quinta-feira, 29 de outubro de 2026

O Ventre Fértil da Coisa Imunda

 




Todos Vocês, atenção !

Melhor aprenderem a ver, em vez de apenas
Arregalar os olhos, e a agir, em vez de somente falar.
Uma coisa dessas quase chegou a governar o mundo!
Os povos conseguiram dominá-la, mas ainda
É muito cedo para sair cantando vitória:
O ventre que gerou a coisa imunda continua fértil!

 

                                                                              Bertolt Brecht

 

 

                        Um dos maiores mistérios do Século XX era a incógnita de como o Nazismo conseguiu prosperar na Alemanha ,  a partir dos anos 30. Isso com o apoio maciço da população e (pasmem!) com a chancela quase que total da intelectualidade alemã, pátria mãe da Filosofia moderna. Como foi possível tamanha barbárie: uma Guerra Mundial que ceifou mais de 80 milhões de vidas, o Holocausto que chacinou mais de seis milhões de judeus, além de ciganos, homossexuais e deficientes. Oitenta anos depois, vivemos essa realidade em parte do mundo desenvolvido, subdesenvolvido  e aqui nas nossas barbas tupiniquins.

                        Há pouco, seguindo um tsunami alarmante que varre o mundo, a Cadela do Fascismo volta de novo a entrar no cio. Vivemos no Brasil o gosto amargo desse viés fascistóide no governo Bolsonaro (2019-2023), quando mais de 700.000 brasileiros perderam a vida por conta de um irracional negacionismo . Logo depois, uma ameaça de golpe militar, que por pouco não aconteceu pela simples razão de parte das Forças Armadas não terem aderido aos porra-loucas. Junto do futuro projeto ditatorial, além do fechamento do congresso e do STF, vinha a sobremesa canibalesca: o assassinato do presidente Lula, do vice Alckmin e do Ministro Alexandre de Morais.  Nestes dias, o país viveu uma ameaça semelhante, depois de todas as agruras por que passou, correndo o sério risco de ver projetado o mesmo filme de terror, agora sob a égide do filho do Belzebu soluçante.

                                    O Brasil , num despertar súbito e inesperado, tomou as ruas com jovens novamente ativos e atuantes e idosos com fortes lembranças dos tempos de chumbo e, numa guinada linda e inesperada, fez com que valessem novamente o juízo e o equilíbrio. O mal foi afastado da presidência e da nossa convivência após uma fuga de ratazana doida, correndo para os braços do fascista mor: Donald Trump. Poucas vezes os ares do Brasil ficaram tão respiráveis, a esperança voltou a reluzir, metabolizamos o curare que nos vinha sendo injetado, pouco a pouco, nos últimos dez anos.

                                    No  meio da festa, no entanto, paira-nos uma sombra que não se desanuvia. Como quase sessenta milhões de brasileiros saíram de suas casas para votar num projeto declaradamente ditatorial e fascista? Conseguiram ampla maioria no Senado e na Câmara de Deputados. Evangélicos trocaram as bíblias por reluzentes armas de fogo com um novo princípio bíblico: “Armai-vos uns aos Outros” ; segmentos católicos sonharam o mesmo sonho. As propostas de campanha eram claras e inequívocas:  Fazer o Impeachment  de Ministros do STF não alinhados; militarizar as Escolas públicas; cortar verbas da Educação e da Saúde; dar licença livre para torturar e matar às polícias; cortar verbas de aposentadorias; perseguir estudantes e universidades sob a justificativa que são um antro de maconheiros e esquerdistas; cortar verbas para programas sociais de combate à pobreza e à fome; entregar as poucas riquezas minerais que nos restam aos EUA; entregar o país, de bandeja, ao Trump sob a justificativa de combater o terrorismo, disfarçado de Crime Organizado e de Tráfico; combater as campanhas de vacina; transformar o governo num Evangelistão e, principalmente, modificar a Constituição para ampliar o tempo de governo da Extrema Direita no Brasil. A receita fascista não era nada diferente  de Mussolini. Logo viriam a censura; a perseguição; prisão e eliminação de adversários políticos; o desmonte da Cultura e da Ciência; o fechamento de universidades e da Câmara e Senado, se necessário; a queima de livros e, logo a seguir, dos seus autores. O mais preocupante é justamente isso: 60 milhões de brasileiros escolheram esse remédio, sem nenhum pudor.

                        O filhote de Ditador se escafedeu com medo de responder aos processos que mancham sua Folha Corrida que tem cara de fossa séptica. Seus eleitores todos festejaram e defenderam a fuga. De lá de muito longe, sob as asas luciféricas de Trump, ele se autodenominou presidente e falou num fraude de uma eleição comandada por um juiz aliado seu no STF e que proclamou o processo eleitoral como limpo, justo e inquestionável. Quatro milhões de votos  de distância para Lula. Aqui muitos de seus seguidores começaram a perseguir os que optaram pela lucidez: prometem demitir funcionários não alinhados, perseguir empresas que tiveram juízo no pleito e alimentar preconceitos mil: contra gays, nordestinos, pobres, negros...

                        Conseguimos salvar o paciente que estava prestes a ser submetido ao tratamento derradeiro: uma distanásia. O doente cria um novo alento para os próximos dias, mas não devemos esquecer que o ventre que gerou a coisa imunda continua fértil, ninfomaníaco e no cio. Como na pandemia, o mundo e o Brasil continuam severamente  adoecidos.

 

Crato, 29/10/26

 


sexta-feira, 28 de agosto de 2026

O Profeta do Conto, do Canto e do Crato

 

                

                                                                                   J. Flávio Vieira

 

               “Nunca amar                                              

                o que  não

                vibra

                nunca crer

                no que

                não canta”  

                     Orides Fontela         

 

                               Como é difícil avaliar as perdas em nossa vida !  Sabemos que ao nascer recebemos a cadernetazinha de Deve-Haver. Vamos , queiramos ou não, fazendo a delicada contabilidade da nossa existência. De início as receitas sobrepujam , em muito, as despesas. Passamos a  capitalizar afetos, amizades, relacionamentos. Bate-nos, às vezes, a sensação de riqueza e prosperidade. Os anos, no entanto, vão se escoando e , paulatinamente, a equação se vai revertendo. As perdas começam a preponderar. Nosso ciclo de amizades começa a estreitar, os dias vão  trazendo consigo sua ferrugem. Nossa geração começa,, aos poucos a ser substituída pelas mais jovens: os valores são outros, os costumes díspares, os sonhos diferentes. Cobre-nos uma certeza de obsolescência. Folheando a cadernetazinha, novamente,  descobrimos que o balanço já não fecha. O passado vai nos ficando cada vez mais vivo, o presente repetitivo e o futuro vislumbra-se mais e  mais incerto. De repente, nossa geração começa a ser arregimentada para uma luta do outro lado do quartel general. E cai-nos a certeza que, daqui um pouquinho, chegará a nossa senha. Quando um dia partirmos,  perceberemos que nada mudará sobre  a face da terra: a primavera eclodirá igualmente florida, as folhas despencarão das árvores com o mesmo ritmo dos outonos passados,  o inverno manterá seu ciclo normal de chuvas e trovoadas. Nossa passagem pela terra terá como a de um fantasma: passamos, partimos, nem uma simples lembrança da nossa trajetória permanecerá: viemos do nada e retornaremos à mesma estação onde tudo se iniciou. Essa certeza é dolorosa de aceitar. Como conviver com uma insignificância tamanha? Depois de tudo,  a cadernetinha será simplesmente incinerada? Alguns se apegam a uma fluida promessa de imortalidade,  vendida a preço de ouro pelas religiões. Outros tentaram driblar o Tempo com cosméticos e plásticas. Tantos construirão pirâmides, como os faraós, e se tornarão múmias,  sonhando com uma reedição da vida. A trituradora dos anos, no entanto, mostrará que o produto final de tudo será sempre o mesmo: o pó.

                        Em meio a essa realidade dura de se engolir, existem, claro, os arremedos. Memorialistas, historiadores, contadores de histórias, como uma Sherazade, postam-se a debulhar seus contos de mil e uma noites, com o intuito de  engabelar o Grão-Vizir do Tempo. Sabem que a missão, que sonha com perenidade,  é paliativa e efêmera, mas lutam contra essa terrível determinação. Passam de geração a geração, como numa corrida de revezamento, o Bastão da Lembrança. Como o Timbira de Gonçalves Dias, gritam:  “Meninos, eu vi” ! E é como se reabrissem outras páginas na cadernetinha  que marcha inexoravelmente  para a incineração.

                        Nesta semana o senhor Tempo tragou um desses empedernidos guerreiros: Huberto Cabral. Carregava consigo toda a história do Povo Cariri e contava por todos os cantos, usando os recursos mágicos da oralidade ( mais teatral, mais gestual, mais direta e solta do que linguagem  escrita).  Resistiu por quase um século às trapaças do destino e vestiu-se dessa missão quase como um profeta bíblico.  Investiu-se das  armas possíveis que teve às mãos: a  língua, a pena,  o Rádio, a TV, a Internet. Como um menino na praia, construiu seus castelos de areia, sabia da preamar, mas contentava-se em imaginar que  muitos olhos os veriam, antes que as ondas se avolumassem.

                        Um dia sabia-se da vitória de Cronos, mas ele deve ter percebido que carregava consigo , no matulão, o amor fervoroso a tudo que vibra e a crença , com inteiro desvelo, em todo aquilo que à sua frente entoava o mais belo canto.

 

terça-feira, 28 de julho de 2026

Um Bisavô no Armário

 

J. Flávio Vieira

I MUNE ÀS DISCÓRDIAS DO MUNDO LÁ FORA,

S EQUER IMAGINAS ROMPER A CORTINA,

A BRINDO AS JANELAS E AS FRESTAS DA AURORA.

B EBÊS SÃO DUENDES, SÃO CHAMA DIVINA

E TORNAM A VIDA MAIS TENRA, MAIS BELA,

L IMPANDO VEREDAS, VARANDO CANCELAS,

A ZUL, COMO UM ANJO, TE ESPERO, MENINA.

                              

                               Tive lá minhas oito possibilidades. Contemplando as  três gerações que me antecederam,  conheci apenas uma bisavó: Madrinha Dona. Os outros partiram antes da minha chegada e, de novinho, percebi como nossa trajetória neste mundo está fadada ao apagamento, como um risco que se faz na água. Meus outros sete bisavós,  soube deles apenas de relatos vagos e imprecisos: uma história, um retrato, um tic, uma picuinha, meros adereços impossíveis de desenhar a complexidade de uma vida. Sem nunca ter convivido com eles,  foram para mim mais que uma lembrança, uma ausência, um esquecimento neonato. Madrinha Dona, por outro lado, me deixou marcas indeléveis, apesar do pouco tempo que convivi com ela. Era uma matrona bíblica: durona, sistemática, dominadora, começa pelo nome épico: Gerônima, adocicado, pelos familiares,  para Dona. Para mim, no entanto, sempre foi doce e meiga e encheu minha infância de banhos e cangapés num tanque , uma piscina primitiva, que construiu na sua casa no Belmonte. Sempre me recebeu dócil e com um sorriso nos olhos e algumas frutas na bandeja. Nunca me pareceu a coronela, exposta em muitas histórias,  que enfrentou a misoginia e as injustiças do seu tempo com mão de ferro.

                        Pois, surpresa das surpresas, nestes dias,  recebi a notícia que serei bisavô agora em setembro. Thaís, minha primeira neta, esqueceu a taboada e desaprendeu a usar a Tabelinha. A princípio fiquei meio fora de prumo, como um bêbado que saltasse da gangorra. É que para avô ainda existem algumas possibilidades de redenção, mas para bisavô ? Vejo sempre a velha da foiçona por perto caçoando de mim: -- Bicho, me passei, já era pra ter te colocado na Barca de Caronte ! Bom, mas continuando esquecido até lá, terei a felicidade de contemplar a terceira geração que salta de mim e beberei do primeiro sorriso de Isabela, quando setembro vier !  Finalmente uma Virgem na família atapetada de sagitarianos, Aquário e Piscianos, Taurinos, Arianos, Escorpiões, Cancerianos...

                        Isabela viverá um outro tempo, onde as distâncias entre as pessoas já não se medem pela Escala Decimal, mas  Digital. As verdades são fluidas  e a realidade cada vez mais discutível e impalpável. O que vejo, o que toco, o que ouço são meros influxos de um mundo paralelo que não se sabe bem onde fica e a quem pertence. Já não se têm desejos, aspirações e vontades apenas  algoritmos. Isabela terá um mundo melhor do que os dos seus avós ,  pais  e o de D. Gerônima ? Tudo dependerá , certamente, da geração de Isabela: como usarão os instrumentos que lhes foram postos às mãos.

                         Sou um bisavô otimista, ainda no armário, mas breve assumirei minha carga de velho gagá e curuca. Que jeito ?  Sei que Isabela abrirá as janelas de um universo profundamente tecnológico e mecanicista. Mas torço , do alto da minha caduquice, que  seja feliz e consiga enxergar o mundo para além das luzes da ribalta. Que seja  realizada e consiga encontrar a alegria de viver não na prateleira dos shoppings, nem nos anúncios de Redes Sociais e busque as respostas, para os grandes mistérios da vida,  bem além das Plataformas de I.A. . Que se encante com os crepúsculos e alvoreceres, que recarregue suas baterias nos luares e albores. Que seja plena,  descobrindo  a felicidade como um bem coletivo e nunca uma sesmaria particular. A plenitude está sempre nos corações e não nas prateleiras. O segredo está no toque e não na tecla. Sonhe os sonhos que não tivemos a coragem de sonhar. Banhe-se nos rios e praias que o afáfama nos fez perder. Enfrente os desafios que evitamos, sem entender que o fracasso é um dos degraus da vitória. Lamba o pequi da existência com sofreguidão, mas lembre que para lá da polpa há uma teia de espinhos.   Isa,  que a Vida te seja Bela !

 

Crato, 28/07/2026     

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Era uma vez em Hollywood...

 


 

                               O Crato inaugurou o primeiro cinema do interior do Ceará em 1911, apenas dezesseis anos após a  invenção dos irmãos Lumière. Chegamos a ter oito salas  de cinema na cidade, aí por volta dos anos 60 do Século passado. Muitas gerações de caririenses tiveram suas vidas imantadas pela mágica da sétima arte. Todos, de alguma maneira, terminamos por sonhar  a força de Hércules,  a valentia dos cowboys nos faroestes, a resiliência do Homem da Máscara de Ferro, o amor e a paixão que saltavam das atrizes e atores deslumbrantes como Ava Gardner, Romy Schneider, Alain Delon, James Dean. O Cinema carregava consigo aquele poder de, montado no dinamismo da imagem, dar vida nova aos personagens que, antes, residiam apenas  nas páginas dos livros. Toda uma trupe de jovens se viu enfeitiçado pelo Cinema , levando muitos sulcearenses a se tornarem não só fãs mas também cineastas.  A partir dos anos setenta, no entanto, com a disseminação da TV país afora e o aparecimento contínuo de novas tecnologias como o Videocassete, o DVD e, depois, da internet, as Redes Sociais  e as plataformas de  streaming , as salas começaram, pouco a pouco, a cerrar as portas, muitas transformadas em igrejas evangélicas ou outras lojas comerciais. Salas suntuosas de cinema viram-se reduzidas  e expulsas para os Shoppings Centers. A indústria cinematográfica,  por sua vez, precisou adaptar-se aos novos tempos, tateando as novas tendências e os novos anseios da juventude, centrando suas atenções em novas tecnologias, onde os efeitos especiais passaram a sobrepujar a beleza dos roteiros. No Crato, a última sala de cinema fechou há mais de cinquenta anos. O Cariri voltou a ter cinema  com a abertura de salas no Cariri Shopping há 30 anos, em 1997.

                               Pois bem amigos, nos últimos tempos vínhamos percebendo uma franca deterioração do Orient Cinema, com diminuição de funcionários, fechamento de banheiros de acessibilidade, manutenção precária. Há poucos meses, por fim, novamente, ficamos sem Cinema da região. Muitas lojas ressentiram-se , já que o cinema movimenta o shopping e impulsiona a venda  nas lojas. Os cinéfilos , por sua vez, precisam se contentar com seus filmes na telinha, sem a magia do escurinho, do silêncio e da telona que, de alguma maneira, nos transfere diretamente para dentro da história e nos torna personagens também do enredo.

                               Como aconteceu com as livrarias físicas , ao que parece, as salas tradicionais de cinema estão fadadas ao desaparecimento. Em 2025,  perdemos  no Brasil 10% dos espectadores. A comodidade da Netflix, da Prime e afins parece que, pouco a pouco,  vai engolindo o que restou. Todos os amantes da sétima arte percebem, perfeitamente, que  não é o mesmo filme a que assistimos na TV e no Cinema. Falta a imersão plena na história e na fotografia, falta a tranquilidade que o salão nos proporciona sem a ingerência de outros usurpadores: celulares, visitas, crianças. E falta, principalmente, o escurinho  em que escrevíamos outras histórias e outros enredos,  muitas vezes mais interessantes e mais quentes do que aqueles que desfilavam na tela. No cinema éramos espectadores e também protagonistas. Era uma vez em Hollywood...

J. Flávio Vieira

Crato, 24/04/26  

sábado, 18 de abril de 2026

Zenon, Dr. Jekyll e Mister Hyde

 


                               Veio-me, ontem, a lembrança de um texto do escritor português oitocentista ,Antônio Feliciano de Castilho,  sobre o pintor grego Zenon. Li-o ainda nos meus tempos de ginásio. Naqueles idos, pasmem vocês ainda se liam livros e -- loucura das loucuras -- clássicos. A narrativa de Castilho, num estilo rebuscado e límpido, descreve a apreciação do mestre Zenon sobre um quadro que retratava Helena de Tróia, encomendado a um de seus discípulos, como parte de treinamento da sua arte. Zenon fizera uma única recomendação: pinte uma mulher bela e deslumbrante, como se espera tenha sido a esposa de Menelau. O discípulo caprichou na tarefa de casa, debuchou uma moça altaneira, deixando antever lances de sua nudez, reclinada à beira de um rio, coberta de joias e pedras preciosas. Depois de examinar atentamente a obra do discípulo  Zenon, com seu olhar minucioso e crítico concluiu com uma frase lapidar: “Pois que a não soubeste fazer formosa, fizeste-a rica”.

                               Retornou-me esta história,  tantos anos depois de lida, ainda nos bancos escolares, percebendo a atualidade das suas lições nos tempos atuais. Talvez uma das grandezas de uma obra literária esteja hobernada justamente nesta faceta de ser atemporal. De tempos em tempos, como um cometa, ilumina , novamente, os céus que , aparentemente, se sentiam modernos, ostentando uma nova paisagem. Zenon continua vivo nos tempos de hoje. Basta ver os shows que lotam estádios imensos, apinhados de fãs, com bandas de forró isoporizadas e de Sertanojos esgoelados, tocando e cantando músicas de péssima qualidade, certificando-nos como a imbecilidade tem tantos seguidores. Utilizam palcos enormes, amplos, com som de qualidade inimaginável e efeitos pirotécnicos dignos de Hollywood. Não existindo essência, compensam tudo na roupagem. Zenon perceberia que sua crítica estética, de mais de vinte séculos, seria perfeitamente aplicável nos dias de hoje. A embalagem, mais que nunca, passou a ser muito mais importante que o presente. Vivemos, desfrutamos e amamos a superfície. É como se degustássemos apenas a casca da frutinha, sem arriscar morder a polpa, temendo os espinhos ou o travo do caju . Julgamos as pessoas e as coisas pelo revestimento que se nos apresentam. Como se nada existisse por baixo do paletó, da gravata, da maquiagem e das incontáveis máscaras que cada um de nós precisa usar nos bailes carvalalescos do nosso cotidiano. Maus, bons, feios, bonitos, charmosos ou bregas, burros ou inteligentes , ricos ou pobres... tudo pode ser perfeitamente resolvido com uma nova demão de tinta, já que ninguém rasgará o invólucro para saber o que existe por baixo do papel brilhante do embrulho.

                               Nesses tempos epipelágicos, de superfície criamos, ostensivamente, uma dualidade clara nas nossas vidas. Cada um de nós vive em dois mundos paralelos. Existimos num mundo real que se restringe a nossa família e a um punhado de amigos e colegas de trabalho. Esta aresta da nossa existência é a mais opaca e a menos glamourosa. Ali trabalhamos, suamos, temos boletos a pagar a cada final de mês. Ali, também, erguemos nossas barricadas e engatilhamos os fuzis para as batalhas, emboscadas e traições da nossa jornada. Do outro lado, temos nosso mundo virtual, um planeta colorido, alegre de perfeito, onde expomos nossos sonhos conquistados ou almejados  e pretensas realizações. Nesta Nárnia, temos milhares de amigos, desfrutamos as melhores comidas, os mais estonteantes viagens,  somos sempre jovens, bonitos e deslumbrantes às custas de fotoshops e filtros,  e ricos e bem sucedidos (basta escolher os melhores ângulos dos carros importados das ruas, das mansões de milionários  e dos iates ancorados nos cais). Divididos entre dois universos tão díspares, vamos perdendo a certeza do que somos:  Dr. Jekyll ou Mister Hyde?  Como fazer com que os dois personagens coabitem sem conflitos? Como caber no mesmo sono, o sonho e a realidade ?

                               Zenon, do alto dos mais de vinte séculos que nos contemplam, deve rosnar de lá sua crítica : “Pois que não soubestes fazer a vida feliz , pintaste-a de rica e glamourosa”.

 

J Flávio Vieira

18/04/26

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Os Museus estão abertos ! -- Passado e Futuro voltam a se tocar !

 



                Nesses últimos dias de abril, tivemos,  aqui em Crato, a reinauguração dos Museus Histórico J. de Figueiredo Filho e o de Artes Plásticas Vicente Leite. Estavam de portas fechadas há mais de quinze anos. Toda essa derrocada angustiou não só os cratenses mais fervorosos, mas aqueles pioneiros e precursores a quem devemos a existência Desses equipamentos: os prefeitos Humberto Macário e Miguel Soares; o Secretário de Cultura João Teófilo Pierre; os Mecenas Bruno Pedrosa, J. de Figueiredo Filho  e Sinhá D´Amora; os primeiros diretores: Carlos Borromeu e Edilson Rocha.                 

                 


Um  intervalo de inatividade tão longo nos remete, imediatamente,  a algumas questões incômodas que atravessaram  ao menos quatro gestões municipais. Existiam, claro, problemas de natureza técnica que dificultavam a reforma, entre eles , o prédio de Câmara e Cadeia que abriga o Museu, uma edificação histórica, do Século XIX,  tombada pelo estado e pois necessitando de reforma especial. Mas , possivelmente, a pendência empacava mais na importância que os seguidos gestores davam à obra, nunca colocada como prioridade. Basta ver o processo de deterioração dos museus, ao longo do tempo, mesmo quando estavam em pleno funcionamento, num período que se estendeu aí por volta de uns trinta e cinco anos. Alguns , imagino, visualizavam-nos como um grande  problema da gestão, um depósito de coisas velhas e inúteis , sem utilidade e um ônus financeiro para o município.  Talvez tivessem aquela perspectiva de coisas mortas e imprestáveis , acumuladas numa casa velha, fugindo da visão do empreendedorismo que tanto fascina as novas gerações.

 

                Imagino que muitos devem ter ficado surpresos com a alegria que invadiu a cidade na festa da reinauguração. A felicidade inundou, como um rio caudaloso,  a Vila de Frei Carlos. Cratenses ilustres vieram especificamente para a solenidade como o jornalista Francisco José de Brito, o escritor Ronaldo Correia de Brito, a estilista Celinha Cariri, o ex-diretor do Museu Rick Seabra, o escritor Cláudio Aguiar e a esposa D. Célia, a restauradora Edilma Rocha, o jornalista diretor do jornal “O Povo”, Cliff Vilar. Além do neto do pintor Vicente Elite que veio diretamente do Rio de Janeiro, com a esposa,  para emocionar-se junto conosco.


 Além de tudo,  juntou-se ao regozijo uma chusma de felicitações de cratenses que acompanharam tudo à distância: o jornalista Flamínio Araripe, o poeta Everardo Norões, o músico e compositor Tiago Araripe, o escritor Heitor Brito, isso para citar apenas alguns. As Redes Sociais se entupiram de comentários efusivos sobre a reabertura, com promessas de novas doações.  Os museus ficaram literalmente congestionados com as visitações, já com agenda preenchida até julho, praticamente todas as escolas do Crato já se inscreveram para aulas de campo com seus alunos. Os professores sabem que desenhar o futuro passa, naturalmente, por usar algumas tintas, telas  e nuances do passado.

               


Nós que duramente criticamos, por muito tempo, a apatia em resolver a morte a prazo dos nossos museus, devemos ter a altivez de parabenizar e agradecer àqueles que tiveram a sensibilidade e força de resolver a angustiante espera, no nome do prefeito André Barreto; do vice, Dr. Leitão e da Secretária Fabiana, com o incansável grupo da SECULT/Crato. Lembrar, ainda, o nome do fotógrafo Tiago Santana que se desdobrou em  conseguir uma Construtora com expertise para a obra. Louve-se ainda o trabalho de expografia desenvolvido por artistas caririenses como Dodora Guimarães, Edelson Diniz, Adriana Botelho,  com assessoria imprescindível de  professores da URCA e UFCA e do arquiteto Valdemar Farias. Todos trabalharam com um desvelo único, como se arrumassem a casa que a eles mesmo pertencia. A Curadoria da Exposição de abertura: “ Pontos de Encontro – Identidade e Memória” fez com que se reunissem artistas consagrados brasileiros do rico acervo do Vicente Leite, com os novos talentos da Arte caririense, demonstrando que o Museu não aponta apenas para o passado mas mira também o presente e o futuro.

               


O já encetado projeto de revitalização do Centro Cultural do Araripe criará uma Galeria para exposições temporárias que deve funcionar como uma extensão do Vicente Leite por conta do seu espaço já exíguo para a Exposição permanente. Importante, também, que se instale a Comissão de Curadoria , já regulamentada em lei. Ela fará uma importante interface com o poder público. Os Museus são entidades permanentes,  mas os poderes municipais são fluidos, mudam a cada quatro anos,  e sofrem sempre com o grau maior ou menor de sensibilidade dos seus gestores. Imprescindível que se crie, também,  um Grupo de Amigos dos Museus do Crato - GRAMUC  que pode ajudar financeiramente na manutenção, indicar caminhos na administração, vigiar o acervo  e buscar parcerias e doadores alhures. A luta  será sempre por fazer dos Museus órgãos vivos, não apenas entidades expositoras, mas também formadoras, envolvendo palestras, oficinas, cursos de arte e de história, apresentações e performances teatrais, etc. Usar o passado como uma plataforma de lançamento para tempos futuros.       

               


A surpresa de tamanha repercussão com a reabertura dos museus, invadindo a cidade numa incontida onda de alegria e felicidade,  deve se remeter diretamente à vocação natural do Crato que um dia já foi chamada Terra da Cultura. Aqui tivemos o primeiro cinema , o primeiro jornal , o primeiro curso secundário e a primeira Universidade do interior do Ceará. Aqui gritamos os primeiros arrulhos da Independência e República do Brasil, nas vozes de Tristão e D. Bárbara. Cultura ? Você acha aqui: Só no Crato mesmo é que tem ! Duvida ? Visite os museus, meu bichim !

Crato,  13/04/26

quinta-feira, 19 de março de 2026

Museus Vicente Leite e J. de Figueiredo Filho abrirão suas portas ! ICC faz parte desta vitória.

 


O ICC demonstra sua intensa alegria com a notícia da reinauguração dos Museus Vicente Leite e J. de Figueiredo Filho  prevista para o dia 27 de março próximo. Queremos parabenizar a administração municipal , no nome do prefeito André Barreto e à Secretária de Cultura Fabiana Vieira pela conquista, um sonho que hibernou por mais de quinze anos. Realizamo-nos, ainda, por saber que fizemos parte dessa luta, com o Movimento Toré e a mobilização de toda a sociedade cratense nesse intento. Agradecemos a todos do ICC que se empenharam tanto para que tivéssemos nossos museus, novamente, abertos à população.