sábado, 4 de fevereiro de 2017

Sérvulo : Luz e Sombra


J. Flávio Vieira


                                                             Só existe uma coisa permanente neste mundo : a Impermanência. Estamos todos embarcados no mesmo trem do tempo infinito, em vagões diferentes e, pouco a pouco, vão desembarcando passageiros. Nunca se sabe qual será a nossa estação final. O certo é que ela chegará sem aviso prévio, sem anúncio dado pelo maquinista. Cada um terá o direito de observar uma paisagem temporal por sua janela, conversar com os passageiros do lado, cumprimentar o companheiro de viagem logo à frente, mas cada um de nós, apesar de seguirmos na mesma direção, perlustramos díspares embarcadouros e nos dirigimos a portos diferentes. Somos todos prisioneiros do espaço e do tempo. Fugindo de explicações esotéricas, só existe uma maneira uma forma de se abrir um portal entre tempos e gerações :  A Arte. Com ela é possível fazer com que se quebrem barreiras geográficas, temporais, espaciais e, mesmo sem a presença física do passageiro,  viandantes futuros poderão dialogar e serem tocados  por escrituras rupestres que incontáveis grafiteiros no passado foram debuxando pelas paredes do trem. A Arte tem essa capacidade mítica de burlar este fatalismo intrínseco ao nosso cortejo candente pelo planeta.
 
                                      Esta semana desceu do comboio um desses nossos queridos companheiros de travessia. Sérvulo Esmeraldo era cratense de carteirinha. Antes de se tornar artista plástico de renome internacional, transitou por muitas linguagens : Gravura, Ilustração, Pintura e a Escultura. Degustou, também, o sabor de muitas escolas como o Figurativismo, a Cinética, a Abstração, o Construtivismo. Permanece, mais claramente, na nossa memória afetiva, as esculturas geométricas de linhas, sombras e luz que foi espalhando mundo afora. Ligado umbilicalmente ao Cariri, estas formas devem ter brotado, naturalmente, das tortuosas e íngremes ruas do Crato, do relevo da nossa Chapada. E foi aqui, que ele, no ano passado, quase como um testamento, resolveu fazer sua última Exposição. À medida que o desembarque se aproximava , Sérvulo  retornava mais e mais , sentimentalmente, às suas raízes. Tinha a certeza, absoluta, que a última parada do seu trem seria na Praça dos Pombos.
                                      Sérvulo mantém aquele desígnio profético de que ninguém é profeta na sua terra. A cidade não lhe retribuiu a paixão desenfreada . Fica na nossa paisagem natural apenas uma escultura, no Alto do Seminário, doada por ele mesmo no seu retorno derradeiro. Permanece como um legado artístico que observa do poleiro a degradação arquitetônica da Vila de Frei Carlos. Edifícios em caixão , significativos ao funeral que se vai perpetrando. Monumentos públicos estéreis. Ruas frias e sem história,  demonstrando a incompetência fenomenal que sempre tivemos de fazer conviver o moderno com o tradicional, de fazer dialogar o passado glorioso com o presente desbotado.  
                                      Sérvulo parte e deixa sua arte estampada nas paredes do nosso trem. Ela continuará a encher os olhos dos futuros passageiros que, agora, terão outros cenários a desfrutar,  além dos que passam freneticamente pelas porta e janelas  do trem. Se se observar direitinho, ele continua sentado em uma das poltronas, discretamente, conversando com os que passam, apressados,  tangidos pela vida. Sérvulo , como um monge tibetano, ensina,  dia a dia ,  que , na vida e na arte, tudo se resume ao equilíbrio entre Sombra e Luz. O pássaro adejou as asas e partiu, mas fica entre nós o seu canto !


Crato, 03/02/17

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Tru(m)picando em Matozinho

J. Flávio Vieira

                                         

                  Eleito pela terceira vez para prefeito de Matozinho, Donaldo Cangati , conhecido mais como Dondon do Trupicão, apresentou , durante a campanha, uma plataforma política  enviesada , empenada, mais troncha que olho de vesgo em jogo de tênis. O sobrenome mais popular de Dondon surgiu de um acidente esdrúxulo. Dondon, numa bebedeira, teria dado um trupicão num fio de pedra, fincado o pé-do-ouvido no chão e ficado entre a vida e a morte por mais de cinco dias, até recobrar o sentido.
                                  Matozinho  atravessava, naquele justo ano eleitoral, cinco anos de seca braba, estava menos úmida que língua de papagaio desidratado. Os matozenses subsistiam tirando uma água salobra , grossa e barrenta  das cacimbas naturais do Rio Paranaporã e , para comer, dependiam dos poucos legumes que porventura tivessem acumulado no paiol. Entre si faziam escambo daqui e dali , trocando andu por fava, feijão por milho, farinha por rapadura. A partir do terceiro ano de estiagem impiedosa, porém, as coisas começaram a ficar insustentáveis. Para piorar a calamidade, levas de flagelados vindas de cidades próximas como Bertioga e Serrinha do Nicodemos passaram a se deslocar para Matozinho, se  espremendo nas bordas da Serra da Jurumenha, tangidos pela sede e pela fome. Faziam-se de pedintes, mendigos: farrapos humanos ambulantes tentando de alguma maneira escapar da morte que lhes acervava, dia após dia, como carcará esperando dar o bote.  Eram nadas pedindo socorro a coisa nenhuma !
                                      Em meio ao desespero nos acampamentos, pequenos furtos tornaram-se frequentes. O papagaio  de Giba, dono do bar, foi roubado numa noite e, depois, suas penas encontradas nos arredores da vila, próximo a uma pequena fogueira, como prova de que tinha sido degustado às pressas. Chinelas curulepes , afanadas, devidamente flambadas, descobriu-se serem degustadas em churrascos. Siriemas, calangros, lagartixas fugiram das imediações como vampiro do alho. O óleo do Santíssimo, na semana santa, foi surrupiado para fritar préas. Mucunãs  e palmas estavam em falta na redondeza, tamanha a procura no  mercado negro.
                                     Foi nesse clima pavoroso que a plataforma de Trupicão caiu como uma luva. Prometeu expulsar de Matozinho todo indivíduo estranho à cidade e desestruturar os barracões da periferia. Firmou ainda a promessa de aumentar o contingente de soldados e capangas para esse fim. Estabeleceu uma espécie de pena de morte para quem roubasse víveres e prontificou-se a impedir a coleta de água nas cacimbas e poços do Paranaporã. O seu mais ousado projeto, no entanto, versava sobre a construção de um muro de pedras ao redor de toda Matozinho, isolando-a, hermeticamente, de outras vilas próximas que nada traziam para os matozenses além  de roubar as riquezas naturais da vila.
                                   Diante de tanto desespero, o discurso de Trupicão atingiu em cheio a mosca no alvo. Memória curta e seletiva , o povo nem sequer lembrou do desastre fenomenal que foram as duas administrações anteriores de Dondon. Um solapamento total do patrimônio público digno de um Átila beradeiro.  O lema da campanha: “Matozinho para os matozenses !” bateu fundo em todos e, sem tropeço dessa vez, Trupicão terminou eleito com mais de 80% dos votos (in)úteis.  
                                   Dondon tomou posse no início do ano e, apesar de ser reconhecido, como um péssimo pagador de promessas ( dizia-se até que só fazia as suas com São Sebastião porque o santo era amarrado e não podia correr atrás dele, depois, para cobrar) , o prefeito entrou dizendo, dessa vez a que viera. Cercou-se de jagunços e começou a perseguir, impiedosamente, os forasteiros. Sob mira de soca-soca os foi expulsando, um a um , das proximidades. Dizem que matou várias e várias famílias. Sapecou fogo em crianças que procuravam, de alguma maneira, alguma coisa para escapar da fome e da sede. Incendiou barracões.  Os jagunços vigiavam os poços com ordem de só deixar tirar água os habitantes da vila que nem precisavam se identificar pois, devido às proporções da megalópole matozense,  todos se conheciam perfeitamente. Houve alguns confrontos mais sérios,  com baixas de lado a lado, mas aos poucos, os migrantes começaram a , novamente, buscar uma outra terra nunca prometida e jamais doada.
                                    O muro de Matozinho  , também, rapidamente, começou a ser erguido, em volta da vila, usando ingredientes que não faltavam no lugar : Pedra e Barro. Dondon valeu-se de ajuda do governador, na época a ele aliado politicamente.  Conseguiram, com adjuntos, erguer tudo em menos de três meses, trabalhando dia e noite.  Parecia a Muralha da China. Possuía a grande muralha de Matozinho  mais de dez metros de altura por uns cinco metros de largura, arrodeava toda a vila , num percurso de mais de cinco quilômetros. Um imenso portão de braúna fechava a entrada principal ,  onde guardas armados de facão e lazarinas controlavam as entradas e saídas. Era uma fortaleza medieval.
                                   Os matozenses estavam felizes e realizados. O boca-a-boca, o jornal da vila, tecia seguidos elogios à administração do considerado Juscelino Kubitschek da região. Fechada Matozinho, em meados de março, a última leva de retirantes mais resistentes , nas imediações da Serra da Jurumenha, isolados agora totalmente da vila, resolveu bater em retirada. Subiram a montanha lentamente, com as poucas forças que lhes restavam. Iam levando o pouco que sobrou em matulões acomodados em lombos de três jegues magros  e cadavéricos.
                                  Tardezinha, o velho Laurentino, líder do bando,  chamado por todos de Ló, resolveu acampar em cima da Serra. Fizeram um fogo, pensando em assar dois mocós que tinham matado à baladeira, na escalada. Foi aí que se deu a calamidade. De repente, caiu um pé d´água imenso , desses que não se via a muito e muito tempo. Parecia que São Pedro resolvera tirar o atraso pluviométrico de anos, num só dia. Em menos de duas horas o rio Paranaporã encheu e extravasou . Matozinho , despreparada, agora cercada de muralhas viu , para seu desespero , a água subir rapidamente e inundar toda a vila agora tornada represa. As casas ficaram cobertas, matozenses incontáveis morreram afogados, inclusive Dondon, pego no contrapé do trupicão, na prefeitura, quando juntava o dinheiro do cofre para escapulir.
                                     Ló observou toda a tragédia do alto da serra. Tomou-lhe aquele sentimento misto de pena e satisfação  pelo castigo dos céus. Pediu, num certo momento, que todos dessem as costas e continuassem o caminho. A mulher de Ló, no entanto, impressionada, virou-se como se não pretendesse perder a cena. O marido então , cheio de maus pressentimentos, a alertou. Como em Sodoma, temeu que ela virasse uma estátua de sal. Ela , porém, o tranquilizou:
                                    ---- Virar estátua de sal, tu é doido Ló ? Vocês iam era me  pegar  para temperar os mocós e comer depois ! Oxe !  Nannn ... !


Crato, 27/01/ 2017

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Condomínio Brasil

                                  Entre tantas notícias  mal cheirosas , que superpovoam nossa mídia tão amestrada e tão entulhada de filtros próprios e higiênicos, uma, mais colorida,  me saltou aos olhos nesta semana. Na Espanha um grupo de amigos, que se conheceu na média idade, empreendendo caminhadas e percorrendo trilhas, resolveu se reunir, anos depois, todos no outono da existência, dividindo um mesmo condomínio. Criaram uma República aos moldes das de estudantes, mas agora para a terceira idade. Num determinado momento da existência se puseram a perguntar: por que não dividir a curta estrada à frente com amigos diletos e fraternos, testemunhas oculares dos épicos episódios de nossas vidas? Fugiam, assim, da companhia superprotetora dos filhos e netos, distanciavam-se dos abrigos de idosos onde teriam que conviver com estranhos, sobreviventes de outras tragédias , protagonistas de alheias comédias. Construíram condomínio adequado aos seus longos anos, com projetos arquitetônicos específicos,  administrado por eles mesmos, com áreas de jardinagem, de atividade física, acompanhados por profissionais habilitados nas mais diversas áreas ( fisioterapia, enfermagem, ludoterapia, etc). Hoje já somam mais de oitenta inquilinos e a experiência tem se reproduzido em toda a Europa.  Segundo os moradores , existiu um momento, nas suas vidas, em que os filhos cresceram e se tornaram independentes, pois agora é a vez dos pais , arribarem de casa e alçarem voos próprios.
   
                                    Pus-me a pensar , já me acercando dos momentos em que estes pensamentos costumam nos acicatar, o quanto inteligente e prazerosa terá sido essa iniciativa. Imaginem se cercar dos nossos amigos mais diletos, com tempo para degustar memórias e histórias, dividir experiências e angústias, numa fase da vida que costuma primar pela solidão e desesperança !
                                   De repente, porém,  me caiu a realidade como um bólido sobre a cabeça. Estou no Brasil, onde a idade pesa como outro qualquer preconceito; onde a experiência acumulada de nada vale. Os idosos são um mero rebotalho da sociedade, sangradores da previdência e que, para piorar tudo, teimam em não morrer. Sem amparo estatal de asilos que lhes deem guarida, com os pouquíssimos descendentes que pudessem ser incriminados como abandonadores de incapazes ; com a consciência pesada por estarem minando os recursos do país com seus achaques, hordas de idosos perambulam pelas ruas como espantalhos. Agora, já sem direitos de aposentadoria,  seguirão, como os judeus libertos dos campos de concentração, em pleno inverno,  para a marcha da morte.
                                 A maior prova de desenvolvimento de qualquer nação está na maneira como trata aqueles que estão fora das frias regras da produtividade capitalista : os idosos e as crianças. Somos apenas uma balela, um arremedo de país: sem visão social, sem atenção às nossas fragilidades, sem solidariedade humana , com cidadãos de primeira, segunda e terceira categorias e, hoje, ainda , fincando novos pelourinhos a cada dia. Nem uma democracia mais temos! Construímos condomínios como os da Espanha, sim,  mas lá colocamos apenas engravatados, almofadinhas, marajás, todos imunes às leis . E pior, todas as taxas condominiais pagas pela população pobre e escravizada, aquela que está do lado de cá do muro.   
                                 Essa talvez seja, hoje, o maior fel que contamina a vida dos idosos. A certeza de que todos lutaram em vão, que fizeram sacrifícios das suas vidas e do seu tempo, no altar da pátria, por  deuses espúrios, impiedosos e insensíveis. Plantou-se a semente de uma árvore que devia abrigar , com suas sombras, o destino de todos. Frutificou, no lugar,  uma planta carnívora , devoradora de liberdade, aspirações e esperanças.


Crato, 13/01/2017

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Um Incidente Pavoroso

                                               
As chacinas seguidas que têm acontecido, em presídios brasileiros,  nesses seis primeiros dias de 2017,  dão uma clara ideia do total baratinamento governamental em que vivemos. Brigas de facções, envolvendo o PCC e o Comando Vermelho,  fizeram com que fossem massacrados 60 detentos em Manaus e, em represária,  33 em Roraima. Esta mortes em presídios, em menos de uma semana, representam 25% de todas os assassinatos acontecidos em prisões  brasileiras em todo o ano passado. A partir da calamidade, se sucederam incontáveis e tragicômicas situações sintomáticas de um governo à deriva que não tem ciência de onde veio nem para onde se destina.
                                            A princípio,  a estratégia foi jogar a responsabilidade no Estado do Amazonas e na empresa de Manaus, privada, que administra o presídio. O presidente em depoimento tardio, denominou o acontecido de um “Acidente Pavoroso”. O Ministro da Justiça , de comum acordo, lançou a responsabilidade no Amazonas. A privatização sequer foi questionada.  Devido às repercussões negativas, rapidamente, como é típico dos desgovernos, tiveram que, como sempre, voltar atrás. “Acidente”  seria um evento fortuito e inesperado, dependente do mero acaso. A quem responsabilizar ? O destino, a má sorte ?  Imediatamente o Governo do Amazonas informou que o risco de uma tragédia iminente tinha sido denunciado ao Ministério da Justiça e esse não tinha tomado nenhuma providência. O Ministro teve que se retratar e assumir a imobilidade e suas consequências posteriores, inclusive com o risco de cair.  O desacerto, porém, ainda se agravaria.
                                     Viria o acréscimo ado sco da nossa Reacionariocracia. De repente, a mídia e as redes sociais destilariam o ódio, o ranço, o preconceito tão em voga nos últimos tempos. Até mesmo o governador do Amazonas ! Para todos,  teria sido ótimo o acontecido : mais de cem bandidos a menos ! Bandido bom, como se repete ad nauseam, é bandido morto ! Claro, desde que seja o ladrão de galinha,  pobre, negro e marginalizado. Não entram nessa regra os peixes graúdos de colarinho branco e mesas regadas a vinho e caviar. O corrupto de carteirinha, os manipuladores de super-salários , os filhinhos do papai ,  os sonegadores vultosos, os desviadores dos mananciais públicos, para esses, pobrezinhos, as benesses e frestas das leis !
                                               Tão iníquas como esse pensamento obtuso , pré-histórico e anticivilizatório,   foram as medidas  anunciadas pelo governo para resolver o holocausto nas nossas prisões. Construção de mais cinco presídios ! Eles não seriam suficientes sequer para cobrir o déficit de vagas na região Norte! Se construídos as prisões ( e sabe-se lá quando !) só abateriam em 0, 4% as necessidades atuais.  O presidente do STF também visitou o Amazonas e apenas se certificou da explosão da bomba de pavio curto que já sabia acesa há muito e muito tempo. Todas essas medidas propaladas não mexem com a raiz do problema da violência e criminalidade, são endereçadas apenas à repressão que sabemos secularmente não têm qualquer capacidade  de minorar a situação.
                                      É imprescindível entender verdades que recusamos engolir. O Crime Organizado no Brasil é mais organizado que o governo instituído. Eles controlam as prisões brasileiras , o tráfico, as favelas, os morros. São eles que mandam e desmandam nos presídios, que estabelecem as regras internas, aliciam a polícia , políticos e membros do judiciário. Fazem revoltas quando assim o desejam e armam chacinas ao seu bel-prazer. E mais: nos estados mais importantes, o governo se curva às facções criminosas , negociam com elas, liberam uso de celulares, aceitam regras de não transferência de presos. Eles causam tantos acidentes pavorosos quantos quiserem sem que o estado , manietado, tenha condições de abrir o bico.
                                     As mortes acontecidas nos presídios são responsabilidade do estado. Se não temos condições de dar segurança aos detidos, é nosso dever liberá-los. Nem adianta pensar que a Pena de Morte acontecida, ao arrepio da lei, pode resolver o problema. Já existe a pena de morte nas ruas, instituída pelo Crime organizado e pelo desorganizado , até agora, a questão apenas tem se agravado. Não é o Tribunal Carandiru que irá  deixar o país mais seguro e mais justo. Infelizmente vamos dando as costas agora a um destes agravantes desencadeadores, que sei, não é único : a Desigualdade Social.
                                   Todos aqueles que agora felizes curtem as mortes com um indisfarçável ar de prazer e de vingança  devem lembrar que a mesma sanha que pôs as Facções Criminosas umas contra as outras pode, em um futuro bem próximo, os unir para vir , mais uma vez, cobrar nas ruas , com juros de sangue e sofrimento, as contas que se vêm juntando secularmente no pavoroso banco das relações humanas brasileiras. Será a carnificina, neste momento, mais uma vez,  catalogada como Acidente Pavoroso ?

Crato, 06/01/2017

                                      

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

De Luas e Eclipses

                                    Pois é, amigos,  desembestado o carro de ladeira abaixo, à procura do despenhadeiro, todas as previsões sobre o desastre iminente, são meras especulações. Cada um interpreta à sua maneira a causa possível da pane : freio quebrado, barra da direção fraturada, pouca habilidade do motorista,  e o posto de gasolina concorrente pode imputar o destroço a combustível adulterado. Todas os itens vêm à baila, ao sabor das emoções e dos interesses de cada um .
      
                                   Falar em veículo desgovernado remete imediatamente ao Brasil, nos tristes e temerosos dias em que vivemos. Pedem para que apertemos os cintos, mas como fazê-lo se o piloto ao invés de sumir, nunca existiu ? Um sindicato de sicários tomou de posse o poder, amparado pela mídia e pelo judiciário . O carro foi colocado estrategicamente no topo da ladeira íngreme, com um motorista incompetente e  cego,  sem óleo de freio. Não era previsível a desabalada carreira em busca do abismo ? O grande problema é que não éramos meros espectadores, sequer percebemos que na verdade somos todos passageiros desta viagem às profundezas abissais do pélago mais profundo.
                                       Sob o pretexto de combate à corrupção, afastamos a presidenta eleita. A única figura pura, limpa e imaculada em toda este filme de terror. Se por acaso alguma falcatrua houvesse em seu nome, já não teriam encontrado ? Colocamos um vice de história suspeitíssima para assumir o cargo, que convocou auxiliares que nem Fernandinho Beira Mar aceitaria. Caiu ,até agora um ministro, a cada mês, por conta de denúncias de irregularidades e desvios. O Presidente da Câmara está preso, o Presidente do Senado tornou-se réu e o líder do presidente  no Senado é o Jucá , aquele que melhor definiu a necessidade do golpe : estancar a sangria.
                                       A Lava-a-Jato faria um bem imenso ao país, se não fosse caolha , se seus dirigentes não atirassem em todos os pássaros e não tivessem um cuidado todo especial para com a preservação de um dó deles: os tucanos. Com medidas seguidamente ao arrepio da Constituição, instâncias superiores omissas, salários estratosféricos, a quem devemos recorrer , ao Chapolin Colorado ? Aos poucos a população vai percebendo quem deve pagar o pato da FIESP : o povo ! Seus direitos têm sido continuamente cassados, o desemprego vai às alturas, o PIB mergulha no pântano, o pouco que restava do patrimônio público vai sendo entregue de mão beijada ao capital estrangeiro, a desigualdade social volta a crescer e com ela suas tensões.   O remédio amargo, que fossiliza o Brasil por vinte anos, não vai surtir efeito. Estamos na UTI , com o governo respirando com ajuda de  aparelhos midiáticos !
                                  As classes mais abastadas que lutaram desesperadamente pelo golpe , embasbacas , se calam. As panelas de teflon já não soam. As camisas verde-amarelas estão mofando no baú. Por que ? Não eram todos bem intencionados, revoltados off e on line com a corrupção? Agora ela está mais que nunca escancarada, as vísceras da política estão expostas. As delações atingirão mais de cem deputados. Cozinheiros da nação, vamos à luta ! A corrupção não era uma ilhazinha no oceano da política brasileira, como concluiria nosso Simão Bacamarte, a corrupção é todo um continente e, talvez, todo o planeta !
                                    Mas tudo isto não era previsível?  As razões que levaram à defenestração de uma presidenta eleita nada tinham a ver com boas intenções. É o mesmo movimento separatista que , historicamente,  alimentou a escravidão por quase quatro séculos, que destruiu o arraial de Canudos, que bombardeou o Caldeirão !  Não dá para viver bem na Casa Grande se não se tem a Senzala do lado. A felicidade de cada um de nós depende da desgraça do outro. Só nos satisfazemos e nos sentimos plenos, comparando-nos com a penúria , a fome, a miséria do vizinho. Sem este contraste, profundamente anticristão, no país que se autoproclama o mais católico do mundo, não nos sentimos completos. A minha Ferrari só tem importância se for única,  se todos os outros andarem de jumento.
                                      Agora, os mesmos filhinhos do papai que gritam nas redes sociais contra a Ditadura de Cuba, saem nas ruas pedindo a volta dos militares, claro só possível num estado de exceção. Computam os que foram mortos na Revolução Cubana por perseguição ideológica, mas não conseguem fazer as contas dos que morreram no Brasil,  nos últimos sessenta anos,  de causas perfeitamente evitáveis como fome, diarreia, violência urbana, infecções respiratórias, miséria, incúria governamental.  Se opõem a que juízes e promotores respondam por crimes de responsabilidade, como se os magistrados, infalíveis e imaculados, fizessem parte das hostes celestiais e só tivessem que prestar contas ao criador. Ah mas se revoltam quando juízes matam pessoas como em Sobral e vivem soltos; quando desembargadores vendem sentenças e pegam por pena apenas a aposentadoria; quando policiais enquadram magistrados dirigindo sem documentação e embriagados e , ao invés de condecorados, são penalizados por terem cumprido a lei.
                                        Estamos vivendo um momento crítico no país, talvez um dos mais sérios da nossa história. O primeiro passo para começarmos a pôr o veículo nos trilhos é entender que fomos nós mesmo os responsáveis pelo descarrilamento.  Não somos vítimas , mas agentes e atores ativos da nossa tragédia: quando elegemos e reelegemos políticos corruptos e iguaizinhos --- imagem e semelhança-- ao grosso da população brasileira; quando rasgamos a Constituição  ao doce sabor dos nossos mais escusos interesses; quando nos imbuímos da certeza que para a lua brilhar e reluzir no céu é imprescindível que exista uma outra face oculta, onde todas as perversões podem acontecer sem o nosso conhecimento.


Crato, 02 de Dezembro de 2016   

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Discurso de Abidoral Jamacaru na Câmara Municipal de Crato

A CIDADE DA CULTURA E A CULTURA DA CIDADE


                                              Resultado de imagem para abidoral jamacaru  A Cultura de um povo é aquele complexo que inclui suas crenças, sua Arte, suas leis, sua moral, seu conhecimento, seus costumes e hábitos. É a Cultura que identifica uma civilização. Quando estudamos civilizações antigas como os Sumérios, os Egípcios, os Gregos e Romanos é através da Cultura desses povos ( sua música, sua poesia, sua pintura , escultura e sua língua) que conseguimos entender como eram e como funcionavam essas sociedades. É a Cultura que nos dá uma visão do nosso passado, que baliza o nosso presente e aponta a direção do nosso futuro.
                            O Crato carrega consigo , historicamente, o legado de Cidade da Cultura. Esse título não nos foi concedido por mero acaso. Aqui tivemos o primeiro grito republicano no Brasil, entoado por D. Bárbara, Tristão e José Martiniano. Publicamos o primeiro jornal do interior do estado, “O Araripe, em meados do Século XIX. Formamos a primeira médica do nordeste,  Amélia Benébien. Fundamos o primeiro cinema do interior do Ceará, o “Paraíso”,  em 1911. Os primeiros albores do Teatro caririense despertaram aqui, assim como o primeiro curso secundário do interior ( o Seminário São José) e  a primeira Universidade do Sul cearense. Mantemos atualmente instituições culturais importantes como Instituto Cultural do Cariri, a SOLIBEL, a SCAC, a Academia dos Cordelistas, a Editora A Província, a Fundação Elói Teles. A Cultura de Tradição com suas Bandas Cabaçais, seus Reisados, Maneiros-Pau, Cocos e Lapinhas , encabeçada por incontáveis Mestres da Cultura de Tradição Popular, luta, incessantemente, pela preservação das nossas mais profundas raízes. Pululam, por aqui ,entre filhos reais e adotivos,  poetas, músicos, artistas plásticos, escritores , atores,  dramaturgos, cineastas, muitos de renome internacional.
                            Nos últimos tempos, no entanto, o Crato tem, politicamente, deixado de lado sua vocação mais importante,  o que tem coincidido com nossa visível decadência na região. Destruímos quase todo nosso patrimônio arquitetônico, fechamos nossas salas de cinema, o nosso teatro municipal encontra-se em situação calamitosa, assim como nosso Museu Histórico e de Artes Plásticas. Já fizemos circular mais de 170 jornais, hoje já não possuímos um só de tiragem regular. A Biblioteca da Cidade da Cultura tem acervo precaríssimo. A Fundação J. de Figueiredo Filho que teria a precípua função de alavancar nossas manifestações culturais se tornou um mero cabide de emprego, nunca conseguiu exercer suas reais funções.  A Cidade da Cultura tem sido uma verdadeira madrasta para com seus artistas locais. Não temos agenda cultural organizada. Rádio e Imprensa locais  abrem pouco espaço para nossos artistas. Em seguidas gestões, a Secretaria de Cultura não consegue exercer suas atividades, principalmente por conta de não ter orçamentação adequada. A mais importante festa da cidade, a Expocrato, optou por eventos e shows de mero entretenimento, com cachês exorbitantes, a troco de negligenciar todos os artistas caririenses que não encontram abrigo para dar visibilidade a suas Artes. O público mais exigente  tem simplesmente se esvaído em busca de alternativas de maior qualidade como o Festival de Inverno de Garanhuns em Pernambuco.
                            A hecatombe Cultural da cidade está implicitamente ligada  ao arrefecimento do nosso fulgor econômico. Hoje a Economia Cultural é o setor de maior dinamismo na economia mundial , houve um crescimento de 6,3% nos últimos anos, quando a economia mundial cresceu apenas 5,7% . A Economia Cultural   corresponde atualmente a 7% do PIB mundial. Em 2006,  tínhamos no Brasil mais de 300.000 empresas culturais que geravam  quase 2 milhões de empregos formais. Isto com um investimento de apenas 0,65% dos orçamentos das prefeituras e autarquias, quando a UNESCO propõe que se invista no mínimo 2%. Os Poderes Executivo, Legislativo e a Iniciativa Privada precisam acordar para esta realidade. O soerguimento da Cidade do Crato depende intrinsecamente de investimentos sérios e permanentes na nossa histórica vocação cultural.
                            Entendo que junto comigo estão sendo homenageados todos aqueles artistas  que trilham por este mesmo caminho tortuoso mas essencial. Agradeço ao Poder Legislativo , a minha família,  a todos os amigos e ao público que compartilham comigo desse  momento mágico. São instantes assim que me fazem perceber ter valido a pena dedicar quase meio  século da minha existência  a tornar o mundo mais sonoro e mais bonito.
Muito Obrigado !  


                             

         ( Pronunciamento de Abidoral Jamacaru no recebimento do Prêmio Elói Teles, na Câmara Municipal de Crato em 22/08/2016)             

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Que Crato salta das urnas de Outubro ?



                                                        J. Flávio Vieira

                                               Passado o período eleitoral, as coisas aparentemente voltam ao ritmo menos frenético de sempre. Perdedores , babões , puxa-sacos recolhem-se ao anonimato, geralmente escondendo as provas que os ligavam diretamente ao crime. Os vencedores  empertigam-se , mantêm um certo ar aristocrático, dividindo-se entre o bulling aos adversários abatidos e a luta renhida por cargos e colocações no futuro governo. Até o povaréu, que geralmente serve de mero figurino nestas apresentações, comemora a vitória, ou lamenta a surra,  como se se tratasse do seu time de preferência em final de campeonato.
                            Reconheço que me dirigi às urnas meio ressabiado. Primeiro porque acabava de descobrir, neste processo vil porque passa o Brasil, que meu título de eleitor  é um mero objeto decorativo. A grande festa democrática , na verdade, é um jogo de cartas marcadas. As urnas servem apenas para ratificar o poder econômico, como poder político. Se por acaso se rebelarem as urnas , juntam-se quatro centenas de marginais e as jogam no lixo. Fiz de conta, assim mesmo, que o título tinha alguma serventia e me dirigi à seção acreditando que era importante, apesar dos pesares , cumprir meus deveres como cidadão e escolher  os menos piores.
                            Baixada a poeira das emoções, nos veremos, a partir de janeiro,  diante de novas administrações na Câmara e Paço Municipais. Apesar do retrospecto profundamente negativo dos rumos tomados pela cidade de Crato nos últimos 35 anos, torço para que o bonde volte aos trilhos  e que o barco à deriva ao menos consiga encontrar um porto a se dirigir. Nos últimos anos, o Crato, a antiga “Pérola do Cariri” , viu sua joia transformar-se em simples bijuteria. Fomos, disparadamente, o município caririense que mais murchou e perdeu brilho nos últimos tempos. Somos  hoje uma mera caricatura.  A administração atual parece ter colocado a última pá de barro nesta inumação progressiva e inexorável. Como médico, percebo que o prognóstico desse doente, à beira da cova, não é dos mais auspiciosos, mas existindo ainda alguma centelha de vida, sempre sobrevive , também alguma esperança.
                            Torço, assim, para que a futura Câmara Municipal, que teve renovação considerável do seu plantel, deixe de ser apenas um balcão de negócios escusos, uma mera Casa de Leilões. Que legislem, que trabalhem não duas vezes por semana nas suas sessões que às vezes não duram uma hora. Pensem no bem da cidade, acima de tudo,  aprovem conscientemente o que possa engrandecer o município e fiscalizem a aplicação dos recursos comuns. Cada um lute pelas reivindicações coletivas das suas áreas de apoio, mas não esqueçam da cidade como um todo, em todas suas diversidade e complexidade. Quando o navio soçobra leva consigo todos os tripulantes !
                            Torço, também, para que o futuro governo municipal lute desesperadamente para que possamos recuperar o tempo perdido no último quartel. Dentro de recursos federais cada dia mais escassos, de arrecadação municipal em baixa,  mais que nunca é necessário priorizar as verbas para as áreas mais críticas. Não somos ingênuos ao ponto de imaginar que o futuro gestor não tem seus compromissos eleitorais, deve ter , no entanto, a inteligência de utilizar os mais capazes assessores da sua base de apoio. Áreas como Saúde, Educação e Cultura  precisam ser encabeçadas por técnicos da mais alta qualificação, já não cabem, nos dias de hoje, meros marionetes, amadores e simples prepostos. O futuro administrador terá, necessariamente, que entender o Crato como integrante de um Cariri praticamente conurbado. Será necessário, quebrar o nosso bairrismo crônico e  manter parcerias próximas com Juazeiro, Barbalha, Brejo Santo e demais cidades ,  com fito de conjuntamente tentar resolver problemas e obstáculos comuns. Carecemos, eternamente, de obras mínimas de infraestrutura como calçamento de ruas, reforma de estradas vicinais, saneamento urbano, construção de espaços de convivência como praças e logradouros. Temos a URCA que precisa ser vista carinhosamente como um importante fator no desenvolvimento das políticas locais.     E o mais importante, na minha visão,  é não perder o foco no sentido de impulsionar a Cidade do Crato nas suas precípuas e históricas vocações, tendo um olhar especial para a forte Cultura local e o nosso gigantesco patrimônio ecológico. Além de tudo, depois de muitos anos, temos agora um alinhamento de planetas com o Governo Estadual, multivitorioso  em eleições locais, além de ter bebido, desde criancinha, as benfazejas águas das nossas fontes.
                            Por tudo isso, me sobra ainda algum otimismo.  Faço votos para que Zé Ayrton e André Barreto possam nos restituir um pouco do fulgor de outrora. Nem precisamos de uma economia intensamente pujante e de um comércio voraz.  Basta-nos  uma cidadezinha  alegre, justa, acessível,  brejeira, saudável, musical em que seus habitantes , a cada dia, possam louvar o milagre  da vida com seus incontáveis mistérios.

Crato, 07/10/16