Venho de uma família profundamente católica: meu pai foi Seminarista por onze anos, meu avô
era da Ordem do Santíssimo Sacramento. Meus amigos mais próximos ralham comigo,
por minha fama de incréu. Digo-os , sempre, que sou um ateu inconformado, ou um
ateu à procura. Até gostaria de crer em alguma coisa, pois percebo que é muito
difícil seguir na vida, sem essa âncora. Enfrentar a extinção definitiva após a
dura jornada da vida, pesa muito. Mas
minhas convicções não se fixam apenas nas
amarras da razão. Claro que sufoca-me o total abandono dado por uma possível
força superior a esse mundão de meu deus. Como permitir o Holocausto, a chacina das crianças em Gaza, o bombardeio de
uma Escola no Irã, com resultado de cento e setenta e cinco crianças trucidadas,
câncer em meninos em tenra idade? Como
entender que uma figura onisciente criasse um mundo em que para sobreviver
dependemos, como canibais, da morte de outros seres vivos? Por outro lado,
convivi de perto com muitos religiosos, muitas vezes em períodos crítico de
suas vidas, e nunca percebi tranquilidade
quanto ao futuro, nem certezas nos seus
olhos. O mais das vezes estavam frágeis e desorientados como qualquer um dos
mortais. Mas minhas razões têm mais fundamento na minha sensibilidade, não me
toca a possibilidade de uma transcendência, de um Maestro que reja a grande
orquestra universal. Acredito que tudo acaba exatamente onde tudo começou: no
pó.
Carlos Heitor Cony dizia que não cria em nada, apenas em Nossa Senhora. Pois bem, apesar disso tudo, sou um incréu que não concebe uma força superior, mas crê em São Francisco de Assis. Como isso é possível? -- me dirá você. Explico! Talvez São Francisco, depois de Cristo, tenha sido o último Cristão na verdadeira acepção da palavra. Imaginar que um adolescente de família abastada, no Século XIII, abandonasse toda a vida que se escancarava à sua frente para seguir uma carreira monástica, parece-me uma loucura. Depois, tornar-se um Ecologista na Idade das Trevas; alimentar-se apenas de Frutas e Mel, para não sacrificar outros seres viventes; voltar-se à pobreza absoluta e ao cuidado com os leprosos (a doença mais pavorosa de sua época); ir para frente de uma Cruzada para impedir que os ditos cristãos assassinassem os islamitas: um precursor precoce do Ecumenismo. Isso há mais de oitocentos anos atrás! Como não entender isso como uma iluminação ? Um sacerdote amigo e querido me confidenciava que , por isso mesmo, o Catolicismo não engolia bem a história de Francisco. Utilizava-se dela e do mito, mas, internamente carregava lá suas restrições, por conta da sua independência, da quebra na rígida hierarquia e, principalmente, pelo “dai tudo aos pobres e segui-me”. E ele, à época, me interrogava: Quantos Papas até hoje tivemos com o nome de Francisco? Só depois viria o nosso Jorge Maria Bergoglio, o primeiro a adotar o nome do Santo mais famoso e incensado do Cristianismo.
Por duas vezes fui a
Assis, na Umbria. Emocionou-me visitar a Basílica que ele construiu e que,
duzentos anos depois, Giotto colocou seus afrescos como uma via sacra da sua
passagem entre nós. A igreja destoa, totalmente, de todas as outras que
conheço. No teto tem um seu estrelado, não há imagens de sofrimento, como coroa
de espinhos, Cristo ensanguentado, corações trespassados. A igreja é leve e
linda. Você se sente leve e acalentado quando atravessa suas portas. Em paz
consigo mesmo. Exatamente aquela tranquilidade que se espera nos proporcione
qualquer religião. Não nos invade aquele
sentimento de culpa, como se tivéssemos há pouco chicoteado o Cristo ou lavado
as mãos ante Barrabás.
A
uns quatro quilômetros abaixo do alto onde se encontra a cidade, existe uma
outra Basílica que foi construída para proteger a Capela inicial que Francisco
construiu para suas atividades em 1208, chamada de Porciúncula. A igreja de
Santa Maria dos Anjos é suntuosa, foi
construída no final do Século XVI, trezentos anos após a morte de Francisco. A Capela,
no entanto, é linda e singela. Ali pertinho, no chão, nosso Santo partiu
prematuramente aos 44 anos. Em 1230 seu corpo seria transferido para a Basílica
que leva seu nome na cidade alta.
Na
minha última visita a Assis, neste ano, foi-me impossível visitar a Basílica
novamente. Comemora-se ,nesse 2026, 800 anos da morte de São Francisco. A
Igreja resolveu exumar seus restos
mortais e expô-lo à visitação pública. A Basílica ficou interditada apenas para
a visitação de turistas e devotos entre fevereiro a 22 de março deste ano. A
média de visitantes, segundo relatos no local, é de 1500 pessoas por hora.
Seria necessário adquirir o ingresso com muita antecedência. Ingresso, sim, não
se admirem vocês, a caixinha registradora não para de funcionar, como em
qualquer loja comercial. Segundo
informaram, a vista normal é gratuita mas se você quiser guiada custa em torno
de R$ 40,00.
Pus-me a pensar nas
distorções desses eventos. Lembrei que a lindíssima Igreja de São Francisco em
Salvador tem 700 kg de ouro nas paredes.
Como fazer isso homenageando o mais despojado dos santos católicos ? Aquele que
jogou as roupas fora e passou a usar sacos de estopa ? Para que tanta
ostentação se a filosofia franciscana era profundamente estoica? Agora, me
parece uma atitude mórbida, se exumar os restos mortais do santo e expô-los
publicamente. Por que não deixa-lo em paz ? De que vale os ossos , restos que
caminham para o pó, se sua obra mais importante foi a própria vida ? Essa obra gigantesca e
visionária está perfeitamente viva, quase um milênio depois de construída.
Pegamos a fruta, degustamos as cascas, e
jogamos fora a polpa.
Se queremos homenagear
São Francisco nos seus 844 anos, deixemo-lo quietinho no seu leito. Lutemos contra
aqueles que estão prestes a destruir o planeta por pura ganância; cuidemos dos
pobres, doentes e desamparados; despojemo-nos dos penduricalhos supérfluos
impostos pelo consumo; entendamos que todos os seres vivos desta terra são pecinhas
indispensáveis que perfazem o quebra-cabeças do universo; abramos as fronteiras
para os migrantes e enxotados pela perseguição e pela guerra; entendamos que
todas as religiões são rios que correm
para mesma foz: Deus ou Natureza ou Força Superior, como você preferir. Eu,
infelizmente, tenho mais dúvidas que certezas, mas uma delas é que existia uma dose forte de iluminação nos
caminhos de Francisco.
Crato, 13/03/26


Nenhum comentário:
Postar um comentário