sexta-feira, 8 de maio de 2020

Vi esse filme, o artista morre no fim !






                                                            Se queres prever o futuro, estuda o passado.”
                                                                                                          Confúcio

                                               Em meados do  Século XIX,   alastrou-se, mundo afora, vinda do Oriente, uma pandemia de Cólera. À época, moléstia de etiologia desconhecida, trazendo enorme mortandade, imputava-se sua eclosão a um castigo divino. Os tratamentos centravam-se em rezas, promessas, autoflagelações e incontáveis meizinhas populares, todos eles de resultados inócuos. No Cariri, a peste bateu às nossas portas no início de 1862. O presidente da província arregimentou uma plêiade de médicos para virem à região que , naqueles idos, não tinha um sequer que aqui residisse. Entre eles, um aracatiense, o nosso maior benfeitor : Dr. Antonio Manoel de Medeiros , hoje totalmente esquecido. Quando o Cólera resolveu partir, no finalzinho de setembro daquele 1862, tinha deixado seu rastro funéreo e ceifado a vida de mais de 2500 caririenses. Só no Crato pereceram, oficialmente, 900 almas, numa cidade que possuía, ao tempo, uns 3500  habitantes.  Guardadas as proporções, seria como se hoje , na atual pandemia de Covid-19, aqui fossem dizimados 32.000 cratenses.
                            Como em quase todo surto epidêmico, estabeleceu-se o terror , o pânico e o salve-se quem puder. Os médicos convocados para o combate tiveram que, heroicamente, lutar com as unhas e os dentes. Em Crato Dr. Medeiros fez um pequeno Hospital na Rua das Laranjeiras que, infelizmente, não logrou êxito. Abriu ainda uma enfermaria na cadeia municipal, mas a mortandade era tanta que a população associou-os, imediatamente, a um abatedouro e preferiu esperar a velha da foiçona em casa mesmo. Dr. Medeiros criou aqui, uma Comissão Sanitária, heroica e corajosa, para ajudar no combate ao inimigo feroz. Entre eles, o boticário Secundo Chaves; o fundador do primeiro jornal do interior do Ceará, aqui no Crato, João Brígido ; e o juiz Francisco Sette. Trabalharam, diuturnamente, visitando sítios e logradouros recônditos, na tentativa de trazer algum tratamento e conforto à população. Reclamou-se, durante todo tempo, da falta de apoio governamental, principalmente no que tange ao fornecimento de medicamentos, sempre em falta. A população, atônita, aguardou a chacina em casa, ajudaram-se mutuamente, colheram donativos e, aparentemente, a fome ao menos foi aplacada. Os mais ricos fugiram para as fazendas ou outras localidades, ajudando na disseminação da doença. Enterros se sucediam. Pais abandonavam filhos doentes e vice-versa. Cadáveres, como em Santana, ficavam nas ruas, insepultos, para o repasto dos cães. Muitos moribundos, no afã da epidemia,  teriam sido enterrados ainda vivos. Prisioneiros foram dispensados das penas para trabalharem como coveiros. Criou-se um cemitério específico do Cólera, defronte ao hoje restaurante Algo Mais. Alguns padres como o Lima Seca e Silva Souza escafederam-se , como por encanto, bem como o delegado Francisco Pontes Simões, Manoel de Lavor ( Fiscal da Câmara) e Miguel Xavier ( presidente da Câmara). Os padres Manoel Aires e João Marrocos Teles  deram um corajoso amparo espiritual aos moribundos, inclusive tendo o Pe Marrocos sido contaminado e vindo a falecer do Cólera, junto com o irmão , pai do Pe. Cícero.  João Brígido e o juiz Sette também foram acometidos da doença, mas escaparam.
                            Houve tensões ainda com o município de Exu que fechou suas fronteiras numa espécie de lock-down e viu-se livre da epidemia. Escolas e comércio fecharam suas portas , muitas vezes definitivamente.
                            Quase cento e sessenta anos depois, o Cariri se vê, novamente, diante de uma pandemia. O conhecimento científico que temos hoje é incomparável, numa cidade que cresceu mais de 3500%. Hospitais estruturados , enfermeiros , médicos e técnicos não nos faltam. A praga já está às nossas portas e basta observar cidades como Fortaleza e Manaus para entender que o cenário do triunfo da morte, não mudou muito. Por que ainda não se tem como dar toda a cobertura assistencial possível à população, nos tempos de hoje? Por que mortes em casa, cadáveres insepultos por muitos dias, falta de respiradores e leitos de UTI ? A elite cobrando retorno ao trabalho em troca da vida de trabalhadores ? Talvez porque, na nossa história, mudam os cenários, mas nunca a essência dos atores. A desigualdade social continua gritante ( temos medalha de prata mundial na modalidade); os CNPJ´s continuam sendo mais importantes que os CPF´s; a estrutura sanitária do país permanece digna do Século XIX; a ganância dos homens faz com que coloquem a economia como bem maior que a vida. E mais, reclamava-se do presidente da província do Ceará, Dr. José  Bento da Cunha, à época. Teria sido negligente em fornecer os medicamentos e na ajuda aos necessitados que, no geral, relegava-se à responsabilidade dos mais abastados e que deviam fazer vaquinhas e cotas. Cento e sessenta anos depois, sentiríamos saudade do Dr. Bento, hoje, quando temos um governo eleito,  totalmente insensível ao extermínio da população. Estados e municípios virem-se como puderem. Não existe esfera federal, só celestial: Deus acima de todos !   Acabar com a pobreza no país? É mais fácil acabar com com os pobres.
Crato, 08/05/20

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