segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A Casa de Tia Júlia





                                   J. Flávio Vieira

                         Nossa casa é o nosso ninho, uma espécie de prolongamento do útero materno. É lá onde nos completamos, onde temos resumida, num ínfimo cantinho,  toda substância do universo. Batem-nos as atribulações à porta , a vida nos prega uma peça e imediatamente nos vem à mente o refúgio da nossa casa , ali onde há uma história em cada tijolo, uma esperança em cada ladrilho, onde o relógio de parede mastiga, incessantemente, os minutos e instantes da existência, junto com  todas nossas tristezas e frustrações. Nossa casa tem uma fragância peculiar, o travesseiro é mais macio, a rede mais confortável , não deve haver nenhum lugar no mundo, por mais rico e abastado que seja, que nos faça mais descansados , leves e acolhidos do que na nossa casinha.
            É possível que seja por isso  nos sentimos tão estrangeiros quando nos hospedamos em residências de amigos e parentes.Por mais amistosos e bons anfitriões que sejam , a comparação é inevitável , em pouco temos uma louca saudade do nosso lugarzinho. Mesmo quando viajamos e nos hospedamos em hotéis , sem a preocupação de estar incomodando ninguém, quando pagamos pelo conforto e pelos serviços, mesmo assim, em pouco , nos vem aquela incontrolável falta de casa. Viajar é bom, principalmente, porque é uma satisfação de mão dupla: bom quando partimos e desenfastiamos da nossa terra e ótimo quando retornamos para casa e megulhamos na tepidez reencontrada do lar- doce- lar.
            Poucas pessoas têm a felicidade de conhecer uma outra casa que tenha os mesmos braços abertos, a mesma sombra acolhedora, a mesma tranquilidade  que a nossa. Os felizardos que tiveram um dia esse privilégio , ganharam metade da vida, muitas vezes encontrando ali, além do aconchego da sua primeira casa, detalhes, peculiaridades que multiplicaram a alegria do primeiro ninho. Nesse outro cantinho, difícil explicar o porquê, nos sentimos, sem nenhuma força de expressão , como em nossa própria casa.
            Fui um desses  raros sortudos. Conheci a Casa da Tia Júlia , uma entidade encantada que vivia com um sorriso nos lábios e uma flor de jasmim no cabelo. Tia Júlia era a própria encarnação da hospitalidade. Todos se sentiam repoltreados, única e exclusivamente porque a querida tia nos acolhia como de casa, sem mudar as rotinas domésticas, sem  criar falsas expectativas . O Almoço era servido às 11 e o jantar às 17 e quem quisesse provar da mais típica cozinha nordestina tinha que estar presente nesses horários sagrados. Qualquer hóspede de última hora era servido se acrescentando um pouco mais de água no feijão e um ovo era sufciente ,às vezes, para empanturrar cinco comensais – a Tia tinha a divina capacidade de refazer o milagre dos pães. Não faltava rede para ninguém e, uma vez, era tamanho o número de hóspedes, que tive que armar a minha  em dois armadores de uma mesma parede e dormi o sono dos arcanjos. A Tia acolhia quem lhe batesse à porta :de parentes distantes a aderentes ou meros conterrâneos. Ali era simples perceber que a felicidade está nas pequenas coisas, nos mínimos e imperceptíveis gestos, que o amor, a bondade, a solidariedade são sentimentos que vivem  nas mais discretas, minúsculas e despretensiosas ações – adoram a penumbra e o anonimato.
            Creio que o mundo seria melhor se conseguíssemos descobrir a essência com que a Tia atapetava a sua casa e que a fazia mágica e encantada , até que um dia ela precisou partir e deixou, entre todos que a conheceram, seu inolvidável cheiro de jasmim...

Crato, 10/09/98

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