sábado, 14 de março de 2026

Um incréu franciscano

 


Venho  de uma família profundamente católica:  meu pai foi Seminarista por onze anos, meu avô era da Ordem do Santíssimo Sacramento. Meus amigos mais próximos ralham comigo, por minha fama de incréu. Digo-os , sempre, que sou um ateu inconformado, ou um ateu à procura. Até gostaria de crer em alguma coisa, pois percebo que é muito difícil seguir na vida, sem essa âncora. Enfrentar a extinção definitiva após a dura jornada da vida, pesa muito.  Mas minhas  convicções não se fixam apenas nas amarras da razão. Claro que sufoca-me o total abandono dado por uma possível força superior a esse mundão de meu deus. Como permitir o Holocausto, a  chacina das crianças em Gaza, o bombardeio de uma Escola no Irã, com resultado de cento e setenta e cinco crianças trucidadas,  câncer em meninos em tenra idade? Como entender que uma figura onisciente criasse um mundo em que para sobreviver dependemos, como canibais, da morte de outros seres vivos? Por outro lado, convivi de perto com muitos religiosos, muitas vezes em períodos crítico de suas vidas,  e nunca percebi tranquilidade quanto ao futuro,  nem certezas nos seus olhos. O mais das vezes estavam frágeis e desorientados como qualquer um dos mortais. Mas minhas razões têm mais fundamento na minha sensibilidade, não me toca a possibilidade de uma transcendência, de um Maestro que reja a grande orquestra universal. Acredito que tudo acaba exatamente onde tudo começou: no pó.

                        Carlos Heitor Cony dizia que não cria em nada, apenas em Nossa Senhora. Pois bem, apesar disso tudo, sou um incréu que não concebe uma força superior, mas  crê em São Francisco de Assis. Como isso é possível? -- me dirá você. Explico! Talvez São Francisco, depois de Cristo, tenha sido o último Cristão na verdadeira acepção da palavra. Imaginar que um adolescente de família abastada, no Século XIII, abandonasse toda a vida que se escancarava à sua frente para seguir uma carreira monástica, parece-me uma loucura. Depois,  tornar-se um Ecologista na Idade das Trevas; alimentar-se apenas de Frutas e Mel, para não sacrificar outros seres viventes; voltar-se à pobreza absoluta e ao cuidado com os leprosos (a doença  mais  pavorosa de sua época); ir para frente de uma Cruzada para impedir  que os ditos cristãos assassinassem os islamitas:  um precursor precoce do Ecumenismo.  Isso há mais de oitocentos anos atrás! Como não entender isso como uma iluminação ? Um sacerdote amigo e querido me confidenciava que , por isso mesmo, o Catolicismo não engolia bem a história de Francisco. Utilizava-se dela e do mito, mas, internamente carregava lá suas restrições, por conta da sua independência, da quebra  na rígida hierarquia e, principalmente, pelo “dai tudo aos pobres e segui-me”. E ele, à época, me interrogava: Quantos Papas até hoje tivemos com o nome de Francisco? Só depois viria o nosso Jorge Maria Bergoglio, o primeiro a adotar o nome do Santo mais famoso e incensado do Cristianismo.


                        Por duas vezes fui a Assis, na Umbria. Emocionou-me visitar a Basílica que ele construiu e que, duzentos anos depois, Giotto colocou seus afrescos como uma via sacra da sua passagem entre nós. A igreja destoa, totalmente, de todas as outras que conheço. No teto tem um seu estrelado, não há imagens de sofrimento, como coroa de espinhos, Cristo ensanguentado, corações trespassados. A igreja é leve e linda. Você se sente leve e acalentado quando atravessa suas portas. Em paz consigo mesmo. Exatamente aquela tranquilidade que se espera nos proporcione qualquer religião.  Não nos invade aquele sentimento de culpa, como se tivéssemos há pouco chicoteado o Cristo ou lavado as mãos ante Barrabás.

                        A uns quatro quilômetros abaixo do alto onde se encontra a cidade, existe uma outra Basílica que foi construída para proteger a Capela inicial que Francisco construiu para suas atividades em 1208, chamada de Porciúncula. A igreja de Santa Maria dos Anjos  é suntuosa, foi construída no final do Século XVI, trezentos anos após a morte de Francisco. A Capela, no entanto, é linda e singela. Ali pertinho, no chão, nosso Santo partiu prematuramente aos 44 anos. Em 1230 seu corpo seria transferido para a Basílica que leva seu nome na cidade alta.  

                        Na minha última visita a Assis, neste ano, foi-me impossível visitar a Basílica novamente. Comemora-se ,nesse 2026, 800 anos da morte de São Francisco. A Igreja  resolveu exumar seus restos mortais e expô-lo à visitação pública. A Basílica ficou interditada apenas para a visitação de turistas e devotos entre fevereiro a 22 de março deste ano. A média de visitantes, segundo relatos no local, é de 1500 pessoas por hora. Seria necessário adquirir o ingresso com muita antecedência. Ingresso, sim, não se admirem vocês, a caixinha registradora não para de funcionar, como em qualquer loja comercial.  Segundo informaram, a vista normal é gratuita mas se você quiser guiada custa em torno de R$ 40,00.

                        Pus-me a pensar nas distorções desses eventos. Lembrei que a lindíssima Igreja de São Francisco em Salvador tem 700 kg de ouro  nas paredes. Como fazer isso homenageando o mais despojado dos santos católicos ? Aquele que jogou as roupas fora e passou a usar sacos de estopa ? Para que tanta ostentação se a filosofia franciscana era profundamente estoica? Agora, me parece uma atitude mórbida, se exumar os restos mortais do santo e expô-los publicamente. Por que não deixa-lo em paz ? De que vale os ossos , restos que caminham para o pó, se sua obra mais importante  foi a própria vida ? Essa obra gigantesca e visionária está perfeitamente viva, quase um milênio depois de construída. Pegamos a fruta, degustamos as cascas,  e jogamos fora a polpa.  

                        Se queremos homenagear São Francisco nos seus 844 anos, deixemo-lo quietinho no seu leito. Lutemos contra aqueles que estão prestes a destruir o planeta por pura ganância; cuidemos dos pobres, doentes e desamparados; despojemo-nos dos penduricalhos supérfluos impostos pelo consumo; entendamos que todos os seres vivos desta terra são pecinhas indispensáveis que perfazem o quebra-cabeças do universo; abramos as fronteiras para os migrantes e enxotados pela perseguição e pela guerra; entendamos que todas as religiões  são rios que correm para mesma foz: Deus ou Natureza ou Força Superior, como você preferir. Eu, infelizmente, tenho mais dúvidas que certezas, mas uma delas é que  existia uma dose forte de iluminação nos caminhos de Francisco.

 

Crato, 13/03/26