O Crato inaugurou
o primeiro cinema do interior do Ceará em 1911, apenas dezesseis anos após a invenção dos irmãos Lumière. Chegamos a ter oito
salas de cinema na cidade, aí por volta
dos anos 60 do Século passado. Muitas gerações de caririenses tiveram suas
vidas imantadas pela mágica da sétima arte. Todos, de alguma maneira,
terminamos por sonhar a força de
Hércules, a valentia dos cowboys nos
faroestes, a resiliência do Homem da Máscara de Ferro, o amor e a paixão que
saltavam das atrizes e atores deslumbrantes como Ava Gardner, Romy Schneider, Alain
Delon, James Dean. O Cinema carregava consigo aquele poder de, montado no
dinamismo da imagem, dar vida nova aos personagens que, antes, residiam apenas nas páginas dos livros. Toda uma trupe de
jovens se viu enfeitiçado pelo Cinema , levando muitos sulcearenses a se
tornarem não só fãs mas também cineastas. A partir dos anos setenta, no entanto, com a disseminação
da TV país afora e o aparecimento contínuo de novas tecnologias como o
Videocassete, o DVD e, depois, da internet, as Redes Sociais e as plataformas de streaming , as salas começaram, pouco a pouco,
a cerrar as portas, muitas transformadas em igrejas evangélicas ou outras lojas
comerciais. Salas suntuosas de cinema viram-se reduzidas e expulsas para os Shoppings Centers. A indústria
cinematográfica, por sua vez, precisou adaptar-se
aos novos tempos, tateando as novas tendências e os novos anseios da juventude,
centrando suas atenções em novas tecnologias, onde os efeitos especiais
passaram a sobrepujar a beleza dos roteiros. No Crato, a última sala de cinema fechou
há mais de cinquenta anos. O Cariri voltou a ter cinema com a abertura de salas no Cariri Shopping há
30 anos, em 1997.
Pois
bem amigos, nos últimos tempos vínhamos percebendo uma franca deterioração do
Orient Cinema, com diminuição de funcionários, fechamento de banheiros de
acessibilidade, manutenção precária. Há poucos meses, por fim, novamente,
ficamos sem Cinema da região. Muitas lojas ressentiram-se , já que o cinema
movimenta o shopping e impulsiona a venda nas lojas. Os cinéfilos , por sua vez,
precisam se contentar com seus filmes na telinha, sem a magia do escurinho, do
silêncio e da telona que, de alguma maneira, nos transfere diretamente para
dentro da história e nos torna personagens também do enredo.
Como
aconteceu com as livrarias físicas , ao que parece, as salas tradicionais de
cinema estão fadadas ao desaparecimento. Em 2025, perdemos
no Brasil 10% dos espectadores. A comodidade da Netflix, da Prime e
afins parece que, pouco a pouco, vai
engolindo o que restou. Todos os amantes da sétima arte percebem,
perfeitamente, que não é o mesmo filme a
que assistimos na TV e no Cinema. Falta a imersão plena na história e na fotografia,
falta a tranquilidade que o salão nos proporciona sem a ingerência de outros usurpadores:
celulares, visitas, crianças. E falta, principalmente, o escurinho em que escrevíamos outras histórias e outros
enredos, muitas vezes mais interessantes
e mais quentes do que aqueles que desfilavam na tela. No cinema éramos
espectadores e também protagonistas. Era uma vez em Hollywood...
J. Flávio Vieira
Crato, 24/04/26













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