sexta-feira, 5 de maio de 2017

3 de Maio : Semente e Fruto


                                               Era um domingo na pacata Vila do Crato. Há exatos duzentos anos,  a vilazinha resumia-se a uma pequena praça central de onde saiam radialmente onze ruelas. No extremo sul cearense,  o Crato sempre teve uma ligação fortíssima com Pernambuco, mesmo depois da nossa emancipação daquele estado,  no finalzinho do Século XVIII. Boa parte da nossa colonização branca dali procedeu, de lá  também importamos a nossa mais preponderante cultura:  a cana de açúcar e as ideias iluministas viriam também a reboque. Naqueles idos, o Ceará vinha assoberbado de muitos problemas: uma seca que já se arrastava por mais de dois anos e  uma consequente carestia nos gêneros de primeira necessidade; o domínio português no comércio da Província revoltava os comerciantes nativos; por outro lado, após a chegada da família real,  o Sul do país começou a se tornar preponderante no Brasil, relegando o Nordeste a um plano inferior.
                                   Pois foi em meio a esse  cenário,  que naquela fatídica manhã de  3 de Maio de 1817 , um seminarista cratense do Seminário de Olinda, de 22 anos, envergando sua batina negra,  subiu ao altar da Igreja da Sé , após a missa dominical. Com voz forte e empostada leu um manifesto enviado de Recife em que proclama a Independência e a República no Brasil. Na plateia uma elite local constituída de proprietários rurais e comerciantes e muitos populares aplaudem freneticamente a iniciativa. A reviravolta política progride com o hasteamento da bandeira branca da república e a deposição imediata de toda a burocracia monárquica cratense. Novos serventuários seriam imediatamente eleitos , o Capitão-mor da Vila , Pereira Filgueiras, representante maior da monarquia na região,  num primeiro momento, pareceu aderir ao movimento libertário e seria içado a “Comandante das Tropas” revolucionárias. Dois dias depois conseguiriam a adesão de Jardim, uma das mais importantes vilas caririenses na época.
                                   O sonho pioneiro e premonitório da República do Crato durou, exatamente, oito dias. O governo central retomou as rédeas do poder político com a ajuda das elites comerciais e feudais num Ceará de forte viés lusitano. A bandeira da República foi defenestrada e rasgada. Os revoltosos foram detidos entre eles:  José Martiniano ( o seminarista revolucionário ), seus irmãos Tristão e Pe José Carlos. Junto ,  a primeira heroína e presa política brasileira , a matrona dos Alencares : D. Bárbara. Eles permaneceriam detidos, precariamente,  em prisões pútridas e fétidas em Fortaleza,  Recife e Salvador. Por um mero acaso, escapariam da pena de morte e  seriam liberados, quatro anos depois, por conta de ordens da Corte, após uma Anistia Geral que se seguiu à  Revolução Liberal do Porto.
                                   Na última quarta feira, dois séculos depois, um ator subiu ao altar da Sé e refez o ato e o discurso históricos. A pequena plateia , após a missa, deve ter se perguntado, já sem a emoção passada:  que  legado deixou a fugaz República do Crato ?  Aparentemente, resumiu-se tudo a um gesto tresloucado e inglório. A partir daquele momento,  começamos a computar baixas. O Nordeste foi, pouco a pouco, perdendo sua força política e econômica no cenário brasileiro, vendo a gangorra guinar para  o sul e sudeste . O interior do Ceará, então o apogeu da província,  foi paulatinamente  percebendo  sua influência esvair-se para Capital. E o Crato , depois do segundo quartel dos Novecentos, observaria, atônito, seu poderio mercantil e político obnubilar-se no Cariri. O movimento seminal encetado em Pernambuco, no entanto, de tão curta sobrevivência, fincou ideias iluministas que redundariam logo depois na Independência do Brasil, embora o sonho republicano ainda tivesse hibernado por mais de setenta anos.
                                   Acredito que o mais importante testamento deixado pelos revolucionários de 1817 tenha sido a coragem e a determinação de lutar contra as forças opressoras, mesmo colocando o pescoço no laço da forca. No fundo, eles não titubearam em plantar uma árvore que daria frutos para serem saboreados por futuras gerações. Hoje , quando novamente a Democracia é colocada em cheque; quando a Escravidão tende a reaparecer, no baile,  fantasiada de reforma trabalhista; quando o entreguismo governamental põe em risco a Independência conquistada em 1822;   quando a miséria e a fome reaparecem como plataforma de governo; quando os verbos administrar e afanar já são sinônimos; o ideário e a coragem de Bárbara, José Martiniano, Pe Carlos José e Tristão , mais que nunca parecem exemplares e atuais. O Altar da Pátria aguarda ansioso um outro três de maio.


Crato, 05/05/17  

sábado, 29 de abril de 2017

Afrodízio sapeca alho no Vampiro

       


J. Flávio Vieira

                                               Afrodízio  Chinchorro subiu, ontem, num banco da Praça Siqueira Campos,  e cuspiu, quase aos berros, um discurso mais inflamado que olho de menino com conjuntivite. Quem o visse de longe, teria a certeza que se tratava de um Bakunin , ou um Engels falando à massa, depois de lhe terem pisado na unha encravada. Chamou todos à luta, conclamou o povo para invadir as ruas que lhes pertenciam por direito, contra os despautérios  promovidos pelo governo com suas medidas assassinas , que rasgavam e picotam a CLT, restabeleciam a Escravidão no Brasil  e destinavam a aposentadoria  apenas para  uns poucos macróbios : Matusalém, Noé, Tália Márcia, Dr. Borges, Belo Leite.
                                   --- Às armas se for preciso ! Dignidade ou Morte ! -- Vociferou Afrodízio , com rosto vermelho como se untado de urucum.
                                   Na Siqueira Campos,  muitos manifestantes já se concentravam, esperando o deslocamento até o Giradouro, percebendo que , na perspectiva do estupro, à vítima cabia ao menos o direito de espernear. Bandeiras vermelhas, pobres, professores, religiosos, organizações sociais se mesclavam , numa brilhante colcha de retalhos, uma pequena mostra daquela maior que compunha, historicamente,  a grande aquarela brasileira. Estranhamente, agora,  faltavam os membros antigos da indignação seletiva : as panelas de Teflon e as Hilux com seus adesivos Verde-amarelos. À Mídia, também, já não interessava a transmissão das levas de manifestantes, agora apelidados de vândalos e de barreira aos verdadeiros trabalhadores que seriam aqueles que não adeririam à Greve. A turba se perguntava, então,  se quem estava impedindo as pessoas de trabalharem eram eles ou o governo que produziu, em pouco mais de um ano, quatorze milhões de desempregados.  Por que servir pão de ló para os  legislativo e judiciário e só  mucunã para o povaréu ?
                                   A fala dura e progressista de Afrodízio, nosso Lênin tupiniquim, mostrou-se a  todos como típica dos tempos bicudos em que vivíamos. Chinchorro nunca fora de se manifestar publicamente, levara sempre vida reclusa e pacata. E mais : sempre fugira do trabalho,  como vampiro do alho. Até os quarenta , como filho único, vivera à sombra frondosa da mãe, pensionista de um alto funcionário da Receita Federal. Depois que seu guarda-chuva foi fazer a contabilidade com o Criador, rápido   engraçou-se da viúva de um procurador e continuou levando a vida agora sob novo patrocínio. Não precisa achar nada, só procurar o que fazer, como seu antecessor. Nem em outubro, com sol a pino, se conseguia ver suor escorrendo do seu topete. Assim, o discurso de Afrodízio desencadeou emoções díspares na plateia. Os empresários locais tomaram aquilo como uma gozação: logo quem vinha a público defender e incitar os trabalhadores, um preguiçoso de carteirinha! Os manifestantes, por outro lado, entenderam a revolta de Anfrízio como sintomática dos novos tempos : até ele -- quem diria ? -- estava se sentindo prejudicado, a que ponto o descalabro governamental tinha chegado !
                                   A turba, finalizado o discurso inflamado  e inflamável , aplaudiu-o freneticamente. Aguardavam-no para a passeata e as manifestações que se seguiriam. A coisa está feia, comentaram com ele, até Anfrízio vai fazer greve ! O homem, no entanto, ainda rubro e meio encolerizado , fez chegar ao ápice sua indignação :
                                   --- Não ! Não ! Não ! Contra esta bandalheira toda, a safadeza generalizada que agora governa esse país, eu deixo aqui o meu protesto .  Vocês, políticos,  para não trabalhar ainda precisam roubar , afanar e lascar os outros  ! Vocês não são dignos do ócio ! Irresponsáveis ! Não quero me misturar com salafrários feito vocês !  Amanhã, mesmo vou procurar emprego !


Crato, 29/04/17 

sexta-feira, 21 de abril de 2017

De Calças Baixas

                               
Tendemos a ver os novos tempos com  olhos embotados  em névoas de passado. Os novos costumes, as recentes nuances da Moral, a dinâmica inevitável do fluxo da humanidade  caem nos nossos olhos, em geral, como argueiros. Difícil se conseguir fazer um upgrade na nossa visão de mundo. O mais comum é que nos fossilizemos em algum momento da nossa adolescência. Frases como : “Nosso tempo era muito melhor !” , “Na nossa época, sim, havia respeito!” , “Esses meninos de hoje estão perdidos!” brotam, sempre,  de algum sentimentalista louco. Alguém  que reclama da Ferrari que passa veloz, montado no seu jegue ronceiro. A vida passa, as horas escorrem pela ampulheta, a paisagem se modifica e  com os costumes e hábitos não poderia ser muito diferente. Comparar , sem o necessário distanciamento, práticas e peculiaridades temporais, sem projetá-las em novos e modernos contextos é um exercício iníquo e inglório. Mas claro que nem tudo que vem banhado de novo, necessariamente, traz consigo consistência de evolução. Murilo Mendes dizia que as coisas no planeta mudam muito mais do que evoluem. Diante da Esfinge do verde , pronta a nos devorar na nossa tentativa de decifrá-la, é preciso catar as escolhas  do carcomido e do pútrido.
                        Acho, assim,  sempre temeroso fazer ilações sobre comportamentos modernos, totalmente díspares dos valores de que fui infundido. São aberrações ou apenas uma mera consequência do curso normal da existência ? Esse preâmbulo me pareceu necessário para explicar a minha estupefação,  quando venho presenciando condutas esdrúxulas de alguns futuros colegas de profissão. Estou diante de deformidades reais, com fantasia de moderno   ou   apenas ficando velho, ranzinza e obsoleto ?
                        Dias atrás, sextanistas de Medicina, da Universidade Vila Velha, no Espírito Santo, encontraram uma modalidade nova de se fotografarem antes da formatura. Todos de jaleco e estetoscópio no pescoço, baixaram as calças e mantiveram as mãos , na altura do abdômen, simulando a imagem da genitália feminina. Publicaram a fotografia em Redes Sociais com a legenda de “Pintos Nervosos”. A ideia que me passaram, claro, foi a de que, uma vez diplomados,  estariam todos aptos e com recursos suficientes para se empanturrarem em libações sexuais. Estariam na mira pacientes e acompanhantes ? As festas de término de curso, nos últimos tempos, perderam a solenidade típica de anos atrás. Frequentemente, em bailes monumentais, os novos formandos são chamados , um a um, ao som de músicas do mais baixo qualidade, muitas vezes aparecendo eles de sunga, ou fantasiados de  gogo boys, executando danças com forte viés sexual. Assim são apresentados à sociedade presente que aguarda, ansiosa, novos e exímios profissionais da arte médica.
                                   Essas mudanças abruptas coincidem com a disseminação de Escolas Médicas Privadas, geralmente cobrando altíssimas mensalidades dos seus alunos. Grande parcela destes empréstimos é financiada pelo mercado financeiro, com prestações a serem quitadas a se perder de vista. Os alunos, assim, se diplomam sem qualquer sensibilidade social ou ética. Investindo maciçamente na  carreira, pretendem, a todo custo, fazer valer, financeiramente, a aplicação. Sentem-se como meros agiotas  trabalhando na Bolsa de Valores. As especialidades são catadas, pragmaticamente, entre aquelas mais lucrativas.  As consultas e procedimentos que virão,  terão o fito único de ressarci-los  do  capital empregado, com os lucros, claro, que pensam em auferir. O paciente que já foi o fim único da Medicina , passa a ser relegado a um simples meio. Muitos dos novos profissionais falam apenas em qualidade de vida ( deles), carros importados, carreiras políticas. De há muito se vêm diplomando apenas técnicos da arte médica, alguns de grande qualidade e conhecimento científico, mas sem nada do perfil humanístico que a Medicina continua a exigir. Hipócrates é coisa do passado remoto; o Deus Asclepius foi substituído por Hermes e Mercúrio.
                                   Os futuros médicos que baixaram as calças, no Espírito Santo, infelizmente, são , hoje, o protótipo do novo esculápio. O Código de Ética já não tem nenhum significado, a nova relação médico-paciente passou a ser meramente comercial e regulamentada, pois, pelo Direito do Consumidor. Não há nenhuma diferença palpável entre o técnico de refrigeração que conserta a geladeira e o médico atual que tentará dar um jeito numa máquina muito mais complexa. É esta realidade que hoje nos salta aos olhos. E sei que vou ser chamado de retrógrado, abestalhado e velho, pois ainda creio que a confiança, o toque, a solidariedade, a compreensão,  o calor humano , a luta contra as injustiças sociais, o olho no olho são medicamentos mais poderosos que muitos outros que pendem das prateleiras das farmácias. O que presenciei semana passada não foi um strip-tease de alguns doutorandos, mas a Medicina Brasileira literalmente baixando as calças.


Crato, 20/04/17     

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Um Botão de Manacá




                                              
Um botão de manacá  pende por sobre uma pequena rocha no campo . Ele está grávido como uma promessa, pulsante na sua potência reprimida.  Resigna-se, por um lado,  sentindo-se apenas a perspectiva da florzinha vindoura. Está naquela encruzilhada dúbia e pétrea que a manieta entre a semente e o fruto. As borboletas livres e multicoloridas , adejam entre as rosas e, distantes do impasse existencial do botãozinho, já sonham com as pétalas que eclodirão daqui a um pouquinho ; do perfume que inundará a paisagem; do orvalho que pairará por entre as flores, atraindo os raios solares para o milagre refratário do arco-íris. O botão, as borboletas, os colibris  apenas aguardam o desenlace irremissível e  mágico do milagre. Como os sapos que hibernando sobre a areia esperam o clique da chuva no interruptor do sono e da vigília.
                            Imantados do ciclo natural da vida, do moto-contínuo dos solstícios e equinócios,  percebem, sem ânsia e sem atropelos,  que o botãozinho logo mais eclodirá inundando o mundo com seu aroma e seu colorido. Dias depois, o pólen  será espargido ao mundo pelas borboletas, difundindo o sêmen criador;  logo depois, a florzinha  murchará, as pétalas ressequidas cairão uma por uma na terra , adubando o solo e realimentando o manacá nas futuras frutificações. Há uma mão invisível lançando o bumerangue da vida, entre auroras e crepúsculos, primaveras e verões, entre o grão e o pomo,  o gênesis e o apocalipse.  
                            A rocha, próxima ao broto pendente, a princípio, pode empanturrar-se  de empáfia, arvorando-se ares de eternidade. Afinal está ali fixa , estática e praticamente com a superfície imutável há séculos e séculos. Vestiu-se apenas de algum limo no transcorrer de muitos anos. O botão do manacá , fatalissimamente, na sua mutabilidade, se trajará de cores, se borrifará de perfumes inebriantes para um baile único , fugidio e efêmero.  A rocha, na sua louca presunção, nem sequer percebe que o desaparecimento do botãozinho, após a festa , é apenas momentâneo e que ele voltará , logo depois, multiplicado, trajando muitos outros vestidos e adereços para o sempiterno bailado da existência. É que a vida monta-se na mutabilidade,  no corcel arrisco do efêmero. Viver é continuamente trocar roupas e figurino para o ininterrupto bailado da vida.
                            O Cariri, nesta semana, se viu chocado e entristecido quando uma das flores mais almiscaradas do seu manacá feneceu e caiu por terra. D. Newton havia preenchido de cor e aroma nossa paisagem urbana por muitos e muitos anos. Chegamos a imaginar que , como a rocha do nosso jardim, seria imarcescível.  Esquecemos, por um momento, que a vida carrega consigo , como irmã siamesa, a mutabilidade que se nutre do transitivo e do fugaz. Abatemo-nos ante  a flor despetalada, mas é preciso entender que a árvore continua firme e intacta e que o pólen acabou de ser distribuído copiosamente pelos campos opimos.  Seu exemplo, sua lembrança, seu testemunho humano continuarão brotando nos nossos pés de serra, encantando-nos com suas cores e com sua fragrância.


Crato, 07/04/17

sexta-feira, 31 de março de 2017

Sapato Novo


J. Flávio Vieira


                                               Se há um troço difícil de calçar na vida de um homem é a tal da aposentadoria. São poucas as vezes em que o novo pisante  não se apresenta grande ou pequeno demais no pé do antigo trabalhador : geralmente começa a fazer calo, a criar bolhas, levando muitas vezes à total inadequabilidade. As mulheres , por outro lado, mais facilmente incorporam essa nova fase da vida. Mais afeitas , historicamente, às labutas da casa, voltam a se interessar pelos afazeres do dia a dia, investem sua atenção nos netos e, mais sociáveis do que os marmanjos, participam de atividades lúdicas próprias à terceira idade e, com tempo disponível, mergulham em excursões , viagens, com amigas da mesma geração. Mais espiritualizadas, na sua maioria, voltam-se para atividades religiosas e caritativas. Já os homens, coitados, não têm nenhuma serventia em casa. Quando se metem a ajudar nas atividades do lar, quase sempre é uma tragédia. Brigam com os funcionários, com os filhos e com a patroa. São , rapidamente, enxotados de casa, antes que as secretárias peçam demissão e a mulher o divórcio. Buscam então guarida nas únicas entidades que acolhem outros aposentados e  os suportam : os bares e as rodinhas de praça.
                                   Aqui em Crato, as rodinhas se organizam , naturalmente, por castas sociais. Nada de preconceito, apenas os assuntos de natureza comum apresentam-se bem diferentes. Os mais abastados, se reúnem na calçada da Farmácia Gentil que terminou sendo apelidada de Senado , tanto por conta dos respeitáveis frequentadores, como, talvez, por conta de a própria rua carregar o nome de um Senador : Pompeu. A classe média, em geral, se congrega na  Praça Siqueira Campos, que poderia até ser apelidada de Câmara dos Deputados. Já os velhinhos mais simples montam rodinha na Praça da Sé, que pode ser considerada nossa outra Câmara de Vereadores.  Ali corre sempre uma pauta do dia, com assuntos que se estendem desde a questões políticas municipais, estaduais e nacionais; aos embates desportivos;  até às fofocas, ao disse-que-disse, ao quem-com-quem. Invariavelmente, com olhos untados de um passado longínquo, todos se escandalizam com os rumos que vão tomando os costumes modernos e a conclusão final é única :
 --- No nosso tempo ? Ah! no nosso tempo, sim ! Naquele tempo tinha vergonha, tinha regra ! Não era essa esculhambação, não !  Era muito melhor!
                                   Esta semana , nossa Câmara de Vereadores , na praça da Sé, discutia a aprovação da Terceirização Irrestrita pelo Congresso Nacional. O mesmo assunto se colocado em pauta, no Senado, certamente, teria mais defensores, uma vez que engloba mais figuras do patronato cratense. Ali, no entanto, com a nossa Câmara constituída mais de barnabés aposentados, a grita era geral. Rasgaram a CLT ! -- rosnavam alguns ;  Revogaram a Lei Áurea ! --- completavam, indignados,  outros. Foi quando pediu a palavra o velho Filúvio Candéia. Comedido, voz pausada, Filúvio, já beirando os noventa, fora Caixa no antigo Banco Cariri. Ele, então, soltou uma apreciação que havia escapado à maior parte dos vereadores ali da Praça da Sé.
                                   Segundo Filúvio, a votação da última semana, firmando a Terceirização Irrestrita do Trabalho, tinha sido apenas a culminância de um processo que já se vinha arrastando há muitos e muitos anos.
                               --- Os pais , hoje, geram os filhos e os entregam às babás, à TV, às academias e aos professores para os criarem. Simplesmente porque mergulhados no mercado de trabalho para sobreviver, não têm mais tempo para nada. Terceirizaram a criação dos meninos !  Se vocês repararem direitinho quase mais ninguém faz as refeições em casa, principalmente nas capitais. Terceirizamos a cozinha há muito tempo !  Os supermercados substituíram as feiras livres; a Internet  tomou de conta  do balcão das lojas . Tudo terceirizado ! A juventude fugiu das igrejas e montou seu templo nos Shopping Center, é só vocês observarem bem! Terceirização da religiosidade ! Os matutos trocaram os jumentos e os burros pelas motos! Terceirizaram o transporte !  E na política , nem é bom comentar ! Esse presidente que tá aí? Ganhou eleição ? Teve voto? Foi também terceirizado, meu povo! E nós, também, pobres eleitores do país, colocamos no Congresso uma laia de ladrões e corruptos que envergonha até mesmo os traficantes do morros do Rio de Janeiro ! O que fizemos ? Terceirizamos nossa dignidade e nossa cidadania! E não ficou só nisso não, meus amigos, completou Filúvio para uma plateia atenta e sem resposta. Até no amor, meus amigos, até no amor  ! Semana passada, Beroaldo, um amigo meu que mora na Bréa, aqui no Crato, ao voltar do trabalho, deu com a esposa pelada deitada na cama do casal, com o vizinho. Exasperado, furioso, quis saber o que aquilo significava.

---- O que isso significa, Marilu ? É ponta, é galha, é? Desgraçada !

                        Marilu, com olhos lânguidos , o fez compreender que viviam em novos tempos bem temerosos:

--- Né nada não, Beró ! Fica peixe ! Terceirizei !


Crato, 31/03/2017

sexta-feira, 24 de março de 2017

Coisa de louco !

COISA DE LOUCO !

J. Flávio Vieira


                “O limite extremo da sensatez é o que o público batiza de loucura.”
                                                                                                                                      Jean Cocteau

                               A Fundação Nacional de Saúde foi criada em 1990, depois da nova Constituição Brasileira ser promulgada. Ela unificou as ações  das antigas Fundação SESP e  da SUCAM. As duas instituições tinham uma esplêndida folha corrida  de trabalhos prestados à Saúde Preventiva no Brasil. Brotaram, na primeira década do Século XX, quando, no país, começamos a nos preocupar na prevenção das epidemias que tinham dizimado a população brasileira nos séculos anteriores. A FUNASA, assim, detém a mais contínua e centenária ação na engenharia da saúde pública brasileira. Eles mapearam, criteriosamente, toda  a nação , casa por casa, habitante por habitante, muito antes de chegarem os Programas Saúde da Família. Investiam-se na precípua função de controlar e monitorar , prevenir e tratar,  em todo território pátrio, endemias seculares como: Doença de Chagas, Febre Amarela, peste Bubônica, Esquistossomose, Tracoma, Leishmaniose.
                        Com o advento do Sistema Único de Saúde, a instituição terminou sendo municipalizada, entregue à direção das Secretarias de Saúde,  tantas e tantas vezes despreparadas e descompromissadas  e, aos poucos, fomos jogando na lata do lixo, um trabalho profícuo e centenário, tecido por muitas gerações de profissionais brasileiros.  Permitimos, irresponsavelmente,  com que se perdesse a mais vitoriosa experiência  de promoção e prevenção de saúde de que se tem notícia em nossa história. Agora, com o recrudescimento da Febre Amarela, em vários estados do Sudeste, da Zyca, da Chikugunya, da Dengue, percebemos a tragédia que, intencionalmente, terminamos por plantar.
                                   As novas gerações de profissionais de saúde, na sua maioria, encontram-se umbilicalmente ligados à Terapêutica, a um modelo hospitalocêntrico de Saúde. Ficaram nos livros de história, apenas, a dedicação de um Oswaldo Cruz, de um Carlos Chagas, de um Adolfo Lutz. Simplesmente porque assim são formados. Com a proliferação das Faculdades particulares e os cursos caríssimos, formam-se para tratar quem lhes possa pagar. Às vezes até se submetem, sem preparo maior, a atender em algum PSF, mas apenas enquanto fazem um pé de meia para se super-especializarem. As vocações são impulsionadas pelo mercado, escolhem-se aquelas áreas, que naquele momento mais renda possam retornar e com mais qualidade de vida. Foi-se o tempo dos visionários e dos sacerdotes ! A medicina Preventiva continua a ser o patinho feio da medicina  brasileira e sem nenhuma possibilidade de um dia se descobrir cisne.
                                   Medidas intempestivas como a desarticulação criminosa e abrupta da FUNASA e o consequente impulso no reaparecimento das endemias e epidemias parece que não nos têm trazido maiores lições. Recentemente, alguma coisa parecida aconteceu com a Assistência Psiquiátrica. Submetemos os nossos frenocômios a um processo programado de inanição. A Reforma Psiquiátrica, claro, era uma necessidade premente no país que criara verdadeiros campos de concentração de insanos, com a única e histórica função de os isolar da sociedade e dos familiares.
                                   Aqui em Crato, tivemos o fechamento recente do Hospital Santa Tereza que atendia pacientes de inúmeros estados e cidades circunvizinhas. A Reforma previa  a imperiosa criação de uma rede ambulatorial de atendimento : com Hospital Dia, CAPS e áreas para internamentos de pacientes psiquiátricos, nos seus surtos, em hospitais gerais da região.  Mais uma vez a batata quente foi jogada nas mãos do município. O final não podia ser mais previsível. Os nossos hospitais gerais não têm qualquer capacidade e treinamento para internar pacientes psiquiátricos. Paciente surtou, a família e os vizinhos chamam a polícia que o prende. Uma questão de saúde se transforma, como em séculos passados, num mero problema carcerário. Esta semana o CAPS, aqui em Crato não tinha formulário de medicação especial controlada, e os pacientes perambulavam, de Centro em Centro de Saúde, mendigando uma folhinha de formulário, impossibilitados que estavam até de poder comprar, até do próprio bolso, as medicações sujeitas a Controle pela Vigilância Sanitária. E nem é necessário falar na falta crônica de medicamentos psiquiátricos básicos só conseguidos, muitas vezes, com judicialização. Como sempre, sofre mais a população mais pobre, sem posses, sem medicamentos acessíveis e conhecimento para procurar os meios legais que lhes possam fazer valer seus direitos constitucionais.
                                   Olhando o caos na Assistência Psiquiátrica em que vivemos em muitas cidades do país, com pacientes perambulando no meio da rua, sujeitos ao bulling contínuo da população; com loucos nos surtos sendo trancados em jaulas, no fundo do quintal, em cárceres privados; com os presídios tendo que fazer as vezes de manicômios; observando uma calamidade destas vem-nos sempre a pergunta : quem são os loucos e quem são os normais nesta sociedade que se pretende moderna ?

Crato, 24/03/2017   

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Urano de asas partidas

“ o universo é uma tremenda loira
que vive no infinito
eu faço cócegas no seu pé”
                                                  Geraldo Urano




                                                               Existiram tempos menos poéticos do que os que vivemos agora?  Nos Estados Unidos,  Trump estrompa todas as regras de pacificidade entre os homens. A Síria se tornou um imenso cemitério a céu aberto, onde a dor e o sofrimento tomaram tintas de normalidade. Hordas de migrantes cruzavam oceanos, em precárias embarcações, fugindo de um mundo conflagrado e , quando escapam da morte, se  defrontam com  o rosnar de ódio e ranger de dentes do primeiro mundo. Guerras de fundo religioso estão a demonstrar a ineficácia das religiões universais em estabelecer convivência harmoniosa entre os homens, em fazer da teoria dos seus livros sagrados uma prática humana cotidiana.  O mundo guina perigosamente no sentido do individualismo e do massacre de minorias. O planeta se divide entre aqueles que são ricos ( dizem que por  mérito)  e aqueles que são miseráveis, segundo os afortunados,  por inteira incompetência e merecimento.  No Brasil, um cleptocracia  estuprou  uma democracia ainda nos cueiros. Todos os poderes estão igualmente corrompidos com o intuito único de legalizar , oficializar e monopolizar o achaque  aos parcos recursos públicos. As classes abastadas , com uma sanha que beira à hidrofobia de Pit-Bull, atacam os mínimos e mais primários direitos humanos. Erguem-se, novamente, milhares de pelourinhos em praças públicas, país afora,  para o chicoteio impiedoso de descamisados, homossexuais, mulheres,  inimigos políticos, índios, trabalhadores, estudantes. Conquistas sociais centenárias caem por terra com decretos bizarros votados em conchavos noturnos e sombrios. Revogam-se as Leis Áureas e do Ventre Livre. Os recursos naturais são espoliados, sem nenhum pudor, que se lasquem os nossos filhos e netos!  
                                     Lembrei-me disso, esta semana, quando nos despedimos do maior poeta caririense da minha geração : Geraldo Urano. Sua poética fazia com que se quebrassem todas as barreiras cósmicas, históricas e geográficas. Como se entendesse que por mais distante que todos estivéssemos na viagem, ocupávamos todos o mesmo barco , seja em direção ao éden ou ao precipício. Em meio à moléstia incapacitante e traiçoeira que o acompanhou , como uma amante possessiva, por quase cinquenta anos, continuou na sua arte, como um pássaro que mesmo mortalmente ferido, de asas partidas,  permanecesse cantando. Por que ? Simplesmente porque , num planeta tão opaco , insípido e inodoro  o canto é essencial. Ele se torna a única possibilidade de demonstrar outras perspectivas banhadas de luz e de esperança.
                                   Quem vê de longe, o poeta, em meio ao caos e a estupidez humana, deve-se rir da iniciativa que parecerá pueril. Como uma criança que colocasse o pintinho mortalmente ferido debaixo da cumbuca e batesse em cima, ritmicamente, na certeza de que recobrará as forças e o sentido.  Mas, por incrível que possa parecer, acredito que a possibilidade de salvar o passarinho está mais nas mãos da criancinha do que nas daqueles que empunham o gatilho da espingarda.
                                   Não vejo futuro generoso para uma humanidade contábil, burocrática, atenta unicamente às operações de somar e multiplicar. Os códigos da vida são bem mais amplos do que os códigos de barra, impossível decompor a vida num máximo divisor incomum. Aldous Huxley se interrogava se este mundo não seria apenas o inferno de um outro planeta. O certo é que aqui coabitam também um paraíso e um purgatório. Inferno dos pobres, purgatório dos remediados, paraíso dos abastados.
                                   Os poetas , profeticamente, vislumbram um éden comum a todos. É utopia, sim, mas como subsistir sem ela ? O mundo fica mais triste e chato sem Urano, que deu suas lições e, hoje, está fazendo cócegas no pezinho da loura  universal. E ela gargalha...

Crato, 10/02/17