sexta-feira, 5 de março de 2021

A nova bebida vem da Bebida Nova

 



J. FLÁVIO VIEIRA

 

                                               Nem só de notícias ruins se alimentam os noticiários . Em ano de peste, de choro e asfixia, semana passada, brotou uma dessas manchetes que, no meio do sufoco nosso de cada dia, oxigena o Cariri. O Conselho Superior Universitário da URCA aprovou, por unanimidade, o projeto de  criação do curso de Medicina em Crato. De forma célere, agora, seguindo os tortuosos caminhos burocráticos, o projeto deve passar, já neste mês de março, pelo juízo do Conselho Estadual de Educação. Prevê-se o primeiro vestibular já  o próximo semestre , deste 2021. Como sói acontecer , sempre, em tais situações, estas decisões carregam consigo sua carga inexorável de polêmicas. O Crato teria o Crato recursos humanos suficientes para abarcar um Curso de Medicina ? Já não existem faculdades demais no estado , no país e no nosso entorno ? O Curso de Medicina abalaria a estrutura dos outros cursos da Universidade ? Isso tudo não é só uma jogada eleitoreira ?  A Faculdade de Medicina teria a qualificação necessária ? A sede preliminar, o Seminário São José, tem estrutura adequada ?

                                   Todas estas perguntas serão respondidas facilmente, com o andar da caravana. Como sempre, nada nasce perfeito e teremos que ir, fazendo consertos e ajustes, enquanto a nossa carruagem vai andando. O certo é que , com a Faculdade de Medicina, o Crato dá uma guinada histórica. Otimizaremos a ciência médica na região, teremos um superávit científico inimaginável, retornaremos a ser uma centro de saberes e disseminador de educação no Ceará. E o nosso Seminário São José, não estranhará o novo curso, já funcionou como hospital, historicamente, nas epidemias de 1878 ( Varíola)  e Peste Bubônica nos Anos 30. No meio da euforia , não devemos, no entanto, esquecer os principais benfeitores desta causa: o governador Camilo Santana, o prefeito José Ailton Brasil, o Reitor Dr Lima Júnior, os articuladores do projeto: Dr. Cláudio Glaidiston e Dr. Marcos  Bezerra da Cunha.

                                   A notícia alvissareira aparece , estrategicamente, próximo ao dia 8 de Maio, o dia dedicado às mulheres . É inevitável aqui, lembrar o nome da médica cratense Dra. Amélia Bénebien Pérouse e o seu pioneirismo. Nascida em 1860, na Bebida Nova, Amélia se formaria em Salvador em 1890. Seria a segunda mulher a colar grau naquela Faculdade. Antecedeu-a apenas a gaúcha Rita Lobato Lopes a primeira brasileira aqui formada.  Muito provavelmente, Amélia foi a primeira mulher nordestina a tornar-se médica. Imaginem a saga bravia dessa cratense em deslocar-se para a capital da Bahia, em lombo de burro, em pontão e trem, na segunda metade do Século XIX. Não se pode esquecer que só a partir de 1879 permitiu-se o ingresso feminino no estudo das artes médicas aqui no Brasil.  Devemos ao seu pioneirismo e à sua clarividência a abertura da nossa arte para tantas e tantas fabulosas profissionais que a seguiram e que hoje já são maioria na Medicina brasileira. Mulheres grandiosas que por uma determinação típica de gênero traziam consigo, desde o berço, os mistérios e a força da arte de cuidar.

                                     Bénebien radicou-se em Salvador, mas, no início do Século XX,  montou consultório em Crato, sendo comprovadamente a primeira  mulher a instalar consultório no  Ceará. Fez-se , também, a primeira a realizar anestesia aqui no nosso  estado.

                                   Amélia nos deixaria, aos 93 anos, em 1953. Sua casa, em Salvador funcionava como uma embaixada do Crato e lá acolheu outros parentes que lhe seguiram os passos na mesma arte: Dr. Dalmir Peixoto, Dr. Dario Peixoto, Dra. Josefina Peixoto. Hoje, em outra dimensão, em paz, deve-se cobrir de novas graças ao saber que seus conterrâneos já não precisarão, como desbravadores, vararem os sertões, em busca das artes e ensinamentos hipocráticos. Graças a visionárias como ela, beberão da nova bebida , bem próximo a sua Bebida Nova,  aprenderão os mistérios da Arte de Curar, ao doce som das águas do Rio Grangeiro , sob a brisa que sopra por entre as árvores do Sítio Fundão...

Crato, 05/03/21

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Gangorra

 


J. FLÁVIO VIEIRA

 

                                               Várzea Alegre, berço do meu pai e avós, como o próprio nome indica, é a terra mais jocosa do Cariri. O riso, ali, é quase uma instituição pública e a jocosidade , a irreverência são cultuados com a mesma fortaleza que, EM  outras terras,  reverenciam-se  heróis épicos. Essa maneira desprendida , sutil e vaporosa de olhar a vida, focando mais nas suas incongruências que nas suas certezas, faz do varzealegrense uma figura radiante, jovial , pronto, a todo instante, a quebrar as solenidades insuportáveis do cotidiano. Eles vivem atapetando os dias de histórias , estripulias e potocas de seus tantos Pedro Malasartes,  Cancão de Fogo e João Grilo. Nas narrativas, os presepeiros sempre são os principais protagonistas  das histórias burlescas que entrecortam o cerimonial monocórdico e solene dos discursos, das rezas, das ladainhas.

                                   Dali saltou a tradição dos “Contrastes” que preenche tantos e tantos relatos da  Terra de Papai Raimundo e que vão sendo catalogados, cuidadosamente ,numa espécie de fabulário popular e contados , de geração a geração, num doce exercício de memorialística e oralidade. Dias desse ganhei um livro onde se catalogava a culinária popular de Várzea Alegre, minunciosamente, entre eles seu impagável Cuscuz de Arroz.  Alguns dos disseminadores dessa tradição  ficaram famosos como o Padre Vieira, Zé Clementino e o poeta Zé Gonçalves. Mas a força perenizadora   deste legado está na grande galeria de contadores  de chistes , troças e pilhérias que pululam por todos os cantos e esquinas da cidade. E até saltam dos limites do município, numa espécie de grande Várzea Alegre, em vilas circunvizinhas como Mangabeira, Cedro, Várzea da Conceição. Este espírito folgazão e galhofo levou a cidade a ter o mais animado carnaval de rua do Cariri. E , possivelmente, fez do varzealegrense o mais  bairrista dos caririenses. Viajam, ganham o mundo, naquele destino quase semítico do nordestino, mas nutrem o sonho eterno de, juntado algum pé-de-meia, retornarem , definitivamente, para finalizarem suas histórias naquele mesmo lugarzinho onde, um dia,  tudo teve início. Mudem-se para onde se mudarem, viajem para onde viajarem, o varzealegrense nunca sai da encosta da Serra Negra e da  beira do Riacho do Machado.

                                   Esse elo íntimo e telúrico com sua terra me faz lembrar uma das suas histórias, contadas em rodinhas de calçadas e, certamente, pouco a pouco, temperadas com os artifícios da ficção. Nos anos 60, a famosa Rádio Cultura de Várzea Alegre tinha como um dos programas de maior audiência o “Violas que o Povo quer”. Na época, o violeiro apresentador era “Asa Branca” ,  cultuado quase como um astro do Rock.  A direção da Rádio começou a sofrer o assédio contínuo de um outro cantador, iniciante, que se intitulava de  “Assum Preto”. Queria porque queria participar da atração, que , infelizmente, já tinha um titular desenrolado e venerado em toda região.  Assum vivia temperando a viola nos botecos do centro e, no horário do Violas, invariavelmente, ficava aceirando os locutores, atrás de uma oportunidade. A insistência já era motivo de chacota no “Sanharol” , sítio onde nosso violeiro residia.

                                                Respingo de água mole, em laje dura, termina por causar furo. Um belo dia “Asa Branca” caiu doente e, de última hora, a direção da Rádio soube da ausência inevitável do apresentador. E aí ? Que fazer ? Iriam perder audiência com aquele buraco na programação. Alguém, então, lembrou de “Assum Preto”. Ele não vivia arrodeando e pedindo arrego ? Chegara , por fim a oportunidade ! Esperaram a chegada invariável do cantador, na hora aprazada,  e nada. Por incrível que possa parecer, naquele dia ele se empalhou com alguns bêbados, numa mesa de bar e ficou por lá , temperando a viola, cantando algumas loas e bebericando. Um dos locutores partiu às pressas e o trouxe meio a contragosto. Assum Preto botou uma banquinha, fez-se de difícil, mas por fim acedeu. De peito empinado como galo de rinha, dedilhou as cordas da viola e sapecou os primeiros versos na abertura do “Violas que o Povo quer”. Era quase um desabafo, mesclado com a empáfia de alguém que , por fim, a duras penas, tinha alcançado seu objetivo,  apesar do descrédito de todos:

                                   “ Quero mandar um abraço

                                   Pra minha mulher, a Socorra !

                                   Nega velha que reside

                                   Prá lá do Sítio Gangorra

                                   Bem queu dixe para ela

                                   Quinda canto nessa Porra !"

 

Crato, 26/02/21

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

O Sono dos Justos

 


J. FLÁVIO VIEIRA

 

                E ainda que distribuísse toda a minha fortuna

para sustento dos pobres, e ainda

que entregasse o meu corpo

para ser queimado, e não tivesse amor,

nada disso me aproveitaria.”

 Coríntios 13:3

 

                               A imagem se repetiu incontáveis vezes país afora. A técnica de enfermagem fingiu aplicar a vacina em uma idosa. apenas , sorrateiramente, não comprimiu o êmbolo e guardou a dose, possivelmente, para alguém da sua família. Sequer pesou as consequências da sua ação, quando, deliberadamente, entregava a mãe, a avó, a querida tia de tantos, aos leões da Covid, na imensa arena da pandemia nacional. Sem as câmaras dos smartphones , aquela tragédia,  e tantas outras registradas pontualmente no Brasil,  teriam escapado da publicidade e as consequências fariam apenas parte da estatística do genocídio atribuído ao vírus. E é de se imaginar que muitas e muitas outras similares conseguiram seu intento, sem um flagrante delito, afinal o país e não só a maldade humana têm dimensões continentais.

                        Políticos e agentes públicos, acompanhados de familiares muitas vezes,   furaram a fila da vacinação, quebrando os protocolos de prioridade estabelecidos pelos estados e municípios, num país em que falta não só o imunizante, mas também um Ministério da Saúde. E , neste item específico de tramoias , fomos seguidos por inúmeras outras nações, independentemente do seu grau civilizatório. Passavam -- pasmem vocês -- um ar de bom exemplo , de desprendimento e confiança, no incentivo às campanhas.

                        Em São Paulo, a prefeitura da maior cidade do país colocou espículas de concreto abaixo dos viadutos para impedir que moradores de rua ali se abrigassem. E já tinham reiteradamente expulsado os toxicômanos da chamada Cracolândia, uma tentativa vã e higienizadora de a prefeitura colocar para debaixo do tapete suas chagas sociais. Várias cidades do Sul do Brasil apuseram arpões embaixo de marquises e bancos de praça com o deliberado propósito de impedir o acolhimento dos sem teto e mendigos.

                        Repetiu-se , quase que milimetricamente, nos últimos anos,  o extermínio de sindicalistas , de Sem Terra,  de líderes comunitários e de movimentos populares Brasil a fora. Incêndios misteriosos e nunca explicados tomaram de assalto mucambos e favelas, tantas e tantas vezes com incontáveis e anônimas vítimas. Rápidas manchetes dos noticiários da noite.

                        No início da pandemia,  afloraram movimentos de solidariedade com os mais desfavorecidos, com a distribuição de víveres e produtos de limpeza. Em São Paulo , alguém, nunca identificado, entregou comida envenenada  a moradores de rua, levando à morte de dois esfarrapados, órfãos de pais e de país. Nem era de se estranhar, antes já tinham ateado fogo em vários moradores de rua, numa espécie de Pastoral da Cremação In Vivo.

                        Em Manaus, na segunda onda da Pandemia, embora avisados com antecedência , os governos estadual e federal deixaram faltar oxigênio na cidade, levando a que centenas de pacientes perecessem asfixiados, muitos deles crianças pequeninas internas em UTI´s Neonatais. Hitler, ao menos, teve que gastar com o Zyklon B !

                        Todos os responsáveis por imensuráveis tragédias acreditam que estão perfeitamente cumprindo seu papel. Lutando por um Brasil mais puro, limpo e higiênico. Estão apenas jogando o lixo para dentro da lixeira. Oram contritos  e sabem de cor versículos bíblicos. Abraçam seus filhos à noite e dormem, com os anjinhos celestes, o sono dos justos. Sonham com o país ideal, sem a pobreza e a miséria que estão ajudando a erradicar.  Afinal -- não esqueçam! -- o Brasil é o país mais cristão do mundo !

 

Crato, 19/02/2021