sábado, 18 de abril de 2026

Zenon, Dr. Jekyll e Mister Hyde

 


                               Veio-me, ontem, a lembrança de um texto do escritor português oitocentista ,Antônio Feliciano de Castilho,  sobre o pintor grego Zenon. Li-o ainda nos meus tempos de ginásio. Naqueles idos, pasmem vocês ainda se liam livros e -- loucura das loucuras -- clássicos. A narrativa de Castilho, num estilo rebuscado e límpido, descreve a apreciação do mestre Zenon sobre um quadro que retratava Helena de Tróia, encomendado a um de seus discípulos, como parte de treinamento da sua arte. Zenon fizera uma única recomendação: pinte uma mulher bela e deslumbrante, como se espera tenha sido a esposa de Menelau. O discípulo caprichou na tarefa de casa, debuchou uma moça altaneira, deixando antever lances de sua nudez, reclinada à beira de um rio, coberta de joias e pedras preciosas. Depois de examinar atentamente a obra do discípulo  Zenon, com seu olhar minucioso e crítico concluiu com uma frase lapidar: “Pois que a não soubeste fazer formosa, fizeste-a rica”.

                               Retornou-me esta história,  tantos anos depois de lida, ainda nos bancos escolares, percebendo a atualidade das suas lições nos tempos atuais. Talvez uma das grandezas de uma obra literária esteja hobernada justamente nesta faceta de ser atemporal. De tempos em tempos, como um cometa, ilumina , novamente, os céus que , aparentemente, se sentiam modernos, ostentando uma nova paisagem. Zenon continua vivo nos tempos de hoje. Basta ver os shows que lotam estádios imensos, apinhados de fãs, com bandas de forró isoporizadas e de Sertanojos esgoelados, tocando e cantando músicas de péssima qualidade, certificando-nos como a imbecilidade tem tantos seguidores. Utilizam palcos enormes, amplos, com som de qualidade inimaginável e efeitos pirotécnicos dignos de Hollywood. Não existindo essência, compensam tudo na roupagem. Zenon perceberia que sua crítica estética, de mais de vinte séculos, seria perfeitamente aplicável nos dias de hoje. A embalagem, mais que nunca, passou a ser muito mais importante que o presente. Vivemos, desfrutamos e amamos a superfície. É como se degustássemos apenas a casca da frutinha, sem arriscar morder a polpa, temendo os espinhos ou o travo do caju . Julgamos as pessoas e as coisas pelo revestimento que se nos apresentam. Como se nada existisse por baixo do paletó, da gravata, da maquiagem e das incontáveis máscaras que cada um de nós precisa usar nos bailes carvalalescos do nosso cotidiano. Maus, bons, feios, bonitos, charmosos ou bregas, burros ou inteligentes , ricos ou pobres... tudo pode ser perfeitamente resolvido com uma nova demão de tinta, já que ninguém rasgará o invólucro para saber o que existe por baixo do papel brilhante do embrulho.

                               Nesses tempos epipelágicos, de superfície criamos, ostensivamente, uma dualidade clara nas nossas vidas. Cada um de nós vive em dois mundos paralelos. Existimos num mundo real que se restringe a nossa família e a um punhado de amigos e colegas de trabalho. Esta aresta da nossa existência é a mais opaca e a menos glamourosa. Ali trabalhamos, suamos, temos boletos a pagar a cada final de mês. Ali, também, erguemos nossas barricadas e engatilhamos os fuzis para as batalhas, emboscadas e traições da nossa jornada. Do outro lado, temos nosso mundo virtual, um planeta colorido, alegre de perfeito, onde expomos nossos sonhos conquistados ou almejados  e pretensas realizações. Nesta Nárnia, temos milhares de amigos, desfrutamos as melhores comidas, os mais estonteantes viagens,  somos sempre jovens, bonitos e deslumbrantes às custas de fotoshops e filtros,  e ricos e bem sucedidos (basta escolher os melhores ângulos dos carros importados das ruas, das mansões de milionários  e dos iates ancorados nos cais). Divididos entre dois universos tão díspares, vamos perdendo a certeza do que somos:  Dr. Jekyll ou Mister Hyde?  Como fazer com que os dois personagens coabitem sem conflitos? Como caber no mesmo sono, o sonho e a realidade ?

                               Zenon, do alto dos mais de vinte séculos que nos contemplam, deve rosnar de lá sua crítica : “Pois que não soubestes fazer a vida feliz , pintaste-a de rica e glamourosa”.

 

J Flávio Vieira

18/04/26

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