sexta-feira, 27 de abril de 2018

O Capeta da Redação


J. Flávio Vieira

                                               Tenho uma preferência particular no cômputo das maiores invenções da humanidade. Ao longo dos anos, pessoas geniais e inventivas foram desenvolvendo técnicas e instrumentos que terminariam por modificar, significativamente, o curso da história e o cotidiano dos seres neste planeta.  Ottmar Mergenthaler (1854-1899), nascido na Alemanha,  é um dos meus escolhidos. Ele terminou por fixar-se no Estados Unidos e deixou esse mundo, prematuramente, aos 45 anos, ceifado pela doença icônica dos Novecentos: a Tuberculose.  Ottmar criou a máquina de Linotipo e transformou, crucialmente, os rumos da impressão gráfica pelo mundo.
                                   Talvez, hoje, embebidos todos pela revolução digital-cibernética, esta conquista pareça menor e desprezível. Desde a invenção da imprensa ocidental por Gutemberg, no Século XV , os textos para impressão eram construídos por módulos móveis. Letra por letra, montava-se um grande carimbo que, untado de tinta, levava ao papel os caracteres gráficos que se desejavam fixar. As gráficas, assim, possuíam enormes gavetas onde eram colocados os “Tipos” em incontáveis formatos e tamanhos, separados pela espécie de letra. Cabia ao gráfico escolher tipo por tipo e ir, aos poucos, compondo o grande carimbo para, depois, levar para as máquinas de impressão. Daí surgiu o nome “Tipografia”. Quando governos sentiam-se perseguidos ou denunciados pela imprensa, era comum empastelarem  os jornais para dificultar a sua circulação, o que consistia, simplesmente, em misturar todos os tipos, deixando as gráficas inoperantes, até que, com muita paciência,  conseguissem, novamente, reorganizar as pecinhas em seus respectivos lugares, em ordem alfabética.


                                   A grande façanha de Mergenthaler  foi a invenção genial da máquina de Linotipo. A geringonça, gigantesca, mais ou menos do tamanho de um guarda-roupas de quatro portas, tinha um tanque na sua parte superior onde era fundido o chumbo que descia por canaletas até um ponto onde eram moldadas placas, uma espécie de tijolinho. Estas placas chegavam ainda quentes e maleáveis para que se esculpissem, um pouco mais abaixo,  palavras nelas, comandadas por um teclado ( parecido com uma grande máquina de datilografia) que era manobrado por um artista gráfico. À medida que eram esculpidas, após um processo de refrigeração, iam pouco a pouco descendo e se organizando, lado a lado, organizadamente, formando então um grande carimbo que era levado para a impressão das páginas de livros e jornais. Imaginem a complexidade desta descoberta! Tinha-se um processo de fundição/escultura/refrigeração/arrumação  das plaquetas de chumbo! Além de tudo, após o processo gráfico, as placas podiam ser fundidas muitas vezes e reaproveitadas, em outros projetos gráficos !  Eram possíveis de seis mil a oito mil letras esculpidas por hora com o guarda-roupas de Ottmar. A inventividade do alemão fez com que se intensificasse a velocidade nas gráficas, aumentando a produção de livros e jornais, tanto que Mergenthaler é considerado o segundo Gutemberg.
                                   Quem , por acaso, mete as fuças na construção de livros e jornais , sabe, perfeitamente, que juntinho de nós trabalha um capeta tinhoso : o Satanás do erro e da incorreção. Por mais que redatores, revisores e copidesques se empenhem na perfeição do trabalho, não tem jeito! O capeta  estará ali , pertinho, esperando o momento de plantar os erros ortográfico, sintático, gráfico, ou  de pontuação...  
                                   Nos anos 50, o jornal católico  “A Ação”, aqui em Crato, era editado ainda com os primários tipos móveis. Tinha na redação um dos maiores latinistas cearenses: o Padre Neri Feitosa. Inteligente, profundamente versado na língua portuguesa vernácula, Neri vivia em tempos em que erro de concordância era passível de pena de morte. O hebdomadário lançou uma série de reportagens em que, semana após semana, se mostrava a biografia dos monsenhores da região. Depois de alguns meses, dado por fim o seriado, alguém, preocupado, lembrou nosso redator de que escapara um nome importante: o Mons. Tavares; o que trazia um certo desconforto nas hostes religiosas locais. Neri, então, mostrando jogo de cintura imprescindível a quem exerce a função, resolveu que sanaria o problema na próxima edição, o que realmente o fez. O artigo começava enfaticamente : “Deixamos, propositalmente,  por último, nesta coluna biográfica ,  o Mons. Tavares porque ele é o chefe da Milícia Católica no Cariri”. Na hora da composição, o capeta da incorreção, plantou o tipo errado. No outro dia, bem humorado, mons. Tavares lia o jornal quando se deparou com o erro fatal na sua biografia . Ao invés de Chefe da Milícia Católica, saíra impresso : Chefe da Malícia Católica... Tavares, sorridente, comentou que a emenda saíra pior que o soneto.
                                   Com o avanço da tecnologia, imaginou-se que o capeta  seria expulso definitivamente das redações e relegado ao seu ostracismo infernal. Leda pretensão! Ele continuou nas engrenagens das máquinas de linotipo, escondeu-se nos bytes do computador, enfurnou-se até nos auto corretores dos celulares. Uma conhecida nossa quase perde o emprego numa multinacional porque , ao conversar com sua superiora, pelo What´sapp, ao teclar : “Certo, Chefa!” , o autocorretor corrigiu para “Certo, Chata!” e ela enviou a mensagem maquinalmente.
                                   Na era dos computadores, então, este problema poderia estar sanado de uma vez  por todas. O Word carrega seu pai dos burros próprio e alerta para as falhas mais corriqueiras . Mas peca com a sintaxe, com as palavras homônimas, com o termo errôneo naquele local, mas existente em uma outra acepção. Há alguns anos, um jornal da região, já vivia nos áureos e gloriosos tempos do offset e da edição por computação gráfica. Quanta facilidade ! Quanto avanço ! Os digitadores abriam as caixas já prontas das colunas e apenas montavam as páginas anexando as novas matérias e as novas fotos. Pois bem, numa das edições, o diagramador estava completando a Coluna Social. Retirou todas as notícias da edição anterior e colocou as mais atuais, como sempre tentando por qualidade em que não tem. Sacou as imagens antigas e incluiu as fotos atuais das locomotivas e dos bacanas da região. O Capeta da Incorreção, no entanto, estava ali espreitando o momento exato de atacar. E sabia perfeitamente que o tamanho do avanço tecnológico é sempre proporcional à imensidão do erro possível. Tudo parecia perfeito, com uma única exceção. O técnico colocou as novas matérias, as novas fotografias,  mas esqueceu de apagar as legendas identificadoras de cada foto. No outro dia, edição na rua, a catástrofe estava instalada. Uma das fotos mostrava um juiz caririense, de cara empapuçada, sério que só uma vaca mijando, como se alguém tivesse acabado de lhe avisar que iam retirar seu auxílio-moradia. Aquela cara de quem está há três dias sem ir ao banheiro, ótima para se fazer cobrança. Logo abaixo, a antiga legenda que deveria ter sido sacada. Referia-se, na edição anterior, a uma aniversariante adolescente e dizia assim, agora resumindo  a cara do juiz: “Essa coisinha fofa, quinze aninhos, responde pelo nome de Bianca”.  Até o Capeta riu baixinho da presepada, com medo do processo.

Crato, 27/04/2018


sexta-feira, 20 de abril de 2018

Ateliê


Lembrei-me de uma história antiga, recentemente, que muito reflete essa sina de bumerangue da vida brasileira. Visitando uma Exposição de Arte  Moderna, num desses museus contemporâneos, um  sujeito espanta-se com uma obra inusitada. Uma grande tela, completamente branca, tendo apenas, abaixo, a assinatura do autor: Teo Syd - 2017. Junto, em uma placa metálica dourada, aposta no lado direito,  com letras  alto-relevo, o nome da obra branca esdrúxula : “A Fuga dos Judeus do Egito”.  Impressionado com a criatividade do pintor, o visitante aproxima-se  e procura tentar entender a concepção da obra. Onde estava retratado o episódio bíblico, numa tela inteiramente branca ?
--- Este quadro representa a fuga dos hebreus do Egito ?
--- Isso mesmo ! -- Retorna o autor.
--- Mas cadê os hebreus, que não consigo identificar no quadro ?
--- Os hebreus já atravessaram o Mar Vermelho e foram embora em busca de Canaã ! -- Confirma o artista ?
--- E o Mar Vermelho com suas margens milagrosamente escancaradas , para a travessia do povo de Deus ,   onde está ?
--- As margens abriram muito, para a passagem de Moisés e sua corriola e as águas estão fora das extremidades da pintura, assim não aparecem !
--- E cadê o exército do Faraó que vinha em perseguição dos judeus ? --Quis saber o visitante.
--- Ele se atrasou e ainda não chegou. Acaba de sair do Cairo !
                                   O quadro retratava um momento ímpar, onde alguns eventos já tinham ocorrido e outros ainda estavam por acontecer. Entre o que ainda não foi , o que já ocorreu  e o que ainda será.
                                   Esta história vem a reboque de uma mais recente. Semana passada, em Brasília, numa Exposição de Arte de Vanguarda, um artista plástico, Arcanjo Vannicelli,  apresentou um quadro similar ao da história anterior. Tela branca, quase imperceptível, na galeria alvíssima e iluminada. Logo abaixo o nome alatinado da peça : Terra Temerosus Brasilis. A peça chamou a atenção de um desses ratos de galeria. Ele se acercou de um senhor que cenho algo carregado, que se postava, de pé, em um dos lados da pintura. Afastou-se, observou com distância regulamentar, logo depois bem próximo e, curioso, puxou conversa.
--- Esta quadro pretende representar o Brasil, nos dias atuais?  É isso ?
--- Isso mesmo, meu senhor ! Tenta trazer um pouco do espanto porque todos estamos passando.
--- Onde estão simbolicamente representados os verdadeiros governantes do país ?
--- Foram expulsos ou tão presos, não aparecem na obra !
---- E onde podemos ver os atuais governantes, que tomaram o poder de assalto ?
--- Escondidos ! Não podem aparecer, sob risco de linchamento !
--- E o poder judiciário , onde posso identificar aqui nesta tela ?
--- O céu não aparece na tela, meu amigo, está fora do foco. Os juízes estão no Olimpo: metade pensa que é  Deus e a outra metade tem certeza!
---- E o povo, cadê ? Onde está escondido, nesta brancura toda ?
---- O povo está só observando, como o senhor, ele não faz parte da pintura !
                                   Impaciente, nosso visitante quis entender melhor detalhes  daquela que um dia poderia ter sido uma aquarela. Achou estranho a obra em branco. Cuidadosamente, passou a mão e não sentiu o relevo do quadro e nem a aspereza do pano. Voltou-se, então, para o seu interlocutor.
--- Oxe ! Não tem tela aqui , não ! Isso é parede. A obra é um mural ?
--- Meu amigo, não lhe conto, até ontem tinha. Venderam a peça de madrugadinha, por uma pechincha !
--- O Senhor, como autor da obra, permitiu a negociação por uma ninharia ?
--- Eu não sou autor da obra não! Sou um crítico de arte !
--- E quem é o sujeito que pintou o quadro ? Cadê ele !
--- O Ângelo ?  Ele pra tudo que pintava ou fazia só usava a direita. Tentou numa luta, nesses dias,  um golpe  e caiu do cavalo.  
--- Ah ! Então o senhor é, aqui, o  responsável por isso tudo !
--- Eu ?
--- Você sim ! -- Firma o visitante, com alguma aspereza.
--- Você num mora aqui em Brasília ?
--- Não, eu sou de Curitiba, meu senhor !
--- Ah, seu irresponsável,  o senhor mora lá, é ?!
--- Moro !

Crato, 30/04/2018
                                     

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Agridoce




                                               Nordestinos, somos seres de duas estações. O pêndulo das nossas almas cicla entre estes dois polos: verão e inverno. Vezes no gris do estio, vezes no verde da invernada.  Para nós,   tempo bom significa relâmpagos, trovões e torreame. Nossos corações, órfãos de estações,  primaveram com as chuvas e outonam com o sol abrasador. Divididos entre o alento e o desencanto, as intempéries da seca nos abatem mas não nos derrubam. A tristeza da estiagem sempre será recompensada pela alegria multiplicada da futura fertilidade invernosa. O nordestino sabe que a felicidade está guardada mais na esperança rediviva do que no paiol com seus cíclicos movimentos de cheio-vazio.
                                   Enfrentando os verões, por vezes sucessivos, nosso espírito acinzenta-se como toda a natureza, mas, nos primeiros pingos  promissores de chuva,  saltamos da terra como os sapos, levantamos voo como as tanajuras, florescemos igualzinho aos marmeleiros. O matuto, calejado e temperado  nos rigores do clima, não se exaspera fácil. Carrega consigo aquela resignação quase mineral dos rochedos. Aprendeu com os juazeiros, com a palma, com os mandacarus , as lições  do florescer e do resistir. Às vezes, pode até parecer morto, seco e desfolhado como os umbuzeiros em outubro. Mas aquilo é sempre um recuo tático, uma sofisticada estratégia bélica. Nas raízes,  guarda a essência líquida da sobrevivência e, nos primeiros borrifos de chuva, cobrirá, rapidamente, a nudez, com o verde fosforescente do   vestido de gala , próprio para a festa que se anuncia.
                                   Nordestinos, compreendemos também as aulas da economia e da parcimônia. Neste pêndulo, o exagero de hoje pode significar a escassez do dia seguinte. Apesar de tudo, o matuto depreende que somos todos passageiros de uma mesma arca e que não há côdea de pão que não possa ser dividida em múltiplos pedacinhos para o regalo de muitos. Há mais solidariedade na escassez  do campo do  que na fartura do arranha-céu.  
                                   Talvez, escanchados nesta vida pendular, terminamos por entender que a felicidade não é um adereço de superfície , como uma maquiagem. Verão e Inverno , como crepúsculo e aurora, tornam-se apenas fases do ciclo natural de nossas vidas. Na roça, aprende-se a valorizar os mais simples frutos que a existência faz brotar na nossa colheita. Por que se exasperar ? O amargor de hoje é tão somente o prenúncio do mel que provaremos amanhã. E o contraste agridoce transforma-o numa iguaria  mais leve e saborosa ! A treva faz-se apenas a esperança do albor que já começa a esticar seu pescoço na linha do horizonte. Se hoje acordamos verão, de noitinha adormeceremos inverno. A vida fica mais una na dualidade das estações.

Crato, 13/04/18   

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Amanhece



Amanhece. Um vento úmido sopra do nascente, como o último bocejo matutino da boca da noite. Galos , tal numa corrida de revezamento, vão passando o bastão do canto , de bico a bico, confeccionando o crochê da manhã. Os primeiros raios espriguiçantes de sol  postam-se a limpar a névoa que lambuza os olhos da serra, como uma remela. A aurora preguiçosa revolve-se no já diáfano véu da treva como que se recusando a despertar. Amanhece.
                            Na cidade, as almas serpenteiam nas ruas , sonâmbulas, num teatro de sombras,  a meio caminho entre a luz e a escuridão. O aposentado equilibra-se na sua cestinha, em busca do mercado, como se o maduro, o sazonado precisasse do verde reparador  das frutas e hortaliças. A mocinha, abraçada com seus livros, com disposição de anteontem, marcha para a escola em busca de suas vãs certezas. No ponto do ônibus, operários, com suas marmitas, carregam a plena convicção que farão um novo sacrifício das suas vidas no altar do deus Mercúrio. Carros amontoam-se nos sinais, buzinando como trombetas, acreditando que farão ruir os muros de Jericó. As lojas , aos pouquinhos, abrem suas portas, a meio pau, como adolescentes tímidas e furtivas.  No campo, agricultores preparam a terra, com vagar, sem saber bem se aradam  perspectivas de novas colheitas ou se abrem covas que os convidam , lobregamente, para o coito terroso derradeiro: semente ou adubo ?  Aos poucos a vida se vai desvencilhando da letargia cúmplice da noite. Amanhece.
                            Abre-se o orifício da faina e do azáfama na  barragem do dia. A vida urge, o tempo exiguifica-se. O liquidificador do cotidiano começa a aumentar a velocidade de suas lâminas: daqui um tiquinho a solidez do sonho tornar-se-á um suco acre , insípido, intragável. Existir será apenas uma hipótese longínqua e inacessível. Um verbo intransitivo, impessoal e  intransitável. Numa sinfonia repleta de labores e sacrifícios, viver talvez represente um insignificante sustenido no meio de uma chuva de bemóis ou um  pequeno breque nesta partitura, um interlúdio  entre uma e outra vicissitude.
                            Em meio ao turbilhão que , paulatinamente, se vai formando, só um personagem destoa no cenário. Um bêbado , cambaleante, aos tropicões, atravessa a rua. À deriva, sem bússola ou sextante procura o rumo de casa. Carrega consigo os eflúvios das libações noturnas. Varou o ventre da noite com o sabre da sua boêmia. Enquanto a cidade desperta, ele , na contramão, se entregará ao sono . Descobriu que a terra, como a lua, possui também uma face oculta. Ali construiu sua morada, distante das trevas opressivas dos dias, onde o sol ressona e as noites eternamente amanhecem.

Crato, 06/04/18

sexta-feira, 23 de março de 2018

Blackout



                                              
O blackout durou apenas algumas horas. De repente, os homens foram arrancados das suas rotinas, como um carro que , a contragosto, deixa a autoestrada e envereda dor veredas íngremes e esburacadas. O celular deixou de ser um utensílio vital, o computador  tornou-se um trambolho no canto da sala, a Internet desconectou a aldeia global. A TV, momentaneamente, perdeu sua capacidade hipnótica e manipuladora: olhos apagados já não mais cuspiu sentenças como um oráculo de Delfos nesses tempos igualmente sombrios. Em meio à escuridão,  lamparinas e velas bruxuleantes revelavam vultos aracnídeos  esgueirando-se ,em câmara lenta,  confundindo-se com as sombras projetadas  nas paredes. Carros , temerosos como seus motoristas, arrastavam-se,  paquidermicamente,  nos cruzamentos que haviam perdido a bússola dos  sinais de trânsito. O Comércio e a Indústria viram-se  tolhidos  de seus motores propulsivos. Alguns vultos até ensaiaram colocar novamente as cadeiras na calçada, agora sem a ditadura compulsiva da televisão da sala. Súbito, o nosso mundo reduziu-se às minúsculas dimensões da nossa cidade, da nossa rua, das nossas casas, dos nossos quartos.
                                               Incrivelmente, descobrimos que havia, sim,  uma lua no céu, agora já sem  a concorrência das luzes de neon.  Uma lua nos últimos tempos com suas duas faces ocultas,  estendeu, novamente,  sua coifa argêntea    , hoje,  monopólio dos astrônomos ,  viu-se devolvida aos enamorados. O escurinho passou, novamente, a ser cúmplice da paixão e a leitura em Braile mostrou  sua importância expandindo-se além dos muros do Instituto Benjamim Constant. Alargaram-se os horizontes dos outros quatro sentidos.  Reaprendemos, rapidamente a revelarmo-nos,  como fotografia,  nas câmaras escuras  deste mundo a media luz. As nuances passaram a ser reveladas e cultuadas. Na treva, pequenos detalhes, discretos matizes defenestram, muitas vezes, percepções até então desconhecidas. No breu , como na vida, essas percepções são meros simulacros, silhuetas de uma verdade perseguida e, eternamente, inalcançada.
                                               A penumbra nos trouxe a revelação de que existe sim, um outro mundo vívido à nossa volta, longe dos holofotes da realidade cotidiana.  Somos meros fantasmas neste planeta, vagando, caoticamente,  entre luzes e  sombras.

Crato, 23/03/2018      

sexta-feira, 16 de março de 2018

Uma rosa para Marielle


Houve um período em que vivendo no topo das árvores, num dos maiores saltos evolutivos da nossa história, o primeiro hominídeo decidiu que já era tempo de descer ao solo e conquistar seu espaço na face da terra. Sabia, de antemão, que eram mínimas suas possibilidades de sobrevivência: não tinha a velocidade dos leopardos; faltava-lhe a amplitude de audição dos lobos; seus olhos não se faziam penetrantes como os do lince  e da águia.  Deve ter perecido nas primeiras tentativas, mas abriu os horizontes para todos os da sua espécie, num leque inesgotável de possibilidades e de riscos. Sem aquele ímpeto primal, estaríamos ainda hoje disputando frutos com nossos irmãos chimpanzés e macacos prego. E durante todo nosso percurso neste planeta, ainda tão curto e tumultuoso, sempre dependemos dos sucessores visionários daquele hominídeo primal que conseguiu ver além das fruteiras do seu pomar, que fugiu da estabilidade da  matilha e abriu picadas próprias e novas veredas, mesmo com o iminente perigo de ser devorado antes de alcançar a primeira clareira.


                                   Do homem-caixa, do trabalhador-relógio-de-ponto, do operário-padrão-obediente, do macho-sim-senhor, da mulher-livro-de-tombo, da fêmea-inhô-sim, do Homo domesticus não se pode esperar muito. Flutuarão entre o berço e a cova sem deixar uma marca, uma nódoa, um vestígio na superfície do tempo. De dentro do seu aquário, que imaginam corresponder a toda amplitude do  universo, comerão satisfeitos a sua ração e, enquanto aguardam a inexorável mudança de águas, pôr-se-ão a criticar   os outros peixinhos que resolveram pular por sobre o vidro protetor, mesmo com a ameaça de se verem sufocados sem a água em suas brânquias. Cristo, Martin Luther King, Miguel Servet, Tiradentes, Ghandi, Giordano Bruno... Há sempre uma cruz, fincada em algum Gólgota, esperando por quem quebra as fronteiras do conforto, da acomodação e resolve comer os frutos da árvore do Conhecimento.
                                   Nestes dias, a mesma história milenar se repetiu. No Rio, uma vereadora e líder comunitária, Marielle Franco, foi executada , junto do seu  motorista , sumariamente, com armas de uso exclusivo da Polícia.  Seu crime foi exatamente igual a de muitos seus sucessores nos extermínios periódicos. Vindo da Favela da Maré, fez-se defensora dos mais pobres, das prostitutas, dos indefesos, dos continuamente massacrados pelo estado que ao invés de subir os morros com hospitais, escolas, livros, cultura e cidadania, presenteia-o com metralhadoras, AR-15 e socos, balas e repressão. Isso tudo no Rio de Janeiro , em intervenção militar, num perigoso  tubo de ensaio para a reconsolidação definitiva da Ditadura armada no país. A revolta popular com o assassínio que tem nuances similares ao de Edson Luiz, há meio século, foi contrabalançada por uma chusma de ataques de uma extrema direita em franca ascensão no Brasil, para eles (a história anda  em bumerangue)  Marielle teria colhido o que plantou. Os comentários dos soldados romanos devem ter sido parecidos quando Cristo, Paulo e Pedro estavam pregados na cruz. Mais que um assassínio brutal e inqualificável, perpetrado, possivelmente a mando do estado e por funcionários pagos pelos nossos impostos, vem anexo o recadinho, com a clara certeza de impunidade ( não muito diferente daquele mandado pela Corte Portuguesa, no esquartejamento de Tiradentes) : “ Quem não se enquadrar, vai provar do mesmo cadafalso!”
                                   Aos que se põem a saborear com a execução pérfida de Marielle, vale lembrar o restinho da história. A fuga do primeiro símio do topo da árvore levou-nos à conquista do planeta. O Império Romano que sojigou Cristo e o Britânico que massacrou Gandhi soçobraram e eles, ao contrário, esquiam impávidos e intocáveis  na memória do povo.  Os morros estão repletos de Marielles ( há uma Canudos em cada Favela) e é sempre bom lembrar que a estrada da violência tem sempre mão e contramão. Mais dia, menos dia, como diria Vandré, virá “A volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar”. O ato de despetalar ferozmente uma Rosa, felizmente, não tem o poder de impedir  a eclosão da primavera: as flores desabrocharão mais fortes, brilhantes e reluzentes.

sexta-feira, 9 de março de 2018

Luz, Sombra, Areia


                                               

                                               De repente -- sabe-se lá explicar os caprichos da natureza!-- o mar encrespa-se, surta e faz com que suas ondas se avolumem em feitio de tsunami, como que , em pesadelo, recordassem cataclísmicos tempos diluvianos. Talvez se revolte, vez por outra, contra as seguidas violações que se lhe vão perpetrando: as margens que pouco a pouco lhe são surripiadas, em nome da especulação imobiliária; a latrina em que o querem transformar, com a seguida poluição que chamam de progresso; a tranquilidade que lhe roubam com o riscar de navios, botes, lanchas e jet-skis. Vez por outra, num ataque de furor, suas águas ganham força , gritam:  Basta!  Elevam-se e invadem ruas, prédios, pontes, arrastando tudo que encontram pela frente. Foi o que aconteceu em Fortaleza, nesta última semana.

                                   Embriagados com tanta violência e poluição, os mares bravios de José de Alencar amanheceram de ressaca e de mal humor. Resolveram mostrar toda braveza: inundaram ruas próximas às praias paradisíacas da capital, banharam a ponte metálica com duchas capazes de arrancar qualquer ceroto. Barracas, que  roubam dos olhos de todos a beleza das marinas, praias privatizadas por espertalhões  viram-se, súbito, imersas  em sal, ungidas  num ritual  de limpeza e purificação.
                                   Nas longarinas da Ponte dos Ingleses, a Femme Bateau, de Sérvulo Esmeraldo, contrastava seus negros , iracêmicos , vaporosos e esfumaçantes  cabelos com o alvor azulado das nuvens e o verde musgo das ondas. Ali estava impávida, há muitos anos, náutica, singrando  mares tranquilos, sonhando com ímpetos de preamar. Sentia-se vezes aluada, deslizando, etérea sobre o Mar da Tranquilidade. Entediava-se, frequentemente, com passantes ,  olhos fixos em Miami,  corações transbordando de sonhos mercantis, incapazes de degustar a beleza que se derramava, aos borbotões, bem ali na sua frente. Enfastiada, a Femme Bateau montou na primeira carretinha, pegou carona no enorme jacaré e pôs-se  a  surfar nas ondas gigantes que banhavam a Ponte Metálica. Mergulhou com peixes-palhaço, saltitou com golfinhos, coçou as costas em recife de corais. Quem sabe encontrou-se com Sérvulo, em profundidades mais abissais, que lhe  mostrou um mundo menos geométrico, menos euclidiano, bem diferente deste daqui: lá  a Luz sobrepuja, em muito,  às sombras.
                                   Instada por amigos, mesmo a contragosto, a Femme deu meia volta no seu Bateau. Vai descansar alguns dias da sua viagem até deslizar, novamente, das longarinas da Ponte dos Ingleses. Depois de qualquer viagem, percebe-se nunca é o mesmo barco que retorna. Lançará os cabelos esvoaçantes, como fumaça, pelo céu de anil. Quem sabe, depois da tormenta, o continente descubra que o mundo não precisa ser tão cartesiano; que a vida não pode ser resumida numa planilha do Excel; que a beleza está a um palmo da nossa vista e que é possível sim singrar nas suas ondas, embebedando-se de luz, antes que o tsunami chegue com suas lições de sombra e de areia.


Crato, 09/03/2018