terça-feira, 28 de julho de 2026

Um Bisavô no Armário

 

J. Flávio Vieira

I MUNE ÀS DISCÓRDIAS DO MUNDO LÁ FORA,

S EQUER IMAGINAS ROMPER A CORTINA,

A BRINDO AS JANELAS E AS FRESTAS DA AURORA.

B EBÊS SÃO DUENDES, SÃO CHAMA DIVINA

E TORNAM A VIDA MAIS TENRA, MAIS BELA,

L IMPANDO VEREDAS, VARANDO CANCELAS,

A ZUL, COMO UM ANJO, TE ESPERO, MENINA.

                              

                               Tive lá minhas oito possibilidades. Contemplando as  três gerações que me antecederam,  conheci apenas uma bisavó: Madrinha Dona. Os outros partiram antes da minha chegada e, de novinho, percebi como nossa trajetória neste mundo está fadada ao apagamento, como um risco que se faz na água. Meus outros sete bisavós,  soube deles apenas de relatos vagos e imprecisos: uma história, um retrato, um tic, uma picuinha, meros adereços impossíveis de desenhar a complexidade de uma vida. Sem nunca ter convivido com eles,  foram para mim mais que uma lembrança, uma ausência, um esquecimento neonato. Madrinha Dona, por outro lado, me deixou marcas indeléveis, apesar do pouco tempo que convivi com ela. Era uma matrona bíblica: durona, sistemática, dominadora, começa pelo nome épico: Gerônima, adocicado, pelos familiares,  para Dona. Para mim, no entanto, sempre foi doce e meiga e encheu minha infância de banhos e cangapés num tanque , uma piscina primitiva, que construiu na sua casa no Belmonte. Sempre me recebeu dócil e com um sorriso nos olhos e algumas frutas na bandeja. Nunca me pareceu a coronela, exposta em muitas histórias,  que enfrentou a misoginia e as injustiças do seu tempo com mão de ferro.

                        Pois, surpresa das surpresas, nestes dias,  recebi a notícia que serei bisavô agora em setembro. Thaís, minha primeira neta, esqueceu a taboada e desaprendeu a usar a Tabelinha. A princípio fiquei meio fora de prumo, como um bêbado que saltasse da gangorra. É que para avô ainda existem algumas possibilidades de redenção, mas para bisavô ? Vejo sempre a velha da foiçona por perto caçoando de mim: -- Bicho, me passei, já era pra ter te colocado na Barca de Caronte ! Bom, mas continuando esquecido até lá, terei a felicidade de contemplar a terceira geração que salta de mim e beberei do primeiro sorriso de Isabela, quando setembro vier !  Finalmente uma Virgem na família atapetada de sagitarianos, Aquário e Piscianos, Taurinos, Arianos, Escorpiões, Cancerianos...

                        Isabela viverá um outro tempo, onde as distâncias entre as pessoas já não se medem pela Escala Decimal, mas  Digital. As verdades são fluidas  e a realidade cada vez mais discutível e impalpável. O que vejo, o que toco, o que ouço são meros influxos de um mundo paralelo que não se sabe bem onde fica e a quem pertence. Já não se têm desejos, aspirações e vontades apenas  algoritmos. Isabela terá um mundo melhor do que os dos seus avós ,  pais  e o de D. Gerônima ? Tudo dependerá , certamente, da geração de Isabela: como usarão os instrumentos que lhes foram postos às mãos.

                         Sou um bisavô otimista, ainda no armário, mas breve assumirei minha carga de velho gagá e curuca. Que jeito ?  Sei que Isabela abrirá as janelas de um universo profundamente tecnológico e mecanicista. Mas torço , do alto da minha caduquice, que  seja feliz e consiga enxergar o mundo para além das luzes da ribalta. Que seja  realizada e consiga encontrar a alegria de viver não na prateleira dos shoppings, nem nos anúncios de Redes Sociais e busque as respostas, para os grandes mistérios da vida,  bem além das Plataformas de I.A. . Que se encante com os crepúsculos e alvoreceres, que recarregue suas baterias nos luares e albores. Que seja plena,  descobrindo  a felicidade como um bem coletivo e nunca uma sesmaria particular. A plenitude está sempre nos corações e não nas prateleiras. O segredo está no toque e não na tecla. Sonhe os sonhos que não tivemos a coragem de sonhar. Banhe-se nos rios e praias que o afáfama nos fez perder. Enfrente os desafios que evitamos, sem entender que o fracasso é um dos degraus da vitória. Lamba o pequi da existência com sofreguidão, mas lembre que para lá da polpa há uma teia de espinhos.   Isa,  que a Vida te seja Bela !

 

Crato, 28/07/2026