As perguntas saíram de chofre, uma após a outra, com uma urgência
urgentíssima, igualzinho uma chamada feita para o SAMU.
--- Valfrido,
você é meu amigo ?
Mal o rapaz
confirmou, seguiu-se uma outra interrogação, atropelando a primeira:
--- Então, você jura que sustenta , como verdadeiro, tudo que eu disser ? Sustenta ?
Sustenta ?
Valfrido ,
disse que sim, claro, sem nem ter tempo de inquerir sobre a razão daquela série
de súbitas indagações. Sentados na mesa de um bar de periferia, com a turminha
de habitués, como acontecia quase a todo final de tarde, Aragão tinha a cadeira
virada para a rua que se separava do bar por uma ampla vidraça. O vidro acompanhava, em L, todo o ambiente.
Virado para o inquiridor, de costas para o movimento da praça que se
espreguiçava do outro lado da lâmina vítrea, Valfrido notou, tão-somente, um
certo ar de susto, uma palidez momentânea e os olhos meio esbugalhados do
companheiro, como se acabasse de ver o
Babau ou o Jaraguá em alguma encruzilhada. Os quatro outros colegas, que compunham a mesa,
sequer inferiram qualquer ar maior de anormalidade, mesmo porque ali estavam
protegidos do bulício da rua e da corrida desenfreada dos carros e das pessoas
do outro lado da vidraça do “Bar do Entroncamento”. Açodavam-se, de um lado
para outro, buscando ganhar a vida, como diziam, enquanto a iam dissipando,
pouco a pouco, no azáfama da busca.
Na mesa, sentados, estavam Aragão e seus
comparsas, todos já fora de competição: barnabés federais aposentados do antigo INAMPS. Diziam que, como bons
funcionários públicos, não haviam se desgastado muito: uma gota de suor de
qualquer um deles curava câncer e até doenças priônicas. Estavam ali quase todo final de tarde para
rememorar os velhos tempos, com a sensação de que não existia futuro à frente,
apenas um passado que precisava ser exumado frequentemente, para terem a
certeza de que ainda estavam vivos. A única exceção à regra era Valfrido, o
parceiro a quem Aragão se dirigira, misteriosamente, solicitando apoio
incondicional. Ainda na ativa, gerente de um banco privado, ele se juntara à
turma naqueles encontros de fim de expediente, por mera afinidade, como amante também do arremesso de conversa
mole , do levantamento de copo e da degustação
de tira-gostos.
Após a
sequência de inquirições , à queima
roupa, como o disparo de uma arma automática, dois amigos camaradas de Aragão que se encontravam, ao
lado dele , na mesa, também vis-a-vis à
vidraça, perceberam um movimento
exacerbado e anormal na rua, logo
defronte ao bar. Só então, aos poucos, começaram a matar a charada. Duas
mulheres se engalfinhavam dentro de um carro estacionado, trocavam tapas e
unhadas como tigresas. Passados alguns minutos conseguiram identificar as
combatentes e entender o prenúncio do Tsunami.
Aragão
havia estacionado seu indefectível Opala Diplomata 98 , a quem tratava como uma
relíquia, uma espécie de Santo Graal do automobilismo, diante do bar. Deixara
lá dentro, no aguardo, com a paciência toda desse mundo, uma amásia de que todos tinham ciência, há mais de dez
anos: Damares. D. Argemira, a esposa oficial de Aragão, já
tinha ouvido um zum-zum-zum reiterado dos salta-cercas do marido. Abrira
inquérito, fizera perquirições, tentara arrolar testemunhas, mas nunca
conseguiu as provas que o incriminassem, definitivamente. Pensou até em
procurar um arremedo de juiz de Curitiba, expert em condenar pessoas sem provas.
De qualquer maneira, Aragão vivia há muito tempo pisando em ovos, sob eterna
vigilância da perdigueira de casa e das fofoqueiras de plantão.
Pois naquele dia, azar dos azares, o satanás atentou e
fez com que Argemira saísse de casa, em busca de uma farmácia para comprar a
medicação do pai. Resolve passar , com
seu sexto sentido córnico, justo pela
Praça do Entroncamento, dando de cara com o Opala famoso do marido e D. Dadá toda
aboletada lá dentro, esperando o amante. Estacionou, partiu para cima e passou,
sem maiores perguntas, a agredir desesperadamente a pobre da Damares. Foi esta
cena tenebrosa que Aragão observou através da vidraça e que o fez proferir as
perguntas em cascata ao amigo Valfrido , só depois chegando ao conhecimento dos
companheiros de bebedeira que observavam, também, o rebuliço da rua.
O desdobrar da
cena foi previsível até certo ponto. Dadá , cheia de sopapos, correu e escapou
como um bólido pelas ruas mais próximas. Parecia um gato siamês que encontra mastim
napolitano. Terminada a perseguição, Argemira invade o bar, valente como uma
jararaca na TPM. Dirige-se à mesa sacrossanta de Aragão e seus amigos, e, aos
berros, passa-lhe uma descasca, uma catilinária cheia de impropérios e nomes
cabeludos: Safado, sacana, nojento, filho dessa , filho daquela...
Sentados, os
amigos temerosos, pareciam , aflitos, como se estivessem num avião, em meio à turbulência já em posição de pouso
de emergência. Por incrível que possa parecer,
apenas Aragão parecia sereno e tranquilo em meio aos insultos e às invectivas furibundas da patroa. Mantinha
até um certo ar de revolta , como se estivesse sendo injustiçado, sofrendo ,
publicamente, um esculacho totalmente
vil e imerecido. Não havendo o estabelecimento do contraditório, por parte do
acusado, depois de uns quinze minutos, Argemira irada, dissolveu-se num choro
convulso. Aragão cabeça baixa, pronunciou, então, suas primeiras palavras:
--- Estou
decepcionado com você, Argemira ! Nunca imaginei que seria capaz de uma loucura
dessas! Vive-se trinta anos com uma pessoa ! Já vi ! Não se conhece ninguém
nesse mundo !
Argemira,
ante uma defesa tão vagabunda, recobrou a ira, engoliu o choro e partiu pra
cima:
---
Decepcionado ? Decepcionado, seu malaca ? Como você explica tá carregando
aquela quenga no seu carro ?
Aragão,
então, desapontado, explicou o tamanho da tragédia:
--- Sua
louca, eu tinha vendido meu carro hoje pela manhã ao Valfrido. Vim pra cá de
táxi. Aquela mulher que você agrediu violentamente no carro era a esposa dele.
Que vergonha, meu Deus ! Nunca imaginei, na minha vida, passar por uma situação
vexaminosa dessas !
Argemira, não
acreditou naquela versão que lhe pareceu fantasiosa. Mesmo assim, virou-se para
Valfrido e perguntou-lhe se aquilo era verdade. O amigo tinha-se comprometido
com Aragão e, olhos lacrimejantes, não
titubeou:
--- Comprei o
carro, sim, D. Argemira ! Aquela que estava lá dentro era Miosótis, minha
esposa ! Nem sei onde ela estará agora que saiu desesperada correndo e apanhada
!
Argemira,
diante da resposta, empalideceu. Ajoelhou-se nos pés de Valfrido e lhe pediu
perdão. O homem, com cara de desapontamento, respondeu-lhe que por ele, tudo
bem, mas se bem conhecia Miosótis, achava que nunca mais na vida era iria
querer topar com ela. Tinha sido muito humilhante aquela cena.
Aragão tomou
a mulher pelo braço, com cara de raiva, pediu desculpa à turma e saíram do bar em busca de um táxi. Já na
calçada, pediu que esperasse um pouco, pois ia, novamente, se desculpar com o
amigo. Aproximou-se e sorrateiramente colocou a chave do Opala 98 em cima da
mesa e lhe sussurrou:
--- Valfrido,
vende o carro por aí ! Te vira ! Depois a gente se acerta !
Crato, 09/08/19
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