“A
missão do jornalismo é confortar
os
aflitos e afligir os confortáveis”
Finley Peter Dunne
Neste 06 de novembro, a Universidade Regional do
Cariri, num ato de clarividência e justiça, outorgou o Título de Dr.Honoris
Causa ao jornalista cratense Francisco
José de Brito. Chico José, como é carinhosamente conhecido por todos, deixou a
sua cidade natal aos 11 anos, há mais de setenta está radicado no Recife. Este divórcio
geográfico, no entanto, apenas fez com que as amarras históricas o ligassem
cada vez mais às Terras de Frei Carlos . Hoje aposentado da vida de repórter,
Chico percorre o país , ininterruptamente, proferindo palestras sobre o
jornalismo e sobre sua gloriosa jornada. Só na Rede Globo de Televisão
trabalhou por mais de quarenta anos e tem o recorde absoluto de edições do
Globo Repórter, mais de uma centena de episódios. Só esse cardápio já seria
suficiente para torná-lo um dos mais importantes e influentes jornalistas da história
da Brasil. Sua grandeza, no entanto, sobrepassa fronteiras e limites bem difíceis
de se aquilatar.
Alguns
setores da Crítica Literária colocam
algumas objeções à importância do Romance de 30, que teve obras fabulosas como “Vidas
Secas”, “A Bagaceira”, “Fogo Morto”, entre outras. Acreditam que são obras
seminais e ajudaram sobremaneira a denunciar as desigualdades centenárias do
Estado Brasileiro para com o Nordeste. Lembram, no entanto, que é possível que,
por outro lado, tenham carimbado a pecha
de uma região pobre, atrasada e subdesenvolvida por uma preguiça atávica. Pois
devemos muito ao jornalista cratense, a mudança desse paradigma. Fincado em
Recife, Chico José recusou-se a ir para centros maiores e , inclusive, ser
correspondente internacional. Dali começou a veicular um outro Nordeste, não só
o das secas, da fome, da miséria. Devemos a Chico a difusão do Nordeste mágico
e encantado: com seus mitos, suas festas mais soberbas e tradicionais, suas
paisagens deslumbrantes, seus parques míticos. Com ele o Carnaval de Pernambuco
tornou-se um evento digno do Guiness, o
mesmo aconteceu com o São João de Campina e Caruaru, A Serra da Capivara passou
a ser um sítio arqueológico internacional. Junte-se a tudo isso sua visão
apurada para a ecologia quando tornou Fernando de Noronha e incontáveis praias
nordestinas igualáveis ao Caribe. No Centro Oeste , desvendou Bonito que, desde
suas reportagens virais, transformou-a num paraíso turístico de fama
mundial. As Romarias de Juazeiro, o
Círio de Nazaré tiveram visibilidade até então reduzida. Referende-se ainda sua atuação franca e destemida junto aos indígenas
da região Norte, quando denunciou um genocídio lento e continuado dos nossos
povos originários. Não bastasse isso, Chico percorreu, como um andarilho, os
cinco continentes mostrando as belezas recônditas em todas as partes do mundo.
Nascido à beira da Chapada do Araripe
ele se encantou com a biodiversidade do planeta e quis conhecê-la nos
seus mais íntimos detalhes pelo mundo afora.
Devemos
ao cratense, ainda, uma batalha feroz contra o preconceito linguístico. A Televisão
tinha como padrão o acento carioca. Exigia que todos jornalistas falassem
chiando e cantando, como uma atriz de ópera. Com risco de demissão sumária,
Chico se pôs contra essa falácia. O Brasil , miscigenado e continental, tinha vários
sotaques, não havia uniformidade em nada, éramos diversos por natureza e,
apesar disso, unos na essência, isso fazia parte da beleza da nossa gente. Essa
foi mais uma batalha vencida e o caririense Chico José não precisou falar como
se nascido no Leblon ou na Pedra da Gávea. Por essas e tantas outras, os
colegas de trabalho o chamam de Coronel. O aguçado faro de repórter fez com que
, em Recife, em 1987, Chico , fazendo cobertura de um sequestro, trocou-se por
uma refém grávida. O caso teve repercussão nacional e fez com que a Globo
proibisse, a partir daí, negociações semelhantes. Os repórteres deveriam cobrir
a notícia e não fazer parte delas.
Chico
é tão telúrico que tendo percorrido os sete mares, seu prato preferido não traz
o chiquê do caviar ou dos frutos do mar e nem das saladas sofisticadas ( diz
sempre que não é bode pra comer folha). Qual o seu prato preferido: Baião de
Dois com pequi e paçoca.
Chico
diz sempre que não gostava de redigir os textos que ia falar. Todas as
reportagens saiam da sua boca, naturalmente, como se estivesse contando uma
história na bagaceira de um engenho. Esta característica , difícil no
jornalismo profissional, fez com que suas intervenções nos quatro cantos do
mundo, soassem com uma naturalidade impressionante. Ele se comunica com o
expectador como se conversassem nas cadeiras da calçada de noitinha. Por tudo
isso, Chico é um ícone do jornalismo brasileiro, adorado e reverenciado por
todo canto em que passa. Seus colegas de profissão, seus expectadores, seus
admiradores sabem , perfeitamente, que Chico não é apenas um jornalista que
hoje dependurou, em parte, o microfone. Estão diante de um ícone, um totem, um
deus da comunicação. Um dos jornalistas mais importantes da história desse país.
A
URCA , que mudou todo o perfil educacional da nossa região, trazendo o
conhecimento , o único instrumento possível de ascensão e combate eficaz às desigualdades sociais, tem
agora , no seu corpo docente, um dos mais renomados doutores da sua história, o
Dr. Francisco José de Brito. Tão gigantesco que quando , em entrevistas é
interrogado da sua naturalidade, se é nordestino, cearense ou brasileiro, se
remete imediatamente ao antigo sonho da Província do Cariri: que nada, eu tive
muita sorte ! Eu sou é Cratense !
Parabéns, Chico ! Orgulho da sua tribo !
Crato, 07/11/26

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