sexta-feira, 23 de março de 2018

Blackout



                                              
O blackout durou apenas algumas horas. De repente, os homens foram arrancados das suas rotinas, como um carro que , a contragosto, deixa a autoestrada e envereda dor veredas íngremes e esburacadas. O celular deixou de ser um utensílio vital, o computador  tornou-se um trambolho no canto da sala, a Internet desconectou a aldeia global. A TV, momentaneamente, perdeu sua capacidade hipnótica e manipuladora: olhos apagados já não mais cuspiu sentenças como um oráculo de Delfos nesses tempos igualmente sombrios. Em meio à escuridão,  lamparinas e velas bruxuleantes revelavam vultos aracnídeos  esgueirando-se ,em câmara lenta,  confundindo-se com as sombras projetadas  nas paredes. Carros , temerosos como seus motoristas, arrastavam-se,  paquidermicamente,  nos cruzamentos que haviam perdido a bússola dos  sinais de trânsito. O Comércio e a Indústria viram-se  tolhidos  de seus motores propulsivos. Alguns vultos até ensaiaram colocar novamente as cadeiras na calçada, agora sem a ditadura compulsiva da televisão da sala. Súbito, o nosso mundo reduziu-se às minúsculas dimensões da nossa cidade, da nossa rua, das nossas casas, dos nossos quartos.
                                               Incrivelmente, descobrimos que havia, sim,  uma lua no céu, agora já sem  a concorrência das luzes de neon.  Uma lua nos últimos tempos com suas duas faces ocultas,  estendeu, novamente,  sua coifa argêntea    , hoje,  monopólio dos astrônomos ,  viu-se devolvida aos enamorados. O escurinho passou, novamente, a ser cúmplice da paixão e a leitura em Braile mostrou  sua importância expandindo-se além dos muros do Instituto Benjamim Constant. Alargaram-se os horizontes dos outros quatro sentidos.  Reaprendemos, rapidamente a revelarmo-nos,  como fotografia,  nas câmaras escuras  deste mundo a media luz. As nuances passaram a ser reveladas e cultuadas. Na treva, pequenos detalhes, discretos matizes defenestram, muitas vezes, percepções até então desconhecidas. No breu , como na vida, essas percepções são meros simulacros, silhuetas de uma verdade perseguida e, eternamente, inalcançada.
                                               A penumbra nos trouxe a revelação de que existe sim, um outro mundo vívido à nossa volta, longe dos holofotes da realidade cotidiana.  Somos meros fantasmas neste planeta, vagando, caoticamente,  entre luzes e  sombras.

Crato, 23/03/2018      

sexta-feira, 16 de março de 2018

Uma rosa para Marielle


Houve um período em que vivendo no topo das árvores, num dos maiores saltos evolutivos da nossa história, o primeiro hominídeo decidiu que já era tempo de descer ao solo e conquistar seu espaço na face da terra. Sabia, de antemão, que eram mínimas suas possibilidades de sobrevivência: não tinha a velocidade dos leopardos; faltava-lhe a amplitude de audição dos lobos; seus olhos não se faziam penetrantes como os do lince  e da águia.  Deve ter perecido nas primeiras tentativas, mas abriu os horizontes para todos os da sua espécie, num leque inesgotável de possibilidades e de riscos. Sem aquele ímpeto primal, estaríamos ainda hoje disputando frutos com nossos irmãos chimpanzés e macacos prego. E durante todo nosso percurso neste planeta, ainda tão curto e tumultuoso, sempre dependemos dos sucessores visionários daquele hominídeo primal que conseguiu ver além das fruteiras do seu pomar, que fugiu da estabilidade da  matilha e abriu picadas próprias e novas veredas, mesmo com o iminente perigo de ser devorado antes de alcançar a primeira clareira.


                                   Do homem-caixa, do trabalhador-relógio-de-ponto, do operário-padrão-obediente, do macho-sim-senhor, da mulher-livro-de-tombo, da fêmea-inhô-sim, do Homo domesticus não se pode esperar muito. Flutuarão entre o berço e a cova sem deixar uma marca, uma nódoa, um vestígio na superfície do tempo. De dentro do seu aquário, que imaginam corresponder a toda amplitude do  universo, comerão satisfeitos a sua ração e, enquanto aguardam a inexorável mudança de águas, pôr-se-ão a criticar   os outros peixinhos que resolveram pular por sobre o vidro protetor, mesmo com a ameaça de se verem sufocados sem a água em suas brânquias. Cristo, Martin Luther King, Miguel Servet, Tiradentes, Ghandi, Giordano Bruno... Há sempre uma cruz, fincada em algum Gólgota, esperando por quem quebra as fronteiras do conforto, da acomodação e resolve comer os frutos da árvore do Conhecimento.
                                   Nestes dias, a mesma história milenar se repetiu. No Rio, uma vereadora e líder comunitária, Marielle Franco, foi executada , junto do seu  motorista , sumariamente, com armas de uso exclusivo da Polícia.  Seu crime foi exatamente igual a de muitos seus sucessores nos extermínios periódicos. Vindo da Favela da Maré, fez-se defensora dos mais pobres, das prostitutas, dos indefesos, dos continuamente massacrados pelo estado que ao invés de subir os morros com hospitais, escolas, livros, cultura e cidadania, presenteia-o com metralhadoras, AR-15 e socos, balas e repressão. Isso tudo no Rio de Janeiro , em intervenção militar, num perigoso  tubo de ensaio para a reconsolidação definitiva da Ditadura armada no país. A revolta popular com o assassínio que tem nuances similares ao de Edson Luiz, há meio século, foi contrabalançada por uma chusma de ataques de uma extrema direita em franca ascensão no Brasil, para eles (a história anda  em bumerangue)  Marielle teria colhido o que plantou. Os comentários dos soldados romanos devem ter sido parecidos quando Cristo, Paulo e Pedro estavam pregados na cruz. Mais que um assassínio brutal e inqualificável, perpetrado, possivelmente a mando do estado e por funcionários pagos pelos nossos impostos, vem anexo o recadinho, com a clara certeza de impunidade ( não muito diferente daquele mandado pela Corte Portuguesa, no esquartejamento de Tiradentes) : “ Quem não se enquadrar, vai provar do mesmo cadafalso!”
                                   Aos que se põem a saborear com a execução pérfida de Marielle, vale lembrar o restinho da história. A fuga do primeiro símio do topo da árvore levou-nos à conquista do planeta. O Império Romano que sojigou Cristo e o Britânico que massacrou Gandhi soçobraram e eles, ao contrário, esquiam impávidos e intocáveis  na memória do povo.  Os morros estão repletos de Marielles ( há uma Canudos em cada Favela) e é sempre bom lembrar que a estrada da violência tem sempre mão e contramão. Mais dia, menos dia, como diria Vandré, virá “A volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar”. O ato de despetalar ferozmente uma Rosa, felizmente, não tem o poder de impedir  a eclosão da primavera: as flores desabrocharão mais fortes, brilhantes e reluzentes.

sexta-feira, 9 de março de 2018

Luz, Sombra, Areia


                                               

                                               De repente -- sabe-se lá explicar os caprichos da natureza!-- o mar encrespa-se, surta e faz com que suas ondas se avolumem em feitio de tsunami, como que , em pesadelo, recordassem cataclísmicos tempos diluvianos. Talvez se revolte, vez por outra, contra as seguidas violações que se lhe vão perpetrando: as margens que pouco a pouco lhe são surripiadas, em nome da especulação imobiliária; a latrina em que o querem transformar, com a seguida poluição que chamam de progresso; a tranquilidade que lhe roubam com o riscar de navios, botes, lanchas e jet-skis. Vez por outra, num ataque de furor, suas águas ganham força , gritam:  Basta!  Elevam-se e invadem ruas, prédios, pontes, arrastando tudo que encontram pela frente. Foi o que aconteceu em Fortaleza, nesta última semana.

                                   Embriagados com tanta violência e poluição, os mares bravios de José de Alencar amanheceram de ressaca e de mal humor. Resolveram mostrar toda braveza: inundaram ruas próximas às praias paradisíacas da capital, banharam a ponte metálica com duchas capazes de arrancar qualquer ceroto. Barracas, que  roubam dos olhos de todos a beleza das marinas, praias privatizadas por espertalhões  viram-se, súbito, imersas  em sal, ungidas  num ritual  de limpeza e purificação.
                                   Nas longarinas da Ponte dos Ingleses, a Femme Bateau, de Sérvulo Esmeraldo, contrastava seus negros , iracêmicos , vaporosos e esfumaçantes  cabelos com o alvor azulado das nuvens e o verde musgo das ondas. Ali estava impávida, há muitos anos, náutica, singrando  mares tranquilos, sonhando com ímpetos de preamar. Sentia-se vezes aluada, deslizando, etérea sobre o Mar da Tranquilidade. Entediava-se, frequentemente, com passantes ,  olhos fixos em Miami,  corações transbordando de sonhos mercantis, incapazes de degustar a beleza que se derramava, aos borbotões, bem ali na sua frente. Enfastiada, a Femme Bateau montou na primeira carretinha, pegou carona no enorme jacaré e pôs-se  a  surfar nas ondas gigantes que banhavam a Ponte Metálica. Mergulhou com peixes-palhaço, saltitou com golfinhos, coçou as costas em recife de corais. Quem sabe encontrou-se com Sérvulo, em profundidades mais abissais, que lhe  mostrou um mundo menos geométrico, menos euclidiano, bem diferente deste daqui: lá  a Luz sobrepuja, em muito,  às sombras.
                                   Instada por amigos, mesmo a contragosto, a Femme deu meia volta no seu Bateau. Vai descansar alguns dias da sua viagem até deslizar, novamente, das longarinas da Ponte dos Ingleses. Depois de qualquer viagem, percebe-se nunca é o mesmo barco que retorna. Lançará os cabelos esvoaçantes, como fumaça, pelo céu de anil. Quem sabe, depois da tormenta, o continente descubra que o mundo não precisa ser tão cartesiano; que a vida não pode ser resumida numa planilha do Excel; que a beleza está a um palmo da nossa vista e que é possível sim singrar nas suas ondas, embebedando-se de luz, antes que o tsunami chegue com suas lições de sombra e de areia.


Crato, 09/03/2018        

sexta-feira, 2 de março de 2018

Entressafra




                                               O velho Filogônio Avelino Freixeiras  criou alma nova, quando o compadre deu-lhe a notícia. A novidade funcionou como se acendesse o pavio de um fogo de artifício. É que a coisa não estava de brincadeira, não. São Pedro desmaiara ou caíra numa longa modorra lá pra riba das nuvens. Cinco anos de seca braba, sem cair pingo, já tinha peixe de três palmos que nem sabia nadar! Freixeiras, então, saltou das tamancas com as alvíssaras trazidas pelo compadre Fulgêncio: o Banco do governo, em Matozinho,  estava  dando um empréstimo de entressafra para os agricultores, uma ajudazinha do governo que andava muito sensível e solidário,  pois aquele era ano de eleição para presidente e deputado. Experiente, Filogônio entendeu, do alto dos seus setenta e lá vai lajedo,  que aquilo devia ser uma esmolazinha, uma gota d´água em língua de papagaio. Mas , para quem já está desenganado, qualquer chá de  pitanga é antibiótico de última geração. Cedinho, no outro dia , antes da abertura da agência, pegou a fila que já dobrava a esquina, serpenteando as ruas e calçadas, feito cobra jiboia em campo de cansanção. Já de tardezinha, uma moça simpática o atendeu. Filogônio levava até um matulão  para já trazer o dinheiro emprestado. Ficou meio capiongo quando a moça encheu seu utensílio não com a grana sonhada mas com um extensa relação de documentos necessários para dar entrada no processo.
                                   --- Seu Filogônio ! Traga esses documentos que a gente preenche seu cadastro. Sendo aprovado, o senhor vai receber a verba !
                                   --- Oxe ! E não levo né hoje, não ? Quem precisava desse dinheiro trezantonte... !
                                   Filogônio voltou desapontado. Já vinha meio cabreiro: esmola grande na cuia, o cego desconfia ! Durante a semana pôs-se a tentar juntar os documentos: RG, CPF, Escritura do Terreno, Imposto Rural,  certidão de casamento dele e do escancha-avô, o exame da goma, a Cópia da Carta de Pero Vaz de Caminha, Comprovação de Residência de Belchior e do Padre dos Balões... O diabo a sete !  
                                   Uns quinze dias depois, com a maçaroca de papéis, voltou para a fila do Banco que, parece, tinha sido borrifada com fermento Royal. Esperou pacientemente sua vez de ser atendido. No final do expediente,  recebeu uma senha para retornar dois dias depois. A mocinha, sentada diante de uma máquina de escrever Olivetti, pediu-lhe os documentos, verificou atentamente a relação, ticando com um lápis de ponta fina, nos bordos dos papéis. Confirmou , então, para seu alívio que estava tudo ok e que iria preencher o cadastro. Enfiou uma folha de papel enorme  no rolo da máquina e iniciou o interrogatório, enquanto datilografava pacientemente os dados obtidos. Nomes dele, do pai, da mãe, da esposa, dos filhos; endereços de todos os envolvidos;  escolaridade; religião... Já anoitecia quando , umas três horas depois, a bancária entrou nos dados mais financeiros do cadastro. Filogônio espavorido já fumava numa quenga.
                                   --- O Senhor tem algum bem, seu Filogônio ?
                                   --- Tenho:  minha mulher Filismina e Juclécia, uma quenga da rua do caneco amassado --  informou  o velho.
                                   A mocinha, então, explicou que eram bens materiais: terrenos, carros, imóveis , etc.  e não bens sentimentais. Filogônio, então, completou:
                                   --- Ah , sim ! E lá sobrou nada, numa seca miserável dessa !?  Anote aí : Uma casa velha de taipa, uma burra manca e uma cachorra boa de preá : Cruvina !
                                   A bancária, meio agoniada,  pediu, em seguida, duas pessoas suas conhecidas que pudessem servir de referência. O velho Avelino, de chofre, lhe passou:
                                   --- Bote aí : Criseudo Catonho e Juciclébio Arnóbio, do Sítio Zabelê !
                                   --- E quem são eles ? - Quis saber a datilografista.
                                   --- Oxente, tu tá doida ? Todo mundo conhece Criseudo e Juciclébio nestas bandas! Tu num é daqui, não ?  Criseudo é  cobrador  de um crediarista. E Juciclébio, tu num lembra , não ? Ele é adivinhador de pule de jogo do bicho ! Sonhou , ele destrincha e diz logo qual o número que a pessoa deve jogar.
                                   O interrogatório longo e cansativo continuou. Num momento, vexado , Filogônio quis saber quanto dinheiro, se tudo fosse aprovado, ele poderia tomar emprestado. A moça , para seu desalento, informou  que o teto máximo seria de uns trezentos reais, caso sua proposta fosse aprovada. Teria dois anos para pagar com juros de 2,5 % ao mês. Antes que um Avelino estropiado, protestasse , ela mandou a pergunta seguinte do interrogatório. Queria saber se ele já tinha feito alguma operação bancária naquela instituição.
                                   --- Seu Filogônio, o senhor já fez alguma operação?
                                   O velho, exasperado, soltou brasa para tudo quanto é lado:
                                   --- Já minha, senhora ! Operei uma tal de apendicique, uns dez anos atrás  e quase morro! Passei uns três meses botando pus pela barriga, fiquei arrombado que só um mané-magro-de-aroeira. Se pra conseguir essa merrecazinha desse Banco , for preciso eu me operar de novo, pode ficar com o dinheiro. Fique com ele, Sá Dona !  Compre uma Hylux !


Crato, 02/03/2018  

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Gatos & Lebres

Cleudo despertou na quarta, no meio da tarde,  meio Rimbaud, após a Temporada no Inferno. Na boca, o gosto indefectível do cabo do guarda-chuva. Sons múltiplos , ébrios e dispersos ainda reverberavam-lhe  nos tímpanos, como carrilhões à distância. Odores os mais estranhos subiam-lhe pelas narinas como se enfrentassem as íngremes ladeiras dos Quatro Cantos: o acre cheiro do xixi e  o oleoso cetônico  das frituras mesclavam-se com o gasturento pituim, o  álcool, a maresia dos baseados, raramente contrabalançados pela fragrância saneadora da loló e do lança. No corpo ainda estavam atavicamente marcadas, como uma tatuagem, as cicatrizes muitas dos dias de folia; mas que agora, nas Cinzas, perspegavam-lhe uma incômoda sensação , como as marcas  indeléveis de um crime perpetrado. Zonzo, buscou o chuveiro como uma tentativa de ressureição mas, também, como se apagasse as provas de um ilícito. A água, escorrendo corpo abaixo, como uma massagem, aos poucos lhe foi trazendo flashes,  ainda que confusos, do dia anterior.
                                   Soltara-se , à deriva, pelas ladeiras de Olinda, já de manhãzinha. Uma Via Sacra pelas bodegas do Guadalupe, pelo Bar do Reggae, pelo Cavalo Marinho de Diles. Depois , sem nenhum amparo, seguiu pelo Amparo , atrás de  Troças a esmo, sem GPS e sem brevê : “O Ceroula”, o “Taqui Procês”, o “Segura o Cu”, o “Marim dos Caetés”, o “Eu Acho é Pouco” , o “Elefante”. Saltitava de bloco em bloco, como borboleta em campo de girassol. Lembrou que encontrou alguns amigos no percurso e acabou cultivando outros tantos. O frevo corria solto com sua batida frenética e suas circunvoluções em montanha russa. Na pista, o passo acrobático investia-se de equilíbrio de colibri e piruetas  de malabares.
                                   As imagens pareciam-lhe mais nítidas e sequenciais até o finalzinho da tarde, a partir daí, as recordações apareciam estroboscopicamente entrecortadas, sem conexões claras. O porre certamente contribuíra para a amnésia, como também as talagadas de loló e as “bolas” no “Maconhão”. Não conseguira decifrar o mistério da sua volta à casa. Como retornara ? Que alma caridosa o ajudara ?  De repente, como um clarão, abriu-se uma clareira na sua mente. Viu-se no Alto da Sé agarrado com uma loura escultural, aos beijos, envolto numa aula de nível superior de alfabetização em Braile. Um nome, de repente, saltou-lhe na cabeça : Iris ! Via-se numa viagem astral, como se do espaço observasse a repetição da cena, quando, nos amassos, tentava derrubar o muro de um casarão de mais de cem anos. Depois , viu-se com Iris, entre lençóis, numa casa pequena, de Olinda, dormindo de conchinha, ambos com sorrisos  pós-prandiais, fartos e realizados. Estes foram os derradeiros quadros que conseguiu arrancar da memória, como a cena final de um filme feliz : The End.
                                   Pelo resto do dia, Cleudo não conseguiu arrancar Iris dos  pensamentos. Onde estaria agora? Ainda a encontraria algum dia, para as cenas de próximos capítulos? Ligou para alguns amigos mais próximos, mas ninguém deu notícia do acontecido. Não havia testemunhas. Teria sido um sonho?
                                   Na quinta feira, começou o ano no Brasil. Os homens arrancaram as antigas máscaras momescas e colocaram as outras do seu cotidiano. Cleudo voltou ao trabalho, aposentando as serpentinas e os confetes. Aos poucos, Iris  foi-se  tornando etérea, evaporando-se junto com as lembranças do Carnaval. Na semana seguinte, no entanto, a lavadeira trouxe-lhe as roupas lavadas e engomadas. Junto devolveu algum dinheiro e papéis que ela havia encontrado na bermuda olindense. Enquanto separava o joio do trigo, encontrou um cartão de visitas lilás que lhe prendeu a  atenção.




IRISMAR M. ANJO
MASSOTERAPEUTA
Rua  do Rosário , 320
Bom Sucesso - Olinda - PE
Fone- (81) 9989374022
                                  
                                    




                                              Abriu as janelas do rosto num sorriso. O destino parece  trouxera de volta seu amor carnavalesco. Iris voltava a ser uma realidade palpável, pensou consigo mesmo, enquanto degustava o adjetivo mais que adequado. Pensou em ligar imediatamente, identificar-se, marcar encontro e a sequência daquilo que pensara ser um filme, mas agora descobria que se tornaria uma série. Olhou o cartão, novamente, com cuidado e seu entusiasmo, de repente, enuviou-se.  O nome Irismar lhe pareceu meio dúbio: atirava para tudo quanto era de lado. Havia , ainda, uma mescla do  prenome da sua Iris  com o sobrenome que parecia mais uma premonição do que um substantivo próprio. Preferiu deixar que a Iris ,que viera num sonho, esfumaçasse-se naquela típica fugacidade impressa em todas as coisas do Reinado de Momo. Como se mordesse um caju e se deleitasse com o inefável docinho escorrendo pelos cantos da boca, mesmo sabendo que ele podia ser apenas o prenúncio do travo que  lhe embotaria o paladar no finalzinho do último ato.

Crato, 23/02/2018  
                                  


sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Longa vida, ágeis mãos...


“Eu sou uma parte de tudo, tal
como a hora é uma parte do dia.”
Epicteto

               
                                              
A vida, amigos, olhando assim de relance, parece carregar consigo uma injustiça congênita. Alguns nascem em palácios e outros em manjedouras. As oportunidades nos são distribuídas de forma díspare e pouco  equânime. Numa extremidade muitos passam fome, na outra alguns fazem dieta. Se repararmos direitinho, no entanto, existe um socialismo vital que funciona como uma balança de precisão. A Morte nos iguala a todos: o produto final de sonhos, aspirações, ambições , querelas e vaidades  é sempre o mesmo : o pó. Além de tudo , equanimemente, a cada um de nós só é permitido viver um pequeno e ínfimo fragmento da história da humanidade. Com sorte, vararemos uma centúria, seremos testemunha ou protagonistas de alguns fatos históricos e o destino final de cada um , por mais aventuroso e épico que o pretendamos,  sempre desaguará na foz do esquecimento. A única possibilidade que nos resta para ampliar e esticar um pouco a pequena quantidade de vida que nos é presenteada,  é buscar fazê-la mais intensa, mais pulsante. Podemos turbiná-la com os combustíveis propulsivos mais corriqueiros: com Esportes, com Vícios, com Virtudes. Sempre é bom, no entanto, lembrar: se acendemos a vela nas duas extremidades, existe sempre a possibilidade de se ter um brilho bem mais intenso, mas , possivelmente, a parafina consumida rápido, tornará a luz mais incandescente, porém mais fugaz.
                                   Nestes dias comemoramos uma história de vida que, simplesmente, quebra a inexorabilidade desta regra. O percurso de um desses raros visionários que cedo entendeu : diante de uma tragédia social reiterada, planejada meticulosamente , sempre era possível fazer a nossa parte, mesmo ante as crônicas cegueira e surdo-mudez dos governos instituídos. O Padre Ágio Moreira escolheu o trabalho social como intensificador de sua existência. Intuitivamente, despertou para as forças libertadora e transgressora da Arte e foi assim que, há 50 anos, fundou a SOLIBEL -- Sociedade Lírica do Belmonte -- aqui em Crato. Inserida numa comunidade periférica e rural, de pequenos e pobres camponeses, a Música , simplesmente, mudou destinos, transformou mentes e corações, imantou gerações com novos valores e novos encantos, abrindo horizontes e perspectivas. É que a Arte tem esse poder único de conectar espíritos e de inseri-los como peça única e  insubstituível da grande colcha de retalhos universal. E imaginar que a música erudita, tida sempre como de elite e inalcançável aos mais humildes,  seria capaz de enfeitiçá-los e enebriá-los ! Emociona-nos ver, hoje,  a nobreza aplaudindo os humildes camponeses que provam que é possível manejar tão bem a enxada e a foice como o violino e o violoncelo ! Parece claro que todas as nossas diferenças  são uma questão inerente ao acesso e à oportunidade.
                                    Quebrando todas as normas, o brilho do nosso sacerdote o fez longevo, fazendo com que sua missão ultrapassasse uma centúria e, ao contrário do que seu nome pareceria indicar, não recebeu lucros da sua messe e do seu trabalho hercúleo nunca auferiu nenhum ágio.
                                   São estas pequenas e individuais ações que movem as catracas do mundo. A evolução da humanidade sempre dependeu de visionários que conseguem enxergar para além dos muros do seu pomar. Melhorar um pouquinho o colorido do meu retalho faz com que toda a colcha fique mais bela e mais fulgurante. Que país construiríamos,  se a caridade fosse substituída pela justiça social e se os governos instituídos gozassem da mesma força e sensibilidade do nosso Padre Ágio Moreira ?!  A SOLIBEL , apesar de todas as desesperanças e percalços dos últimos tempos , ensina-nos todo dia a música e a coreografia de novos tempos que se prenunciam.

Crato, 02/02/18
                                      
                                  

                                   

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

DE ALUÁ A GENGIBIRRA

O juiz Leandro Gebrônio  Pausínio  Neto  assumiu  a Comarca de Matozinho. Foi  como um  redemoinho  que caísse em palhiço  num quintal de beneficiamento de arroz. Brabo, sanguíneo, zoadento, com ele não tinha queré-qué-qué. Instigou e instrumentou a preguiçosa polícia local  a fazer campana e cair de pau em suspeitos : “Batam primeiro e perguntem depois!”. Perseguiu os paus de cana, os desocupados, proibiu festas e até criou uma espécie de lei marcial, com recolhimento noturno, mandando recolher à cadeia todo cidadão que fosse pego nas ruas depois das 23:00 H. Relacionava-se com poucas pessoas e ditava sentença como um Deus escrevendo nas tábuas de Moisés no Monte Horebe.  Mas se existia uma coisa que Gebrônio não tolerava e se mordia todo era com a simples aproximação de homossexuais que ele , profundamente religioso, tinha como uma aberração da natureza e vivia a vaticinar pelos cantos das salas :
                                   -- “Baitolagem é uma doença grave e não tem cura, temos que tanger esses frangos para longe daqui ! Se não cuidar vira epidemia ! Peia neles ! Ou viado com a safadeza ou procura outras granjas pra cacarejar !”
                                    Matozinho, sob o taco de Leandro, sentiu-se como em estado de sítio. A cidade perdeu o brilho, as ruas esvaziaram, as noites matozenses pareciam um teatro de sombras, com vultos esgueirando-se pelas esquinas e janelas,  feito almas penadas. Amantes esquivos, fofoqueiras diplomadas, papudinhos profissionais, larápios de carteirinha, rápido,  aprenderam a navegar nos novos e nevoentos horizontes gebrônicos.
                                   Aos poucos, os matutos de Matozinho começaram a descobrir que o preço da aparente paz trazida pelo tacape de Gebrônio tinha um valor muito alto. Entenderam, também, do alto de sua experiência, que por trás  dos moralismos desenfreados existe sempre algum segredo escuso, velado  e mal explicado. As pessoas que fecham as janelas para que a luz não entre no quarto carregam consigo sempre algum temor que às claras algum grande malfeito termine por ser revelado. E , num instante,  sacaram  que Leandro cobrava intransigentemente a aplicação dos ditames legais, mas , no dia a dia, pegava veredas e desvios juridícos com enorme facilidade, desde que alguém pagasse o pedágio. Era venal e vendia sentenças, sem nenhum pejo,  com a mesma desenvoltura que  Janjão da Botica negociava o sal amargo. Depois, algumas evidências que se foram acumulando acabaram por fechar o firo sobre a homofobia explícita de Gebrônio. Casado, com família estabelecida de mulher e três filhos, não perdia oportunidade para contar vantagens, espalhando para amigos mais próximos uma aura de Don Juan, de pegador, de limpa-trilho. Em uma festinha de  Natal, no Fórum, porém,  tomou um pouco mais de zinebra do que costumava  e, saltou de dentro do garanhão tantas vezes incensado, uma égua fogosa, arrisca  e faceira. “Quinca Despejo”, o Oficial de Justiça, entre dentes, foi o primeiro a cantar a pedra:
-- Vôte ! Esse aluá parece que é gimgibirra !
                                   Insinuações começaram a escorrer pelos cantos das ruas, sempre insinuadas e escapadas em sussurros. Todos temiam a arrogância e os frequentes rapapés do seu juiz. As peças do quebra-cabeças, no entanto, aos poucos,  se foram encaixando. Gebrônio contratou uma récua de rapazinhos para trabalhar na Secretaria do Fórum. Um deles, Eufrazino Cerqueira , era tido como o adolescente mais bem apessoado de Matozinho. Num átimo,  foi promovido a Assessor Especial da Comarca e passou a trabalhar , diretamente, na sala do juizado, junto com Leandro,  examinando com ele  processos que varavam a madrugada. Comentava-se na vila, maliciosamente,  que Eufrazino fora promovido e agora era quem cuidava da Vara do Gebrônio.
                                   No entanto, o que deixou , definitivamente, nosso juiz marcado na história da Vila de Matozinho, foi uma expressão que acabou caindo no gosto popular e que perdura ainda hoje, já apartada, pelo tempo, das suas origens. Leandro julgou um processo de estupro em que o acusado, um certo Juju Ferrabraz , um varapau de mais de dois metros, lenhador braçal de ofício, teria cometido não só o ato, mas fora apresentado, por todos, como de dotes jumentinos   avantajadíssimos. Apesar do estrupício causado , o juiz  entendeu que não havia provas suficientes para condenar o rapaz  e arquivou o processo. Consta da história, que corria de língua a língua, que , a partir daí, com ideias meio suicidas, passou o homem da beca a assediar Juju. Ferrabraz, de início, fez finca-pé e disse que não era naquela roça que ele costumava plantar mandioca, mas depois , entendeu, que se aceitasse, ficaria, de alguma maneira, livre para outras investidas , sob o beneplácito da justiça, agora também já beneficiada. Terminou por aceitar o encontro amoroso e confirmou com Eufrasino que ,  também além de amante eventual o papel de corretor de pintos para o juiz. O certo é que, num domingo,  Gebrônio partiu para o local deserto, previamente combinado, nas encostas da Serra da Jurumenha. Em lá chegando, estacionou o Simca preto. Juju ali se encontrava. Conduziu o meritíssimo até a borda da serra, próximo a uma barreira inescalável. Gebrônio baixou a honrável beca e ficou meio curvado para frente, esperando o desejado ataque pela retaguarda. Nisso, com o rabo do olho, cubou o ataque que lhe esperava saindo das braguilhas de Juju. Espantou-se com aquela jiboia longa, vultosa, grossa e latejante que parecia saltar das virilhas de um jumento de lote. Temendo a possibilidade do conteúdo ser maior que o continente, fez menção de desistir, começou a ciscar, com as calças prendendo-lhe as pernas, como se pretendesse subir a alta barreira onde estava encostado e escapar da investida tão desejada. Juju, não teve conversa mole, nem aceitou seu estrebuchar, agarrou-o pela cintura, sentando-lhe pua, enquanto soltava a expressão que acabou clássica em Matozinho :
                                   --- Num trasteje, não, doutor ! Num trasteje, não !
                                   A história correu de boca a boca, na velocidade da saliva, que algumas vezes, na física de Matozinho, sobrepujava à da luz. Gebrônio continuou, mesmo assim, sua saga moralista, suas perseguições e sua busca incessante pela pureza dos costumes da vila. Ninguém tinha a desfaçatez de deixar escapar a expressão ou dados sobre o rendez-vous Gebrônio-Juju na sua frente. Um dia, no entanto, Né de Firmino, matuto do pé rachado,  tinha combinado com o becado para julgar a seu favor uma questão de terra, em troca de dois contos de réis. No dia aprazado do julgamento, chegando ao Fórum, procurou Gebrônio que estava em outra audiência. Impaciente, na maior inocência desse mundo, abriu a porta, interrompendo a seção anterior à sua, indo diretamente ao assunto:
                                   --- Doutor juiz, eu já tô aqui esperando o senhor. Recebi a intimação que a impeleita é hoje. Trouxe aqui os dois contos que o senhor combinou comigo pra poder julgar a questão a meu favor !
                                   Vendo, de repente, revelada a falcatrua na frente de todo mundo, sentindo-se desrespeitado, Gebrônio soltou os cachorros:
                                   --- Cabra safado! Nojento ! Você tá querendo é me desrespeitar,  é, seu infeliz ? Chamem os guardas ! Vou mandar prender você por desacato à autoridade !
                                   Né de Firmino, no entanto, enfrentou a fera e não perdeu a pose e lascou, publicamente, a expressão que se tornou, a partir daí, imortal  em Matozinho :
                                   --- Num trasteje, não, doutor ! Num trasteje, não !


Crato, 26/01/2018