sábado, 7 de novembro de 2026

Dr. Chico José percorreu o mundo sem nunca ter saído do Crato

 

“A missão do jornalismo é confortar

os aflitos e afligir os confortáveis”

                              Finley Peter Dunne

 

 

                               Neste  06 de novembro, a Universidade Regional do Cariri, num ato de clarividência e justiça, outorgou o Título de Dr.Honoris Causa  ao jornalista cratense Francisco José de Brito. Chico José, como é carinhosamente conhecido por todos, deixou a sua cidade natal aos 11 anos, há mais de setenta está radicado no Recife. Este divórcio geográfico, no entanto, apenas fez com que as amarras históricas o ligassem cada vez mais às Terras de Frei Carlos . Hoje aposentado da vida de repórter, Chico percorre o país , ininterruptamente, proferindo palestras sobre o jornalismo e sobre sua gloriosa jornada. Só na Rede Globo de Televisão trabalhou por mais de quarenta anos e tem o recorde absoluto de edições do Globo Repórter, mais de uma centena de episódios. Só esse cardápio já seria suficiente para torná-lo um dos mais importantes e influentes jornalistas da história da Brasil. Sua grandeza, no entanto, sobrepassa fronteiras e limites bem difíceis de se aquilatar.

                               Alguns setores da Crítica Literária  colocam algumas objeções à importância do Romance de 30, que teve obras fabulosas como “Vidas Secas”, “A Bagaceira”, “Fogo Morto”, entre outras. Acreditam que são obras seminais e ajudaram sobremaneira a denunciar as desigualdades centenárias do Estado Brasileiro para com o Nordeste. Lembram, no entanto, que é possível que, por outro  lado, tenham carimbado a pecha de uma região pobre, atrasada e subdesenvolvida por uma preguiça atávica. Pois devemos muito ao jornalista cratense, a mudança desse paradigma. Fincado em Recife, Chico José recusou-se a ir para centros maiores e , inclusive, ser correspondente internacional. Dali começou a veicular um outro Nordeste, não só o das secas, da fome, da miséria. Devemos a Chico a difusão do Nordeste mágico e encantado: com seus mitos, suas festas mais soberbas e tradicionais, suas paisagens deslumbrantes, seus parques míticos. Com ele o Carnaval de Pernambuco tornou-se um evento digno do  Guiness, o mesmo aconteceu com o São João de Campina e Caruaru, A Serra da Capivara passou a ser um sítio arqueológico internacional. Junte-se a tudo isso sua visão apurada para a ecologia quando tornou Fernando de Noronha e incontáveis praias nordestinas igualáveis ao Caribe. No Centro Oeste , desvendou Bonito que, desde suas reportagens virais, transformou-a num paraíso turístico de fama mundial.  As Romarias de Juazeiro, o Círio de Nazaré tiveram visibilidade até então reduzida. Referende-se ainda  sua atuação franca e destemida junto aos indígenas da região Norte, quando denunciou um genocídio lento e continuado dos nossos povos originários. Não bastasse isso, Chico percorreu, como um andarilho, os cinco continentes mostrando as belezas recônditas em todas as partes do mundo. Nascido à beira da Chapada do Araripe  ele se encantou com a biodiversidade do planeta e quis conhecê-la nos seus mais íntimos detalhes pelo mundo afora.

                               Devemos ao cratense, ainda, uma batalha feroz contra o preconceito linguístico. A Televisão tinha como padrão o acento carioca. Exigia que todos jornalistas falassem chiando e cantando, como uma atriz de ópera. Com risco de demissão sumária, Chico se pôs contra essa falácia. O Brasil , miscigenado e continental, tinha vários sotaques, não havia uniformidade em nada, éramos diversos por natureza e, apesar disso, unos na essência, isso fazia parte da beleza da nossa gente. Essa foi mais uma batalha vencida e o caririense Chico José não precisou falar como se nascido no Leblon ou na Pedra da Gávea. Por essas e tantas outras, os colegas de trabalho o chamam de Coronel. O aguçado faro de repórter fez com que , em Recife, em 1987, Chico , fazendo cobertura de um sequestro, trocou-se por uma refém grávida. O caso teve repercussão nacional e fez com que a Globo proibisse, a partir daí, negociações semelhantes. Os repórteres deveriam cobrir a notícia e não fazer parte delas.

                               Chico é tão telúrico que tendo percorrido os sete mares, seu prato preferido não traz o chiquê do caviar ou dos frutos do mar e nem das saladas sofisticadas ( diz sempre que não é bode pra comer folha). Qual o seu prato preferido: Baião de Dois com pequi e paçoca.

                               Chico diz sempre que não gostava de redigir os textos que ia falar. Todas as reportagens saiam da sua boca, naturalmente, como se estivesse contando uma história na bagaceira de um engenho. Esta característica , difícil no jornalismo profissional, fez com que suas intervenções nos quatro cantos do mundo, soassem com uma naturalidade impressionante. Ele se comunica com o expectador como se conversassem nas cadeiras da calçada de noitinha. Por tudo isso, Chico é um ícone do jornalismo brasileiro, adorado e reverenciado por todo canto em que passa. Seus colegas de profissão, seus expectadores, seus admiradores sabem , perfeitamente, que Chico não é apenas um jornalista que hoje dependurou, em parte, o microfone. Estão diante de um ícone, um totem, um deus da comunicação. Um dos jornalistas mais importantes da história desse  país.

                               A URCA , que mudou todo o perfil educacional da nossa região, trazendo o conhecimento , o único instrumento possível de ascensão e  combate eficaz às desigualdades sociais, tem agora , no seu corpo docente, um dos mais renomados doutores da sua história, o Dr. Francisco José de Brito. Tão gigantesco que quando , em entrevistas é interrogado da sua naturalidade, se é nordestino, cearense ou brasileiro, se remete imediatamente ao antigo sonho da Província do Cariri: que nada, eu tive muita sorte !  Eu sou é Cratense !

Parabéns, Chico ! Orgulho da sua tribo !

Crato, 07/11/26

                

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