J. Flávio Vieira
I MUNE ÀS DISCÓRDIAS DO MUNDO LÁ FORA,
S EQUER IMAGINAS ROMPER A CORTINA,
A BRINDO AS JANELAS E AS FRESTAS DA AURORA.
B EBÊS SÃO DUENDES, SÃO CHAMA DIVINA
E TORNAM A VIDA MAIS TENRA, MAIS BELA,
L IMPANDO VEREDAS, VARANDO CANCELAS,
A ZUL, COMO UM ANJO, TE ESPERO, MENINA.
Tive lá minhas oito possibilidades. Contemplando
as três gerações que me antecederam, conheci apenas uma bisavó: Madrinha Dona. Os
outros partiram antes da minha chegada e, de novinho, percebi como nossa
trajetória neste mundo está fadada ao apagamento, como um risco que se faz na
água. Meus outros sete bisavós, soube
deles apenas de relatos vagos e imprecisos: uma história, um retrato, um tic,
uma picuinha, meros adereços impossíveis de desenhar a complexidade de uma
vida. Sem nunca ter convivido com eles, foram para mim mais que uma lembrança, uma
ausência, um esquecimento neonato. Madrinha Dona, por outro lado, me deixou
marcas indeléveis, apesar do pouco tempo que convivi com ela. Era uma matrona
bíblica: durona, sistemática, dominadora, começa pelo nome épico: Gerônima,
adocicado, pelos familiares, para Dona.
Para mim, no entanto, sempre foi doce e meiga e encheu minha infância de banhos
e cangapés num tanque , uma piscina primitiva, que construiu na sua casa no
Belmonte. Sempre me recebeu dócil e com um sorriso nos olhos e algumas frutas
na bandeja. Nunca me pareceu a coronela, exposta em muitas histórias, que enfrentou a misoginia e as injustiças do
seu tempo com mão de ferro.
Pois,
surpresa das surpresas, nestes dias, recebi a notícia que serei bisavô agora em
setembro. Thaís, minha primeira neta, esqueceu a taboada e desaprendeu a usar a
Tabelinha. A princípio fiquei meio fora de prumo, como um bêbado que saltasse
da gangorra. É que para avô ainda existem algumas possibilidades de redenção,
mas para bisavô ? Vejo sempre a velha da foiçona por perto caçoando de mim: -- Bicho,
me passei, já era pra ter te colocado na Barca de Caronte ! Bom, mas continuando
esquecido até lá, terei a felicidade de contemplar a terceira geração que salta
de mim e beberei do primeiro sorriso de Isabela, quando setembro vier ! Finalmente uma Virgem na família atapetada de
sagitarianos, Aquário e Piscianos, Taurinos, Arianos, Escorpiões, Cancerianos...
Isabela
viverá um outro tempo, onde as distâncias entre as pessoas já não se medem pela
Escala Decimal, mas Digital. As verdades
são fluidas e a realidade cada vez mais
discutível e impalpável. O que vejo, o que toco, o que ouço são meros influxos
de um mundo paralelo que não se sabe bem onde fica e a quem pertence. Já não se
têm desejos, aspirações e vontades apenas algoritmos. Isabela terá um mundo melhor do
que os dos seus avós , pais e o de D. Gerônima ? Tudo dependerá ,
certamente, da geração de Isabela: como usarão os instrumentos que lhes foram
postos às mãos.
Sou um bisavô otimista, ainda no armário, mas
breve assumirei minha carga de velho gagá e curuca. Que jeito ? Sei que Isabela abrirá as janelas de um
universo profundamente tecnológico e mecanicista. Mas torço , do alto da minha
caduquice, que seja feliz e consiga enxergar
o mundo para além das luzes da ribalta. Que seja realizada e consiga encontrar a alegria de
viver não na prateleira dos shoppings, nem nos anúncios de Redes Sociais e busque
as respostas, para os grandes mistérios da vida, bem além das Plataformas de I.A. . Que se
encante com os crepúsculos e alvoreceres, que recarregue suas baterias nos luares
e albores. Que seja plena, descobrindo a felicidade como um bem coletivo e nunca uma sesmaria
particular. A plenitude está sempre nos corações e não nas prateleiras. O
segredo está no toque e não na tecla. Sonhe os sonhos que não tivemos a coragem
de sonhar. Banhe-se nos rios e praias que o afáfama nos fez perder. Enfrente os
desafios que evitamos, sem entender que o fracasso é um dos degraus da vitória.
Lamba o pequi da existência com sofreguidão, mas lembre que para lá da polpa há
uma teia de espinhos. Isa, que
a Vida te seja Bela !
Crato,
28/07/2026