sexta-feira, 28 de agosto de 2026

O Profeta do Conto, do Canto e do Crato

 

                

                                                                                   J. Flávio Vieira

 

               Nunca amar                                              

                o que  não

                vibra

                nunca crer

                no que

                não canta”  

                     Orides Fontela         

 

                               Como é difícil avaliar as perdas em nossa vida !  Sabemos que ao nascer recebemos a cadernetazinha de Deve-Haver. Vamos , queiramos ou não, fazendo a delicada contabilidade da nossa existência. De início as receitas sobrepujam , em muito, as despesas. Passamos a  capitalizar afetos, amizades, relacionamentos. Bate-nos, às vezes, a sensação de riqueza e prosperidade. Os anos, no entanto, vão se escoando e , paulatinamente, a equação se vai revertendo. As perdas começam a preponderar. Nosso ciclo de amizades começa a estreitar, os dias vão  trazendo consigo sua ferrugem. Nossa geração começa,, aos poucos a ser substituída pelas mais jovens: os valores são outros, os costumes díspares, os sonhos diferentes. Cobre-nos uma certeza de obsolescência. Folheando a cadernetazinha, novamente,  descobrimos que o balanço já não fecha. O passado vai nos ficando cada vez mais vivo, o presente repetitivo e o futuro vislumbra-se mais e  mais incerto. De repente, nossa geração começa a ser arregimentada para uma luta do outro lado do quartel general. E cai-nos a certeza que, daqui um pouquinho, chegará a nossa senha. Quando um dia partirmos,  perceberemos que nada mudará sobre  a face da terra: a primavera eclodirá igualmente florida, as folhas despencarão das árvores com o mesmo ritmo dos outonos passados,  o inverno manterá seu ciclo normal de chuvas e trovoadas. Nossa passagem pela terra terá como a de um fantasma: passamos, partimos, nem uma simples lembrança da nossa trajetória permanecerá: viemos do nada e retornaremos à mesma estação onde tudo se iniciou. Essa certeza é dolorosa de aceitar. Como conviver com uma insignificância tamanha? Depois de tudo,  a cadernetinha será simplesmente incinerada? Alguns se apegam a uma fluida promessa de imortalidade,  vendida a preço de ouro pelas religiões. Outros tentaram driblar o Tempo com cosméticos e plásticas. Tantos construirão pirâmides, como os faraós, e se tornarão múmias,  sonhando com uma reedição da vida. A trituradora dos anos, no entanto, mostrará que o produto final de tudo será sempre o mesmo: o pó.

                        Em meio a essa realidade dura de se engolir, existem, claro, os arremedos. Memorialistas, historiadores, contadores de histórias, como uma Sherazade, postam-se a debulhar seus contos de mil e uma noites, com o intuito de  engabelar o Grão-Vizir do Tempo. Sabem que a missão, que sonha com perenidade,  é paliativa e efêmera, mas lutam contra essa terrível determinação. Passam de geração a geração, como numa corrida de revezamento, o Bastão da Lembrança. Como o Timbira de Gonçalves Dias, gritam:  “Meninos, eu vi” ! E é como se reabrissem outras páginas na cadernetinha  que marcha inexoravelmente  para a incineração.

                        Nesta semana o senhor Tempo tragou um desses empedernidos guerreiros: Huberto Cabral. Carregava consigo toda a história do Povo Cariri e contava por todos os cantos, usando os recursos mágicos da oralidade ( mais teatral, mais gestual, mais direta e solta do que linguagem  escrita).  Resistiu por quase um século às trapaças do destino e vestiu-se dessa missão quase como um profeta bíblico.  Investiu-se das  armas possíveis que teve às mãos: a  língua, a pena,  o Rádio, a TV, a Internet. Como um menino na praia, construiu seus castelos de areia, sabia da preamar, mas contentava-se em imaginar que  muitos olhos os veriam, antes que as ondas se avolumassem.

                        Um dia sabia-se da vitória de Cronos, mas ele deve ter percebido que carregava consigo , no matulão, o amor fervoroso a tudo que vibra e a crença , com inteiro desvelo, em todo aquilo que à sua frente entoava o mais belo canto.