Veio-me,
ontem, a lembrança de um texto do escritor português oitocentista ,Antônio
Feliciano de Castilho, sobre o pintor
grego Zenon. Li-o ainda nos meus tempos de ginásio. Naqueles idos, pasmem vocês
ainda se liam livros e -- loucura das loucuras -- clássicos. A narrativa de
Castilho, num estilo rebuscado e límpido, descreve a apreciação do mestre Zenon
sobre um quadro que retratava Helena de Tróia, encomendado a um de seus
discípulos, como parte de treinamento da sua arte. Zenon fizera uma única
recomendação: pinte uma mulher bela e deslumbrante, como se espera tenha sido a
esposa de Menelau. O discípulo caprichou na tarefa de casa, debuchou uma moça
altaneira, deixando antever lances de sua nudez, reclinada à beira de um rio,
coberta de joias e pedras preciosas. Depois de examinar atentamente a obra do
discípulo Zenon, com seu olhar minucioso
e crítico concluiu com uma frase lapidar: “Pois que a não soubeste fazer
formosa, fizeste-a rica”.
Retornou-me
esta história, tantos anos depois de
lida, ainda nos bancos escolares, percebendo a atualidade das suas lições nos
tempos atuais. Talvez uma das grandezas de uma obra literária esteja hobernada
justamente nesta faceta de ser atemporal. De tempos em tempos, como um cometa,
ilumina , novamente, os céus que , aparentemente, se sentiam modernos,
ostentando uma nova paisagem. Zenon continua vivo nos tempos de hoje. Basta ver
os shows que lotam estádios imensos, apinhados de fãs, com bandas de forró isoporizadas
e de Sertanojos esgoelados, tocando e cantando músicas de péssima qualidade,
certificando-nos como a imbecilidade tem tantos seguidores. Utilizam palcos
enormes, amplos, com som de qualidade inimaginável e efeitos pirotécnicos
dignos de Hollywood. Não existindo essência, compensam tudo na roupagem. Zenon
perceberia que sua crítica estética, de mais de vinte séculos, seria
perfeitamente aplicável nos dias de hoje. A embalagem, mais que nunca, passou a
ser muito mais importante que o presente. Vivemos, desfrutamos e amamos a
superfície. É como se degustássemos apenas a casca da frutinha, sem arriscar morder
a polpa, temendo os espinhos ou o travo do caju . Julgamos as pessoas e as
coisas pelo revestimento que se nos apresentam. Como se nada existisse por
baixo do paletó, da gravata, da maquiagem e das incontáveis máscaras que cada
um de nós precisa usar nos bailes carvalalescos do nosso cotidiano. Maus, bons,
feios, bonitos, charmosos ou bregas, burros ou inteligentes , ricos ou
pobres... tudo pode ser perfeitamente resolvido com uma nova demão de tinta, já
que ninguém rasgará o invólucro para saber o que existe por baixo do papel
brilhante do embrulho.
Nesses tempos
epipelágicos, de superfície criamos, ostensivamente, uma dualidade clara nas
nossas vidas. Cada um de nós vive em dois mundos paralelos. Existimos num mundo
real que se restringe a nossa família e a um punhado de amigos e colegas de
trabalho. Esta aresta da nossa existência é a mais opaca e a menos glamourosa.
Ali trabalhamos, suamos, temos boletos a pagar a cada final de mês. Ali,
também, erguemos nossas barricadas e engatilhamos os fuzis para as batalhas,
emboscadas e traições da nossa jornada. Do outro lado, temos nosso mundo virtual,
um planeta colorido, alegre de perfeito, onde expomos nossos sonhos
conquistados ou almejados e pretensas realizações.
Nesta Nárnia, temos milhares de amigos, desfrutamos as melhores
comidas, os mais estonteantes viagens, somos sempre jovens, bonitos e deslumbrantes às
custas de fotoshops e filtros, e ricos e
bem sucedidos (basta escolher os melhores ângulos dos carros importados das
ruas, das mansões de milionários e dos
iates ancorados nos cais). Divididos entre dois universos tão díspares, vamos
perdendo a certeza do que somos: Dr. Jekyll
ou Mister Hyde? Como fazer com que os
dois personagens coabitem sem conflitos? Como caber no mesmo sono, o sonho e a
realidade ?
Zenon,
do alto dos mais de vinte séculos que nos contemplam, deve rosnar de lá sua
crítica : “Pois que não soubestes fazer a vida feliz , pintaste-a de rica e
glamourosa”.
J Flávio Vieira
18/04/26

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