Nesses
últimos dias de abril, tivemos, aqui em
Crato, a reinauguração dos Museus Histórico J. de Figueiredo Filho e o de Artes
Plásticas Vicente Leite. Estavam de portas fechadas há mais de quinze anos.
Toda essa derrocada angustiou não só os cratenses mais fervorosos, mas aqueles
pioneiros e precursores a quem devemos a existência Desses equipamentos: os
prefeitos Humberto Macário e Miguel Soares; o Secretário de Cultura João
Teófilo Pierre; os Mecenas Bruno Pedrosa, J. de Figueiredo Filho e Sinhá D´Amora; os primeiros diretores:
Carlos Borromeu e Edilson Rocha.
Um intervalo de inatividade tão longo nos remete, imediatamente, a algumas questões incômodas que atravessaram ao menos quatro gestões municipais. Existiam, claro, problemas de natureza técnica que dificultavam a reforma, entre eles , o prédio de Câmara e Cadeia que abriga o Museu, uma edificação histórica, do Século XIX, tombada pelo estado e pois necessitando de reforma especial. Mas , possivelmente, a pendência empacava mais na importância que os seguidos gestores davam à obra, nunca colocada como prioridade. Basta ver o processo de deterioração dos museus, ao longo do tempo, mesmo quando estavam em pleno funcionamento, num período que se estendeu aí por volta de uns trinta e cinco anos. Alguns , imagino, visualizavam-nos como um grande problema da gestão, um depósito de coisas velhas e inúteis , sem utilidade e um ônus financeiro para o município. Talvez tivessem aquela perspectiva de coisas mortas e imprestáveis , acumuladas numa casa velha, fugindo da visão do empreendedorismo que tanto fascina as novas gerações.
Imagino que muitos devem ter ficado surpresos com a alegria que invadiu a cidade na festa da reinauguração. A felicidade inundou, como um rio caudaloso, a Vila de Frei Carlos. Cratenses ilustres vieram especificamente para a solenidade como o jornalista Francisco José de Brito, o escritor Ronaldo Correia de Brito, a estilista Celinha Cariri, o ex-diretor do Museu Rick Seabra, o escritor Cláudio Aguiar e a esposa D. Célia, a restauradora Edilma Rocha, o jornalista diretor do jornal “O Povo”, Cliff Vilar. Além do neto do pintor Vicente Elite que veio diretamente do Rio de Janeiro, com a esposa, para emocionar-se junto conosco.
Além de tudo, juntou-se ao regozijo uma chusma de felicitações de cratenses que acompanharam tudo à distância: o jornalista Flamínio Araripe, o poeta Everardo Norões, o músico e compositor Tiago Araripe, o escritor Heitor Brito, isso para citar apenas alguns. As Redes Sociais se entupiram de comentários efusivos sobre a reabertura, com promessas de novas doações. Os museus ficaram literalmente congestionados com as visitações, já com agenda preenchida até julho, praticamente todas as escolas do Crato já se inscreveram para aulas de campo com seus alunos. Os professores sabem que desenhar o futuro passa, naturalmente, por usar algumas tintas, telas e nuances do passado.
Nós que duramente criticamos, por muito tempo, a apatia em resolver a morte a prazo dos nossos museus, devemos ter a altivez de parabenizar e agradecer àqueles que tiveram a sensibilidade e força de resolver a angustiante espera, no nome do prefeito André Barreto; do vice, Dr. Leitão e da Secretária Fabiana, com o incansável grupo da SECULT/Crato. Lembrar, ainda, o nome do fotógrafo Tiago Santana que se desdobrou em conseguir uma Construtora com expertise para a obra. Louve-se ainda o trabalho de expografia desenvolvido por artistas caririenses como Dodora Guimarães, Edelson Diniz, Adriana Botelho, com assessoria imprescindível de professores da URCA e UFCA e do arquiteto Valdemar Farias. Todos trabalharam com um desvelo único, como se arrumassem a casa que a eles mesmo pertencia. A Curadoria da Exposição de abertura: “ Pontos de Encontro – Identidade e Memória” fez com que se reunissem artistas consagrados brasileiros do rico acervo do Vicente Leite, com os novos talentos da Arte caririense, demonstrando que o Museu não aponta apenas para o passado mas mira também o presente e o futuro.
O já encetado projeto de revitalização do Centro Cultural do Araripe criará uma Galeria para exposições temporárias que deve funcionar como uma extensão do Vicente Leite por conta do seu espaço já exíguo para a Exposição permanente. Importante, também, que se instale a Comissão de Curadoria , já regulamentada em lei. Ela fará uma importante interface com o poder público. Os Museus são entidades permanentes, mas os poderes municipais são fluidos, mudam a cada quatro anos, e sofrem sempre com o grau maior ou menor de sensibilidade dos seus gestores. Imprescindível que se crie, também, um Grupo de Amigos dos Museus do Crato - GRAMUC que pode ajudar financeiramente na manutenção, indicar caminhos na administração, vigiar o acervo e buscar parcerias e doadores alhures. A luta será sempre por fazer dos Museus órgãos vivos, não apenas entidades expositoras, mas também formadoras, envolvendo palestras, oficinas, cursos de arte e de história, apresentações e performances teatrais, etc. Usar o passado como uma plataforma de lançamento para tempos futuros.
A surpresa de tamanha repercussão com a reabertura dos museus, invadindo a cidade numa incontida onda de alegria e felicidade, deve se remeter diretamente à vocação natural do Crato que um dia já foi chamada Terra da Cultura. Aqui tivemos o primeiro cinema , o primeiro jornal , o primeiro curso secundário e a primeira Universidade do interior do Ceará. Aqui gritamos os primeiros arrulhos da Independência e República do Brasil, nas vozes de Tristão e D. Bárbara. Cultura ? Você acha aqui: Só no Crato mesmo é que tem ! Duvida ? Visite os museus, meu bichim !
Crato, 13/04/26











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