A crônica de Serrinha dos Nicodemos , perpetuada de língua em língua, pelos mais
velhos , cantava a pedra : A padroeira da cidade , desde que se entenderam de
gente era N. S. dos Desamparados. A imagem, exposta na capelinha da vila, fora
trazida , há mais de oitenta anos , por um padre espanhol , Pablo de Montieux,
que ali chegara numa desobriga. A Virgem , desde então, velava pela pequena e árida Serrinha, com sua roupa florida, seu
cetro na mão direita e o menino de Jesus , com cara de sapeca, pendurado no
braço esquerdo, ornado com uma linda roupinha dourada e de lantejoulas que
contradiziam totalmente com sua origem humilde. O sacerdote demorou apenas uma semana na
vilazinha, mas simpático e muito solícito, terminou sendo o responsável pela
epidemia de Pablinhos e Demontieus que começaram a aparecer na região, depois
da sua partida. Não que o velho padre fosse o pai biológico de tantos rebentos,
não tinha mais idade e nem palpite para tanto: os meninos saiam da pia batismal
com esses nomes, como uma homenagem desprendida dos serrenses para com o
condutor da santa querida àquela localidade. N. S.
dos Desamparados amparava a geração de avós e bisavós de Serrinha, as gerações
mais novas , no entanto, adoravam a
mesma santa, mas a conheciam por um nome totalmente diverso, estranho e de
origem etimológica difícil de se determinar : Nossa Senhora de Seforegreli !
As
versões sobre a origem de tão estrambótico nome variavam: alguns remetiam a uma
cidade italiana e a um outro missionário
franciscano que passara na região muitos anos antes de De Montiuex, no início
da colonização daquelas brenhas, em tempos de ciclo do couro. Os serrenses
andaram pesquisando em arquivos de Matozinho, cidade vizinha, livros velhos de batizados, degustados em
parte por traças, não conseguiram desvendar o mistério. Os párocos de Serrinha,
que se foram sucedendo, terminaram , também ,por adotar o nome popular da
Santa. Não adiantaria lutar contra anos e anos de tradição, de maneira que N. S.
dos Desamparados terminou desamparada, ofuscada pela outra de Seforegreli.
Alguns
anos atrás, o pessoal do IBGE, em período de Censo, passou por Serrinha . Junto
com a pesquisa dos dados municipais, andaram escavacando relatos históricas da
formação da Vila. Detiveram-se, em dado momento, com a Santa padroeira e seu
nome estrambótico. Anotaram as mais corriqueiras versões. Alguém, então,
lembrou do mais idoso habitante de Serrinha : o velho Castriciano Solos do Mar.
Ainda lépido e na ponta dos cascos nos seus 103 anos. Casara, inclusive,
recentemente , pela quarta vez e , sem quaisquer aditivos químicos ou ajuda de
universitários, era pai de menino ainda de cueiro. Os técnicos, orientados por
funcionários da prefeitura, resolveram conversar com a testemunha ocular dos
fatos ocorridos naquelas brenhas, nos últimos noventa anos.
Com
dificuldade, em lombo de burro, chegaram no Sítio Bréa, distava umas duas
léguas de beiço de Serrinha , já fronteira com Matozinho. Castriciano os atendeu com
aquela solicitude própria do sertanejo. Já
no primeiro contato explicou o vigor que ainda o acompanhava :
--- Pão de milho,
arroz, feijão de corda e bucho ! Isso é que dá sustança ao homem ! A desgraça
do mundo foi galinha de granja e macarrão ! Antes dessa porcaria, num tinha
baitola no mundo, não !
Conversa vai, conversa vem, o pessoal
do IBGE, então, entrou no varejo do assunto:
--- O
senhor pode explicar de onde vem o nome da padroeira da cidade, N.S. de
Sefrolegreli ?
O velho, com um chapéu
de massa atolado até as orelhas, meio tamborete de sampa, pôs-se nas pontas dos
pés, tragou fortemente o cigarro escora-carroça que pendia do bico e contou uma
história que não fazia parte dos anais oficiais da história de Serrinha.
A
primeira padroeira da cidade , na verdade, seria N. S. dos Desamparados que
chegou nas mãos do querido Pe De Montieux. Acontece que nos anos cinquenta, uma
notícia abalou toda a região. Carmosina, uma menina que morava ali na Bréa, chegou
, no Natal, esbaforida em casa contando uma história que tinha visto Nossa
Senhora que lhe tinha aparecido, por trás de uma moita de mufumbo, na revência
do açude do Calangro. Segundo Carmosina, que mantinha um ar de espanto e sobre
naturalidade, a Santa chorara muito,
disse que estava preocupada com os destinos deste mundo eivado de pecado. N. Senhora
ainda afirmara que tinha revelações
terríveis para contar a Carmosina e
agendou a volta dela por mais duas vezes: no Carnaval e no São João, quando,
enfim, revelaria as tenebrosas
previsões. Sinésio da Bréa, o pai de Carmosina, procurou, imediatamente, o Pe.
Ernestino Vilas Boas, então pároco de Serrinha. Revelou-lhe o acontecido.
Ernestino tentou dissuadir-lhe : aquilo devia ser fantasia de adolescente , que
diabos a Virgem viria fazer num fim de mundo daqueles ?
A
incredulidade de Ernestino, no entanto, não contaminou a população. Quando a
notícia vazou , espalhou-se mais rápido que fogo em painço. Em tempos de seca
de mais de três anos, o povo desesperado viu-se, enfim, diante de uma boia em
meio à enxurrada. Num mês, a população de Serrinha triplicou. Começou a chegar
romeiro de tudo quanto era canto e a se espremer nas terras próximas ao Açude
do Calangro. Barracas cobertas de palha se foram levantando, palhoças para
venda de mantimentos e bebidas. Vendedores de santinhos , de imagens , terços e
rosários rapidamente montaram suas barraquinhas nas redondezas. Até as meninas
da “Boite Chão de Estrelas” de Serrinha, vendo o afluxo crescente de pessoas
naquele lugar, montaram um pequeno anexo ali : a “Barraca Corisco Ariado” . Mais uma vez, o sagrado e o profano ali se
postavam como o anverso e o reverso da mesma medalha.
Pe
Ernestino, de início relutante e incrédulo, vendo o crescimento desenfreado de romeiros,
resolveu, embora discretamente, aderir ao fenômeno. Primeiro percebeu que não
adiantava nadar contra o Tsunami, depois, mais pragmaticamente, sabia que aquela multidão podia render em óbolos
para a paróquia. Todo dia, por volta das nove da manhã, horário da aparição da
santa, Carmosina, toda vestida de
branco, puxava uma corrente de orações
próximo à moita de mufumbo , seguida pela multidão que já ali se espremia. À noite,
então, aquilo tudo virava uma festa, com a cachaça correndo solta, a sanfona
roncando num arraial montado estrategicamente em uma das vielas mais escuras e
o rela-bucho comendo solto até o amanhecer. Frequentemente corria uma mão de
tapa em pé de ouvido e peixeira no vazio, efeitos colaterais frequentes desta
mescla de álcool-música-dança.
No
início de fevereiro, aproximando-se a data da próxima aparição da Santa, as
levas de romeiros quadruplicaram e com elas também as soluções e os problemas.
Carmosina passou a entrar em transe
frequentemente, a aparecer mais tensa e com cara de outro mundo. Uns três dias
antes da data prevista para a aparição , ela chamou o pai e explicou que havia
um problema. N. Senhora aparecera em sonho para ela e tinha dito que havia
cancelado a vinda, pois aquilo ali estava uma verdadeira Sodoma & Gomora,
um antro de pecado e que não viria mais de jeito nenhum. Sinésio, então, agitado com a reação dos
romeiros frente a este novo problema, resolveu procurar o Pe. Ernestino e o pôr
a par da complicação. O sacerdote, comendo pelas beiradas como quem come pirão
quente, não quis meter o beiço no meio da tigela. Disse a Sinésio que a promoção do evento era deles ,
que não tinha nada a ver com isso e quem havia parido Mateus o devia embalar.
Sinésio,
depois, da reza das nove horas, então, pediu a palavra e falou com a turba.
Maquiavelicamente resolveu não dar a notícia ruim de uma vez só: temia um
arranca-rabo. Informou, então, que N. Senhora tinha aparecido em sonho à
Carmosina e avisado que não tinha mais condições de aparecer ali .
---
Ela disse, meus amigos, que isso aqui tá uma verdadeira esculhambação, um
verdadeiro cabaré e que num vem mais é de jeito nenhum ! Até o
Capiroto , envergonhado, se recusaria a se meter num Cu-de-boi desses !
De
qualquer maneira, Sinésio disse que Carmosina ainda ia tentar negociar com
Nossa Senhora, mas que o povo ao menos se comportasse. Quem sabe ela não aceita
aparecer amanhã, conforme tinha combinado ?
No
dia seguinte, uma multidão gigantesca se apinhava, ao redor da sagrada moita de
mufumbo. Às nove horas em ponto, com todos ajoelhados, uma Carmosina aflita
começou a chorar desesperadamente ao redor da moita. Ela pressintia o
quebra-quebra que aconteceria logo mais. Segundo o velho Castriciano que já cinquentão botara uma taperazinha ali pra
vender mendraca com caju, aquele foi o maior rapapé já acontecido por aquelas
bandas.
O
velho Sinésio, trêmulo, aproximou-se de uma Carmosina encharcada de lágrimas e
deu o diagnóstico final :
---
Amigos, é uma pena, mas eu avisei ! Essa putaria aqui ia terminar dando nisso !
Vocês estavam mais desmantelados que
corrida de siriema ! Carmosina pelejou mas Nossa Senhora botou foi a maior
banca. Disse que não vem é de jeito nenhum !
E
, então, antes do novo dilúvio, firmou a sentença final de que não apareceria
mais nem que a vaca botasse os bofes, com uma frase que terminaria batizando definitivamente
a Nossa Senhora de Sifrolegreli de Serrinha . Nossa Senhora teria sapecado :
---
Vocês lá querem Nossa Senhora nada, seus pecadores ! Se eu for, eu grele !
Crato, 28/11/15