importante,  o que tem coincidido com nossa visível decadência na região. Destruímos quase todo nosso patrimônio arquitetônico, fechamos nossas salas de cinema, o nosso teatro municipal encontra-se em situação calamitosa, assim como nosso Museu Histórico e de Artes Plásticas. Já fizemos circular mais de 170 jornais, hoje já não possuímos um só de tiragem regular. A Biblioteca da Cidade da Cultura tem acervo precaríssimo. A Fundação J. de Figueiredo Filho que teria a precípua função de alavancar nossas manifestações culturais se tornou um mero cabide de emprego, nunca conseguiu exercer suas reais funções.  A Cidade da Cultura tem sido uma verdadeira madrasta para com seus artistas locais. Não temos agenda cultural organizada. Rádio e Imprensa locais  abrem pouco espaço para nossos artistas. Em seguidas gestões, a Secretaria de Cultura não consegue exercer suas atividades, principalmente por conta de não ter orçamentação adequada. A mais importante festa da cidade, a Expocrato, optou por eventos e shows de mero entretenimento, com cachês exorbitantes, a troco de negligenciar todos os artistas caririenses que não encontram abrigo para dar visibilidade a suas Artes. O público mais exigente  tem simplesmente se esvaído em busca de alternativas de maior qualidade como o Festival de Inverno de Garanhuns em Pernambuco.
                            A hecatombe Cultural da cidade está implicitamente ligada  ao arrefecimento do nosso fulgor econômico. Hoje a Economia Cultural é o setor de maior dinamismo na economia mundial , houve um crescimento de 6,3% nos últimos anos, quando a economia mundial cresceu apenas 5,7% . A Economia Cultural   corresponde atualmente a 7% do PIB mundial. Em 2006,  tínhamos no Brasil mais de 300.000 empresas culturais que geravam  quase 2 milhões de empregos formais. Isto com um investimento de apenas 0,65% dos orçamentos das prefeituras e autarquias, quando a UNESCO propõe que se invista no mínimo 2%. Os Poderes Executivo, Legislativo e a Iniciativa Privada precisam acordar para esta realidade. O soerguimento da Cidade do Crato depende intrinsecamente de investimentos sérios e permanentes na nossa histórica vocação cultural.
                            Entendo que junto comigo estão sendo homenageados todos aqueles artistas  que trilham por este mesmo caminho tortuoso mas essencial. Agradeço ao Poder Legislativo , a minha família,  a todos os amigos e ao público que compartilham comigo desse  momento mágico. São instantes assim que me fazem perceber ter valido a pena dedicar quase meio  século da minha existência  a tornar o mundo mais sonoro e mais bonito.
Muito Obrigado !  


                             

         ( Pronunciamento de Abidoral Jamacaru no recebimento do Prêmio Elói Teles, na Câmara Municipal de Crato em 22/08/2016)             

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Que Crato salta das urnas de Outubro ?



                                                        J. Flávio Vieira

                                               Passado o período eleitoral, as coisas aparentemente voltam ao ritmo menos frenético de sempre. Perdedores , babões , puxa-sacos recolhem-se ao anonimato, geralmente escondendo as provas que os ligavam diretamente ao crime. Os vencedores  empertigam-se , mantêm um certo ar aristocrático, dividindo-se entre o bulling aos adversários abatidos e a luta renhida por cargos e colocações no futuro governo. Até o povaréu, que geralmente serve de mero figurino nestas apresentações, comemora a vitória, ou lamenta a surra,  como se se tratasse do seu time de preferência em final de campeonato.
                            Reconheço que me dirigi às urnas meio ressabiado. Primeiro porque acabava de descobrir, neste processo vil porque passa o Brasil, que meu título de eleitor  é um mero objeto decorativo. A grande festa democrática , na verdade, é um jogo de cartas marcadas. As urnas servem apenas para ratificar o poder econômico, como poder político. Se por acaso se rebelarem as urnas , juntam-se quatro centenas de marginais e as jogam no lixo. Fiz de conta, assim mesmo, que o título tinha alguma serventia e me dirigi à seção acreditando que era importante, apesar dos pesares , cumprir meus deveres como cidadão e escolher  os menos piores.
                            Baixada a poeira das emoções, nos veremos, a partir de janeiro,  diante de novas administrações na Câmara e Paço Municipais. Apesar do retrospecto profundamente negativo dos rumos tomados pela cidade de Crato nos últimos 35 anos, torço para que o bonde volte aos trilhos  e que o barco à deriva ao menos consiga encontrar um porto a se dirigir. Nos últimos anos, o Crato, a antiga “Pérola do Cariri” , viu sua joia transformar-se em simples bijuteria. Fomos, disparadamente, o município caririense que mais murchou e perdeu brilho nos últimos tempos. Somos  hoje uma mera caricatura.  A administração atual parece ter colocado a última pá de barro nesta inumação progressiva e inexorável. Como médico, percebo que o prognóstico desse doente, à beira da cova, não é dos mais auspiciosos, mas existindo ainda alguma centelha de vida, sempre sobrevive , também alguma esperança.
                            Torço, assim, para que a futura Câmara Municipal, que teve renovação considerável do seu plantel, deixe de ser apenas um balcão de negócios escusos, uma mera Casa de Leilões. Que legislem, que trabalhem não duas vezes por semana nas suas sessões que às vezes não duram uma hora. Pensem no bem da cidade, acima de tudo,  aprovem conscientemente o que possa engrandecer o município e fiscalizem a aplicação dos recursos comuns. Cada um lute pelas reivindicações coletivas das suas áreas de apoio, mas não esqueçam da cidade como um todo, em todas suas diversidade e complexidade. Quando o navio soçobra leva consigo todos os tripulantes !
                            Torço, também, para que o futuro governo municipal lute desesperadamente para que possamos recuperar o tempo perdido no último quartel. Dentro de recursos federais cada dia mais escassos, de arrecadação municipal em baixa,  mais que nunca é necessário priorizar as verbas para as áreas mais críticas. Não somos ingênuos ao ponto de imaginar que o futuro gestor não tem seus compromissos eleitorais, deve ter , no entanto, a inteligência de utilizar os mais capazes assessores da sua base de apoio. Áreas como Saúde, Educação e Cultura  precisam ser encabeçadas por técnicos da mais alta qualificação, já não cabem, nos dias de hoje, meros marionetes, amadores e simples prepostos. O futuro administrador terá, necessariamente, que entender o Crato como integrante de um Cariri praticamente conurbado. Será necessário, quebrar o nosso bairrismo crônico e  manter parcerias próximas com Juazeiro, Barbalha, Brejo Santo e demais cidades ,  com fito de conjuntamente tentar resolver problemas e obstáculos comuns. Carecemos, eternamente, de obras mínimas de infraestrutura como calçamento de ruas, reforma de estradas vicinais, saneamento urbano, construção de espaços de convivência como praças e logradouros. Temos a URCA que precisa ser vista carinhosamente como um importante fator no desenvolvimento das políticas locais.     E o mais importante, na minha visão,  é não perder o foco no sentido de impulsionar a Cidade do Crato nas suas precípuas e históricas vocações, tendo um olhar especial para a forte Cultura local e o nosso gigantesco patrimônio ecológico. Além de tudo, depois de muitos anos, temos agora um alinhamento de planetas com o Governo Estadual, multivitorioso  em eleições locais, além de ter bebido, desde criancinha, as benfazejas águas das nossas fontes.
                            Por tudo isso, me sobra ainda algum otimismo.  Faço votos para que Zé Ayrton e André Barreto possam nos restituir um pouco do fulgor de outrora. Nem precisamos de uma economia intensamente pujante e de um comércio voraz.  Basta-nos  uma cidadezinha  alegre, justa, acessível,  brejeira, saudável, musical em que seus habitantes , a cada dia, possam louvar o milagre  da vida com seus incontáveis mistérios.

Crato, 07/10/16  

                                  

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

sábado, 20 de agosto de 2016

Um Ninho de Mafagafes


"Não ir ao teatro é como fazer a toilette sem espelho."
 Arthur Schopenhauer

                                   O Teatro acompanhou de perto a história caririense. Cem anos após a Missão do Miranda já tínhamos por aqui a Sociedade Melpomenense de Teatro, em plena atividade. Nos  primeiros vagidos do Século XX , o pernambucano Soriano de Albuquerque fundaria o Grupo Teatral “Romeiros do Porvir” , com teatro montado na Rua Grande em Crato. Outras salas apareceriam na Rua do Fogo e na Sociedade São Vicente de Paulo, na Praça da Sé. Nos anos quarenta, Waldemar Garcia , cratense, o maior nome do Teatro cearense no Século XX, fundaria o Grupo de Teatro Amadores Cratenses  e , em Juazeiro, já funcionava um Teatro Escola, encabeçado por Menezes Barbosa. As três décadas que se seguiram  viveriam, basicamente, do teatro estudantil e de alguns  visionários e abnegados  . O advento das Mostras Cariri das Artes, já nos anos 90, parece ter feito despertar, novamente, as Artes Cênicas no Sul do Ceará.
                                   Esta pequena síntese  histórica brota  da necessidade de entusiasticamente contextualizar as artes performáticas  na nossa região, quando terminamos por assistir ao espetáculo “Poeira” do Grupo Ninho de Teatro aqui do Cariri. O Ninho com sua força gravitacional congregou atores , atrizes , diretores inspirados, que há mais de dez anos vinham, obstinadamente, trilhando o difícil e árduo caminho de fazer um teatro de qualidade, mesmo diante dos terríveis obstáculos das verbas exíguas, da ausência de Secretarias de Cultura  e do amadorismo.  Acompanho, como amante dos palcos, a evolução vertiginosa do Grupo que, dia a dia, terminou por se vivificar como um dos mais importantes de todo o estado do Ceará. Eles fazem Arte como missão e vocação e sabem , como dizia Cacilda Becker, que Teatro não é negócio, sempre dá prejuízo contábil, mas que os ganhos auferidos vão muito além de um simples Código de Barras.
                                   O Grupo Ninho é, de longe, o mais premiado do Cariri. Participou do Projeto “Palco Giratório” do SESC, estará, em breve no Rio, apresentando-se nas Paraolimpíadas, e este ano estará novamente no badalado Festival de Teatro de Guaramiranga. Seu último espetáculo, “Poeira”, para mim é antológico. Pareceu-me, na minha avaliação de puro espectador, um das melhores obras já produzidas em toda a história das Artes Cênicas cearenses.  Uma emocionante reverência à  trajetória  dos Mestres da nossa Cultura de Tradição , espetáculo milimétrica , coletiva e laboratorialmente  produzido, ao longo de três anos, sob orientação do LUME Teatro de Campinas em São Paulo. Percorrendo um caminho tão pantanoso, com risco permanente de cair no caricato, de afundar-se na religiosidade romeiresca, os integrantes do NINHO tiveram a leveza de arrancar a vida pulsante da Cultura popular, juntando Arte & Vida & Poesia, a essência final do Teatro.
                                   A persistência do NINHO , a formação acadêmica de muitos dos seus atores, a orientação de outros profissionais mais experientes  fizeram com que se elevasse a qualidade do trabalho a um patamar poucas vezes visto  por aqui. O resultado de tudo , mais que surpreendente: é emocionante. O NINHO e seus mafagafinhos : Edceu Barboza, Elizieldon Dantas, Jânio Tavares, Joaquina Carlos, Monique Cardoso, Rita Cidade, Sâmia Oliveira e Zizi Talécio acabaram por me convencer que é possível, sim, fazer Teatro da mais alta qualidade, com nível profissional, sem quase nenhuma ajuda governamental,  com a inexistência orçamentária das nossas Secretarias de Cultura e, mais, sem que ao menos nossa cidade possua uma Sala de espetáculos que mereça esse nome. Essa realidade se por uma lado é alentadora e enche nossos olhos,  por outro lado trava-nos a língua com o fel da pergunta que não pode calar : “Que Teatro fabuloso não poderíamos desenvolver, se a realidade fosse outra ?
                                   O GRUPO NINHO de Teatro , ontem, fez florescer, diante dos meus olhos, sua mais nova ninhada. Que espetáculo meninos ! Vocês , hoje, se juntam a Soriano de Albuquerque e Waldemar Garcia : fazem parte da vitoriosa trajetória teatral da nosso Cariri. Nos últimos sessenta anos,  ninguém vez teatro, por aqui, no nível que vocês apresentam hoje !  Quem ainda não viu o “Poeira” , se avexe !  Vocês estão refazendo a maquiagem sem o espelho, como dizia Schopenhauer , vão ficar arrepiados  e de cara borrada . Voltem ao NINHO, imediatamente, amigos !

Crato, 20/08/16



quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Caçando Pokemóns

                                  
J. Flávio Vieira
                         N os últimos dias, por incrível que possa parecer, começaram a pulular, Brasil afora, professores de português. A notícia pode até parecer salutar, à primeira vista: finalmente estaríamos olhando para o umbigo e redescobrindo que   “a última flor do Lácio, inculta e bela” faz parte intrínseca da nossa individualidade. Cultivá-la, podá-la cuidadosamente, tratá-la com desvelo , no fundo, seria acariciar a nós mesmos, afinal a língua é possivelmente o que existe de mais visível e profundo na nossa identidade cultural. A notícia seria alvissareira se não tivesse , por pano de fundo, o que existe de mais abjeto no coração humano : o preconceito.
 
                                   Em São Paulo, o médico Guilherme Capel Pascua, de plantão, atenderia um paciente humilde que, confidencialmente , em linguagem simples, externou os sintomas na sua língua própria. O doutor, com sorriso sardônico, zombaria dele e , nas Redes Sociais ( o Oráculo de Delfos da atualidade) debocharia do coitado : “Não existe Paleumonia e nem Raôxis !” , diria ele, para seus amigos , caçadores de Pokemóns. A foto de Dr. Guilherme, um médico visivelmente recém-formado, ganharia o noticiário e ele terminaria demitido, junto com vários funcionários do mesmo hospital, que corroboraram a gozação, inclusive citando outras, de outros clientes, igualmente pouco alfabetizados, que teriam cometido ( na avaliação desfocada deles) sérios crimes gramaticais. 
                        Não pretendo aqui crucificar um colega, ainda imberbe, na sua atitude, ao meu ver, totalmente estapafúrdia. O consultório é um confessionário e somos todos, desde Hipócrates, sujeitos ao Segredo Médico. Nem sob tortura, sob ação judicial, podemos revelar o que nos foi confidenciado. O médico, diante do seu paciente, não é um técnico de gravata diante de um televisor; devemos ser, necessariamente, uma alma diante de outra alma. Precisamos que ser , sim, intérpretes das diversas línguas portuguesas existentes no Brasil, isso faz parte do nosso mister e da nossa formação . E mais ( pasmem Dr. Capel e seus asseclas! ) , não existe erro linguístico nas informações do cliente humilde . A língua é dinâmica e viva , não pode se ater a simples regras formais e fossilizadas da escrita culta. Tenho absoluta certeza que o Dr. Guilherme não fica corrigindo seus amigos do Facebook quando estes utilizam o típico linguajar das Redes Sociais, com palavras truncadas, sem o til e o cedilha e plena de neologismos. Além de tudo,  colocaram o paciente humilde precisando se expressar com termos técnicos , distantes dele. Dr. Capel passaria numa prova de economês , filosofês ou cibernetiquês ?  
                        O mais preocupante para mim, no entanto, é que a visão do Dr. Guilherme não é apenas dele, mas de toda uma geração de novos profissionais , sempre se sentindo superiores aos seus pacientes e certos que foi por simples mérito próprio que chegaram ao conhecimento e à formação acadêmica. Os que não conseguiram estudar e aprender a língua formal,  não o fizeram porque, na sua visão, são preguiçosos ou burros.  O enteado do paciente , triste, informaria à imprensa que seu padrasto não teve condições de continuar os estudos porque ele , o enteado,  teve tuberculose aos dois anos e, na época, ou o mecânico estudava ou pagava seus remédios. A visão de Dr. Guilherme e de seus comparsas, certamente, era a de que ele deveria ter deixado o enteado morrer e, meritocraticamente, ir aprender gramática.
                        Na última quarta-feira, a atual presidenta do STF , Carmen Lúcia, ao ser saudada como tal , recusou o título informando que queria ser tratada como presidente, uma vez que era “amante da língua portuguesa”.  Não soube se o gramático paulista  Dr. Guilherme Capel criticou a ministra. Ao paciente humilde do médico não se pode cobrar conhecimento da língua erudita, mas era de se esperar que a uma pessoa que ocupa um dos mais altos cargos da justiça do país tivesse conhecimento de causa. As duas formas são perfeitamente corretas segundo Bechara e outros mestres da língua portuguesa. Até Machado de Assis utilizou o “presidenta” nas “Memórias Póstumas”. Como sempre, havia mais de uma simples correção gramatical na fala da ministra. Existia uma deselegância desnecessária , era como se dissesse : “Presidenta, não ! Não me compare com aquela gentalha!”
                        A escolha do “Presidenta” pela atual presidenta eleita do Brasil, tem um fortíssima razão linguística. Ela pretende realçar a força feminina do seu cargo. É mesmo bom que a ministra mantenha o seu “presidente” antes do seu nome. A Suprema Corte do país tem dado mostras claras de que nossos problemas vão bem além das interpretações de regras gramaticais. Mesmo que os gramáticos vesgos Lúcia e Capel estivessem certos linguisticamente,  Patativa do Assaré já tinha matado a charada: “é melhor escrever errado  a coisa certa do que escrever certo a coisa errada”.


Crato, 12/08/16

sexta-feira, 12 de agosto de 2016


LIVRO DE GRAÇA NA PRAÇA
BELO HORIZONTE
PRAÇA DE SANTA TEREZA
11 DE SETEMBRO DE 2016
IMPERDÍVEL !