J. Flávio Vieira
“Nunca amar
o que não
vibra
nunca
crer
no
que
não
canta”
Orides Fontela
Como é difícil avaliar as perdas em
nossa vida ! Sabemos que ao nascer
recebemos a cadernetazinha de Deve-Haver. Vamos , queiramos ou não, fazendo a
delicada contabilidade da nossa existência. De início as receitas sobrepujam ,
em muito, as despesas. Passamos a capitalizar afetos, amizades, relacionamentos.
Bate-nos, às vezes, a sensação de riqueza e prosperidade. Os anos, no entanto,
vão se escoando e , paulatinamente, a equação se vai revertendo. As perdas
começam a preponderar. Nosso ciclo de amizades começa a estreitar, os dias vão trazendo consigo sua ferrugem. Nossa geração
começa,, aos poucos a ser substituída pelas mais jovens: os valores são outros,
os costumes díspares, os sonhos diferentes. Cobre-nos uma certeza de obsolescência.
Folheando a cadernetazinha, novamente, descobrimos
que o balanço já não fecha. O passado vai nos ficando cada vez mais vivo, o
presente repetitivo e o futuro vislumbra-se mais e mais incerto. De repente, nossa geração começa
a ser arregimentada para uma luta do outro lado do quartel general. E cai-nos a
certeza que, daqui um pouquinho, chegará a nossa senha. Quando um dia partirmos,
perceberemos que nada mudará sobre a face da terra: a primavera eclodirá
igualmente florida, as folhas despencarão das árvores com o mesmo ritmo dos outonos
passados, o inverno manterá seu ciclo
normal de chuvas e trovoadas. Nossa passagem pela terra terá como a de um
fantasma: passamos, partimos, nem uma simples lembrança da nossa trajetória
permanecerá: viemos do nada e retornaremos à mesma estação onde tudo se
iniciou. Essa certeza é dolorosa de aceitar. Como conviver com uma
insignificância tamanha? Depois de tudo, a cadernetinha será simplesmente incinerada?
Alguns se apegam a uma fluida promessa de imortalidade, vendida a preço de ouro pelas religiões.
Outros tentaram driblar o Tempo com cosméticos e plásticas. Tantos construirão
pirâmides, como os faraós, e se tornarão múmias, sonhando com uma reedição da vida. A
trituradora dos anos, no entanto, mostrará que o produto final de tudo será
sempre o mesmo: o pó.
Em meio a essa realidade
dura de se engolir, existem, claro, os arremedos. Memorialistas, historiadores,
contadores de histórias, como uma Sherazade, postam-se a debulhar seus contos de
mil e uma noites, com o intuito de engabelar
o Grão-Vizir do Tempo. Sabem que a missão, que sonha com perenidade, é paliativa e efêmera, mas lutam contra essa
terrível determinação. Passam de geração a geração, como numa corrida de revezamento,
o Bastão da Lembrança. Como o Timbira de Gonçalves Dias, gritam: “Meninos, eu vi” ! E é como se reabrissem
outras páginas na cadernetinha que
marcha inexoravelmente para a
incineração.
Nesta semana o senhor
Tempo tragou um desses empedernidos guerreiros: Huberto Cabral. Carregava
consigo toda a história do Povo Cariri e contava por todos os cantos, usando os
recursos mágicos da oralidade ( mais teatral, mais gestual, mais direta e solta
do que linguagem escrita). Resistiu por quase um século às trapaças do
destino e vestiu-se dessa missão quase como um profeta bíblico. Investiu-se das armas possíveis que teve às mãos: a língua, a pena, o Rádio, a TV, a Internet. Como um menino na
praia, construiu seus castelos de areia, sabia da preamar, mas contentava-se em
imaginar que muitos olhos os veriam,
antes que as ondas se avolumassem.
Um dia sabia-se da
vitória de Cronos, mas ele deve ter percebido que carregava consigo , no
matulão, o amor fervoroso a tudo que vibra e a crença , com inteiro desvelo, em
todo aquilo que à sua frente entoava o mais belo canto.
