sexta-feira, 28 de maio de 2010

Conchambranças



Balduíno , entrado nos anos, arranjou um quebra-galho. Fora casado, pusera no mundo uma récua de filhos que se espalharam pelo Brasil, tangidos pela necessidade. O casamento acabou por decurso de prazo. Ele e a mulher mantiveram-se debaixo do mesmo teto, por mera formalidade. Arrefecidos os ânimos mais exaltados e o fogo que um dia já havia incendiado as caldeiras das entranhas; resolveram, por economia de recursos e de solidão, dividir a mesma casa, a mesma mesa e multiplicar apenas as camas. Comunicavam-se através de uma gama básica de palavras, geralmente monossílabos e dissílabos. Evitavam as interrogativas. A esposa , mais lépida, juntava-se a umas outras tantas colegas da mesma geração: na igreja, no SESC, em atividades físicas no Corpo de Bombeiros. Balduíno, aposentado, carregava o fardo da melhor idade (?) nas rodinhas de praça, nos bares, num joguinho de gamão. Pois, sabe-se lá como, apareceu de chofre aquela novidade de todo inesperada. E bota inesperado nisso!
Os colegas caçoavam : Balduíno, na verdade era um kit de encostados no INSS. Carregava ele mesmo e mais um outro aposentado no meio das pernas. Parece que tudo começou por conta do sonho misterioso. Uma noite, ele sonhou dirigindo uma camionete carregada de jaca. Ele mesmo era o motorista e andava quilômetros e quilômetros de ré. Pela manhã, saiu com aquela imagem pregada como chiclete. Lembrou, então, de fazer uma fezinha no Jogo do Bicho. Procurou uma cambista: D. Imeuda. Explicou-lhe a revelação onírica e ela rápido matou a charada. Camionete carregada de jaca, andando de ré : Jaca-ré ! Balduíno fez a pule : lascou dez reais na milhar e deu jacaré na cabeça . Ficou tão feliz com o prêmio de R$ 20.000,00 que deu R$ 5000,00 para a mestra na dificílima arte de interpretação do sonho.
O acompanhamento do sorteio e os preparativos para recebimento do prêmio fizeram com que D. Imeuda e Balduíno se aproximassem. Sabe-se lá como, rolou um clima. E aí vem um outro fato inesperado. Ela era mais velha do que a esposa do aposentado. No entanto, ainda conservada e fogosa carregava aquele olhar de lince de outrora, escamurçava como veado à aproximação ainda que distante da onça. E mais: Imeuda estava totalmente desimpedida, separara-se do marido há alguns anos e não tinha filhos.
Balduíno começou pelas beiradas como quem come sopa. Aproximou-se ,devagarzinho, como se tomasse chegada pra atirar em passarinho. De repente, desembestou um namorico que percorreu, provando que o amor é cego, todo o alfabeto Braille. Em pouco, mergulharam na mesma cama e a experiência parece ter sido, de lado a lado, prazerosa. Só um pequeno contratempo. Imeuda , apesar dos anos, mostrava-se quentíssima na cama, tinha, no entanto, o hábito de gritar como uma louca na hora do orgasmo. Este costume trouxe para Balduíno enormes dificuldades. Se por um lado aquilo massageava seu machismo, por outro , toda a vizinhança dava notícia das intimidades do casal. Uma vez, no Motel, terminaram por chamar o Ronda do Quarteirão imaginando que se tratasse de um crime passível de enquadrar-se na Lei Maria da Penha. Mesmo quando buscavam lugares mais recônditos para o namoro, como a serra, um matagal distante, terminavam por causar celeuma. Pessoas que passavam, mesmo longe, punham-se a correr imaginando tratar-se de alguma alma penada. Aos poucos, Balduíno começou a ficar cabreiro com os comentários jocosos que iam tomando conta das rodinhas e se foi afastando discretamente de D. Imeuda. A propaganda em demasia, também, acabou por criar várias admiradoras à performance aparentemente imbatível do nosso D. Juan. E ele , na verdade, não estava com essa bola toda: a pelota do velho Balduíno já vazava pelo pito, tinha já uns quatro remendos e andava meio murcha.
Anos depois, Balduíno encontrou-se com o ex-marido de D. Imeuda e ele explicou que suas agruras tinham sido piores que a do amante. Todos o olhavam com olhos de chacota e sussurravam piadinhas pelo canto da boca. A gota d´água, no entanto, tinha sido o apelido que lhe haviam posto : “Tampa de Caixão”. Para um Balduíno incrédulo, ele decodificou a origem do epíteto que pegara como catarro em parede:
--- Você não já viu um velório? Antes do corpo chegar na casa do decujos , os familiares ficam ali pelos cantos chorando baixinho como se tivessem chupando cana : snif... snif... snif.. De repente, chega a funerária com o defunto na urna, aí o povo todo de se agita, num é? Então, tiram a tampa do caixão de repente... E a gritalheira toma de conta do mundo Ai, ai, ai! Oh! Oh!Oh! Ui! Ui!Ui ! . Pois eles diziam que era eu que tirava a tampa do caixão de Imeuda, nas horas das conchambranças...

28/05/10

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Temporão

Argemiro passara por todas as crises previsíveis no casamento. Contornara o cabo da tormenta nos dez anos, quebrara a porcelana nas bodas de vinte e já se engasgara com as pérolas nas de trinta . O fogo dos velhos tempos já se tinha arrefecido, restavam apenas algumas brasinhas embaixo de muita cinza. Atravessara a idade do lobo e do cachorro colérico e, finalmente, agora se dava um pouco por vencido. Os ciúmes da esposa, D. Guida, amainaram e o tesão se foi metamoforseando de amizade e companheirismo. Contemplava a companheira de tantos anos e já não conseguia deitar-lhe olhos de desejo. Parecia-lhe , agora, um verdadeiro desvio sexual querer bolinar a mãe dos seus próprios filhos, apalpar a avó dos seus netos. A mulher subira os píncaros nebulosos da menopausa e já não lhe cobrava tanto freqüência e performance. Ademais, nem podia: cada dia mais sexy-agenário ele usava um sem número de aditivos: para glicose, para artrite, para a próstata, para dormir, para acordar. E mais, vários medicamentos para uma hipertensão de difícil controle que por mais de uma vez o tinha rebocado para a UTI. Parecia um mutilado de guerra e foi aprendendo a viver com os espólios que lhe restaram.
Semana passada , no entanto, D. Guida notou uma mudança radical no comportamento de Argemiro. Depois de assistir ao Jornal na televisão, ficou meditativo como o pensador de Rodin. No dia seguinte desapareceu e não mais voltou para casa. A esposa valeu-se dos amigos e, antes de procurar a polícia, foi informada que o marido estava vivo, enfurnado na zona do Baixo Meretrício da cidade há mais de uma semana. Segundo seus companheiros mais chegados, vivia há mais de uma semana na esbórnia, com as meninas da “Boite de Maria Alice”. D. Guida imaginou que o marido tinha endoidado de vez, pois não tinha mais tesão nem saúde para tanto. Ele é uma laranja chupada, pensou a esposa, como é que as raparigas ainda estão conseguindo lhe arrancar algum sumo ? A esposa aumentou a preocupação quando recebeu a conta semanal da farmácia e notou um aumento considerável no valor da nota. Corrigindo os itens, cuidadosamentre, descobriu a razão : num só dia Argemiro comprara vinte e cinco comprimidos de Viagra. D. Guida , então, temeu definitivamente pela vida do marido turbinado : vai cair durinho – literalmente- numa overdose!
Na noite do décimo dia, um Argemiro de sorriso arregaçado retornou ao Lar, já não tão doce. D. Guida emaranhava-se num misto de raiva, ciúme e despreocupação. Partiu para cima do marido, como uma fera: safado, sem-vergonha, nojento, por que não ficou de uma vez com suas rapagigas da Boite de Maria Alice , seu farrista ? Argemiro, sem perder a pose, saltou de lá:
--- O quê ? Me respeite, mulher ! Você não ouviu as orientações do Ministro da Saúde na televisão? Sexo é o melhor remédio, minha filha! Como sua botica já faliu há muito tempo, eu procurei uma Clínica especializada em hipertensão: a da Dra. Maria Alice! Tava fazendo um tratamento intensivo!
A antiga laranja chupada havia se transformado num fruto temporão.

20/05/10

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Mercury 49

Chegara naquela idade do gelo em que algumas decisões de suma importância não mais podem ser adiadas : Pintar ou não o cabelo ? Usar o cinto acima ou abaixo da barriga? Turbinar ou não com Viagra? Lentes progressivas , bifocais ou vários óculos? Perereca ou implante? Quebrado o cabo da derradeira esperança, percebeu, claramente, que a contagem dos anos já não se fazia : mais um, mais um... agora, iniciada a contagem regressiva, chamava: menos um, menos um... Os netos já o tomavam a pagode e nas brincadeiras ele é que era o “café-com-leite”. Nas feiras escolhia os alimentos não mais pelo sabor, mas lendo os rótulos cuidadosamente para somar as calorias, ver o teor de açúcar e de sódio, tudo sob orientação médica, como se o rótulo fosse uma bula. Calculou meticulosamente e descobriu que já gastava mais na farmácia do que no supermercado.Por incrível que possa parecer, estas mudanças talvez por não chegarem de chofre, demoraram para fazer cair a ficha. No fundo ainda se sentia aquele garanhão dos quinze anos e não o pangaré grisalho que teimava em refletir-se no espelho. E ostentava a vã certeza de que seu Mercury / 1949 ainda era capaz de ganhar corridas, concorrendo com Ferraris de última geração. Aos poucos, no entanto, passou a perceber sinais de cupins na biblioteca. Uma bursite no ombro direito, a pressão alta, a dificuldade de ler, o tesão meio borocochô. O que estava acontecendo com o menino lépido de outrora?
Nem mesmo uma ameaça de enfarte o tirou do sério. Afinal estes problemas de coronárias podem aparecer em qualquer idade, não é mesmo? Deve ter sido o diabo do cigarro, pensou lá com suas cãs. Um dia, no entanto, um fato corriqueiro lhe fez acordar para a constatação da inexorável marcha do tempo. Perto de casa, viu alguns rapazes se preparando para um rachinha num campo de várzea. Do alto dos seus vinte e poucos anos assumidos, inscreveu-se para a partida, meio a contragosto dos meninos. Acreditou que eles temiam a qualidade reconhecida do craque que pensava que ainda era. Bola vai, bola vem, atacando de ponta direita, quase não recebia nenhum passe. É que havia um meio de campo do seu time que amarrava a pelota e não passava para ninguém, aquele fominha que não entende o futebol como um esporte coletivo. Lá para as tantas, recebendo um passe da defesa, Lírio correu pela lateral do campo e cruzou para o fominha, partindo célere para o ataque. De repente estava livre, sem marcação, diante do gol, esperando o impossível : que o fominha lhe devolvesse a bola! O unha-de-fome se enrolou com a defesa e terminou perdendo a jogada sem nem imaginar em cruzar de volta a redonda. Nisso, o centroavante, furioso gritou:
--- Filho da mãe, fominha de uma figa, passa essa bola, tu não tá vendo o Velho ali solto, solto ?
Lírio olhou para um lado e para o outro procurando o velho citado e não encontrou. Foi quando descobriu o impensável : Era ele ! A partir dali, com a dura verdade pesando-lhe aos pés, não mais rendeu. Terminada a partida, decidiu: jogo agora, só de tabuleiro!
O certo é que a ficha caiu súbito, mas não sem resistência. Lírio aposentara-se de um emprego burocrático na prefeitura. Voltara para casa, mas teve sérios problemas de adaptação. Por várias razões. Primeiro nada entendia de trabalho doméstico e, no intuito de ajudar, começou atrapalhar e muito. Depois , tinha uma relação meramente burocrática com D. Lindalva, a esposa: “Tetos iguais, corações separados”. A proximidade como que diminuiu ainda mais a temperatura da relação e os congelou. Tanto pesou a aposentadoria que o enfarte de Lírio brotou, possivelmente, da inadaptalidade às novas funções. Recuperado, resolveu, então, comprar um carrinho velho e trabalhar como taxista. Não ganhava lá essas coisas, passava a maior parte do dia no ponto, mas de conversa em conversa, de fofoca em fofoca, o restinho de vida ia passando à sua frente com a calma devida, com a anestesia calculada.
Trabalhando com uma velha Brasília 86, Lírio percebeu que aquilo não era um carro, mas quase um casamento civil. Vivia na oficina mais do que na praça. Quando lhe começaram a aparecer os achaques da idade teve a perfeita consciência de que não se diferenciava muito da velha fubica. Como ela, tinha folga na direção, rolamentos gripados, pneus carecas e estava saltando de marcha de quando em vez.
--- Qualquer dia desses, eu ou ela sobramos na curva, ou quem sabe os dois ?
Semana passada, arranjou uma namorada, numa das corridas. Tinha idade de ser filha do Lírio. Levou-a para um motel. Começou como quem come papa: pelas beiradas. Na hora do venha a ver, até que o motor velho reagiu acima do esperado. Estava todo serelepe. Demorou , demorou, mas nada de chegar ao ápice... nada! Suado, pensou com sua samba canção:
--- Meu Deus ! Ia tão bem ! O que terá sido dessa vez ? Será que agora foi o jiqlê do carburador que entupiu ?

13/05/10

domingo, 9 de maio de 2010

Casanova de casa nova


-- Aquilo não é uma mulher, é um cão perdigueiro !
Esta talvez tenha sido a mais perfeita definição da mulher de Salustiano, feita por um de seus amigos, numa mesa de bar. Salu( como era conhecido na patota) sempre fora chegado a uma gandaia. O bordel sempre tinha sido o templo maior de suas oferendas. Seu oratório era preenchido pelos deuses pagãos: Dionísio, Baco e Vênus. Parece que tinha sido castigo! Já entrado nos quarenta, terminara por casar com D. Guilhermina: mulher madurona, sistemática, cuja maior diversão era ir para quermesses e assistir às reuniões de casais com Cristo que Salu acompanhava, a contragosto. Não bastasse tudo isso, a patroa de Salu era extremamente ciumenta. Parecia um cão farejador. Ligava para a repartição do marido inúmeras vezes ao dia, como se estivesse fazendo chamada. Quando o pobre retornava para casa, procedia-se uma revista rigorosa, digna de Sherlock Holmes, em todos os seus pertences e vestes. D. Guilhermina olhava atentamente a Agenda, em busca de telefones suspeitos, ou bilhetes. Revistava ainda cuidadosamente todas as roupas externas e íntimas procurando fragrâncias estranhas, cabelos femininos ou marcas de Batom. Algumas vezes, chegou a examinar, com atenção quase urológica, o próprio corpo de Salu, fingindo-se de mulher envolvente e carinhosa.
Apesar de todo cerco impingido por D. Guilhermina, nosso D. Juan não havia perdido de todo o espírito aventureiro. Como, por mais de uma vez, tinha sido flagrado, com uma ou outra prova material, foi desenvolvendo um ritual digno da CIA ou do MOSSAD. Carregava no porta malas, escondida, uma maleta fechada com um sem número de utilitários : soluções para retirada de manchas, aromas vários para disfarçar perfumes, óleo e graxa para simular “pregos”no carro e justificar atrasos , bateria descarregada( sempre) para justificar celular fora de área e por aí vai...Não bastasse isso, tinha uma rede de auxiliares digna de nota, capaz de falsear vozes, inventar histórias/desculpas mirabolantes, forjar documentos e álibis. A mulher tinha, porém, pacto com o demo: devia ir para o Afeganistão procurar o Bin Laden, diziam os amigos. Um dia, suplicante, pediu que ele a contasse sobre qualquer aventura após o casamento, jurando calma e compreensão, pois, dizia, sua fobia não era de chifre, mas de ser enganada sem saber. Salu, para testar, começou a falar sobre alguns namoricos da infância e, mal tinha passado do segundo, já D. Guilhermina ia quebrando todos os pratos da cozinha no tubo de imagem da TV. Imagina se falo os do pós-matrimônio, pesou Salu, aliviado em meio aos destroços da III Guerra Mundial.
O período de maior aflição passado por Salu aconteceu depois do caso Diana Bobitt. Vocês lembram ! Sim, foi aquela que, numa crise de ciúmes, cortou o pinto do marido com uma faca de pão, como se fosse salaminho. D. Guilhermina, imediatamente, a tomou como ídolo e até andava com um retrato da emasculadora senhora na bolsinha de dinheiro. Salu entrou em pânico quando descobriu no guarda roupas da esposa ( imaginem o quê !): uma faca Gin Su ! Passou mal, terminou por internar-se em clínica para esgotados mentais. Voltando, inventou , prontamente, que o médico prescrevera comida chinesa típica , para toda a família e, a partir daí, deu fim às cortantes lâminas da casa e passaram a comer com pauzinhos ( para alívio derradeiro dos países baixos e melindrosos de Salu).
A vida assim ia se escoando em meio a esta Guerra Fria. Tamanha perseguição parecia ir dando um tempero todo especial às perigosas escapulidas de Salu. Dia desses, no entanto, o homem voltou a sobressaltar-se. Aparecera nova arma de contra-espionagem no mercado. Ele soube ,através de sua especial rede de informação. No Bar de Seu Louro, os amigos, aflitos, lhe mostraram o recorte de Jornal. Os japoneses inventaram um spray que borrifado na cueca da pessoa, em contato com qualquer resquício de sêmen, torna-se verde e aí, a patroa –perdigueira, ao examinar, poderá ter uma prova concreta da traição cometida. Não bastasse isso ainda desenvolveram um tipo de meia que muda de coloração ,se por acaso for retirada do pé, o que poderia dar evidência de visitas sorrateiras a motéis. Salu gelou! Aquilo nas mãos de Guilhermina seria uma arma perigosíssima. Na sua visão de Casanova, a atitude dos japonas só podia ser despeita com os ocidentais. Inventar uma porcaria destas, só pode ser complexo de inferioridade: por terem um pingolim do tamanho de um alfinete !
Por via das dúvidas, no entanto, desde aquele dia, Salu só anda de chinela, só compra cueca verde-camaleão e ,pra dormir, é com um olho só fechado : o outro “pastora” Guilermina!


Nov. / 2001

quinta-feira, 29 de abril de 2010

O Político & O Correto


É fácil perceber, em nós brasileiros, a tendência inequívoca à catalogação. Parecemos um funcionário de supermercado com sua maquineta, pronto a etiquetar todos que nos cercam. Tendemos a não observar a individualidade das pessoas e as separamos por grupos de forma segregatória e preconceituosa. Os judeus são pães-duros, os portugueses burros, as louras debilóides, os árabes desonestos, os homossexuais safados, os africanos pobres, os índios preguiçosos, os paulistas trabalhadores, os cariocas malandros... e por aí vai. Estes critérios são reiteradamente explorados em piadas de toda espécie e amplificados, de língua em língua, nas rodinhas de praça, nas mesas de bar, nas barracas da praia. Superficialmente até parece engraçado e, apreciado por indivíduos fora dos grupos atacados, a coisa é tida como uma brincadeira carinhosa. Para todos efeitos, não existe nenhum preconceito no Brasil. O caldeirão étnico que fundiu a terra brasilis traz no seu bojo a franca idéia de que aqui todos convivem harmoniosamente, que todos respeitam galhardamente as diferenças várias : de cor, de raça, de gênero, de religião, de condição financeira, de opção sexual. No dia a dia, no entanto, virada a primeira página do nosso livro de história,a beleza da capa se esfuma : o Brasil tem uma cultura profundamente discriminatória. Rico nunca vai preso; a mulher tem um salário bem menor que o do homem; a homofobia é uma realidade do nosso cotidiano; o tráfico de influência é uma moeda fortíssima; a cor da pele influencia em muito na seleção de Recursos Humanos.
Gilberto Freyre foi visionário quando vislumbrou que a fortaleza da cultura brasileira se encontrava justamente nessa diversidade . As arestas existentes vão se aplainando, caminhamos para uma lindíssima confluência cultural e étnica. Só que o Brasil ainda é uma criança, brincando de esconde-esconde nos seus tenros quinhentos anos. Muitos grilhões ainda precisam ser quebrados. Há menos de duzentos anos deixamos de ser colônia portuguesa; há somente cento e vinte anos enxotamos a monarquia e a escravidão. Há pouco mais de cem anos, também, abrandamos a Inquisição. Tantas chagas não cicatrizam rapidamente e, mesmo quando fecham, permanecem cicatrizes que só o tempo ajuda a amenizar.
Certamente terá sido pensando nisso tudo que a Secretaria Especial de Direitos Humanos criou, em 2004, uma “Cartilha Politicamente Correto & Direitos Humanos”. Num governo popular, cujo presidente vindo das classes mais desfavorecidas certamente terá sentido na pele uma enxurrada de preconceitos os mais variados, a cartilha pretendia, ao menos oficialmente, cortar do uso cotidiano palavras tidas e sabidas como preconceituosas. Já tínhamos leis anteriores que combatiam a prática do preconceito: a 3688 ainda de 1941 e 7716, mais recente, de 1989. Acreditamos que é indiscutível o poder que estas leis tiveram em balizar as relações dos brasileiros na convivência com suas diferenças. A possibilidade de abertura de processos educa de maneira drástica os indivíduos. As mudanças, no entanto, se importantes , são quase sempre de superfície. As transformações culturais demandam tempo. No fundo, o preconceito apenas se mimetiza e muda suas formas. O empresário já não chama o funcionário de negro, pois isso pode dar cadeia, mas o boicota de todas as formas possíveis pois ainda o considera inferior , apesar do discurso. Ele já o havia etiquetado previamente, às vezes até inconscientemente, e o colocado na prateleira dos inferiores, por conta da coloração da pele.
Pois bem, a Cartilha carrega consigo dificuldades parecidas. A intenção parece ótima , mas de bem intencionados até o Democratas está cheio. Reflitamos sobre algumas dessas incongruências. O primeiro ponto é que a palavra ou a expressão não existem isoladas do discurso. Se eu digo, por exemplo: -- Caboclo velho, o emprego é seu, você sempre foi um grande amigo da família! O “Caboclo velho” parece ser uma forma carinhosa de tratar uma pessoa, e pode não ter qualquer viés de preconceito. Por outro lado, se se diz : --- Isso só podia ter sido feito mesmo por um afro-descendente! Temos uma discriminação visível, independente da palavra politicamente correta.
O segundo ponto é que , em algumas situações, o uso da cartilha ajuda afastar as pessoas. A indicação , por exemplo, de sempre tratar as pessoas como “eles e elas”, “senhores e senhoras”, evitando o plural no masculino que, historicamente, incluía todos, parece criar barreiras entre as pessoas. Seria melhor, por exemplo, que para compensar, nos próximos mil anos se utilizasse a forma feminina no plural para se referir a todos. Uma outra questão importante é que as palavras são muito parecidas com as pessoas. Elas envelhecem e, frequentemente, saem de moda. Vejam, por exemplo tertúlia , baile, flerte, película... hoje são termos totalmente obsoletos. Não bastasse isso, no seu dinamismo, a língua muda com o tempo, os costumes, as gerações. O termo politicamente correto nesse momento pode já não ser amanhã. “Bárbaro”, por exemplo, nos últimos tempos pode denominar uma coisa bem legal, já não é o adjetivo repugnante que aparece em “crime bárbaro”. Muitos verbetes, inclusive , tomam outros significados e dimensões. O verbo “denegrir”, lembrem, advém etimologicamente de negro e, na sua origem, é preconceituoso, mas hoje, já não tem nenhum resquício dessa conotação. Chamar um motorista de “barbeiro”, hoje, já não tem ligação direta com o cabeleireiro. Chamar uma moça de mulata é bem diferente o significado que se depreendia disso no Século XIX; mais frequentemente se trata de um elogio. Comunista hoje já não come criancinhas. Há que se falar ainda das sérias dificuldades que teremos em tornar de uso corriqueiro algumas definições politicamente corretas. Trocaremos : surdo, cego, mudo por “portadores de necessidades especiais”. A língua no seu dia a dia busca rapidamente a Lei do Menor Esforço. Vai ser complicado a fixação do termo fora da língua culta, em pouco eles poderão ser chamados de “pornes”.
A intenção da Cartilha é ótima mas é bom lembrar que não será por conta dela que os apenados terão celas mais dignas; os afro-descendentes conseguirão iguais condições de trabalho; os homossexuais e as mulheres sofrerão menos violência; os portadores de necessidades especiais conseguirão melhor acessibilidade. A luta está apenas começando. Só caminharemos quando o país deixar de se engalfinhar tentando descobrir qual é a cor mais bonita da aquarela e chegar à conclusão que o multicolorido do arco-iris pátrio é que nos dá a individualidade e a beleza inigualáveis. O politicamente correto tem sérias limitações até nome: no Brasil o político e o correto, historicamente, não se homogeneízam muito bem.


29/04/10

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Golf X Yacht

Matozinho estava em festa. Envergara roupa de gala para a solenidade. Cordas de bandeirolas cortavam diagonalmente as ruas , amarradas em palmas de coqueiros, fincadas espaçadamente ao chão, bordeando a rua em toda sua extensão. . A banda cabaçal do maestro Bizarria , periodicamente, cruzava as calçadas, acompanhada de um bando de meninos, entoando cocos e marchas. Fogos ribombavam nos céus, como em noite de São João. A praça da matriz estava atapetada de barracas que vendiam passa-raivas, filhoses , roletes de cana, bolo de puba e outras iguarias em meio ao exército de garrafas de aguardente nas prateleiras. O esboço de um parque de diversões se estendia para as ruas laterais com canoas, carrossel, roda gigante, gangorra. Era o início das comemorações dos vinte e cinco anos da emancipação política da cidade. A programação preparada pela prefeitura era diversificada e caótica. O sacro e o profano faziam-se o verso e o anverso da mesma medalha. Missas, bingos, novenas, sambas, água benta, corrida de bicicleta, pau de sebo, discursos oficiais.
Fechando as festividades que se iniciaram na quinta feira, o domingo prometia : um jogo de futebol sensacional, uma espécie de FLa-FLu da região que envolvia as equipes do Milionários Golf Clube de Bertioga e o valoroso e querido Juventus Yacht Ckub de Matozinho. O clássico que ficou conhecido popularmente como MI-JU . Um embate histórico de antecedentes trágicos preocupantes. Nos últimos vinte anos, sempre que as duas equipes se encontravam, o saldo de feridos , mortos e desaparecidos terminaram por tornar o evento quase que inviável. Fato furado, tripa arrastando pelo chão, canela trincada, pescoção, unha arrancada, de um tudo já se tinha visto nos jogos entre os dois times. A coisa ficou tão feia que até se pensou em mudar a modalidade para vale-tudo, ao invés de futebol. Coisa de deixar um Hooligan indignado.
Pois bem, mas Matozinho é no Brasil e aqui o esporte preferido é o futebol. Até porque a infra-estrutura é simples: uma bola que pode ser confeccionada até com meia, umas traves improvisadas, um terreno baldio... A organização do evento cuidou para que os riscos pudessem ser minimizados. Mandou que se limpasse o campo cuidadosamente, roçando e arrancando as pedras mais pontudas; remodelou as traves com madeira nova e gastou mais de três quilos de cal para demarcar os pontos básicos: grande e pequena áreas, meio do campo, marcas dos pênaltis, perímetro total do campo. Cuidou ainda para que os atletas do Juventus tivessem a melhor alimentação, se concentrando na fazenda do Coronel Serapião Garrido, chefe político local. Simplesmente porque o time não poderia perder, já que se comemorava uma data festiva de Matozinho e um resultado desfavorável seria uma desonra irreparável para a história gloriosa da vila. A primeira grande enrascada veio rápido. Quem seria o juiz de uma partida tão disputada e de tantos e previsíveis riscos? Foram aventados vários nomes, Serapião, no entanto, deu a palavra final. O melhor seria convocar Dr. Irineu Carrera. Não era só por causa do sobrenome do homem , não! Dr. Irineu era o primeiro médico daquelas brenhas, atendia toda a região -- pobres, remediados e ricos -- , além de tudo todos o admiravam pela simplicidade. O esculápio contava incontáveis compadres e comadres nas cidades vizinhas. E mais, frisou Serapião, tem autoridade! Quem diabos vai querer brigar com ele ? E se adoecer no outro dia, meus amigos, de quem vai se valer?
Procuraram um Carrera ocupadíssimo nos seus afazeres e que relutou na missão. Não entendia muito de futebol, não tinha preparo físico para agüentar, apesar do sobrenome, correr campo acima, campo abaixo por noventa minutos. Serapião, no entanto, fincou pé, não era homem de levar um não para casa e o doutor não teve outro jeito a não ser enfronhar-se no campo minado. Quando a comissão deixou o consultório ele ainda pensou com sua bata: era mais fácil tentar resolver aquela pendenga lá na Faixa de Gaza!
O nome do juiz foi aceito com entusiasmo lado a lado. Sabia-se da sua autoridade indiscutível, além de tudo, teriam o médico ali perto, em pleno campo de batalha, pronto a encanar os braços quebrados, pontear as cabeças lascadas, atender os traumas múltiplos e esperados.
No domingo, o estádio improvisado fervilhava de gente. Todas as árvores ao redor curvavam-se ao peso dos torcedores, como se fora uma espécie de cadeiras numeradas. Convencionou-se que o time da casa jogaria de camisa e o Milionários, apesar do nome, nu de cintura para cima, para facilitar a identificação dos jogadores. Às três da tarde as equipes já estavam em campo, prontas a começar o embate. Um estrado mais alto foi posto de um dos lados para acomodar as autoridades locais : o delegado, o juiz, o padre; Sindé Bandeira, o prefeito e o velho Serapião Garrido. Após a execução do hino Nacional pela bandinha, Juvenal fogueteiro atiçou o estopim de umas dez dúzias de fogos. De repente, percebeu-se uma falha: Cadê o Dr. Irineu? Nada do juiz adentrar em campo. A organização , rápido, soltou meia cento de vaqueiros atrás do homem. Corre prá lá, pergunta de cá, terminaram encontrando o cabra, meio capotado, da farra do dia anterior. Estava com uma ressaca de matar, na casa de uma teúda e manteúda sua ali na rua do Caneco Amassado. Avisaram da urgência : só estava faltando ele, todas as autoridades esperavam impacientes. Carrera informou que estava impossibilitado de apitar por conta da ressaca, não tinha nem condições de se mexer na rede, como diabos é que ia correr noventa minutos no sol e ainda soprar apito? No campo, a galera já se agitava e as autoridades num calor digno de Terezina, já se coçavam. Convocaram, então, Serapião que teve que usar técnicas dignas da NASA. Botou um chapéu grande na cabeça do doutor , montou-o num burro e levou-o ao campo. Convocou um menino para puxar a alimária . Carrera, então , montado no burro, puxado pelo menino, de chapéu na cabeça e apito no beiço, passou a cumprir suas funções legais. O time atacava , o menino puxava o burro no sentido da trave adversária; a defesa desarmava, o menino dava meia volta e puxava o burro, com o juiz, no sentido contrário. Um sobe e desce infernal.
O pau comeu solto. No começo do segundo tempo, já haviam sido expulsos nove jogadores da Juventus e oito do Milionários, isso sem falar nos outros sete que saíram contundidos. O resultado, para desespero de Matozinho, continuava 0 X 0. Os matozenses ansiosos percebiam que aquele placar terminaria por anuviar a beleza da Festa de Bodas de Prata da cidade. O que se esperava terminar com Chave de Ouro, corria o risco de escorregar para flandres ou latão. De repente, a tragédia. O Center-ralf, “Zé Bigorna” da Juventus, derrubou, na pequena área, o Center-forward do Milionários: “Tiziu”. Faltavam exatamente dois minutos para o fim da partida. Irineu , o menino e o burro, estavam em cima do lance e o juiz não teve dúvida: apitou a penalidade máxima contra o time de Matozinho. O estádio manteve um silêncio sepulcral, parecia o Maracanã em 50, após o gol de Giglia.
Num átimo a população percebeu o tamanho do holocausto: a festa se acabava, a honra da cidade maculava-se definitivamente e, perdendo dentro do terreiro, serviriam de magofa para todo o sempre na região. Ninguém nunca imaginou que o MI-JU terminasse numa hecatombe daquelas.
No camarote, o Coronel Serapião demorou a entender o que se estava passando. Percebeu, no entanto, que existia alguma coisa errada. Não entendia nada de futebol, mas pela cara da torcida, pressentiu tudo. Chamou “Marreco”, seu assessor direto, e perguntou o que estava acontecendo. “Marreco” com voz entrecortada tentou explicar, inconformado:
--- Tamo lascado, Coronel, o juiz marcou um pênalti contra a gente e o jogo já tá quase acabando...
Garrido, pediu mais detalhes:
--- E que diabo é que é pênalti, homem de Deus ?
“Marreco” sussurrou aclarando a questão:
--- É uma falta contra nós. Eles vão botar a bola naquela marquinha ali perto do gol e vão chutar contra nossa trave !
O Coronel insistiu em mais detalhes:
--- E nós vamos botar quantos cabras na barreira pra ataiar a bola, seu “Marreco” ?
“Marreco” , então, o pôs a par do tamanho da bronca:
--- Num tem barreira não, Coronel, bate é direto... É difícil não ser gol... Vamos perder dos Milionários, será possível ? o Senhor vai deixar bater esse pênalti, coronel ?
Serapião respirou fundo, meio capiongo e falou:
--- Direto... pois a coisa é feia, seu “Marreco” ! Mas juiz é juiz, autoridade é autoridade, nós temos que respeitar, num tem jeito... Vai ter que bater o tal do pênalti sim !
“Marreco” aflito, perdeu as esperanças:
--- Tamo fudido então! Vamos perder! Mas como é que pode, coronel? Um desaforo desses dentro da casa da gente !
Neste momento, Garrido levantou-se de garrucha na mão e fechou questão:
--- Não! O juiz apitou vai ter que bater! Não desfaço autoridade de ninguém. Agora vai bater o pênalti do outro lado, contra o “Milionários”! Do lado de cá não tem fila da puta nesse mundo que bata pênalti, ou eu não me chamo Serapião Garrido! Joviu, seu Marreco ?


22/04/10

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Pipa


O menino brincava com os dois irmãos menores numa casa humilde de uma cidadizinha mais simples ainda. Tempos em que a rua pertencia à infância e não aos carros. A rua era o simples playground das casas, um estádio livre para o exercício da “bicheira”, da peteca, da “bandeira” , do chicote –queimado, do esconde-esconde. A lua ainda não havia fugido dos céus, ofuscada pelo néon. Jogava, a molecada, uma espécie de bocha nordestina, com pedras. A moeda de troca eram cédulas confeccionadas com o papel de carteiras de cigarro. Quem o visse assim, de bermuda, sem camisa, tangido pelo vento, empenhado nos mistérios lúdicos do jogo das pedras, jamais imaginaria o homem que se gestava na infância prenhe do menino da rua. Mas o tempo que engoliu a rua e triturou, pouco a pouco, a infância, não conseguiu destruir o moleque. Semana passada, muitos anos depois, ele subiu as escadas de um luxuoso hotel na paradisíaca Campos do Jordão, para receber um dos prêmios mais almejados na sua arte : o XI Prêmio Brasil de Medicina. Não parecia o médico querido e renomado que tantos cearenses aprenderam a admirar, carregava o sorriso maroto do guri redivivo, como se acabasse de ganhar algumas cédulas de papel de cigarro, após a colisão certeira no jogo das pedras.É que não foram poucos os percalços na caminhada do menino. Crescera sem a presença marcante do pai, numa família tradicional, mas humilde de três filhos.Cedo entendeu que as notas reais eram bem mais difíceis de encontrar do que as das partidas de rua. As intempéries forjaram seu espírito e rápido aprendeu: as desigualdades do mundo, a felicidade de alguns e a desgraça de muitos não aconteciam por mero acaso, iam bem além do fortuito fatalismo. Existia uma histórica e bem arquitetada trama para que o paraíso fosse de alguns eleitos e o inferno o latifúndio de uma maioria. Em plena ditadura militar dos anos 60-70, estas disparidades ficaram bem mais perceptíveis nos seus deslumbrados olhos de estudante. Embrenhou-se na política , foi perseguido e dedurado. Terminou expulso do colégio junto com os irmãos. Para recuperar os anos em atraso, fez o Curso Científico de uma só vez no supletivo e enfrentou o vestibular de Medicina em Recife. Foi o orador da turma, assim como o fora na quarta série ginasial, quando proferiu o discurso que o levou à expulsão . Partiu para o Rio de Janeiro, onde fez a residência médica na especialidade de Neurologia e para aqui voltou, nos anos 80, onde se dedicou de corpo e alma ao seu ofício. Percebeu, rapidamente, que o Cariri carregava uma chaga: a Hanseníase atacava as classes mais desfavorecidas, com índices mundiais que só se comparavam aos da Índia. Mergulhou no meio dessa multidão de mutilados, combatendo com afinco nossa praga centenária, se tornando um dos maiores especialistas brasileiros nesta área. Este profícuo trabalho o levou a teses de Mestrado e Doutorado pela Universidade Federal do Paraná. Desde a escola primária , nunca se afastou da política, foi um dos fundadores do PT em nossa cidade, sendo candidato por duas vezes a prefeito de Crato, nos anos 80. Não satisfeito com toda trajetória vitoriosa, entendeu que a permanência do seu conhecimento só se exerceria se estendido a novas gerações e fez-se professor universitário. Em fins de 2009, o orador versátil voltou ao palanque proferindo brilhante discurso como paraninfo da turma de doutorandos daquele ano.Enquanto subia as escadas para receber o prêmio Brasil, essas lembranças certamente afloraram na mente do menino Marcos Cunha. Até porque , a seu lado, braço dado, seguia-lhe o anjo da guarda de todo este percurso: D. Sônia. O menino tinha a plena convicção que sem ela , sem a sua firmeza e determinação, os sonhos teriam se estilhaçado no calçamento da rua. D. Sônia consubstancia em si todos os ingredientes das mães espartanas: pronta para corrigir quaisquer distorções na conduta dos filhos e, por outro lado, armada até os dentes a defendê-los em quaisquer situações e circunstâncias. A sua vida se compara a outras tantas heroínas da nossa história como Olga Benário e D. Bárbara; só que seu heroísmo é bem menos visível, está enfeixado entre quatro paredes, entre lágrimas , soluços, com batalhas ganhas a cada instante, a cada minuto, contra as adversidades da vida. Ela nem precisa de prêmios, observa seus troféus a cada dia: um médico e dois odontólogos , homens dignos, retos e probos.
Marcos Cunha é o médico mais completo que conheço. Carrega em si ingredientes dificílimos de se enfeixar numa única pessoa. Estudioso, profundo conhecedor da sua arte, despojado, ético e dedicado ao paciente como um monge tibetano. Não bastasse tudo isso , profundamente politizado, sabe perfeitamente que a doença, a maior parte das vezes, tem bem pouco a ver com o estetoscópio: só se cura com atitude política. E mais que tudo, humilde e simples. Talvez ninguém tenha percebido, mas não foi o médico de cabeça branca que recebeu o troféu consagrador em Campos de Jordão, mas o menino inquieto da Padre Sucupira, que jogava pião e empinava pipa, firmando os pés na terra mas lançando, premonitoriamente, as asas para o céu...

15/04/10